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A LOBA E A LUA

Heloísa Helena retorna ao Congresso por seis meses
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Depois de dezoito anos longe do Congresso, Heloísa Helena (Rede-RJ) subiu à tribuna da Câmara dos Deputados para sua posse, no dia 16 de dezembro passado. Vestia calça jeans e uma bata branca, seu figurino despojado de sempre, que destoa dos ternos e tailleurs usados pelos parlamentares. O cabelo longo estava amarrado no mesmo rabo de cavalo. No rosto, os mesmos óculos sem aro. Nas mãos, o mesmo dedo em riste antes de iniciar um discurso. Da Heloísa Helena que incendiava o plenário no início dos anos 2000, a única mudança visível agora, aos seus 63 anos, é o volume de fios brancos no penteado.

A nova deputada não levou parentes nem amigos para assistir à posse. No primeiro dia de mandato, tumultuado como costuma ser, ela se dividiu entre tarefas burocráticas – cadastrar senha para votações, organizar o gabinete, reunir a equipe recém-­formada – e uma sessão que atravessou a madrugada. “Estava lá no plenário o consórcio da sacanagem”, disse Heloísa à piauí. “Um acordo do governo com a direita carcomida.”

Os parlamentares negociavam a aprovação de um projeto que alterava regras de tributação e benefícios fiscais. Um dos artigos, no entanto, obrigava o governo a pagar o restante das emendas de relator barradas pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Na prática, o projeto ressuscitava o orçamento secreto. Heloísa reagiu com fúria. Passou aquela noite e o dia seguinte ajudando a redigir um mandado de segurança ao STF, ao lado de parlamentares da Rede e do Psol. Na semana seguinte, o ministro Flávio Dino suspendeu os efeitos do tal artigo.

No terceiro dia de mandato, Heloísa já estava recolhendo assinaturas para a instalação da CPI do Banco Master, na companhia da deputada Fernanda Melchionna (Psol-RS). Passou horas enviando aos colegas os links de acesso para assinaturas virtuais. “Todo dia a gente fica lá mandando quinhentos e-mails. Agora não precisa mais da caneta, como era no meu tempo, né?”

A  alagoana voltou à Câmara para um mandato de seis meses pelo Rio de Janeiro – seu domicílio eleitoral desde 2022 –, como suplente do deputado Glauber Braga, afastado por agredir um militante do MBL. Em 10 minutos de discurso, Heloísa Helena prestou solidariedade ao colega, lembrou as humilhações que ela própria sofreu naquele plenário e acusou o governo Lula de traição de classe. Criticou o entreguismo com relação às terras raras, o enfraquecimento dos direitos trabalhistas, as privatizações e os “podres conluios palacianos entre setores da esquerda e a oligarquia alagoana”.

“Quem alimentou o Arthur Lira em Alagoas?”, me pergunta Heloísa, e ela mesma responde: “O Lula, que foi lá para elegê-lo como deputado e encher a pança dele e do pai dele.” Em 2010, quando Heloísa tentou retornar ao Senado, Lula apoiou Biu de Lira (então no PP), pai do deputado, que se elegeu junto com Renan Calheiros (MDB). “Aí, depois, [Lula] fica dizendo: ‘Ó, que Congresso horrível.’ Pois é, mas as pústulas desse Congresso horroroso foram alimentadas por todos os governos, de esquerda e direita.”

O rompimento de Heloísa com o PT, ao qual pertencia, ocorreu em 2003. Ela e outros três parlamentares votaram contra a reforma da Previdência, confrontando a orientação do partido. Acabaram expulsos. A então senadora por Alagoas virou persona non grata entre os petistas, que a chamavam de “cachorra louca” na época. “São as escolhas que eu fiz, não tenho nenhuma reclamação quanto a isso, não tem vitimismo”, diz ela. “Só falo por constatação histórica.”

Com os dissidentes, Heloísa fundou o Psol em 2004. Dois anos depois, disputou as eleições para presidente da República pela Frente de Esquerda, formada pelo Psol, o PSTU e o PCB. Ficou em terceiro lugar. Em 2015, saiu do Psol, em razão de divergências internas, e filiou-se à Rede Sustentabilidade, onde mergulhou em novas disputas, desta vez pelo comando partidário. O racha ficou evidente no ano passado, durante a eleição para a direção nacional da Rede.

Para a ala que apoia Marina Silva, Heloísa Helena é radical demais na defesa do meio ambiente. Em vez do diálogo com integrantes do sistema político e econômico, Heloísa propõe a ruptura do modelo capitalista como condição para a justiça ambiental e a social. A diferença de visões respinga na atuação da Rede em Brasília. Novamente foi chamada de “cachorra louca” pelos detratores, mas não se fez de rogada: “Eu olhava para a lua e uivava.”

No fim, Heloísa venceu a disputa com 76% dos votos. “Gosto de fazer o debate com quem pensa de forma diferente. Eu só não tenho paciência para lamber o rastro por onde passa o poder”, dispara.

Quando alguém sugere que ela está mais madura, Heloísa Helena responde que está mais dura. Os sucessivos confrontos nos partidos de esquerda só fortaleceram suas convicções ideológicas. Ela se apresenta como socialista democrática – ou simplesmente trotskista. “Está fora de moda dizer isso, mas o sistema capitalista joga milhões de pessoas na extrema vulnerabilidade, e os governos colaboram para que essas pessoas fiquem à margem”, diz, levantando as mangas da blusa branca e subindo o dedo em riste. “Se a esquerda não aceita fazer o debate sobre o coração do sistema, já assinou a rendição da covardia.”

Ela não fará parte da base do governo. Chamou de “migalha” a isenção do imposto de renda para quem ganha até cinco salários mínimos. “A prova é que todos os setores [econômicos e políticos] concordaram”, diz. Ressalta o declínio do poder de compra da população, com dados que relacionam o preço da cesta básica ao salário mínimo vigente. (Dessa perspectiva, o poder de compra teve um leve aumento desde 2023, mas ainda está abaixo do que foi entre 2013 e 2019.)

Para Heloísa, enquanto patrocinarem o modelo econômico vigente, os setores da esquerda não têm condições de disputar corações e mentes. Ela diz que o caso do Banco Master é exemplar, já que parlamentares do campo progressista negaram apoio à instalação da CPI. “Não querem investigar banqueiro e a promiscuidade política porque se apertar sai pus”, dispara.

A deputada garante que tem as assinaturas necessárias no Senado para abrir a CPI, mas não quis citar o nome dos apoiadores para evitar que sejam alvo de pressão e acabem retirando o apoio. Na Câmara, encontrou uma situação mais difícil, mas nada muito diferente do que experimentou nos anos 2000.

Pergunto se acredita que a CPI tem chances reais de prosperar, dada a pressão que ela própria testemunhou. Heloísa Helena gargalha, jogando o corpo para trás. “Se eu não movesse meus passos pelo que desafia a lógica formal, eu não andaria no maldito mundo da política”, diz, sorrindo. “E, quando acabar esse mandato-relâmpago, eu espero que quem me odeia passe a me odiar ainda mais.”


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