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Eduardo Barcelos piauí_239 06 Ago 2026
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A professora Ione Stumpf Martimbianco ergueu-se da cadeira para agradecer a salva de palmas que reverberava na Cinemateca Capitólio. Era o fim de uma fria tarde de junho em Porto Alegre, e a sessão de reestreia de Vento norte estava lotada. “Me sinto muito emocionada e muito feliz de ter participado”, disse Martimbianco, que aparece nos créditos do filme com o nome artístico de Patrícia Diniz.
Lançado em 1951, Vento norte segue o cotidiano de uma vila de pescadores abalada pela chegada de um estranho, o que lhe rendeu comparações com um clássico italiano do ano anterior, Stromboli, de Roberto Rossellini, também ambientado em uma comunidade de pescadores. Rodado em Torres, cidade do litoral Norte gaúcho, o filme brasileiro faz uma representação do duro meio social de seus personagens, na esteira do cinema neorrealista.
Nos 75 anos seguintes, porém, Vento norte raramente foi exibido em cinemas ou cineclubes (apesar de uma cópia antiga estar disponível no YouTube desde 2013). “É quase um filme mitológico. Muita gente conhece a sua história, mas nunca assistiu”, diz Daniela Mazzilli, coordenadora da Cinemateca Capitólio.
A única cópia, muito desgastada, tinha sérios problemas de imagem e som. Em 2025, foi restaurada digitalmente em alta definição – o chamado escaneamento em 4K – pela Capitólio, em parceria com a Cinemateca Brasileira. No início deste ano, a nova cópia digital estreou no Festival Internacional de Cinema de Roterdã, na Holanda, na mostra Cinema Regained (Cinema recuperado), dedicada a clássicos restaurados.
No filme, Ione Martimbianco interpretou Luísa, a protagonista. Até onde sabem os restauradores, ela é a única pessoa ainda viva de um elenco todo de amadores. Foi localizada por coincidência, depois que familiares viram fotos da restauração em uma reportagem e procuraram os produtores. Curiosamente, foi outro acaso que a fez atriz do filme. “Aconteceu esse milagre, como se dizia antigamente”, diz ela.
No final dos anos 1940, Canela ainda não era um destino turístico da Serra Gaúcha. Com cerca de 7 mil habitantes (hoje tem perto de 50 mil), a cidade oferecia poucas oportunidades para garotas de 17 anos como Ione Martimbianco. As escolas locais não tinham curso de magistério, e ela sonhava em ser professora. A alternativa era estudar em Caxias do Sul, a pouco mais de 70 km de distância, mas seus pais não contavam com recursos para bancar as despesas dela em outro município. “Eu tinha uma ânsia muito grande por aprender, por ler, por ser alguma coisa na vida”, conta Martimbianco.
Ela recorda uma tarde de choro desesperado, no jardim da casa, em que pensou: “Se for para algo mudar, tem que ser agora.” A mudança, entretanto, veio só meses depois, em um baile no popular Clube Serrano. Alta, de olhos verdes e cabelos castanhos, Martimbianco foi tirada para dançar por um homem baixinho e grisalho, recém-chegado a Canela. Ele se apresentou como Eduardo Tanon, assistente de direção de um filme que seria rodado em Torres, e disse que estava à procura de uma moça bonita para estrelar a produção. O cachê seria 20 mil cruzeiros, uma quantia elevada, já que o salário mínimo era 380 cruzeiros. A moça se entusiasmou com a proposta: ganharia mais que o suficiente para pagar os estudos em Caxias – e ainda poderia tentar uma carreira no cinema. Mas tudo dependia do aval da mãe.
Tanon levou o roteiro à casa da futura atriz. “Minha mãe leu e se encantou pela história”, ela recorda. O filme trata do envolvimento sentimental de Luísa, uma jovem insatisfeita com a vida no vilarejo de pescadores, com João, o forasteiro que chega ao local no mesmo momento em que irrompe na região o temido vento norte, prenúncio de um tempo de escassez e miséria.
Dias depois, Martimbianco estava a caminho da cidade de Torres, já com o nome artístico decidido: Patrícia Diniz. O diretor de Vento norte, Salomão Scliar era um renomado fotojornalista (e primo mais velho do futuro escritor Moacyr Scliar) e foi buscá-la em casa. Ele já havia trabalhado na companhia cinematográfica Atlântida, no Rio de Janeiro, e em 1944, quando filmava um curta-metragem no litoral gaúcho, ouvira histórias de pescador sobre o vento norte, que causava secas na região.
Cinco anos depois, fundou a Horizonte Produções, com a qual fez seu único longa com recursos escassos: além de diretor de Vento norte, Salomão Scliar foi o roteirista, o fotógrafo e o montador do filme. Dos quatro atores principais, apenas Roberto Batalin (1927-93), que interpreta João, seguiu na carreira artística, atuando em vários longas, inclusive Rio, 40 Graus, de Nelson Pereira dos Santos.
A produção ficou dois meses em Torres, no final de 1950, hospedada em um pequeno hotel de madeira. Encarregada de costurar o próprio figurino, a atriz principal colocou pesos de chumbo na saia para impedir que o vento a levantasse. As rajadas intensas, somadas ao barulho do mar, prejudicavam a captação de som. Parte da equipe viajou até o Rio de Janeiro, para fazer regravações e correções. Nervosa, Martimbianco embarcou em um avião pela primeira vez, rumo à então capital do Brasil. Sua ansiedade só passou quando se viu diante do imponente Theatro Municipal: “Para mim, foi um susto. Um sonho que nem tinha acontecido.”
De volta a Porto Alegre, Ione Martimbianco participou da avant-première de Vento norte, em junho de 1951, no Cinema Imperial – fechado em 2005. Vestia um traje rosa curto, coberto por um longo casaco de pele marrom. Poucos meses depois, com o cachê, a família da atriz se mudou para Caxias do Sul, onde ela e as irmãs puderam retomar os estudos.
Por ser um filme realizado longe dos principais centros de produção e distribuição do país (Rio e São Paulo), Vento norte passou despercebido pelo grande público. O crítico de cinema Alex Viany, futuro cineasta, definiu-o como um “pequeno milagre de honestidade”. Um ano depois do lançamento, os negativos originais foram destruídos em um incêndio nos estúdios da Atlântida. A única cópia ficou com Salomão Scliar, que a doou à Cinemateca Brasileira no fim dos anos 1980. O diretor morreu em 1991.
Ione Martimbianco não se tornou estrela de cinema. Casou-se e foi viver em Porto Alegre. Formada em filosofia, dedicou-se ao ensino, como sonhava. Na noite do relançamento de Vento norte, em junho passado, antes de se rever na tela como a jovem atriz Patrícia Diniz, ela preferiu celebrar... a própria Ione Martimbianco e a carreira de professora que escolheu: “Eu continuei trabalhando naquilo que gostava: a educação no Brasil. Estamos ajudando o Brasil.”