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O CLIQUE DA BALEIA

Cientistas flagraram um cetáceo elusivo na Foz do Amazonas
Imagem O clique da baleia

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Em dezembro de 2022, o biólogo marinho Raphael Machado coletou dados preciosos durante uma expedição oceanográfica realizada no Atlântico, nas imediações da Foz do Rio Amazonas. A bordo do Urano, um rebocador adaptado para conduzir pesquisas, o cientista captou registros sonoros e visuais de baleias-­bicudas, que estão entre as espécies mais enigmáticas do seu grupo, e cuja presença naquela região do oceano era muito pouco conhecida até então.

Os sons desses mamíferos marinhos foram gravados com um hidrofone – um microfone submarino que os pesquisadores baixaram a profundidades de até 150 metros. Machado só ficou sabendo que o Urano havia navegado em meio às baleias-bicudas já em terra, semanas depois da excursão, quando examinou as gravações num laboratório em Juiz de Fora, em Minas Gerais. Empolgado, ouviu então as vocalizações típicas da espécie. “A gente fica muito feliz quando consegue registrar esses animais”, disse ele à piauí.

O grupo das baleias-bicudas compreende mais de vinte espécies que se distinguem das demais baleias por uma série de características, a começar pelo bico – ou rostro, como preferem os cientistas – que lhes dá a aparência de um golfinho avantajado. Outro traço marcante é a nadadeira dorsal, que é miúda e fica posicionada na parte final das costas.

Enquanto as jubartes encantam turistas com verdadeiras exibições de salto em áreas costeiras, as baleias bicudas são difíceis de observar. Gostam de nadar em grandes profundidades e raramente vêm à superfície para respirar. “Os mergulhos delas podem durar quase três horas e alcançar 3 mil metros de profundidade”, disse o biólogo. Até onde se sabe, nenhuma outra baleia chega tão fundo. “Além disso, elas são muito discretas, evitam saltar e possuem um comportamento na superfície muito tímido.” Por causa da sua raridade e discrição, muito do que os cientistas sabem sobre as baleias-bicudas vem do estudo de animais mortos que acabam encalhando nas praias.

Como não conseguem avistá-las, resta aos pesquisadores estudar os sons que elas emitem. As vocalizações têm características únicas para cada espécie e ajudam os estudiosos a mapear sua distribuição pelos mares. Dentre os sons que as baleias-bicudas produzem estão os chamados cliques de ecolocalização, que lembram o barulho de um metal batendo no outro, conforme a descrição de Machado: “É um som muito específico e único no ambiente marinho.”

Em profundidades onde não chega a luz solar, as baleias-bicudas localizam-se por esses sons – e com eles encontram os peixes, lulas e crustáceos de que se alimentam. É uma estratégia parecida com a dos morcegos, que usam sons de alta frequência para se orientar. “As baleias-de-bico formam uma imagem acústica das suas presas e do ambiente em que elas se encontram”, explicou o biólogo.

Raphael Machado soube desde os 7 anos que queria ser biólogo marinho. A vocação foi despertada pelo padrasto de um colega seu, que exercia a mesma profissão – e falava dela com muito entusiasmo. “É isso que quero fazer da minha vida”, pensou o menino. Havia um pequeno obstáculo: natural de Valença, no Rio de Janeiro, Machado cresceu em Juiz de Fora, a cerca de 130 km em linha reta da praia mais próxima. Resignado, decidiu que cursaria biologia na sua cidade e que na pós-graduação tentaria se especializar no estudo do ambiente marinho em alguma cidade litorânea.

Logo no começo do curso na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), ele conheceu Artur Andriolo, um paulistano de 59 anos que se especializou no estudo de cetáceos. O professor abriu muitos horizontes para o jovem pesquisador. “Descobri que era possível fazer pesquisa com baleias e golfinhos aqui em Minas”, disse Machado. O estudante colou em Andriolo, com quem fez iniciação científica e mestrado, e acabou contratado pelo Instituto Aqualie, uma organização de pesquisa e conservação sem fins lucrativos da qual seu orientador é cofundador.

Aos 28 anos, Machado está entrando no segundo ano do doutorado e vai concluir sua formação acadêmica sem precisar sair das bordas da Serra da Mantiqueira. “É um grande mito que, para estudar o ambiente marinho, o cientista deva morar próximo ao mar”, disse Andriolo. “Hoje, nossos estudos são realizados em diferentes locais da costa brasileira, no continente antártico e em outros países.”

Foi representando o Instituto Aqualie que Machado participou dos cruzeiros oceanográficos na Foz do Amazonas. O objetivo das expedições – foram oito no total, realizadas em 2022 e 2023 – era caracterizar a biodiversidade daquela região. A bordo do Urano havia também pesquisadores dedicados a investigar aves marinhas, tartarugas e outros grupos de animais.

Bancado pela Petrobras, o estudo é parte do programa de monitoramento ambiental da Bacia da Foz do Amazonas, uma das condições que o Ibama impôs à empresa para emitir a licença para a perfuração de um poço experimental de petróleo naquela região (a licença foi concedida em outubro de 2025). A Petrobras confiou a tarefa a uma empresa que subcontratou o Aqualie para a coleta e análise dos dados bioacústicos e para aferir parâmetros como temperatura e acidez da água, teor de oxigênio e velocidade das correntes.

Os resultados saíram melhores que a encomenda: os pesquisadores fizeram doze identificações de baleias-bicudas. Oito registros foram acústicos; outros três, observações diretas realizadas pela equipe que, instalada no convés, fazia o monitoramento visual. Houve ainda uma identificação que combinou o registro visual e acústico, conforme os pesquisadores relataram num artigo publicado no ano passado no Journal of the Acoustical Society of America.

O estudo trouxe os primeiros registros acústicos de baleias bicudas do Brasil e de todo o Atlântico Sul Ocidental. Foram identificadas pelo menos três espécies do grupo em uma região sobre a qual se sabia “praticamente nada”, de acordo com Artur Andriolo. “Até há pouco tempo, acreditava-se que a diversidade de cetáceos na região era pequena, mas demonstramos que várias espécies de golfinhos e baleias ocorrem regularmente naquela área”, afirmou o professor da UFJF.

Resta verificar qual é a vulnerabilidade dessa fauna, ainda tão pouco conhecida pela ciência, a um eventual vazamento de petróleo na região – um dos grandes pesadelos dos ambientalistas que se opõem à exploração de combustíveis fósseis naquelas águas. “Ainda não temos como saber se um vazamento poderia prejudicar as espécies na região, pois depende de vários fatores, inclusive a quantidade de óleo vazada, a localização do vazamento e a capacidade da empresa de contê-lo”, afirmou Andriolo. “Precisamos coletar mais dados para conhecer melhor a distribuição dessas espécies e como um acidente poderia impactá-­las”, reiterou Machado.


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Repórter da piauí, é apresentador do podcast A Terra é Redonda (Mesmo) e autor dos livros Admirável novo mundo: uma história da ocupação humana nas Américas (Companhia das Letras) e Domingo É Dia de Ciência (Azougue Editorial)