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FRONTEIRAS DO QUILOMBO

Antropólogas argentinas questionam o sentido pejorativo da palavra em seu país
CRÉDITOS: ANDRÉS SANDOVAL_2026
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Em entrevista a um canal de streaming, em janeiro deste ano, Lionel Messi contou que gosta de ficar sozinho para fugir da bagunça que seus filhos aprontam em casa e disse: El quilombo de la casa con los tres chicos corriendo para todos lados me termina saturando. A mesma palavra – quilombo – foi empregada vinte vezes por Diego Maradona em México 86 – Así ganamos la Copa: mi mundial, mi verdad, livro em que rememora a vitória argentina naquela Copa. Para descrever o caos que reinava em campo ao final do jogo contra a Inglaterra (aquele em que marcou o famoso gol de mão), ele afirmou o seguinte: La cancha era un quilombo. 

Na Argentina, “quilombo” não se refere a comunidades de africanos que resistiam à escravidão: é sinônimo de confusão, desordem. De acordo com o dicionário da Real Academia Espanhola, a palavra tem esse sentido não só entre argentinos, mas também entre uruguaios, paraguaios, bolivianos e hondurenhos. As frases de Maradona e Messi são exemplos de um termo coloquial que se escuta em todo canto na Argentina, sem distinção de cor, classe ou inclinação política. Para os brasileiros, o uso da palavra desvinculada de seu significado histórico e associada a situações negativas pode soar perturbador. 

As antropólogas argentinas Lucrecia Raquel Greco e Ana Gretel Echazú Böschemeier têm investigado as razões dessa mudança de sentido pela qual “quilombo” passa ao atravessar a fronteira. Cientes do significado histórico da palavra no Brasil, elas já não a empregam como sinônimo de bagunça.

As duas pesquisadoras construíram a carreira entre a Argentina e o Brasil. Greco passou temporadas no Rio Grande do Sul, no Rio de Janeiro, no Maranhão e no Acre, foi professora na Universidade Federal da Bahia e teve três filhos com um brasileiro. Hoje, é professora da Universidade de Buenos Aires e pesquisadora do Conicet, o Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas. 

Böschemeier fez mestrado e doutorado em instituições brasileiras, foi professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e trabalhou no Ministério da Igualdade Racial, antes de passar em 2025 num concurso para a Fiocruz, em Brasília, onde realiza pesquisas ligadas a saúde, raça e gênero. 

Apresentadas uma à outra por uma amiga comum, Greco e Böschemeier passaram a trabalhar juntas em uma série de projetos, incluindo um curso sobre questões raciais no Brasil que deram na Universidade Nacional de Salta, no noroeste da Argentina, em 2010. 

O projeto que busca recuperar as raízes históricas da palavra “quilombo” é o mais recente esforço conjunto da dupla. As antropólogas apresentaram resultados da pesquisa num debate promovido em agosto pelo Centro de Estudos Brasileiros da Universidade Nacional Três de Fevereiro (Untref), em Buenos Aires. 

“Quilombo” vem de idiomas da família bantu, falados na África Central, Oriental e Meridional. Lá, designava uma espécie de acampamento militar onde homens de diferentes linhagens passavam por rituais de iniciação e se transformavam numa comunidade de guerreiros. “Essa é uma palavra muito andarilha”, disse Böschemeier, retomando uma metáfora do escritor uruguaio Eduardo Galeano, para quem os vocábulos caminham pelas próprias pernas. “Ela mudou muito quando chegou ao Brasil e mudou de novo quando passou a fazer parte das políticas públicas, há cerca de quarenta anos.” 

A palavra provavelmente chegou à Argentina – onde não há comunidades que se definam como quilombolas, como no Brasil – junto com as primeiras pessoas escravizadas levadas para a região do Rio da Prata, que separa a Argentina do Uruguai. “Boa parte dessas pessoas não chegaram diretamente pelo Porto de Buenos Aires, mas passaram antes pelo Brasil”, disse Böschemeier. Nesse tempo, o vocábulo ainda não tinha ali o sentido de bagunça, hoje predominante.

“Quando eu era pequena, essa palavra designava os espaços onde se praticava a prostituição”, disse uma senhora afro-uruguaia durante o debate em Buenos Aires. De fato, é com o sentido de prostíbulo que a palavra aparece inicialmente em documentos na língua espanhola (a referência mais antiga que as antropólogas identificaram é um documento de 1827 da polícia de Buenos Aires). Essa acepção ainda aparece nos dicionários e na lembrança dos mais velhos, mas está caindo em desuso. 

Para Greco, é possível enxergar continuidades que trazem pistas dos diferentes caminhos que a palavra trilhou entre a saída do Brasil, onde nomeava espaços organizados de resistência, e sua chegada às colônias espanholas, nas quais passou a designar primeiro prostíbulo, e depois bagunça. “Os puteiros eram lugares de reunião à margem da lei, provavelmente frequentados por pessoas negras e marginalizadas”, explicou a antropóloga. “Eram espaços onde acontecia bagunça.” Uma transformação similar aconteceu, no francês, com a palavra bordel, que também significa desordem.

No Brasil, o termo “quilombo” foi usado de forma depreciativa no passado e ainda o é por certos grupos políticos – basta ver como o ex-presidente Jair Bolsonaro se referia aos quilombolas. Böschemeier acredita que a luta do movimento negro organizado, que ajudou a transformar os quilombolas em sujeitos de políticas públicas, foi determinante para que o termo se cristalizasse com carga simbólica positiva. “Não houve na Argentina um movimento que fizesse com que a palavra adquirisse a potência que tem hoje no Brasil”, afirmou.

Lucrecia Greco e Ana Böschemeier estão preparando um livro que pretende reconstituir os caminhos da palavra “quilombo” nos dois lados do Rio da Prata. A ideia é compor um volume bilíngue, em linguagem acessível, para o público geral. Há conversas em andamento com editoras universitárias e comerciais interessadas na obra. A dupla planeja concluir a redação do livro ainda neste ano, para lançá-lo em 2027. 

As antropólogas não pretendem convencer seus compatriotas a abandonar um vocábulo tão entranhado no cotidiano. “Essa é uma palavra que você escuta oitenta vezes por dia”, exagerou Greco. Erradicá-la seria uma tarefa quixotesca, como a própria Böschemeier experimentou ao tentar banir – sem sucesso – o termo do vocabulário da sua família. “Tirar a palavra ‘quilombo’ dos argentinos seria como tirar-lhes o mate”, elas ouviram de um historiador a quem apresentaram o projeto. 

Em vez disso, elas pretendem resgatar a origem e a etimologia da palavra e, quem sabe, estimular com isso subversões do seu uso. Acima de tudo, pretendem motivar a conversa sobre questões raciais num país que tem dificuldade em reconhecer o próprio racismo. “Na Argentina, a discussão racial é tratada como uma questão resolvida”, explicou Böschemeier. “Talvez a palavra ‘quilombo’ seja o catalisador para uma discussão necessária sobre a negação do racismo na Argentina.”

A iniciativa é inspirada por discussões que ela e Greco viram no Brasil e que desejam propor na Argentina. As duas antropólogas se colocam como aliadas da causa negra, mas, sendo mulheres brancas, têm consciência das limitações do seu papel. “Em vez de nos colocarmos como protagonistas de um movimento que não é nosso, pretendemos acompanhar o debate no Brasil e mobilizar as pessoas na Argentina, onde estamos articulando com coletivos afro-­argentinos”, disse Böschemeier.


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Repórter da piauí, é apresentador do podcast A Terra é Redonda (Mesmo) e autor dos livros Admirável novo mundo: uma história da ocupação humana nas Américas (Companhia das Letras) e Domingo É Dia de Ciência (Azougue Editorial)