esquina

MEMÓRIA CONGELADA

Um grupo de recuperação de arquivos nas enchentes gaúchas
CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2026
CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2026

5 min de leitura

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

A água já batia na cintura, mas a arquivista Débora Flores e seus colegas seguiam lutando para salvar pelo menos parte do acervo documental e histórico guardado no subsolo da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Os documentos cobrem as atividades da universidade de 1930 a 2024. Estavam guardados em 12 mil caixas prestes a serem cobertas pela água das chuvas e pela lama que ela carregava. “Começamos a tirar o que estava na prateleira mais embaixo e colocar em cima das mesas”, recorda Flores.

Foi em vão: as águas obrigaram o grupo a deixar o local. “Já era”, disse uma arquivista, alertando para o risco de permanecer no subsolo inundado. Com as mãos na cabeça, Flores se esforçava para se mover no denso lamaçal. “Todo mundo começou a dar as mãos e fazer um cordão para sair junto”, ela conta. Felizmente, saíram todos ilesos.

O alagamento começou por volta das dez da manhã de 30 de abril de 2024, quando um pequeno lago próximo à reitoria transbordou com as chuvas pesadas que atingiram o Rio Grande do Sul naquele ano. Em Santa Maria, o final do mês de abril acumulou 650 mm de chuva, um recorde na história do município, segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).

Em segurança no hall do prédio, os responsáveis pelo acervo de imediato contataram o Arquivo Nacional, por telefone, para buscar orientações. A universidade também agiu rápido: caminhões de sucção foram contratados para o serviço emergencial na reitoria. “Foram doze horas retirando a água”, lembra a arquivista.

Quando chegou em casa, por volta das onze da noite, Flores decidiu que precisava registrar a experiência daqueles dias traumáticos. Passou a escrever um diário de campo, no calor da ação. A piauí teve acesso a essas anotações.

A data inicial é 2 de maio, quando ela retornou ao acervo, já encerrado o trabalho de sucção. Em suas primeiras impressões sobre o estado das salas, conta que encontrou “muito lodo e muitos animais, especialmente aranhas” – que, aliás, estavam vivas. Não havia luz elétrica, e era difícil circular pela sala: “Havia muitos materiais obstruindo o caminho e as portas do subsolo.”

Com dificuldade, os arquivos foram retirados do local úmido e levados provisoriamente a um salão de conferências no segundo andar do mesmo prédio. Encharcados, os papéis aumentaram de volume, a ponto de ser impossível retirá-los dos móveis onde estavam guardados. Flores anotou a solução do problema: “Usamos um macaco hidráulico para abrir as laterais das estantes e tirar as caixas.”

Correndo contra o relógio para evitar a perda dos arquivos, Flores, sua equipe e funcionários do Arquivo Nacional optaram por usar uma técnica emergencial que interrompe esse processo: o congelamento. Quando se congela o papel danificado pela água, a degeneração causada por micro-organismos – fungos, sobretudo – é paralisada. O processo também evita que as páginas grudem umas nas outras, impede o amolecimento das fibras do papel e estabiliza a tinta, que de outra forma ficaria borrada. O trabalho mobilizou mais de quatrocentos voluntários, entre estudantes, servidores, funcionários terceirizados e militares que integravam a força de socorro às enchentes.

Essa grande equipe ocupou o centro de eventos da universidade, onde foi montada uma verdadeira linha de produção para separar, secar e embalar os documentos a vácuo antes de serem refrigerados. De início, o material foi conservado em três freezers da universidade, que hoje conta com quatro grandes contêineres refrigerados a uma temperatura de 20°C negativos. Em agosto de 2024, já estavam congelados cerca de 90% dos arquivos.

Hoje, todos os documentos estão nos contêineres e devem permanecer assim por mais três anos, tempo estimado para a recuperação completa. “Quando a gente congelou todo o material, criamos, mesmo que sem querer, uma estrutura que não existia antes”, afirma Flores. Ainda no ápice das chuvas, ela manteve uma rede colaborativa de contatos com outros arquivistas do Rio Grande do Sul. Ao perceber que um desastre parecido havia atingido outros acervos, começou a compartilhar as experiências que viveu – inclusive seus diários de campo.

Em maio de 2025, o Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul divulgou um mapeamento dos acervos públicos afetados pelas enchentes. Foram identificadas 101 unidades de órgãos e entidades estaduais atingidas, com uma estimativa de cerca de 125 mil caixas de documentos danificados. A operação liderada por Flores se converteu em um projeto de pesquisa, o Hub.doc, dedicado à recuperação e preservação de acervos documentais atingidos por desastres.

Enquanto a recuperação dos arquivos da UFSM segue em andamento, o grupo tem oferecido auxílio a outras instituições e órgãos que passaram pelo mesmo problema, o que vem se tornando comum com o agravamento da crise climática. O Hub já foi contatado, por exemplo, pela pesquisadora Guadalupe Basualdo, da Universidad Nacional de Avellaneda, na Argentina, que investigava o impacto de uma inundação que atingiu o patrimônio documental da Universidad Nacional del Sur, em março do ano passado. No Brasil, o diretor do Arquivo Público Mineiro, Denis Soares da Silva, buscou auxílio técnico do grupo para conter os danos causados ao acervo por alagamentos em Minas Gerais, em fevereiro.

Dois anos após a inundação da reitoria, os arquivistas do projeto ainda têm pouco mais de 36 mil caixas para recuperar – não só da UFSM, mas também de órgãos como o Ministério da Saúde, a Anvisa e o Banco Central. Até o momento, os arquivos de 4 mil caixas já passaram pelos procedimentos minuciosos de congelamento, descongelamento, higienização, secagem e digitalização.

Em 26 de maio passado, um dos quatro contêineres da universidade foi esvaziado pela primeira vez, o que, segundo Flores, indica a recuperação de 25% dos documentos. “É um trabalho longo”, diz. Nesse esforço delicado e paciente, ela reencontra, todos os dias, o sentido da profissão que escolheu: “Somos guardiões da memória.”


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.


É estagiário na piauí