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DEMOCRACIA OUTRA VEZ

Um basta às corrupções e dissensões de Viktor Orbán
CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2026
CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2026

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No dia 10 de abril, protegido por seguranças, Péter Magyar atravessou a multidão na cidade de Hatvan, carregando no ombro a bandeira da Hungria. Era a última sexta-feira antes das eleições no país e cerca de mil pessoas tinham se juntado na hora do almoço na praça principal da cidade para ouvir o líder do partido Tisza.

Mais ou menos a mesma quantidade de gente se reunira no sábado antes da Páscoa, dia 28 de março, em Pécel, num comício do primeiro-ministro Viktor Orbán, há dezesseis anos no poder. Não havia grande distinção socioeconômica entre os seguidores de um e outro candidato, exceto que os apoiadores de Orbán eram mais velhos. O ambiente do comício do primeiro-ministro também parecia mais tenso – talvez porque as pesquisas previam a derrota do Fidesz, o partido de ultradireita que ele lidera desde 1990.

Para Magyar, era o terceiro comício naquela sexta-feira, e o candidato ainda faria outros três, em diferentes cidades. Apesar disso, não aparentava sinais de cansaço. “Eu estava seguindo o Magyar de trem, então só conseguia ir a três comícios por dia. Eu não precisava fazer nenhum discurso, mas chegava em casa exausto. Magyar está fazendo isso há semanas”, contou à piauí o jornalista e historiador Ábel Beda, de 29 anos.

Com a barba bem escanhoada, o cabelo rigorosamente aparado e a compleição atlética, Magyar, de 45 anos, evoca certa noção de juventude e asseio. A estética tem ressonâncias políticas. “Magyar combina valores de patriotismo, europeísmo, bem-estar social, restauração democrática e uma grande ênfase em ‘limpeza’, entendida como combate à corrupção”, diz o cientista político Rudolf Metz, autor do primeiro estudo acadêmico aprofundado sobre o líder do Tisza. Não é que Orbán, de 62 anos, careça de energia. Mas a diferença geracional é notória, e o líder do Fidesz está bem acima do peso.

Na eleição de 12 de abril, o Tisza de Péter Magyar ganhou de lavada. Conquistou 141 das 199 cadeiras do Parlamento húngaro, enquanto o Fidesz de Viktor Orbán teve que se conformar com 52 cadeiras.

De perfil conservador, o advogado Péter Magyar vivia até poucos anos atrás em círculos muito próximos do regime de Orbán, no qual ocupou cargos jurídicos e burocráticos. Também foi casado com Judit Varga, ex-ministra da Justiça. Foi essa proximidade que lhe deu acesso aos segredos do governo de Orbán.

Em março de 2024, Magyar divulgou uma gravação que demonstrava que pessoas influentes no mais alto nível do poder haviam sido mobilizadas para livrar da prisão um condenado num caso de pedofilia. Depois disso, dezenas de milhares de húngaros saíram às ruas para protestar contra o governo. O fato de se tratar de pedofilia era irônico, visto que a defesa da família e a proteção da inocência das crianças eram duas das principais bandeiras do regime de Orbán.

Com a projeção pública que ganhou devido ao escândalo, Magyar tratou de organizar às pressas um partido, o Tisza. As eleições europeias, três meses mais tarde, encarregaram-­se de provar que o indulto ao pedófilo tinha tocado algo muito poderoso. O Tisza recebeu 30% dos votos, quinze pontos atrás do Fidesz, mas mais do triplo de qualquer outro partido da oposição naquele momento.

Na campanha eleitoral deste ano, Magyar não atacou os valores conservadores, anti-imigração e pró-família, defendidos por Orbán e com os quais, aliás, se identifica. Em vez disso, focou na denúncia da corrupção, estabelecendo um nexo muito eficaz entre a pilhagem dos recursos e o mau funcionamento dos sistemas públicos de saúde e educação, com os quais os húngaros em geral se mostram descontentes. O jornalista Ábel Beda lembra que, no mesmo dia em que, a convite de Orbán, o vice-presidente americano, J. D. Vance, discursou em Budapeste sobre “os valores da civilização ocidental”, Magyar realizou sete comícios pelo país, falando sobre a situação dos serviços públicos.

A Hungria é o país da União Europeia onde a percepção de corrupção é mais alta, segundo pesquisas. András Rieder, militante do Fidesz de 24 anos – caso raro na sua faixa etária –, explica assim a derrota do seu partido: “O principal motivo é a corrupção. O Fidesz tem uma política segundo a qual são as grandes empresas húngaras, e não as europeias, que devem construir estradas, estruturar o sistema bancário, organizar o setor de energia. Pessoas próximas ao partido tomaram para si essa função. Ao longo dos anos, foram acumulando dinheiro, e acabaram juntando tanto que a corrupção ficou muito evidente.” A visão de Rieder não difere muito da maioria dos húngaros.

Além disso, o Tisza prometeu restabelecer o estado de direito, o que pode se traduzir em benefícios pecuniários. Afinal, há 18 bilhões de euros em fundos europeus que estão atualmente congelados em Bruxelas, devido ao descumprimento pelo governo de Orbán de regras elementares de transparência e escrutínio, próprias de um regime democrático. “Mas os problemas na economia e no bem-estar social são muito mais decisivos para a opinião pública do que problemas com a democracia”, afirma Zsolt Boda, cientista político da Universidade Eötvös Loránd (Elte).

Boda explica que Orbán, à maneira de outros líderes autocratas que os brasileiros conhecem tão bem, tratava as iniciativas políticas como instrumentos para criar problemas – em vez de resolvê-los –, produzindo uma constante dissensão na sociedade. A cada momento, ele descobria um tema capaz de dividir os húngaros: primeiro a imigração, depois as questões LGBTQIAPN+, em seguida a posição diante da guerra na Ucrânia (evitando criticar a Rússia) e assim por diante. Em cada caso, Orbán sabia que teria do seu lado pelo menos metade dos húngaros. “Na primeira década de governo do Fidesz, a economia cresceu, o que foi permitindo ignorar esse problema”, diz Boda. A festa acabou depois da pandemia, a partir do momento que a Hungria começou a registrar crescimento econômico quase nulo e a inflação só fez avançar – outro fator decisivo para a derrota de Orbán.

Uma surpresa para muitos depois da eleição foi a presteza com que Viktor Orbán ligou para seu adversário, a fim de cumprimentá-lo pela vitória.

Pouco depois das nove da noite do dia 12 de abril, proferiu um discurso de relativa urbanidade, em que não questionou a lisura do processo, nem alegou interferências externas – o que, em repetidas vezes ao longo da campanha, ameaçou fazer.

Entretanto, dada a dimensão da derrota e o comparecimento nas urnas – o maior de toda a história democrática do país – teria sido muito difícil Orbán contestar o resultado. Qualquer manobra do Fidesz para se manter no poder iria desencadear protestos nas grandes cidades, onde o partido do governo é muito minoritário – especialmente entre os mais jovens. Ao reconhecer prontamente o resultado, Orbán pode pelo menos se apresentar como democrata. É algo que lhe será útil se quiser manter-se de agora em diante no jogo.


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É doutorado em cinema pela Universidade de Kent (Grã-Bretanha) e co-autor da série documental A duas voltas -- Mário Soares e as presidenciais de 1986 (2026)