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“IRANIANOS SÃO RESPEITADOS”

Um curador de arte conta como o emirado enfrenta a guerra
Imagem “Iranianos são respeitados”

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DUBAI

A casa está em silêncio. No sofá, vestindo um moletom preto, o curador de arte Jad Karam, de 27 anos, conta que, naqueles dias do meio de março, estava levando bem menos tempo – cerca de 15 minutos – para chegar até a galeria de arte contemporânea Isabelle, onde trabalha como diretor artístico. A galeria ocupa um galpão na Avenida Alserkal, polo cultural instalado no meio de Al Quoz, distrito industrial de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.

Parte da calmaria em Dubai era por causa do Ramadã, mês sagrado no calendário islâmico, que neste ano foi de 17 de fevereiro a 19 de março. “De dia, quando as pessoas estão em jejum, elas não saem muito”, explica Karam à piauí. Mas o trânsito diminuiu sobretudo porque os moradores do emirado haviam reduzido o tempo que passam em áreas públicas por causa da guerra que estourou do outro lado do Golfo Pérsico no fim de fevereiro e que impactou bastante Dubai. “Muitas pessoas, em grandes corporações, estão trabalhando de maneira remota”, diz ele.

Em retaliação aos bombardeios lançados pelos Estados Unidos e Israel, o Irã vinha atacando aliados dos americanos no Oriente Médio. Até 23 de março, já havia lançado mais de trezentos mísseis e cerca de 1,8 mil drones contra os Emirados. Dubai era um dos mais atingidos. Com isso, uma grave crise atingiu o seu aeroporto, um dos mais movimentados do mundo.

Karam falou à piauí por videochamada. A conversa começou às nove da manhã em Dubai – duas da madrugada no Brasil. Libanês de pele clara e cabelo castanho-escuro, o curador é cristão e, portanto, não segue o jejum do Ramadã. Passou a maior parte de sua vida em Beirute, conturbada por violentos conflitos internos e externos. Ele estava lá durante a guerra de 2006, quando Israel atacou a capital libanesa.

Cansado de tanta violência e instabilidade, Karam se mudou para a Espanha em setembro de 2019, para fazer um mestrado e buscar oportunidades de trabalho no circuito de arte local. Mas a pandemia atrapalhou seus planos, e ele voltou ao Líbano em 2020. Três anos depois, foi para Dubai. “Por causa de questões políticas e econômicas, o Líbano acabou ficando isolado do mundo árabe. Não havia lá muita circulação de artistas vindos dos países do Golfo Pérsico”, diz.

No emirado em que Jad Karam escolheu morar há um intercâmbio cultural vigoroso. Rica e cosmopolita, Dubai abriga galerias de arte relevantes e muitos eventos artísticos. Antes dos ataques ao Irã, o curador estava preparando a participação da galeria Isabelle na 20ª edição da Art Dubai, grande feira de arte programada inicialmente para abril. A incerteza atravessou seus planos: quando Karam falou com a piauí, em 10 de março, ele não sabia se o evento seria realizado. Em 19 de março, veio a resposta: a Art Dubai emitiu uma nota anunciando que a feira acontecerá entre 14 e 19 de maio.

Embora tensa, a situação em Dubai não era comparável ao que Karam viveu em seu país natal. Os mecanismos de interceptação de mísseis e drones se mostraram eficientes nos Emirados Árabes. Até o fechamento desta edição, ao menos nove pessoas haviam morrido depois dos ataques iranianos. A guerra de 2006 no Líbano fez cerca de mil vítimas fatais. “Tanto o governo quanto as instituições em Dubai têm feito esforços para manter um cotidiano de certa normalidade. Os restaurantes e supermercados estão abertos”, conta Karam. “No primeiro sábado de março, fui à praia. Havia muitas pessoas lá, nadando, brincando.”

No entanto, uma precaução vinha carregando o dia a dia de nervosismo: os alertas de ataque emitidos pelo governo. O aviso não chega por sirenes, como nas guerras do século passado, mas pelo celular. Mensagens de texto instruem as pessoas a buscarem abrigos oficiais ou lugares seguros. Mais tarde, uma nova mensagem informa quando o perigo passou. O curador diz que o tempo de espera entre uma mensagem e outra costuma ser de 40 minutos a 1 hora.

O artista brasileiro Gian Spina recebeu um desses alertas em 1º de março quando estava em Abu Dhabi, maior dos sete emirados e capital do país. O elemento mais apavorante dos alarmes, segundo ele, era o barulho de centenas de celulares recebendo a mensagem. “É ensurdecedor. Todos os telefones tocam ao mesmo tempo.”

Spina estava em Abu Dhabi visitando um espaço de artes chamado 421, na companhia de colegas de residência na Sharjah Art Foundation, renomada instituição dos Emirados. Apesar dos ataques aéreos, ele não tem planos imediatos de voltar. “Eu vou esperar aqui, estou torcendo para as coisas melhorarem.” Ele disse que manter a vida costumeira é essencial para aguentar a tensão. “Você tem que, realmente, construir uma espécie de rotina. Vai lá, faz o café, janta com o pessoal e finge normalidade.”

O curador Jad Karam seguia receita similar. Ele estava trabalhando na programação de aniversário de vinte anos da galeria Isabelle, em 23 de março. “Decidimos fazer uma exposição que dura vinte dias, em que revelamos uma obra por dia, sempre associando um artista a um escritor.”

A exibição mescla atividades online e presenciais, mas Karam colocou ênfase na visitação das pessoas à mostra: “Em momentos de grande desespero e tristeza, as pessoas precisam se relacionar com arte e cultura, que podem se tornar uma forma de refletir sobre o que está acontecendo.” Com a guerra em curso, a galeria permitiu durante o mês de março que funcionários que não se sentissem seguros trabalhassem em casa.

Não era o caso do curador, que seguia ativo na Isabelle, e não apenas lá: continuava frequentando mostras de outras galerias e instituições, saía para fazer exercícios e se encontrava com amigos.

A rotina de aparente normalidade não o deixou alheio às questões colocadas pela guerra. Ele não acredita que os emiradenses cultivem qualquer hostilidade em relação ao Irã. “Não existe ódio contra o povo iraniano”, afirmou. “Eles são muito respeitados aqui, apreciados e valorizados. As pessoas conseguem diferenciar governos de populações.” Além disso, Karam diz que a nação que o acolheu rechaça o conflito. “Ninguém quer a guerra aqui em Dubai. Este é um país muito pacífico.”


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Repórter da piauí, é crítica de artes visuais com especialização pela Unicamp.