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DE OLHO NAS ARANHAS

Um brasileiro entre os grandes especialistas mundiais em aracnídeos
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Trezentas aranhas estão trancadas num armário, em Belém, dentro de vidros com álcool etílico, esperando o dia em que se encontrarão com Alexandre Bonaldo. Nas últimas três décadas, 520 aracnídeos receberam atenção do gaúcho que olha para esses animais – a olho nu e com microscópio – como quase ninguém. Para ser preciso: existem só nove pessoas no mundo mais dedicadas às aranhas do que Bonaldo, segundo o Catálogo Mundial de Aranhas mantido pelo Museu de História Natural de Berna, na Suíça.

Bonaldo tem 60 anos e pesquisa aracnídeos desde os 22. Durante a graduação em biologia, na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (pucrs), chegou a trabalhar com botânica, mas as plantas não o mantiveram interessado por muito tempo. Soube, então, de um curso que seus professores ministravam no Parque Nacional de Aparados da Serra, região cercada por cânions na divisa entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina. “Eu quis ir porque tinha ouvido que o lugar era maravilhoso”, diz Bonaldo. Só restavam vagas na turma de pesquisa sobre aranhas.

“Eu adorei os bichos”, conta o biólogo. “E nunca mais parei de olhar pra eles.” Virou mestre e doutor em aracnídeos. Aos 34 anos, passou em um concurso para integrar a equipe científica do Museu Emílio Goeldi, na capital paraense. Sua noiva, a também bióloga Maria Cristina dos Santos-Costa, estava no meio do doutorado sobre as cobras do Rio Grande do Sul. Para não ficar longe de Bonaldo, avisou ao orientador que continuaria pesquisando serpentes, mas se concentraria nas espécies da Amazônia paraense. Os dois se casaram, mudaram-se para Belém e lá tiveram gêmeos.

Alexandre Bonaldo costuma encontrar os bichos em expedições que faz na Amazônia com alunos de pós-graduação. “Mas nós vamos para o mato com menos frequência do que eu gostaria”, diz. Falta financiamento para as pesquisas. Ele também pede emprestados os exemplares que instituições internacionais guardam em seus acervos, o que não é menos complicado.

Cientistas estrangeiros resistem a confiar seus espécimes ao Brasil, e a desconfiança tem suas razões. No ano passado, moluscos e conchas coletados na Gâmbia por uma equipe de pesquisadores coordenada pelo professor Luiz Ricardo Lopes de Simone, do Museu de Zoologia da usp, foi retida na alfândega pelo Ministério da Agricultura e Pecuária – e acabou sendo incinerada.

“Em alguns casos, as instituições internacionais nos mandam só fotografias”, diz Bonaldo. Recentemente, por exemplo, ele estava navegando no Catálogo Mundial de Aranhas e encontrou o registro de uma aranha descoberta em 1879, na Alemanha. A ficha do animal não apresentava a descrição de sua identidade. Bonaldo entrou em contato com a instituição francesa que guarda a aranha em seu acervo e conseguiu uma foto. Pela imagem, o biólogo conseguiu relacionar o bicho com aracnídeos que conhecia e, desse modo, identificou a família da aranha alemã. “Não vamos conseguir descobrir novas espécies se não conhecermos muito bem as que já foram identificadas”, diz.

Em cada artigo científico que publica, seja apresentando uma nova aranha ou reavaliando uma que foi descoberta séculos atrás, Bonaldo deve incluir imagens do bicho – de preferência, da genitália. “É por onde conseguimos identificar as espécies com mais segurança”, ele diz.

Existe tecnologia suficiente para fotografar as menores partes da anatomia animal, mas Bonaldo raramente usa, pois prefere desenhar as aranhas à mão. Ele recorre a um microscópio para ampliar os órgãos genitais e passa cerca de quatro horas reproduzindo-as no papel, a lápis. “As aranhas não são fotogênicas”, diz. “Além disso, o desenho é mais interpretativo que as imagens feitas por máquinas. Posso dar ênfase a um caráter que considero importante para entender a história evolutiva dos bichos.”

Ainda jovem, Bonaldo decidiu se especializar em aranhas da família dos corinídeos, conhecidas por correrem depressa e terem talento para se camuflar como formigas. “Escolhi essa família porque sabia que tinham muitas espécies para serem descritas”, diz. “E realmente encontrei muito bicho, tanto que estou até hoje observando a mesma família.”

Cada animal descrito pelo biólogo é batizado com o nome dele. Em março, Bonaldo teve a ajuda de um aluno de pós-­graduação para analisar uma aranha que vive na América do Sul e no Panamá. Ela foi registrada com o nome do professor e do estudante: Castianeira pollux Silva-Junior & Bonaldo.

“Meu nome está em cerca de 1% de todas as aranhas descobertas no mundo”, diz Bonaldo. “É um dado impressionante, mas nunca tive isso como meta no meu trabalho. Gosto de ver os artigos serem publicados e, principalmente, de fazer os meus desenhos. Eu sou muito orgulhoso dos meus desenhos. Gosto deles de verdade.”

Bonaldo planeja se aposentar dentro de dez anos. Até lá, espera conseguir descrever as trezentas aranhas que estão no armário do seu laboratório. Tem pela frente cerca de 1,2 mil horas de dedicação à arte de desenhar a genitália aracnídea.


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Repórter da piauí