questões vultosas
André Singer piauí_241 08 Out 2026
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A campanha para o primeiro turno de 2026 começou em um ambiente ilusório para a franja democrática da sociedade. Embalado por uma dianteira em torno de 6 pontos percentuais, Luiz Inácio Lula da Silva foi recebido com tapete vermelho na Vila Euclides. Era domingo, 16 de agosto, largada oficial da disputa. No estádio a três quilômetros do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, glamourizado para filmagens de propaganda, Janja evocou dona Marisa e cantou um jingle com o pastor gospel Kleber Lucas, como a desejar boa sorte ao marido. Tudo parecia no lugar.
Naquele momento, o escândalo Dark Horse, o vídeo negativo de Michelle Bolsonaro contra o enteado mais velho, a neutralidade do Centrão e a frase oracular de Gilberto Kassab – “a chance de Flávio se eleger é zero” – diminuíam, no espelho, o tamanho do candidato antidemocrático. A máquina por trás do político mais experiente em atividade e a amplitude da coalizão que o sustentava, de João Pedro Stédile (MST) a Hugo Motta, sugeriam que o autocratismo estava isolado. O PT, de longe a sigla mais bem estruturada entre as dezenas legalmente existentes, planejava obter uma bancada de cem deputados na Câmara, acolher diversas mulheres petistas e coligadas no Senado e eleger governadores do time lulista em todas as regiões do país.
O tamanho das ambições contrastava com a solidão de Flávio Bolsonaro no Rio de Janeiro na mesma data. Sem Tarcísio de Freitas, Michelle ou Silas Malafaia no palco, o postulante do PL se dirigiu a 9 mil cidadãos, segundo a estimativa USP/Cebrap, deixando espaços vazios no amplo calçadão de Copacabana. Em termos comparativos, parecia pouca gente (em São Bernardo, o monitor USP/Cebrap esteve ausente, pois os drones foram proibidos). O evento pintava o retrato antecipado da derrota. Havia quem prognosticasse um lulismo ganhador sem necessidade de segundo turno. Entrevistada pelo Roda Viva da TV Cultura, Cila Schulman, presidente do Instituto Ideia (criado pelo economista Maurício Moura), havia dito que a eleição poderia terminar em 4 de outubro.
Três semanas depois, uma pesquisa Quaest trincou o encanto e abriu a visão para a realidade. Em meio à desmoralização do Supremo Tribunal Federal (STF) pelo caso Vorcaro, o levantamento indicava piora nos índices do governo. Pequenas variações se acumulavam, resultando numa queda de 5 pontos percentuais desde julho entre os que o aprovavam. Felipe Nunes, cientista político e responsável pelo levantamento, apontava o ineditismo de a avaliação cair depois de o horário eleitoral gratuito ter começado a divulgar as realizações de um mandato.
Os motivos da dificuldade estavam longe do Supremo e do Banco Master que tomavam conta do noticiário. Embora houvesse bons números para divulgar – crescimento do PIB, baixo desemprego e inflação sob controle –, uma irritação surda em setores-chave da sociedade questionavam visões róseas. Tema frequente em 2024, quando houve um recorde mundial de eleições, o mau humor com os governantes levou a inúmeras derrotas, como a de Kamala Harris, escolhida pelo Partido Democrata para representar a gestão de Joe Biden (2021 a 2025) nos Estados Unidos.
A economista Isabella Weber, conhecida no Brasil pelo livro Como a China escapou da terapia de choque (Boitempo, 2023), escreveu na revista Foreign Affairs, em janeiro de 2025, que apenas Espanha e México tinham escapado da maldição do incumbente ao controlarem preços. A raiz do problema estaria numa alta planetária do custo de vida, que se originou no fim da pandemia. A onda pós-pandêmica de remarcações teria sido ocasionada pela desorganização das cadeias produtivas durante a Covid. Em seguida, as guerras, que se iniciaram com a invasão da Ucrânia pela Rússia e cujo último episódio foi o bombardeio do Irã pelos Estados Unidos, ajudaram a elevar custos, em particular o dos combustíveis e da comida. Em artigo publicado em junho de 2025, o sociólogo e ex-deputado Liszt Vieira lembrava que, desde 2020, os preços dos alimentos no Brasil acumulavam alta de pouco mais de 55%, enquanto a inflação somava 33,4%.
Foi nesse contexto de alta que o então pré-candidato do PT prometeu que a picanha com cerveja retornaria à mesa do povo. Embora a inflação tenha caído durante Lula 3, na comparação com o tempo de Jair (18% contra 25% entre janeiro do primeiro ano do respectivo mandato e agosto do último), sabe-se que quando ela recua, os preços não voltam ao que eram, apenas sobem mais devagar. Ao herdar preços altos e uma pressão constante sobre o custo da comida, o lulismo se viu confrontado com um drama que decidiu enfrentar por meio de políticas compensatórias, as quais talvez não tenham sido suficientes.
À medida que o descontentamento empurrava a diferença entre Lula e Flávio para um empate nas intenções de voto, setores que buscavam uma terceira via passaram a aceitar que a polarização era inevitável. De todo modo, o desempenho de Ronaldo Caiado, Renan Santos e Romeu Zema tinha baixa vocação centrista. Por isso, quando Augusto Cury, que sequer pontuava, deu um salto e ficou acima dos colegas minoritários, chegando a 11% das intenções de voto em uma das inúmeras pesquisas, houve certo frisson. Com uma atitude ponderada, atraiu os interessados em saídas intermediárias. Lucas Cintra, 35 anos, um advogado de Salvador entrevistado pela Folha de S.Paulo, contou que aderira a Cury por vê-lo como pessoa bem-intencionada e conciliadora. Ao cabo de algumas semanas, todavia, a quantidade de adeptos do psiquiatra e escritor caiu, acabando na casa dos 3% dos votos válidos (Datafolha) às vésperas da eleição.
Com isso, as atenções se deslocaram para a economia. Os profissionais do ramo sabiam há muito que pequenas oscilações eram importantes, uma vez que havia um Fla-Flu, dividindo a sociedade em partes equivalentes. Nas circunstâncias, o “mal-estar difuso”, expressão cunhada pelo jornalista Vinicius Torres Freire, da Folha, teria um papel relevante. Mas de onde emanavam as vibrações negativas que decidiriam o destino da democracia? O epicentro parecia se localizar entre aqueles que o economista Waldir Quadros, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), chama de “pobres intermediários” ou “baixa classe média”. Trata-se de uma ampla camada (37% do eleitorado, segundo o Datafolha) que reúne, entre diversos tipos de profissionais, docentes do nível fundamental, auxiliares de enfermagem, auxiliares de escritório e balconistas. Tal estratificação, sem correspondência direta com as utilizadas nos levantamentos eleitorais, coincide em parte com os que vivem em famílias de renda total entre 2 e 5 salários mínimos e cujas atitudes conseguimos mensurar por meio de enquetes.
No pleito de 2022, nesse degrau de renda, conforme as últimas pesquisas do Datafolha antes do segundo turno, Lula reduziu em 9 pontos percentuais a diferença que Bolsonaro obtivera sobre Fernando Haddad (PT) em 2018. É verdade que ampliou, também, em sete pontos percentuais a vantagem na base da pirâmide (0 a 2 salários de renda familiar mensal; 50% do eleitorado), segundo os mesmos levantamentos. Havia sinais, contudo, de que em 2026 os eleitores de 2 a 5 salários, que oscilam entre o campo popular (lulismo) e o campo de classe média (antes o PSDB, agora o bolsonarismo), estavam insatisfeitos com Lula 3. Em julho deste ano, o Datafolha revelou que 46% achavam o governo ruim ou péssimo, contra apenas 24% que o consideravam ótimo ou bom. Na base da pirâmide, a situação se invertia: 39% o achavam ótimo/bom e 30%, ruim/péssimo.
O problema tinha uma história. Em novembro de 2024, o pacote econômico anunciado em rede oficial de rádio e tevê por Haddad, então ministro da Fazenda, causou um estremecimento que levou a rejeição a outro patamar. O ótimo/bom, medido pelo Datafolha, despencou de 36%, em dezembro de 2024, para 24% no conjunto da população, em fevereiro de 2025, enquanto o ruim/péssimo foi de 34% para 41%. Como veremos a seguir, o ótimo/bom retornou a 35% às vésperas do primeiro turno, mas o patamar de ruim/péssimo permaneceu o mesmo.
O momento pós-pacote sintetizou o caráter contraditório da frente que levara Lula ao Planalto pela terceira vez. A burguesia cosmopolita, que no segundo turno de 2022 apoiara a candidatura democrática, exigia um programa de austeridade, envolvendo, ao que tudo indica, revogar os pisos constitucionais com educação e saúde, além de reduzir gastos previdenciários, mediante a desindexação dos benefícios com respeito ao salário mínimo. Aceitar as exigências levaria a popularidade presidencial para o ralo. As medidas divulgadas, em particular a que limitava a 2,5% os aumentos reais do salário mínimo e o pente-fino no Benefício de Prestação Continuada (BPC), além de outras transferências de renda, foram o limite concessivo arbitrado pelo presidente.
Irritados com a timidez dos cortes e, também, com o anúncio de taxação dos ricos para financiar a isenção do Imposto de Renda aos que ganhavam até 5 mil reais, os capitalistas provocaram uma fuga de capitais da ordem de 30 bilhões de reais. Em consequência, a moeda se desvalorizou, encarecendo as importações, o que impactou outra vez o preço dos alimentos e do custo de vida. As camadas populares sentiram perda de poder de compra no supermercado, azedando de vez um cotidiano sofrido. Por razões opostas, as duas pontas da Concertación, como apelidei a coalizão vitoriosa em 2022, se sentiram frustradas, gerando um mal-estar que nunca se desfez por completo.
O tranco chegou a atingir a base da pirâmide. Afetando as mulheres, os habitantes do Nordeste e os católicos, enfim o núcleo lulista, provocou uma inflexão do terceiro mandato, o qual entrou numa espécie de taylorismo administrativo. Embora tenha se recusado a intervir nos preços, como fizeram Pedro Sánchez (Espanha) e Andrés López Obrador (México), Lula lançou inúmeros programas populares – grandes, médios e pequenos –, recuperando, ao cabo de um semestre, três quartos do sentimento positivo perdido após o pacote. Consignado CLT, liberação de pedaços do FGTS, Gás do Povo, Luz do Povo, ampliação do Minha Casa Minha Vida, linhas de crédito para financiar reformas e reparos residenciais, Agora Tem Especialistas na saúde, Pé-de-Meia na educação e empréstimos subsidiados para compra de carros e motos destinados ao serviço por aplicativos foram algumas das iniciativas. Com elas, o ótimo e bom subiu no segundo semestre de 2025 e, na base da pirâmide de renda, o lulismo, temporariamente abalado, se recompôs. Esperava-se que a isenção do IR, além da bandeira complementar relativa à jornada 6x1, trouxessem de volta, em 2026, os eleitores voláteis dentre a baixa classe média que tivessem se afastado. Apesar da aprovação ainda estar longe de tranquilizar o candidato, Lula se tornava outra vez competitivo e colocou a reeleição na rua.
Enquanto isso, a extrema direita sofria reveses. No segundo semestre de 2025, enquanto o STF julgava a tentativa de golpe por parte de Jair Bolsonaro e acólitos em 2022, o bolsonarismo social ficou calado, dando a impressão de sumiço. Contando com o apoio entusiasta da opinião publicada na mídia, Alexandre de Moraes comandou sessões que condenaram os acusados a longas penas, em um momento de rara afirmação das prerrogativas constitucionais. As posteriores e graves revelações de mensagens do banqueiro Daniel Vorcaro ao paladino daquele processo, aliás, em nada alteram o significado do que foi decidido no julgamento.
Retirado de cena, Bolsonaro indicou o filho Flávio para concorrer em seu nome. No melhor estilo autocrático, deu uma vassourada em Tarcísio de Freitas, o bolsonarista Shrek dos Bandeirantes (ver piauí_218, novembro de 2024), candidato natural na hipótese da inelegibilidade do ex-presidente. Simpático aos extremistas por ser leal ao capitão reformado e aos moderados por ser Shrek, isto é, afável se comparado a histriões como Trump ou Javier Milei, o governador de São Paulo representava a unidade da direita. Do PSD de Kassab até o PL de Valdemar Costa Neto, passando pelo Centrão de Ciro Nogueira e Antônio Rueda, o estamento conservador se unira em torno de Tarcísio.
Ao privatizar a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), uma das maiores operadoras de água e esgoto do mundo, por cerca de 15 bilhões de reais, em julho de 2024, Tarcísio somou à costura partidária uma indisfarçável simpatia empresarial. Da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) a poderosos grupos do agronegócio, passando pela Faria Lima e o setor de serviços, havia uma expectativa de Shrek representar um neoliberalismo duro, porém ajuizado. Previdente, Tarcísio havia se filiado ao Republicanos em 2022, sigla ligada à Igreja Universal do Reino de Deus, por meio da qual mantinha elos com o campo evangélico. A ideia de uma chapa Tarcísio-Michelle circulava com intensidade na seara protestante até as vésperas da varrida bolsonariana.
O diagnóstico de isolamento de Flávio era, portanto, acertado, mas subestimava a baixa aprovação governamental. Esta, por sua vez, alimentaria o antipetismo, reunificando a frente em torno do Zero Um. No campo democrático, a insatisfação larvar desde o final de 2024 foi empurrada para baixo do tapete e só começou a ser reconhecida quando as notícias de inadimplência fizeram ver que a renda média, mesmo tendo subido, não cobria o supermercado, uma vez que uma parte do ganho era drenada por juros estratosféricos. Há alguns anos, a economista Lena Lavinas, da UFRJ, adverte para os efeitos perversos de uma política social enviesada pela concessão de créditos, típica do neoliberalismo financeirizado. Com o endividamento arrochando os orçamentos familiares, o Planalto lançou o Desenrola 2, três anos depois do primeiro, em maio de 2026. Com ele, quase 6 milhões de dívidas foram renegociadas até junho, causando algum alívio e melhoria temporária dos índices de Lula nas pesquisas.
Mas, segundo O Globo publicou duas semanas antes do primeiro turno, 30% delas estavam em atraso de novo, provavelmente baixando o astral dos devedores. O fenômeno das bets, que ganhou ares de epidemia nos lares de baixo ingresso, correspondia, em parte, à busca de uma renda extra para pagar dívidas. Como se sabe, o resultado final é aumentar a dívida. Em suma, com a picanha 7,4% mais cara nos doze meses entre julho de 2025 e 2026, comparada a uma inflação geral de 4%, a frustração com a promessa de Lula turbinou a Confederação, como apelidei o bloco que deu suporte ao “mito” em 2022.
Na Confederação 2026, se reencontraram o agronegócio, empresários grandes, médios e pequenos e, sobretudo, evangélicos que, do ponto de vista numérico, representam o Nordeste do bolsonarismo. As forças de segurança, traumatizadas pelas condenações judiciais de militares, permaneceram na penumbra. A prosperidade obtida pelo extrativismo agrícola-mineral do largo corredor que vai do Norte do Rio Grande do Sul ao Sul da região Norte, passando pelo interior de São Paulo e Minas Gerais, funciona como modelo de sucesso para os perrengues de quem vive nas grandes metrópoles. Aproveitando a oportunidade, Flávio usou o horário eleitoral para falas simples, de ar despretensioso e aspecto propositadamente amador, prometendo baixar o custo de vida por meio de corte de impostos e uma dureza do tipo Bukele, o presidente de El Salvador, contra a bandidagem.
Com efeito, a segurança pública tem sido a ferida aberta de todos os mandatos presidenciais posteriores à Constituição de 1988. À medida que a periferia capitalista soçobra, o crime organizado ocupa os espaços deixados pela falta de desenvolvimento e o consequente encolhimento do Estado. Embora nenhuma das duas propostas do bolsonarismo (corte de impostos e modelo Bukele) seja efetiva em um quadro interno e externo intrincado, capturaram aquele que desejava votar contra o status quo. Em particular, dividiu regiões metropolitanas como as de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, decisivas na escolha do próximo presidente.
Sete de Setembro de 2026. O palanque de Flávio na Avenida Paulista, com Silas Malafaia e Tarcísio, lembrava pouco o vexame de Copacabana. Michelle que, segundo o antropólogo Juliano Spyer, “construiu um espaço próprio na direita brasileira”, pois é “reconhecida como crente legítima” e ajudou a suavizar a imagem de Bolsonaro “junto a mulheres conservadoras” continuava ausente. Mas, ao que consta, perdoou Flávio, passando a gravar mensagens de apoio a candidatos do PL em todos os rincões. Os holofotes conquistados pelo ministro André Mendonça durante a crise no STF ajudaram, também, a recompor os vínculos religiosos da Confederação, abalados durante a brusca substituição de Shrek. Segundo declarou a O Globo o fundador da Igreja Fonte da Vida, César Augusto, Mendonça “virou a expressão evangélica mais forte na vida pública, superando até Michelle”.
Diante do fantasma extremista, Lula mudou o tom, pendurou o salto alto e virou a campanha do avesso três semanas antes do domingo, 4 de outubro. Na sexta-feira, 11 de setembro, durante um comício em Porto Alegre, reconheceu a carestia dos alimentos: “Eu sei que vocês vão no supermercado e as coisas estão caras. A carne está cara, que o café está caro.” No sábado, em Curitiba, afirmou que o Estado precisava continuar a investir, parando com a “babaquice” de fazer superávit. Na quarta, adiantou a um podcast que pensava em proibir as bets, as quais chamou de assalto à economia popular. Na quinta, O Estado de S. Paulo publicou que uma Medida Provisória estava em preparo a fim de operacionalizar a interdição. Na sexta, a Medida Provisória foi assinada.
Em paralelo, o ministro da Fazenda avisou que estudava um Desenrola 3 turbinado, anunciado junto com o fim das bets, para recomprar dívidas antigas. De modo a completar o “sacode a poeira”, o presidente assinou um decreto, corrigindo em 15% o valor do Bolsa Família. O pagamento médio de 777 reais (eram 675) começará a ser feito na segunda, 19 de outubro, menos de uma semana antes do segundo turno. Alguns eleitores irão para a cabine podendo comprar 2 kg de carne moída e uma dúzia de ovos a mais por mês. Como brinde, Lula anunciou a intenção de incorporar as canetas emagrecedoras ao Sistema Único de Saúde (SUS). Um embate que vinha sendo pautado pelos escândalos do Judiciário, converteu-se numa sequência de medidas práticas voltadas para melhorar o humor das camadas populares.
Abertas as urnas, verificou-se que as medidas não foram suficientes para estancar a onda que levou o candidato da extrema-direita a ficar dois pontos percentuais à frente do petista no primeiro turno, cravando 47% contra 45% dos votos. Mesmo sabendo-se que o bolsonarismo atraía, passo a passo, o mau humor acumulado, até a última hora as pesquisas indicavam uma ligeira vantagem para o presidente da República, carregando um pouco da ilusão que predominou na fase inicial do confronto. Mais: o surpreendente desempenho de Douglas Ruas para o governo do Rio de Janeiro, para ficar em um exemplo, mostrou que o descontentamento ganhou dimensões inesperadas. No plano legislativo, tendo eleito dezenove senadores, o PL passará a controlar diretamente um terço das 81 cadeiras da Casa Alta (são necessários dois terços para abrir processo de impeachment contra ministro do STF).
Embora o PT tenha conseguido eleger três governadores no Nordeste, configurando uma divisão em que, junto com parcelas do Norte, a região persiste numa perspectiva menos conservadora, o conjunto dos resultados desenha um estado de ânimo perigoso para o regime democrático. Agora que a realidade se impôs, nas semanas que faltam para o segundo turno em 25 de outubro, a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas, com duas folgas remuneradas por semana, daria um gás a quase 40 milhões de empregados com carteira assinada – caso o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, mantenha o compromisso de pautar a matéria. Conforme destaca a Fundação Perseu Abramo, órgão de estudos do PT, seria o maior avanço trabalhista desde a promulgação da Carta de 1988. Esse avanço, somado ao reajuste do Bolsa Família, ao Desenrola 3, à proibição de bets e ao fornecimento de canetas emagrecedoras, aponta para a transformação de um cotidiano onde os preços continuam a atazanar a grande massa que vive com o dinheiro contado. Tirá-la do sufoco é indispensável para tentar dar à democracia a segunda chance que ela merece.