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A JORNADA DO CANOEIRO

Uma onça-pintada nadou 1,27 mil metros em Goiás
Imagem A jornada do canoeiro

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Quando veio a pandemia de Covid, o biólogo brasiliense Gabriel Caputo se refugiou no rancho da sua família em Niquelândia, no Norte de Goiás. O sítio fica à beira do lago formado pela barragem da Usina Hidrelétrica de Serra da Mesa, construída nos anos 1990. Caputo frequentava a região havia quinze anos e sempre ouvia dos moradores locais que não fosse à Serra Negra, pois ali havia muitas onças. A Serra Negra faz parte de uma reserva particular de desenvolvimento sustentável de uma mineradora de alumínio que opera na região. O alerta dos moradores teve efeito contrário. “O biólogo já fica com a curiosidade atiçada”, ele disse à piauí. “Se tem onça, é para lá que a gente vai.”

Caputo, que tinha 26 anos na época, providenciou uma armadilha fotográfica, um dispositivo com câmera acionada por sensores de calor e movimento capaz de registrar a passagem de animais selvagens. Instalou-a numa árvore situada num platô a cerca de 400 metros do nível do lago, com vista privilegiada para uma ilha frondosa. Semanas depois, quando consultou o cartão de memória da câmera, o biólogo observou que uma onça-pintada tinha sido o primeiro animal a acionar o dispositivo.

O felino surge à direita do quadro e caminha de forma desconfiada em direção à câmera. É noite, e o bicho aparece com os olhos brilhando como dois faróis. Ele se aproxima e fareja a armadilha fotográfica. Caputo viu a cena pela primeira vez no próprio platô, quando descarregou o cartão de memória em seu laptop. Na hora, olhou para trás, assustado. O biólogo fechou o computador e foi embora apressado, eletrizado pela visão.

De dia, o platô era frequentado por antas, emas, veados, caititus e outros bichos. A onça voltou ao local, sempre à noite. Num vídeo, ela aparece deitada contemplando a ilha, que não se vê por causa do breu. Trata-se de um macho adulto que Caputo batizou de Canoeiro, em homenagem aos avás-canoeiros, indígenas que circulavam por aquela região e foram quase todos dizimados. “Eles nunca aceitaram ser escravizados e habitavam todos os ambientes que a onça utiliza”, disse o biólogo.

Em 2023, Caputo passou a integrar a Força-Tarefa Onças do Cerrado, uma rede de monitoramento do felino com armadilhas fotográficas operadas por pesquisadores e voluntários. Criada pelo Instituto Onça-Pintada, uma ong sediada em Goiás, a iniciativa conta com cerca de 180 câmeras ativas espalhadas por aquele estado e por Tocantins. Caputo ganhou novas câmeras para instalar na região da Serra da Mesa e colocou uma delas na ilha que fica diante do platô, uma das maiores do lago. “É um lugar que tem muita vegetação nativa e mata densa, propensa para ter todas as espécies.”

E não deu outra: a armadilha flagrou bichos a perder de vista. “Tem anta, caititu, macaco, tamanduá, teiú, tatu, irara, cotia, jacu”, enumerou Caputo. “São todas presas da onça.” E tem também a própria onça, como provou um vídeo em que um felino passa de relance na frente da câmera. O biólogo notou uma mancha que lhe pareceu familiar e decidiu comparar com outros registros: era Canoeiro. Caputo correu para anunciar a novidade aos colegas da força-tarefa. O biólogo Leandro Silveira, criador da iniciativa, logo reagiu: “Isso é inédito.”

Era impossível que a identificação do bicho estivesse errada. “O padrão de pelagem de uma onça jamais se repete”, disse Silveira à piauí. “É como uma impressão digital.” Como a ilha fica a 2,33 mil metros do continente, Canoeiro só pode ter chegado lá nadando. Mas o biólogo não conhecia na literatura científica nenhum registro de uma onça-­pintada que tivesse percorrido uma distância tão grande a nado. Ele anunciou o feito aos colegas na forma de um artigo assinado com seis colaboradores que foi submetido a uma revista científica e publicado em setembro no bioRxiv, uma plataforma que reúne estudos ainda não avaliados por outros cientistas.

Uma imagem aérea da região mostra que Canoeiro pode ter nadado mais de 2 km numa travessia direta, mas pode também ter feito escala numa ilhota. Nesse caso, teria feito um trajeto de 1,06 mil metros e outro de 1,27 mil metros. Como não se sabe qual foi a opção do felino, os biólogos adotaram uma postura conservadora e declararam a marca de 1,27 mil metros como a mais longa distância percorrida a nado por uma onça e documentada por humanos.

Que as onças nadam não é surpresa. É sabido que elas se alimentam de animais aquáticos ou semiaquáticos, como peixes, botos ou jacarés. “A onça-pintada é a rainha das águas, é o grande felino mais adaptado a esse meio”, disse o biólogo Gustavo Figueirôa, um especialista em manejo e conservação de fauna que não teve envolvimento com o artigo. Estudioso das onças do Pantanal, Figueirôa se acostumou a vê-las nadando nas margens dos rios em busca de alimento. “É um bicho que tem uma facilidade muito grande de predar na água.”

Apesar disso, não há muitos relatos na literatura científica de grandes felinos nadando. Um estudo publicado no ano passado relatou que dois leões, batizados de Jacob e Tibu, foram filmados por um drone enquanto atravessavam um canal que conecta dois lagos no Oeste de Uganda, percorrendo uma distância de mais de 1 km. Estavam provavelmente atrás de fêmeas, que andavam escassas em seu território.

Já no caso das onças, Silveira e seus colegas alegam que o recorde antes de Canoeiro era de cerca de 200 metros. Ele vem de um estudo publicado em 1932, a partir de um relato feito por Alexander von Humboldt, naturalista alemão que viajou pela América Latina nos séculos XVIII e XIX e contou ter visto onças nadando na área onde o Rio Arauca deságua no Orinoco, na Venezuela. Os autores não levaram em conta, porém, um livro de 1974 de Tony de Almeida, caçador e guia de safáris. Almeida contou ter visto uma onça atravessar o Orinoco na cheia, quando a largura do rio era de 8 a 10 km. Questionado sobre o relato, Silveira alegou que não tem validade científica.

Mais do que a distância percorrida por Canoeiro, o que surpreendeu os biólogos foi constatar que as onças podem transitar por entre as ilhas do lago artificial. Até então, eles achavam que aquele tipo de ambiente atuava como uma barreira para a dispersão dos felinos. “Esse animal mostra que talvez não seja uma barreira do nível que a gente imaginava”, disse Leandro Silveira.

Para ele, esse achado deve ser levado em conta no planejamento de ações de conservação das onças num cenário de fragmentação dos hábitats em que elas vivem, causada por interferência humana. E a conservação desses felinos é particularmente desafiadora, por se tratar de um animal que gera tanto fascínio quanto medo. “A onça desperta em nós a memória evolutiva de que não somos o topo da cadeia alimentar”, afirmou Silveira.

Canoeiro não está mais na ilha: foi filmado em março no platô, em seu registro mais recente. Gabriel Caputo suspeita que o animal frequente a ilha nos períodos de seca, porque ali o acesso à comida é mais fácil. Isso ajudaria a explicar por que a onça não aparece nos vídeos feitos no platô durante os meses de seca. Para provar a hipótese, porém, é preciso fazer novas observações. No que depender do biólogo, a interação com a onça continuará apenas por vídeo. “Quero vê-la só de longe.”


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Repórter da piauí, é apresentador do podcast A Terra é Redonda (Mesmo) e autor dos livros Admirável novo mundo: uma história da ocupação humana nas Américas (Companhia das Letras) e Domingo É Dia de Ciência (Azougue Editorial)