Imagem De templo em templo

esquina

DE TEMPLO EM TEMPLO

O PSD tenta arrebanhar o voto evangélico para Ronaldo Caiado

5 min de leitura

Ouvir essa matéria

0:00 0:00

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

No dia 15 de abril, o deputado e pastor Otoni de Paula (PSD-rj) faltou ao culto da Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional, celebrado toda quarta-feira na Câmara dos Deputados. Tinha um compromisso mais importante: ir a Goiânia para a 51ª Convenção Nacional das Assembleias de Deus Ministério de Madureira, durante a qual sua igreja apoiaria o candidato à Presidência escolhido pelo PSD. Na convenção, que durou quatro dias, o católico Ronaldo Caiado foi ungido pelo Ministério de Madureira, um dos principais ramos da Assembleia de Deus, diante de mais de 4,5 mil bispos e pastores de todo o país.

O bispo Samuel Ferreira, principal liderança do Ministério de Madureira, foi quem anunciou o apoio ao ex-governador de Goiás. O público celebrou, entoando um canto clássico das torcidas brasileiras adaptado ao contexto religioso: “Eu sou Madureira, com muito orgulho, com muito amor.” Sorridente no centro do palco, Caiado acompanhou a louvação, batendo palmas. O Ministério de Madureira tem milhões de fiéis e milhares de filiais pelo Brasil, o que lhe confere forte influência política.

Ciceroneado por Otoni de Paula, o pré-candidato do PSD participou no mesmo dia de uma série de reuniões com bispos, presidentes de convenções estaduais da Assembleia de Deus e pastores das maiores igrejas. Gravou uma rápida entrevista, distribuída internamente às lideranças. A primeira pesquisa Quaest que incluiu o nome de Caiado foi divulgada durante o evento. Ele apareceu com 6% das intenções de voto.

A estratégia para os próximos meses é impulsionar a imagem do ex-governador através de influenciadores digitais e páginas ligadas à Assembleia de Deus, além de fortalecer sua presença em cultos e celebrações. “O trabalho só está começando. Ele ainda vai rodar muito pelo Brasil”, me disse Otoni, treze dias depois da convenção, entre uma garfada e outra de carne assada, acompanhada de arroz à grega, na sala da liderança do PSD na Câmara. “Vamos levar Caiado a todos os templos que a gente puder.”

Otoni de Paula não reivindica o papel de “coordenador” do braço evangélico da campanha de Caiado, pois está empenhado em conquistar a própria reeleição no Rio de Janeiro em outubro. Prefere se definir como “uma das cabeças pensantes” que buscam captar nas igrejas o voto dos bolsonaristas para o candidato do PSD. “O povo vai descobrir que o Caiado é um Bolsonaro com inteligência emocional”, diz. “É um cara truculento, macho alfa, coronel. É igualzinho ao Bolsonaro, só que mais polido, com mais elegância.”

O pastor acredita que a figura de Caiado – “um senhor de cabelos brancos” – é um atrativo para fiéis cansados da estridência bolsonarista. O ex-governador, diz Otoni, tem ainda outros atributos que agradam o eleitorado evangélico de direita: é cristão (embora não evangélico), conservador, casado, compromissado com a família tradicional e contrário ao aborto. “Ele não precisa sair por aí dando a paz do Senhor, como faz a família Bolsonaro.”

No início de abril, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), também pré-candidato à Presidência, esteve na Assembleia de Deus Ministério do Belém – outro ramo da denominação pentecostal –, onde foi abençoado, de joelhos, no altar. O senador fez ainda um périplo por outras Assembleias de Deus, pela Igreja do Evangelho Quadrangular e pela Igreja Batista.

Nas duas últimas eleições presidenciais, as igrejas alinhadas à direita juntaram-se em torno de Jair Bolsonaro. Não é mais assim: o racha político aparece até no interior de algumas denominações. Por exemplo: o deputado Cezinha de Madureira (PL-SP), pastor do Ministério de Madureira, mantém apoio a Flávio Bolsonaro, contrariando o acordo firmado pelo bispo Samuel Ferreira. Otoni de Paula afirma que vários políticos-pastores foram “sequestrados pela imposição bolsonarista” e temem perder eleitores, caso se distanciem da família. Ele mesmo rompeu com os Bolsonaro depois que Flávio boicotou sua candidatura à Prefeitura do Rio de Janeiro, pelo mdb, em 2024. Decidiu migrar para o PSD em março passado e hoje é um dos deputados mais ativos contra os bolsonaristas, que, por seu lado, o acusam de ser petista.

Otoni de Paula aposta no crescimento de Ronaldo Caiado, associado ao desgaste de Flávio Bolsonaro, que, nas palavras do deputado, “tem muitos esqueletos no armário”. Um dos esqueletos apareceu no mês passado, quando o site Intercept Brasil revelou que o pré-candidato do pl pedia contribuições milionárias do banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, para bancar um filme sobre seu pai. O deputado aproveitou a deixa para dizer que Flávio Bolsonaro é um “batedor de carteira”. Mas ele é realista sobre o futuro da campanha: “Ninguém aqui está louco para achar que a gente vai virar esse jogo da noite para o dia. Mas vamos jogar bem jogado.”

O PSD está apostando nos campeonatos futuros. Na avaliação do presidente do partido, Gilberto Kassab, um cenário “ótimo” é Caiado chegar a 15% dos votos. Otoni de Paula acredita que isso fortalece os planos da legenda de se tornar “o partido da governabilidade” na próxima legislatura. “É uma aposta mais partidária do que personalizada”, diz. “Ao terminar esta eleição, o presidente Kassab quer deixar na mente do povo brasileiro que houve uma opção. E que quem deu essa opção foi o PSD.”

Aos evangélicos da Assembleia de Deus Ministério de Madureira, o deputado pastor quer transmitir a segurança de que a fé deles não será explorada para fins eleitorais. Os pastores darão o testemunho da gestão de Caiado em Goiás, enfatizando a redução dos índices de criminalidade e o ajuste nas contas públicas. A ideia é evitar o discurso que pinta a eleição como uma luta entre o bem e o mal. “Os evangélicos são seres humanos comuns. Quando a inflação aumenta, eles sentem”, diz Otoni de Paula, que comanda igrejas em áreas pobres da Zona Norte do Rio.

Enquanto almoçava na sala da liderança do PSD, o deputado puxou o celular e me mostrou um vídeo que publicou no Instagram – um exemplo do que espera dos demais pastores. No vídeo, ele fala das realizações e da experiência de Caiado com voz serena, sem a entonação pentecostal que emprega no altar. Sorridente, conclui que é preciso votar no candidato mais preparado no primeiro turno, não apenas “no menos pior”. Acrescenta: “E, como eu tenho certeza de que nós vamos para o segundo turno, no segundo turno eu também sou Caiado.”

Mas, então, ele acha que o ex-governador vai conseguir virar o jogo e chegar ao segundo turno? “Acredito que é muito difícil”, responde Otoni de Paula, dando mais uma garfada no pedaço de carne à sua frente.


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.


É repórter da piauí