esquina

LAMPIÃO E SEU CRIADOR

A obra de um mestre da arte popular é redescoberta
CRÉDITOS: ANDRÉS SANDOVAL_2026
CRÉDITOS: ANDRÉS SANDOVAL_2026

5 min de leitura

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

Em novembro de 2024, o museólogo Henrique de Vasconcelos Cruz fez uma visita à reserva técnica do Museu do Pontal, instituição carioca que abriga o mais importante acervo de arte popular do Brasil. Estava acompanhado do historiador George Pereira, gerente de museus e bibliotecas da cidade de Caruaru, em Pernambuco, e do pesquisador Vitalino Neto, cujo avô foi um dos maiores escultores de arte popular no país: Vitalino Pereira dos Santos, o Mestre Vitalino (1909-63).

“O Vitalino Neto queria identificar todos os temas retratados pelo avô nas obras”, conta Cruz. Ele se refere às cenas cotidianas da vida no agreste, típicas da arte popular de Caruaru: um casamento, um ladrão de galinha, uma família de retirantes. Para isso, o trio visitou 24 museus e 12 coleções privadas, fazendo com que uma lista inicial de 118 temas – já levantados pelo antropólogo Renê Ribeiro, falecido em 1990 – pulasse para mais de 200. 

Na visita ao Museu do Pontal, eles depararam com uma obra sem autoria. “Foi bem no final da visita, quando Sergio dos Santos, chefe de restauro do museu, nos levou à reserva técnica para mostrar outras peças de Caruaru”, lembra Cruz. 

Entre as várias esculturas de barro, havia um cangaceiro montado sobre um cavalo. O animal e o chapéu do cangaceiro estavam pintados em um tom de vermelho terroso; a roupa era azul escura. A peça tinha cerca de 20 centímetros de altura e não era assinada. “Na hora nem me ocorreu que poderia ser do Mestre Vitalino”, recorda Cruz. “Só mais tarde, pensando com calma, eu tive a impressão de já ter visto aquela peça em outro lugar.”

Henrique de Vasconcelos Cruz é um carioca de 42 anos radicado no Recife, para onde se mudou há quase duas décadas, quando foi aprovado no concurso da Fundação Joaquim Nabuco, que é vinculada ao Ministério da Educação. Nessa instituição, referência na pesquisa histórica e cultural do Brasil, o museólogo tem montado exposições e publicado livros. Mas tomou gosto mesmo pela história detalhada de obras de arte individuais. Há três anos, em parceria com a museóloga Marília Bivar, Cruz organizou Museu do Homem do Nordeste em 40 objetos, livro em que especialistas da fundação biografam 40 das 16 mil peças do museu pernambucano. Uma dessas peças era do Mestre Vitalino.

Biografias de obras famosas – relatos de sua elaboração, recepção e influência – são algo comuns. Há livros aos montes sobre a Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, ou sobre Guernica, de Pablo Picasso. No Brasil, a historiadora Luciene Lehmkuhl publicou uma biografia de Café, tela de Candido Portinari. “Mas é um outro tipo de arte”, observa Cruz. 

Da Vinci, Picasso e Portinari integram o cânone estabelecido. A valorização da arte popular brasileira é mais recente. Mestre Vitalino morreu pobre, em Caruaru, aos 53 anos. Hoje, obras suas estão incorporadas ao acervo permanente de diversos museus, como o Afro Brasil, de São Paulo, o de Belas Artes, do Rio de Janeiro, e o Museu do Quai Branly, de Paris. As maiores coleções estão nos museus do Pontal e da Chácara do Céu, no Rio, e no Museu do Homem do Nordeste, no Recife. 

Cruz dedica-se à obra do Mestre Vitalino desde 2009, quando ajudou a organizar uma exposição para celebrar o centenário do artista. Desde então, acumulou um acervo de fotos, livros e artigos de imprensa que documentam a vida do escultor e ceramista desde a infância, quando começou a esculpir pequenos animais com o barro que a mãe, artesã, usava para fazer as panelas que vendia na feira de Caruaru. 

Foi a essa coleção pessoal que ele recorreu assim que voltou da visita ao Museu do Pontal, em 2024. Começou por um livro do fotógrafo francês Pierre Verger, que retratou a obra do Mestre Vitalino na década de 1940. “Tanto o Vitalino Neto quanto eu tínhamos a lembrança de uma foto específica que lembrava muito a peça do Pontal”, explica. Os dois colocaram a imagem do cangaceiro ao lado da foto de Verger, para comparar detalhes – o corpo do cavalo, o chapéu do cangaceiro, falhas na pintura. “Ali já dava para cravar que a obra era do Vitalino.”

O passo seguinte foi investigar por onde a escultura passara. Cruz procurou um artigo publicado pelo antropólogo Gilberto Freyre na revista Nordeste, do Recife, em 1945. Ele lembrava que o texto era ilustrado com uma foto do acervo de Roberto da Rosa Borges, um dos primeiros colecionadores de arte popular brasileira. Mais uma vez, o cangaceiro estava lá, em meio a outras peças. Por fim, achou uma terceira foto da escultura, na capa da revista Contraponto, publicada em julho de 1948 no Recife. A legenda informava que a peça pertencia a Rosa Borges. Também trazia seu título: Lampião.

Faltava descobrir como Lampião chegou ao Museu do Pontal. Cruz encontrou pistas em uma conversa com a antropóloga Angela Mascelani, diretora e curadora do museu. “O Jac­ques comprou parte do acervo de um colecionador pernambucano, o Abelardo Rodrigues, na década de 1970”, disse Mascelani. O Jacques a quem ela se refere é o designer francês Jacques Van de Beuque, criador do Museu do Pontal, falecido em 2000. “E o Abelardo era primo do Roberto da Rosa Borges”, lembrou Cruz. 

A hipótese dos dois é que a autoria se perdeu à medida que a obra foi passando de mão em mão. No começo da carreira, Vitalino não assinava suas peças. “Ele só passa a assinar, por pressão [de curadores e colecionadores], a partir de uma exposição que faz em São Paulo, na década de 1950”, explicou Mascelani. 

Em agosto passado, Cruz voltou ao Museu do Pontal, junto com Vitalino Neto, para apresentar o resultado de sua pesquisa em um evento que celebrava os 50 anos da instituição. “A identificação dessa obra é um presente que estamos dando ao museu”, anunciou à plateia de cerca de duzentas pessoas. “É muito emocionante você conseguir mapear uma peça, saber onde ela foi feita, para quem foi vendida, como mudou de coleção e como chegou ao museu”, disse, depois do evento. “Não é só a Mo­na Lisa e Guernica. Toda obra de arte pode ter uma boa história por trás.” 


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.


É jornalista e redator do Piauí Herald. É autor do Livro dos Bichos, pela Companhia das Letras