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Bernardo Esteves Jun 2026 00h00
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O sociólogo Nicolás Andrés Pozdzik, de 40 anos, trabalha como professor na Universidade de Buenos Aires (UBA), onde é responsável por duas disciplinas do ciclo básico de vários cursos de graduação. Seu contrato de tempo parcial determina que ele deve trabalhar vinte horas semanais, pelo que recebe um salário mensal bruto de 617 mil pesos argentinos (cerca de 2,2 mil reais) – de fato, 455 mil pesos (1,6 mil reais), após as deduções.
Para os docentes no topo de carreira, a situação é um pouco melhor: o salário bruto de um professor titular com dedicação exclusiva em tempo integral é de 1,58 milhão de pesos (cerca de 5,6 mil reais), sem contar adicionais por tempo de serviço. Mesmo assim, é um valor que coloca os titulares pouco acima da linha oficial de pobreza da Argentina, que é de cerca de 1,47 milhão de pesos para uma família de quatro pessoas, de acordo com Indec, o equivalente local ao IBGE. “Mesmo que eu trabalhasse na universidade em tempo integral com exclusividade, continuaria abaixo da linha de pobreza”, disse Podzik à piauí. “Ou os professores moram debaixo da ponte, ou têm que buscar rendimento em outro lugar.”
Pai de duas crianças (de 11 e 5 anos), Pozdzik complementa a renda prestando serviços com seu furgão compacto utilitário. O sociólogo faz fretes, carretos, viagens para o aeroporto e outros traslados com clientes que acumulou ao longo de oito anos. Quando não tem serviços agendados, atua para os aplicativos de transporte. Na prática, o trabalho com o carro é sua ocupação principal, na qual ele fatura três quartos de seus rendimentos, rodando cerca de quarenta horas por semana.
Pozdzik trabalha, em média, mais de oito horas e meia por dia, de domingo a domingo – na universidade e com seu veículo. Num dia típico, ele acorda às cinco da manhã ou antes disso, quando tem que preparar aulas. “Estou sacrificando o tempo com os filhos, mas também com os amigos e pessoas queridas”, queixou-se. “É muito trágico.” Nos fins de semana, ele tenta ficar com as crianças o máximo de tempo que pode, e por isso trabalha de madrugada – em geral das dez da noite às quatro da manhã. Nessas condições, não há como investir na carreira. “Queria fazer mestrado e doutorado, mas não tenho tempo.”
No dia 12 de maio, terça-feira, em vez de sair com o carro para complementar o salário, Pozdzik foi a uma manifestação em defesa das universidades argentinas convocada por organizações estudantis e sindicais, com o apoio das reitorias. Juntou-se a dezenas de milhares de pessoas que marcharam em direção à Praça de Maio, onde fica a Casa Rosada, sede da Presidência. Segundo cálculos do jornal La Nación, 120 mil pessoas saíram às ruas da capital; pelas contas dos organizadores, 1,5 milhão protestaram em todo o país.
O principal motivo dos protestos foi o corte de recursos destinados ao ensino superior pelo presidente Javier Milei. Os repasses caíram 45,6% desde que o ultradireitista tomou posse, no fim de 2023. No mesmo período, o poder aquisitivo dos professores teve queda de 33,7%. “O governo quer destruir a universidade pública, que representa uma possibilidade de ascensão social na Argentina”, disse Pozdzik, ele próprio a primeira pessoa da sua família a ter acesso ao ensino superior. Na Argentina, as universidades públicas são gratuitas e não exigem vestibular.
Os manifestantes reivindicaram que o governo Milei cumpra a chamada Lei de Financiamento Universitário, que determina o reajuste do salário dos professores e funcionários a fim de compensar as perdas com a inflação desde 2023. A lei foi aprovada pelo Congresso em agosto de 2025, um ano depois da primeira mobilização universitária contra Milei, que levou centenas de milhares de pessoas às ruas. Depois, tornou-se o pivô de uma crise institucional: foi vetada pelo presidente, mas o veto foi derrubado com maioria qualificada de dois terços, tanto na Câmara quanto no Senado.
Ainda assim, Milei se recusou a cumprir a medida, alegando que a lei não definiu de onde virá o dinheiro para a recomposição salarial, e que o seu cumprimento compromete o equilíbrio fiscal. “Podem juntar nas ruas 100 mil, 1 milhão ou 5 milhões de pessoas, mas no dia seguinte a restrição orçamentária continuará existindo”, disse Alejandro Álvarez, subsecretário de Políticas Universitárias de Milei.
Depois de duas decisões judiciais favoráveis às universidades, o caso está nas mãos da Suprema Corte argentina – tribunal que deveria ter cinco ministros, mas atualmente opera com apenas três, depois que o Senado rejeitou dois nomes propostos por Milei para preencher as vagas.
A marcha do dia 12, a quarta realizada pelos universitários desde o início do governo Milei, reuniu grupos de manifestantes que partiram de várias regiões de Buenos Aires. Um deles se concentrou no Centro da cidade, na Praça Dr. Bernardo Houssay, em torno da qual ficam as sedes de várias faculdades que integram a UBA. A praça homenageia o fisiologista portenho que foi o primeiro cientista latino-americano a receber um Nobel – no caso, o de Medicina, em 1947, por descobertas que ajudaram a compreender a diabetes. A Argentina tem cinco prêmios Nobel. Três são em áreas científicas: dois de Medicina e um de Química (todos os ganhadores estudaram na UBA). Dois outros são prêmios Nobel da Paz.
Diante de uma faixa com retratos dos cientistas argentinos premiados, havia um grupo de docentes e funcionários do Departamento de Cuidados Paliativos, do Instituto Lanari, um dos hospitais universitários vinculados à UBA. “Sem financiamento não podemos comprar insumos, pagar salários, garantir a formação de alunos e a atenção médica aos pacientes”, disse o médico Nicolás Garrigue. “Se não recebermos mais recursos, os hospitais universitários terão que parar de funcionar dentro de 45 dias”, completou a psicóloga Verónica Veloso.
Por causa dos salários baixos, muitos professores estão abandonando a carreira universitária. Só na Faculdade de Agronomia da UBA, 83 docentes renunciaram desde o começo de 2024. Mercedes Peretti, professora da unidade, ressaltou que o abandono é maior entre os professores mais jovens, que recebem salários piores. “Isso gera um vazio que é muito difícil de preencher, porque são necessários muitos anos de formação e investimento para que outras pessoas voltem a ocupar esses espaços”, afirmou.
Durante a manifestação, o sociólogo Nicolás Pozdzik ficou a cerca de uma quadra da Praça de Maio, ao lado de colegas do sindicato dos professores. Disse não esperar nada do governo, mas ficou otimista com a quantidade de jovens que viu nas ruas. “Minha expectativa está na juventude e na mobilização popular”, disse. A próxima eleição presidencial na Argentina está marcada para outubro de 2027.