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ficção

PERFIL DE SANTA CLARA

Ela pronunciou baixinho a oração de todos os dias

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–Apure, seu Espiguinha! Calças e camisas de homem no meio das roupas dela. Como é que pode, se mora sozinha? A abusada empata o tanque, os varais e gasta a água que já é pouca, lavando roupa de freguesia. Ganha dinheiro à nossa custa. Não está direito! Não está direito!

Diante de queixa tão eloquente, Espiguinha não teve alternativa, senão admoestar a acusada, o que lhe causou evidente desconforto. Procurou fazê-lo em público, para que a denunciante se sentisse vingada. Bateu palmas junto à porta do barracão. Quando Dindier veio atender, ele falou baixo e não aplicou energia alguma nas palavras.

– Eu soube que a senhorita anda lavando a ganho nos tanques. Não quero ter que embutir uma multa à sua mensalidade, mas, sabe como é… os outros inquilinos reclamam e tenho que tomar providências.

Sem demonstrar surpresa, entre uma espreguiçada e um bocejo, Dindier respondeu em seu tom sereno habitual:

– Bom dia, seu Espiguinha! Me explique melhor, quem é que reclama? Dona Inglesa, que tem oito filhos e passa mais tempo no tanque do que qualquer outro morador, gasta mais água do que todos nós juntos e não deixa espaço nas cordas pra ninguém?

Temendo dizer qualquer coisa que fermentasse a massa de argumentos sovada por Dindier, Espiguinha mastigou as palavras antes de cuspi-las. Dona Inglesa, sempre à espreita, invadiu a discussão. Outras mulheres se achegaram dando palpites até que o senhorio, como de costume, se tornou o alvo principal das acusações. Doralice trouxe a pauta principal:

– E o novo banheiro que o senhor ficou de mandar construir? Não tem cabimento que só exista uma cabine para atender a todos. Meu marido dorme no emprego por receio de se atrasar pela manhã, tendo que esperar tanta gente fazer a toalete.

Os olhos do Espiguinha amiudaram e o protesto ganhou volume:

– Principalmente a gente de dona Inglesa! Se demoram ali feito noivas, queimam fusíveis e resistências. Ando esquentando água no canecão para banhos de bacia. Assim, se vai um botijão de gás em quinze dias…

Dona Inglesa rebateu:

– Essa aí que enche a boca pra dizer “meu marido” não passa de uma palerma. O sem-vergonha tem um caso em cada esquina. Usa essa desculpa para ter as noites livres. E a idiota acredita.

Explodiram xingamentos e desabafos.

– E a cobertura que o senhor prometeu para o ano passado? Desde que o telheirinho despencou por falta de manutenção, não temos onde estender nossas roupas quando chove!

Por sua vontade, ele espantaria o mulherio como se faz com um bando de pombos inconvenientes.

– Pois! Não se apoquentem, madames. Já está tudo tratado, acreditem! Na semana que vem…

O manjado refrão as atingiu em cheio. Doralice o arremedou:

– Na semana que vem, na semana que vem… Parece até relógio de repetição!

Espiguinha sentiu a ardência subir do nariz aos olhos. Girou os pés calçados em botinas em direção ao seu pátio. Quando os locatários reivindicavam melhorias, ele se esquivava com a urgência de uma tempestade.

– Me desculpem, mas tenho um compromisso e estou atrasado. Na semana que vem…

A pequena revolução serviu para despertar o dia, que começara sonolento. Todos dispersaram. As portas das tocas se mantinham escancaradas. Sons e aromas escapavam e se tornavam públicos. Um rádio foi ligado e reproduziu um samba triste. Dona Inglesa ralhou com o garoto mais velho que, distraído com a discussão, não escorrera a água da panela onde boiavam pedaços de mandioca cozida, como ela ordenara antes de sair para a contenda.

– Apure, desligado! O quilo todo está perdido! Deus permita que ainda preste para caldo e olhe lá! É preciso tirar os bocados assim que o fogo se apaga ou ficam pubas! Eu já ensinei! Já ensinei!

Tudo era muito importante. A choradeira do bebê de Catarina, com os dentinhos apontando. O perfume do café forte coado por seu Ênio pipoqueiro. O toque do martelo de dona Ingrácia, que torturava o único bife na tábua. Além de fazer render, a surra tinha a missão de amaciar a carne, quase sempre, de segunda. Dindier rumou para o quintal dos fundos onde as frutíferas, as mais antigas moradoras do cortiço, pareciam solicitar detalhes sobre a desavença dominical, corriqueira, mas do interesse de todos. Se pudessem, a teriam acompanhado. Se falassem, a teriam defendido. Mas, como nada disso era possível, ofereceram sombra e silêncio. Quase lhe sorria o mangueirão de corações-de-boi, de cujos frutos toda a gente se fartava, quando verdes com pitadas de sal, ou maduros, como saíam do pé. O abacateiro parecia envergonhado pela escassez de frutos. Ao contrário da pitangueira, que apresentava orgulhosa a safra de suculentas escuras e muito doces e da laranjeira-anã, carregada de dar gosto. Dindier os conhecia desde que era uma criança. Nascera no cortiço, amparada pelas mãos de siá Balbina Parteira, que morava na maloca concorrente da rua de cima, demolida pelo progresso para proporcionar alívio à avenida. O pai de Dindier empregara sabedoria ancestral naquele chão, que não lhe pertencia formalmente. Investira muito tempo adubando e podando as árvores, rezando para que frutificassem. Benzia as plantas. As bendizia. E elas pareciam retribuir.

Vitorino. Com a companheira Léia, viajou desgostoso do interior para a capital. Não deixaria a pequena cidade onde nascera se nela tivesse o direito de tomar um quadrado de chão onde pudesse existir. Mas todo o chão tinha dono. Toda a terra tinha cerca. O sítio onde servia fora vendido. O antigo patrão permitia aos empregados o cultivo de hortas para consumo e a ocupação de choupanas. O novo dono estabeleceu suas regras. Tudo o que era produzido na propriedade deveria ser levado ao celeiro e comercializado no armazém interno. Também instituiu uma cobrança de pagamento mensal pela estadia. Os valores seriam descontados dos salários. A novidade o magoou e então preferiu se retirar. No povoado, passou a prestar serviços na construção civil. Mas era custoso se manter, contando com trabalhos eventuais.

Numa ocasião, um citadino que visitava o arraial notou as reformas empreendidas no prédio onde funcionava o cartório de registros. Encantado com o arremate, solicitou que o tabelião o apresentasse ao encarregado responsável. Tratava-se de Pedro Vitorino. O forasteiro, Antônio Espigão, fez uma proposta. Se encontrava em delicada situação financeira, mas herdara um largo terreno que arquitetava transformar em uma vila de cubículos. Vitorino pareceu-lhe a pessoa ideal para encabeçar o desenvolvimento do projeto. Espigão acumulara material suficiente para o arranque, mas não dispunha de recursos para investir em mão de obra. Oferecia como salário moradia livre de cobranças enquanto durasse a missão. Os valores que se referissem ao acerto pelo labor seriam registrados em uma caderneta. Quando a importância estabelecida fosse alcançada, uma pequena extensão da propriedade seria desmembrada e transferida de papel passado ao empreiteiro, como pagamento pelos serviços prestados. Vitorino acalentou a esperança adocicada, que camuflava o amargor da injustiça. A possibilidade de adquirir um pedaço de mundo de acordo com as leis estabelecidas o impulsionou.

Espontaneamente designado Mestre, ocupou com Léia um barracão fincado num espaço fértil, rodeado por bananeiras, onde também cresciam o pé de manga e o abacateiro nos confins do terreno. As outras árvores chegaram com o tempo. Assim como Dindier. Única filha gerada durante o longo casamento.

Léia produzia parte da renda com a lavagem a ganho. Mestre dividia seu tempo trabalhando na concepção do complexo e em outros empenhos. Mas as tarefas eram sempre classificadas de biscates, apesar da exigência de que fossem realizadas com rigor profissional. Ele aceitava os pagamentos mesquinhos, acreditando não merecer mais do que um ajutório em troca dos serviços. Não conhecia as letras, alegavam os exploradores. Se não tinha estudo ou qualificação, não podia exigir. Era o que diziam os que procuravam desfrutar de sua capacidade e competência, sem desembolsar justa remuneração. Restava se despedaçar em troca de migalhas. E ainda agradecer por isso. Sem nenhum direito ou amparo.

Manteve-se à entrada da vila a residência do pretenso senhorio, num saguão avarandado. Dispunha de banheiro exclusivo, despensa, área para serviços e jardim. Espigão se instalou com a família, composta pela esposa e um casal de filhos, uma mocinha pela qual tinha adoração e o rapaz que de tão parecido com o pai fora apelidado Espiguinha. O pátio contíguo, o das tocas, foi equipado com tanques e um sanitário coletivo. Logo abrolharam corredores adornados com canos e emaranhados de fio. Surgiram caixas d’água, centrais de fusíveis. E novos e numerosos habitantes.

Mestre persistiu pelos anos realizando as adequações idealizadas por Espigão, que declarava ainda não ter sido atingida a soma que resultaria na coroação do acordo firmado. Seu corpo encolhia, afetado pelo peso excessivo que transportava. As mãos entortavam. Mas Espigão abandonou a vida, num repente, desgostoso com a perda precoce da filha, vitimada por uma doença incurável. Quando isso aconteceu, já era viúvo, assim como Mestre. Espiguinha, assumiu a administração do cortiço. Dindier seguiu o ofício da lavagem e cuidou do pai até que ele também se despediu, amargurado por nunca ter obtido notícias sobre a tal caderneta. Concluiu que ela, na verdade, nunca havia existido. Envergonhado por compreender que fora enganado, jamais comentou com alguém sobre o acordo.

Dindier se sentou no banco fincado por seu Carolino, um que angariava caraminguás em troca de vigiar a rouparia nas cordas, evitando furtos e confusões. Seu Carol se apresentava na primeira hora da manhã, fiscalizando quem estendia o que e onde. Não havia maneira de uma peça ser retirada por alguém que não a tivesse estendido, nem de um gatuno surrupiar um par de meias enquanto ele estivesse no observatório. Só abandonava o posto pelas seis da noite, quando tudo já havia sido recolhido. Recebia o cascalho em esquema de coleta às sextas-feiras e se mandava para a quadra da escola de samba, retornando somente na segunda, pleno de boemia.

Os varais estavam livres. Ninguém lavava aos domingos. Ela refletiu sobre a enorme carga de tarefas que logo lhe sobreviria. Em meados da primavera, as senhoras de mansões e sobrados vasculhavam os baús, selecionando itens para integrar os enxovais de verão. Colchas tecidas com pontos largos, fronhas e lençóis em cores claras, forros de algodãozinho, xales leves… Peças que se ausentavam do uso quando os pesados cobertores eram escalados para o serviço nos meses frios. Para se reintegrarem, precisavam passar por um minucioso processo de higienização, que as livrasse do cheiro incômodo de guardado, dos berços de inseto arraigados nos vãos das tramas, e das manchas contraídas durante a clausura. As estações apresentavam comportamento constante, de modo que era possível fazer planos e arrumações. Nos outubros, as manhãs nasciam quase sempre quentes. Ela pronunciou baixinho a oração de todos os dias:

– Santa Clara, traga Sol, pra secar o meu lençol!

As mulheres da vila costumavam depositar ovos sobre os muros, propondo acordos à Santa Clara em troca de bom tempo. Mas as oferendas desapareciam com frequência, o que suscitava brigas e acusações. Dona Inglesa jurava que escorraçaria o ladrão quando o flagrasse e levantava suspeitas que nunca incluíam os seus próprios filhos. Cobrava informações de seu Carol, que retrucava: ou bem vigiava as peças ou bem observava os ovos.

Espiguinha retornou, se esgueirando por uma passagem pouco utilizada. Procurava evitar novos confrontos. Se achegou simulando admirar as mangas, que pendiam como pingentes. Pigarreou e esfregou as botas no gramado. Se dirigiu à Dindier. Admirava-se por ela ainda não ter arranjado companhia, bonita como era, beirando os 30 anos.

– Eu não queria te aborrecer, Din. É que, a dona Inglesa… Você sabe…

Ela o encarou com uma ternura filial e procurou retirá-lo da situação embaraçosa.

– Não se preocupe. Há quanto tempo as mesmas cenas se repetem? Mas cá pra nós: a vila está mesmo caindo aos pedaços. O velho Espigão, de onde estiver, não deve aprovar o seu governo.

– Mas eu disse a verdade. Na semana que vem…

– Hum. As obras para a melhoria vão começar? Tá bom…

– É que… seu pai faz muita falta por aqui.

– Eu sei. E como sei. Todos eles fazem.

Dindier procurou encerrar a conversa.

– Olha, no final da quinzena, já terei o valor para o pagamento do aluguel. Passe no barracão para receber.

– Pela minha vontade, eu não cobraria nada de você. Mas meu filho checa os recibos. Eu não poderia explicar a lacuna.

– Sou muito agradecida pelo senhor permitir que eu continue morando no cômodo depois da morte de meus pais, sem formalizar nenhum contrato.

– Imagine. Enquanto eu estiver no comando, você pode ficar sossegada. Sempre haverá uma maneira de contornar as dificuldades.

A manhã passava depressa e Dindier se despediu. Em seu pátio, o domingo acontecia. A menina Quitéria o enfeitava, exposta ao Sol com a manta xadrez sobre as pernas, compenetrada na leitura de um romance, espantando eternamente as sequelas de um resfriado mal curado. Bilu, o neto de dona Mirtes doceira, preparava uma pipa para ganhar as alturas.

Espiguinha acendeu um cigarro, retirou uma caderneta do bolso da camisa e a folheou, relembrando as recomendações feitas por seu pai, pouco antes de morrer. Analisou novamente o céu sem nuvens pensando que Santa Clara também não era dada a acordos. Com ou sem ovos o céu se tornava azul ou nublava. Como tinha que ser.


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É escritora e auxiliar de enfermagem. Publicou, entre outros livros, O céu para os bastardos (Todavia).