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Maurício Brum piauí_241 08 Out 2026
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“Neymar! Neymar!” No mês passado, o grito foi ouvido algumas vezes no interior do Quirguistão. Como o jogador do Santos é a referência esportiva brasileira mais conhecida entre os habitantes locais, eles recorriam a seu nome para saudar os esportistas que ostentavam a tradicional camisa canarinha no pequeno país montanhoso da Ásia Central. Mas esses brasileiros não estavam lá para chutar a bola: participavam da sexta edição dos Jogos Mundiais Nômades, que ocorreu entre 31 de agosto e 6 de setembro.
O evento é uma espécie de Olimpíada dedicada a esportes tradicionais de povos andarilhos da Ásia Central, da Eurásia e da África. Não é preciso ser egresso dessas regiões para participar das competições – delegações de países como Brasil, França e Estados Unidos, dentre outros sem tradição nômade, estiveram no Quirguistão.
Entre as provas, incluem-se modalidades de combate corpo a corpo, falcoaria e até culinária. Também há competições equestres, como o tiro com arco montado e o kökbörü, esporte em que dois times a cavalo competem para jogar uma carcaça de cabra em um buraco que faz as vezes de gol. O kökbörü já teve seu momento cinematográfico: em 1988, figurou em uma cena de Rambo III, que se passa no Afeganistão, onde o jogo se chama buzkashi (o time afegão, porém, retirou-se dos Jogos Nômades deste ano, alegando que a organização não providenciou cavalos adequados).
A Olimpíada tradicional não inclui os chamados esportes cerebrais, como o xadrez. Mas eles estão presentes nos Jogos Nômades. Professora de educação física em uma escola municipal da Zona Oeste de São Paulo, a brasileira Érika Haydn, de 44 anos, disputou em três jogos de tabuleiro.
Haydn já deu aulas de enxadrismo, mas na última década, quando se intensificou a aplicação da lei federal que reforçou o ensino de história e cultura africanas, ela buscou a mancala. Trata-se de uma família de jogos de tabuleiro cujo objetivo é a captura das peças (em geral, pedras ou sementes) do adversário. No ano passado, ela defendeu o Brasil nas Olimpíadas da Mente, em Londres. No Quirguistão, liderou o quarteto nacional que competiu nas seguintes variantes do jogo: oware, surgida em Gana, mangala, da Turquia, e toguz korgool, difundida no Cazaquistão e no próprio Quirguistão.
Os Jogos Mundiais Nômades foram inaugurados em 2014 e desde então vêm acontecendo de dois em dois anos, com exceção de 2020, por causa da pandemia. Idealizados por Askhat Akibaev, um filantropo quirguiz entusiasta da cultura local, tornaram-se paixão nacional do Quirguistão, que sediou quatro de suas seis edições. As outras duas tiveram lugar no Cazaquistão e na Turquia. A próxima será na República do Tartaristão, que faz parte da Federação da Rússia.
Neste ano, o evento reuniu cerca de 3 mil atletas de 106 países. Ônibus decorados com a marca dos Jogos Nômades circulavam pelas ruas de Bishkek, a capital do Quirguistão, onde o governo construiu um moderno estádio de 51 mil lugares para receber a cerimônia de abertura. Em geral ignorado no Ocidente, o evento recebeu chefes de Estado da vizinhança, como Vladimir Putin, da Rússia; Narendra Modi, da Índia; Recep Tayyip Erdoğan, da Turquia; e Aleksandr Lukashenko, de Belarus. Nenhum deles é muito amigo da alternância de poder, e mesmo o presidente do Quirguistão, Sadyr Japarov, que está encerrando o mandato de cinco anos, já vem recebendo críticas por tendências autoritárias e centralizadoras.
Os quirguizes se esforçaram para popularizar a competição, bancando estadias e, em alguns casos, passagens para atletas oriundos de países onde os esportes nômades não atraem público. A hospedagem dos brasileiros foi custeada pela organização, mas todos os competidores pagaram a longa viagem aérea do próprio bolso. “Mesmo assim, foi a primeira vez que conseguimos participar com uma equipe tão grande”, celebra o policial Bruno Moreira, especialista em artes marciais que atuou como chefe da delegação brasileira. “O máximo que tínhamos levado antes eram seis competidores em uma modalidade só. Desta vez, tivemos vinte pessoas em três esportes.”
Além de disputar os esportes cerebrais, com Érika Haydn, a delegação verde e amarela também esteve representada no cabo de guerra e no alysh, uma luta corporal em que o objetivo é derrubar o adversário segurando-o apenas pela faixa na sua cintura.
Apesar da buliçosa abertura ter se dado em Bishkek, o grosso das disputas aconteceu a 250 km da capital, na montanhosa Cholpon-Ata, cidade de menos de 15 mil habitantes. Em um dos países mais distantes do mar aberto (o Oceano Índico, o mais próximo, fica a 2,6 mil km), o destino é conhecido por seus resorts nas margens do Lago Issyk-Kul.
Foi em um desses resorts, não tão longe da Vila Étnica – a “vila olímpica” dos Jogos Nômades, onde atletas dormem em yurts, cabanas tradicionais dos povos andantes da Ásia –, que Haydn viveu uma rotina intensa de até oito partidas por dia. No oware e no mangala, o jogo exige 25 capturas, e cada competidor tem até 20 minutos para fazer seus movimentos. No toguz korgool, é necessário amealhar 82 peças em uma hora no máximo.
Com tantas disputas, a brasileira teve pouco tempo para circular pela cidade. Pelo menos, foi tietada sempre que andou na rua. “Eles viam nossa camisa do Brasil e pediam para tirar foto. Pagavam sorvete. Até na fila da imigração deram preferência para a gente entrar”, conta Haydn. Quando não citavam craques do futebol, os anfitriões abordavam os brasileiros para falar de música. Entre os hits preferidos, estava o Passinho do Jamal, coreografia do brega funk pernambucano que o TikTok fez chegar às estepes da Ásia Central.
O Brasil deixou o Quirquistão sem medalhas, o que não foi surpresa: não havia muita expectativa de vencer as potências nômades e subir ao pódio. No placar geral das medalhas, o Cazaquistão ficou em primeiro lugar, seguido do país-sede dos jogos e da Rússia. Mas a delegação brasileira reforçou o soft power nacional.
Na despedida das modalidades intelectuais, participantes de todo o mundo deixaram como agradecimento na recepção do evento um tabuleiro de mancala artesanal trazido de casa. Eram todos muito parecidos, com exceção daquele que trazia a inscrição a gift from Brazil – e que vinha decorado com a imagem de uma capivara sorridente.