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Angélica Santa Cruz piauí_240 02 Set 2026
5 min de leitura
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No WhatsApp, os grupos de moradores de Campos Frios – distrito rural a 10 KM da cidade de Xexéu, na Zona da Mata pernambucana – ficaram enlouquecidos entre os dias 29 e 30 de junho passado. Corria à solta a imagem, feita por câmeras de segurança, de um homem andando pelo lugarejo durante a madrugada. E o cabra era sinistro. Usava capa preta que chegava aos pés, chapéu de abas largas, luvas e uma máscara com uma fileira de dentes pontiagudos. Às vezes, a criatura noturna voltava a cabeça para trás, como quem verifica se está sendo seguida. A certa altura, passou na frente de uma casinha com fachada rosa, depois na frente de outra, pintada de azul – e, de repente, veio no sentido contrário.
Parte dos moradores de Campos Frios achou graça da cena. Mas houve quem pensasse que, das duas, uma: ou era alguém querendo apavorar a população, ou, pior, era um pistoleiro. “Isso é uma safadeza, era bom um mói de tiro pra aprender”, revoltou-se uma moradora, no grupo Notícia Informações (o regionalismo “um mói” significa “um monte”). Depois, ela anunciou: “Amanhã vou na delegacia, porque não é coisa que ninguém faça, não.” Outra comentou: “Sangue de Cristo tem poder.”
A queixa da comunidade chegou ao 10º Batalhão da Polícia Militar de Pernambuco. No dia 1º de julho, quarta-feira, por volta das nove da manhã, um sargento bateu no portão do suspeito: o eletricista industrial Elivaldo Ribeiro de Sales, de 43 anos.
Conhecido na região como Uchôa – corruptela de “anchova”, que é como era chamado pelo pai, por gostar muito de pratos com o peixe –, ele estava cuidando do quintal onde se orgulha de cultivar cacau, chuchu, manga, hortaliças como coentro e cheiro-verde, e flores tropicais como a helicônia. “O sargento disse: ‘Pode entrar?’ Eu disse: ‘Entre por favor.’ E ele: ‘Olha, você vai ter que ir lá na delegacia com a gente prestar esclarecimento para a população’”, lembra Sales. E completa: “Perguntei qual é o crime de usar a fantasia de um personagem que gosto.” Se algum dolo fosse provado, seria uma contravenção: perturbação do sossego. “Passei mais ou menos quatro horas de relógio na delegacia. No começo, isso mexeu com a minha saúde emocional, com o meu psicológico”, diz o eletricista.
A primeira festa de São João em Campos Frios começou na noite de 28 de junho e se estendeu madrugada adentro, na frente da igreja Imaculada Conceição da Virgem Maria. Lá pelas três da manhã o povo continuava animado, dançando forró perto da fogueira. “Aqui, não gostamos daquele forró mais estilizado. O nosso negócio ainda é Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Alceu Valença, Jorge de Altinho, Jackson do Pandeiro. No máximo, o piseiro de João Gomes”, explica Elivaldo Sales. O eletricista aproveitou que as atenções do distrito estavam todas voltadas para o forró raiz e colocou em prática um plano que vinha elaborando há dias com o irmão de criação, um caminhoneiro que mora em frente à sua casa.
Sales colocou o chapéu e a capa de vaqueiro que costuma usar em dias de chuva, vestiu máscara e luvas com unhas pontiagudas que comprou no site chinês AliExpress e andou por um trajeto de cerca de 70 metros. Passou na frente das seis câmeras de segurança que instalou nas três casinhas que possui na rua onde mora, que desemboca na igreja. Andou para lá e para cá, na intenção de ter vários ângulos. “Enquanto eu passava, meu irmão ficava na esquina, atucaiando [de espreita] pra ninguém subir, e a rua ficar deserta.” O resultado deixou os dois satisfeitos. As imagens, com aquele efeito de flagrante de câmeras de segurança, seriam lançadas por ele, em grande estilo na conta jeepers_creepers_brasileiro, no Instagram e no YouTube.
Nessa encenação noturna, Sales fazia cosplay do Creeper, monstro comedor de humanos da franquia de filmes de terror Olhos famintos – ou, no original em inglês, Jeepers Creepers, que o eletricista prefere pronunciar em versão deliciosamente abrasileirada: “Jépi Crépi”.
As gravações vazaram, caíram no WhatsApp – e ele foi parar na delegacia. “O meu marido, por dentro, ainda é um adolescente. Guarda até hoje os brinquedinhos dele, que ganhou do pai, em um quarto. Fiquei muito aflita quando soube que tinham levado ele para depor”, diz a dona de casa Clemilda Maria da Silva, mulher de Sales. “Tem pessoas que levam tudo na maldade.”
Além de eletricista industrial, admirador da cultura nordestina e mão verde, Elivaldo Sales é nerd. Planeja se fantasiar também como o major Alan, vivido por Arnold Schwarzenegger em O predador. Sabe tudo sobre a obra de C. S. Lewis, autor de As crônicas de Nárnia. Discorre com desenvoltura a respeito de como os egípcios e os maias mediam a posição dos planetas. Pesquisa tudo o que pode sobre Nikola Tesla, o criador do sistema de corrente alternada. Defende que quem trabalha com eletricidade e perde o respeito por ela, morre. “A eletricidade é como vento: você não vê, você só sente.” A admiração pela série Olhos famintos, porém, se sobressai por motivos afetivos. Ao visitá-lo, os seus sobrinhos sempre pediam para ver o filme do “morcegão”, como eles chamavam o Creeper.
Sales se impressiona com o bom gosto musical desse monstro, que escuta canções dos anos 1950 no rádio de um Chevrolet 1941 antes de triturar suas vítimas. “Herdei do meu pai uma Ford Rural de 1963. Quando ia trabalhar com ela e com minha capa de vaqueiro, todo mundo dizia: ‘Rapaz, tu parece o Jépi Crépi.’ Tomei gosto e resolvi fazer cosplay dele.”
Com o mal-entendido solucionado, Sales assinou um Termo Circunstanciado de Ocorrência, que registra infrações de menor potencial ofensivo, e foi liberado da delegacia.
O dissabor turbinou suas redes sociais – a conta jeepers_creepers_brasileiro no Instagram alcançou mais de 4 mil seguidores em um mês. O eletricista também se aproximou de cosplayers do Brasil inteiro e agora cogita participar do Horror Expo, evento em São Paulo.
Algumas mágoas ficaram. Ele pensa em processar os que o denunciaram na delegacia. Mas o que não perdoa mesmo são veículos que o apelidaram de “Lobisomem de Xexéu”, como a TV Record de São Paulo. “Xexéu, não! Sou de Campos Frios e me orgulho muito”, protesta. “E lobisomem, nunca!” Só de revolta, ele postou um vídeo em que o Jépi Crépi brasileiro nocauteia um raivoso lobisomem. Dessa vez, feito com IA.