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Maitê Silveira 02 Jul 2026
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Passados 3 minutos das sete da manhã, Celestina Pereira da Silveira anda apressada entre a cozinha e a padaria artesanal – um puxadinho onde antes era a garagem de sua casa em Palhoça, município litorâneo da Região Metropolitana de Florianópolis. Com avental e touca, ela organiza os ingredientes das dezenove encomendas que anotou em um caderninho, a serem entregues à tarde. O plano era começar às 6 horas, mas Silveira atrasou os trabalhos em uma hora a pedido da neta Monyque Silveira, de 31 anos, que, naquela quarta-feira de junho, combinou de ajudar a avó na panificação, mas não quis acordar tão cedo.
Antes mesmo da chegada da neta (e da reportagem da piauí), dona Cici – como Silveira é conhecida na Enseada do Brito, comunidade onde vive – já tinha completado a primeira etapa do processo: a oração. “Para agilizar, né?”, justificou-se. A reza é necessária porque Silveira se especializou em massas da promessa, um tipo de pão feito para cumprir a função de ex-voto em algumas igrejas de Santa Catarina. Os ex-votos (abreviação de ex-voto suscepto, do latim: “pela promessa realizada”) são objetos que os fiéis católicos doam à igreja para agradecer a Deus por uma graça alcançada ou fazer um pedido de cura. O litoral catarinense é o único lugar do país em que o ex-voto é comestível.
Silveira tem 84 anos e confecciona massas da promessa há 63, desde que aprendeu a fazê-las com sua avó. Na bancada de sua padaria, há uma pequena pomba de madeira, tradicional representação do Espírito Santo, com fitas coloridas, um terço e uma garrafinha de água benta. É ali que ela se ajoelha para rezar, pensando nas graças que cada encomenda irá carregar.
Embora saiba de cor a receita que a avó lhe ensinou, Silveira de vez em quando recorre ao papelzinho desgastado no qual estão registradas as quantidades certas de farinha, fermento, sal, especiarias e outros ingredientes para fazer a massa, que é sovada à mão em uma bacia de 50 litros. Enquanto a massa descansa, Silveira e sua neta checam os formatos que os clientes encomendaram para seus pães: pombinhas do Espírito Santo, meninas, meninos, mãos, peixes, um boizinho, um coração.
Em geral, as massas são encomendadas depois da promessa cumprida, mas há quem peça por graças futuras. A forma de cada ex-voto corresponde ao pedido que o fiel fez ou tem a fazer. Na maioria das vezes, o pão representa uma parte do corpo, como um seio (no caso, por exemplo, da remissão de um câncer da mama) ou uma cabeça (para o fim das crises de enxaqueca). A neta explica por que às vezes ela e a avó modelam animais de fazenda: “A pessoa só tem um boizinho ou uma vaquinha, que fica doente, então eles pedem pelo animal.” Os peixes, ideia de Silveira, atendem aos pescadores que pediram por uma rede farta de tainhas.
As massas da promessa são oferecidas às igrejas catarinenses de maio a setembro, durante o Ciclo do Divino, uma sequência de festas em homenagem ao Espírito Santo que foi introduzida no estado por imigrantes vindos do arquipélago português dos Açores. O primeiro registro de uma Festa do Divino é de 1776, em Florianópolis. Hoje há 65 festas em todo o estado. Nas mais tradicionais, as massas estão presentes.
O historiador Sérgio Luiz Ferreira, presidente da Casa dos Açores de Santa Catarina – associação cultural dos descendentes dos imigrantes –, conta que a massa sovada faz parte da culinária açoriana e das festas religiosas nas ilhas. Mas os formatos diferentes do pão, de acordo com a graça alcançada ou promessa, foram uma inovação dos catarinenses. “A festa do Espírito Santo é uma festa do povo. O Senhor Espírito Santo é do povo, não é da Igreja”, diz Ferreira. “O clero tomou a frente e foi cortando aspectos populares das festas.”
De acordo com a tradição, o fiel leva o ex-voto comestível para ser abençoado no altar durante a missa ou na novena que antecede a festa. Depois da bênção, a massa da promessa é entregue para a igreja, que a leiloa. Silveira cobra 20 ou 25 reais por encomenda. Nos leilões, cada pão costuma ser arrematado por valores entre 80 e 120 reais. O dinheiro é revertido para a igreja, e o pão muitas vezes é consumido coletivamente no local da festa.
Esse modelo, porém, está se transformando. No lugar da fabricação artesanal, como a de Silveira, estão entrando na festa panificadoras, que produzem em grande quantidade, usando massa de pão de leite, que não é sovada à mão. É o que acontece na Festa da Santíssima Trindade, no bairro Trindade, em Florianópolis. Na celebração deste ano, a paróquia vendeu 247 massas a 20 reais, mas só 31 delas foram doadas por fiéis. As demais foram encomendadas em uma padaria da região – e, nesse caso, o pão nem sempre é abençoado no altar ou leiloado.
Quando dá formato às massas, Celestina Silveira presta atenção nos detalhes, que elabora com tesoura, lâmina e pequenos feijões. De vez em quando, ela dá um pitaco na maneira como a neta esculpe os pães. Nos meninos, faz gravata e bolsos na calça. Nas meninas, desenha colares, texturas nas saias e sapatos de salto alto.
O tempo de espera pelo crescimento da massa varia conforme a temperatura do dia. Naquela quarta-feira, com o frio de outono, foi em torno de uma hora e meia. Em seguida, Silveira pincelou a massa com gema de ovo, antes de levar ao forno. Cerca de 20 minutos depois, a massa da promessa estava pronta para ser embalada em um saquinho plástico amarrado com fita vermelha, cor do Divino Espírito Santo.
Silveira nem arrisca estimar quantas massas já fez ao longo da vida. Anotações em seu caderninho indicam que, só no ano passado, foram mais de quatrocentas. Ela se orgulha especialmente de um trabalho que fez para Edineusa Silveira, mãe de Monyque, que, para pedir pela felicidade da filha, prometeu uma massa em forma de mulher – e em tamanho real. O pão de 1,72 metro precisou ser separado em três para caber no forno. Foi arrematado em 800 reais por um membro da família e dividido entre os festeiros da comunidade de Enseada do Brito.
Apesar das dores na lombar e do formigamento nas mãos, Celestina Silveira não pensa em parar. Mas já repassou a receita e os macetes às filhas e netas. “Afinal como é que as pessoas vão ficar devendo as promessas?”, diz.