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ÚLTIMA SESSÃO EM CABUL

Proprietários de um cinema afegão buscam asilo no Brasil
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Durante os mais de cinquenta anos em que teimou em existir, o cinema Bakhtar foi um santuário da cultura e uma trincheira da resistência à censura e à violência em Cabul, capital do Afeganistão. Chegou a ser o maior cinema da cidade. Depois da volta dos talibãs ao poder, em 2021, o local foi fechado pelo regime fundamentalista. Ameaçados, alguns membros da família que administrava o cinema pediram ajuda à ONG Estou Refugiado, no Brasil.

“Meu nome é Mirman Sima Sarwari, uma mulher afegã tadjique, de Cabul, que fala persa. Escrevo pedindo ajuda urgente”, escreveu à ONG, em inglês, a mulher que ajudou a fundar o cinema Bakhtar nos anos 1970. “Como você deve saber, depois da retirada das tropas internacionais e da tomada do poder pelo Talibã, o Afeganistão tem sofrido várias restrições aos direitos humanos, particularmente contra mulheres. Minha família esteve profundamente envolvida em atividades que o Talibã considera de oposição.”

A mensagem por e-mail chegou para Luciana Capobianco, a diretora executiva da Estou Refugiado – que presta apoio a pessoas oprimidas de vários países, sobretudo do Afeganistão –, no último dia de 2024. Na mensagem, Sarwari contou das ameaças que vinha sofrendo do Talibã. Ela e sua família – dez filhos e quinze netos – resistiram por quase quatro anos, mas a pressão acabou se tornando insuportável.

Sarwari listou as atividades reputadas como transgressoras. A primeira delas dizia respeito ao próprio cinema. As outras eram: apoio a programas de direitos humanos, oferta de serviços advocatícios a perseguidos pelo regime, e esforços para educar meninas e mulheres adolescentes em áreas rurais. Tudo o que o Talibã não tolera. Sarwari solicitava ajuda à Estou Refugiado para conseguir asilo no Brasil. E contou que seu marido, Saleh Mohammad Daudi, com quem ela havia fundado o cinema, tinha sido morto pelo Talibã, em 2011.

No início dos anos 1970, quando Saleh Daudi conseguiu a autorização do governo para abrir uma sala de projeção em Cabul, sua família logo se entusiasmou com o empreendimento cultural. Sarwari foi quem cuidou de organizar as sessões para mulheres, pois a lei muçulmana no país proibia que elas dividissem qualquer ambiente com homens que não fossem de sua família. Aos poucos, os filhos do casal entraram no negócio.

Instalado em um prédio em estilo art déco, com 2 mil assentos forrados de vermelho, o Bakhtar logo atraiu multidões, obrigando a polícia a se postar na entrada para conter espectadores frustrados por não conseguirem ingresso. De início, Saleh Daudi encomendava os filmes na Índia, dado o fascínio dos afegãos pelas películas de Bollywood, como é conhecida a indústria cinematográfica sediada em Bombaim (cidade hoje chamada Mumbai). Com o tempo, passou também a importar filmes de Hollywood.

Uma era turbulenta na história afegã começou em 1973, com a deposição do rei Mohammed Zahir Shah, que desde 1933 comandava uma monarquia constitucional relativamente estável. Zahir Shah perdeu o trono para um primo, Mohammed Daoud Khan, que cinco anos depois seria assassinado pelo regime comunista que então tomou o poder.

Em 1979, eclodiu uma violenta guerra civil. Os mujahidin, combatentes islâmicos armados pelos Estados Unidos e apoiados por alguns países árabes, confrontaram-se com o governo comunista. O conflito colocou o país no centro da Guerra Fria: a União Soviética enviou 80 mil soldados para salvar o regime. Milhares de afegãos morreram naqueles anos, e 5 milhões foram deslocados para o Irã e o Paquistão. Apesar disso, o cinema Bakhtar permaneceu impávido.

A reviravolta em seu destino se deu em 1996, com a chegada ao poder do Talibã, a facção mais sectária dos mujahidin. Naturalmente, o cinema que exibia filmes estrangeiros sofreu a ira obscurantista dos novos governantes. Saleh Daudi, o dono, fez o que pôde para manter o local aberto. Acabou preso por 22 dias em 1996. O Talibã fechou as portas do Bakhtar e queimou filmes em praça pública.

O Talibã foi expulso de Cabul em outubro de 2001, quando tropas americanas invadiram o Afeganistão, em represália ao ataque às Torres Gêmeas, em Nova York (os fundamentalistas afegãos eram aliados da Al Qaeda, grupo terrorista responsável pelo atentado de 11 de setembro). Confiando na promessa de um novo governo laico que daria liberdade às artes, a família proprietária ressuscitou o Bakhtar. Os filmes se tornaram uma válvula de escape para uma população exausta dos anos de guerra e de opressão – e as sessões voltaram a lotar.

Depois da morte de Daudi, o cinema passou a ser comandado pela própria Sar­wari, junto com seu filho caçula, Sulaiman Daudi, e seu neto, Amanullah Daudi.

Em 2021, nova reviravolta: os Estados Unidos, cansados da guerra e de dar dinheiro para uma elite local corrupta, decidiram deixar o Afeganistão, abandonando a população à própria sorte. O Talibã voltou a Cabul para reassumir o poder.

De início, os donos do Bakhtar não se intimidaram, mas então começaram as ameaças e as humilhações.

Em 2022, o Bakhtar foi novamente fechado. Em um último ato de resistência, os filmes passaram a ser exibidos, secretamente, em restaurantes e casas de conhecidos. O Talibã descobriu essas sessões clandestinas e mais uma vez queimou centenas de películas em praça pública. A família conseguiu salvar alguns filmes, que ainda hoje permanecem escondidos em paredes falsas, em casas de amigos.

Luciana Capobianco se comoveu ao ler o pedido de ajuda de Mirman Sarwari. A diretora da ONG Estou Refugiado se lembrou do pai, que durante anos trabalhou nos estúdios da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, em São Paulo. Então tratou de trazer os donos do Bakhtar para a capital paulista. O Brasil vem recebendo refugiados afegãos, mas, para serem oficialmente aceitos, eles precisam ter respaldo de alguma instituição, como a Estou Refugiado, que se candidatou para bancar 224 deles. No dia 28 de maio, Sarwari, seu filho caçula, Sulaiman, hoje com 29 anos, e seu neto Amanullah, com 23, desembarcaram na capital paulista.

Em julho, os três recém-chegados foram contar sua história em um dos espaços da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), a convite de Mauro Munhoz, diretor do evento. Masuma Yavari, jovem refugiada afegã, trabalhou como intérprete na mesa.

No palco, os dois rapazes e Sarwari, com seu rosto expressivo e a cabeça coberta pelo véu islâmico, conversaram com uma pequena audiência. Misturando persa com inglês, Sulaiman contou: “Nossa família foi sempre ligada ao cinema. Eu ia para lá com meu pai desde muito pequeno. Era a nossa alegria e a nossa luta.”

Apesar das dificuldades, Sarwari tem esperança de que o restante de sua família venha para o Brasil. Amanullah quer tentar a carreira de ator assim que se tornar mais fluente em português. Sulaiman pensa em trabalhar com cinema.


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Repórter da piauí, é autora de O Ovo da Serpente – Nova Direita e Bolsonarismo: Seus Bastidores, Personagens e a Chegada ao Poder (Companhia das Letras)