questões vultosas_ELEIÇÕES 2026_IV
Marcos Nobre piauí_242 05 Nov 2026
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No manual da extrema direita, o segundo mandato seria a hora de dar o bote – e de tirar da cadeia o pai que tentou dar o bote antes da hora. O primeiro mandato é de aparelhamento do Estado e aprendizado da arquitetura da destruição.
A vitória de Lula mostrou que também a coalizão antiautoritária aprende. Entendeu que superestimou a força de ser governo e subestimou a força do bolsonarismo. Entendeu que tinha ficado devendo uma imagem de futuro e uma presença densa e organizada no mundo digital.
O aprendizado teve de ser feito em poucos dias, de atropelo, nos ombros de milhões de pessoas que não precisaram ser chamadas para chamar outros milhões de pessoas para ocupar as ruas reais e virtuais em defesa da Constituição e da decência. Não foi ainda desta vez que se forjou uma imagem de futuro, mas a campanha de Lula foi bem-sucedida em despertar o medo do que poderia ser um futuro sob Flávio Bolsonaro.
Foi suficiente para barrar o bote presidencial que teria dado à extrema direita o controle sobre os três poderes da República. Mas, porque tardio, não foi suficiente para mudar o rumo da maioria das eleições para o Legislativo e os governos de estado. Esse descompasso de mobilização entre os dois turnos se reflete na correlação de forças no Congresso que Lula terá de enfrentar em seu quarto mandato.
No campo da política institucional, o bolsonarismo partirá da maior base parlamentar que um partido já teve desde o retorno da democracia. Contando apenas o PL e seu puxadinho, o Novo, terá 131 deputados na Câmara e 31 cadeiras no Senado. Em levantamento feito pela cientista política Daniela Costanzo, do CCI/Cebrap, o bolsonarismo espalhado por diferentes partidos soma, em sentido estrito, 159 deputados (31%) na Câmara e 41 cadeiras no Senado (ou seja, maioria). “Em sentido estrito”, quer dizer: há Centrão e bolsonarismo em dez partidos diferentes. Até mesmo no PL há Centrão (19 de 121, no levantamento de Costanzo).
Do lado do futuro quarto governo de Lula, a situação é inversa: parte de uma base comparativamente bem menor. A bancada progressista ficou quase do mesmo tamanho que na legislatura anterior, algo como 25% da Câmara, quase 20% no Senado. Ou seja, uma base insuficiente até mesmo para barrar um pedido de impeachment.
Não é exatamente uma surpresa. Já em seu terceiro mandato, Lula liderou um governo de minoria. O Centrão tornou-se menos dependente do Poder Executivo ao longo dos últimos dez anos, como se sabe. Negocia praticamente como um bloco único e a partir de uma posição muito mais vantajosa do que no passado. Em seu terceiro mandato, Lula chegou a liderar uma coalizão que, formalmente, tinha o apoio de catorze partidos. Mas, na prática, contou com apenas cerca de um terço dos deputados e, talvez, dois quintos dos senadores.
Bastou para evitar um processo de impeachment, mas não foi garantia de aprovação de projetos importantes – e muito menos de emendas constitucionais, que exigem maioria de três quintos tanto na Câmara como no Senado. Por outro lado, a aprovação de algumas propostas do governo por ampla margem não significa, de fato, que a gestão contasse com um apoio expressivo ou estável no Congresso correspondente ao tamanho da aliança em termos formais.
O dado segundo o qual o preço por apoio no Congresso subiu exponencialmente significa que Lula 3 teve de pagar mais para conseguir menos. O governo Lula entregou ministérios e cargos não para garantir maioria, mas para assegurar pelo menos aqueles 190 ou 200 votos que servem de barragem a pedidos de impeachment. A coalizão de governo foi, de fato e antes de tudo, uma coalizão anti-impeachment.
Em seu terceiro mandato, Lula colocou o Centrão contra a parede em pautas com apelo popular, sem, contudo, levar a relação a um ponto sem volta. Ao defender a criação de um patamar mínimo para a tributação dos mais ricos ou isenção total de imposto de renda para quem ganha até 5 mil reais e isenção parcial até o limite de 7.350 reais, Lula apostou que, para o Centrão, opor-se a essas medidas custaria caro demais junto ao eleitorado. Lula também recorreu ao Supremo Tribunal Federal para barrar as investidas do Centrão em busca de ampliar seu poder. Nesses quase quatro anos de governo, avançou-se mais na agenda de justiça tributária do que nas gestões anteriores do PT, entre 2003 e 2016.
O evento mais significativo foi a aprovação do fim da escala 6x1, marco inédito na legislação trabalhista. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, o mesmo que barrou a ida de Jorge Messias para o STF, apressou-se em votar, entre os dois turnos da eleição, essa pauta extremamente favorável à candidatura de Lula. Sinalização mais clara impossível de que parte do Centrão saiu do primeiro turno da eleição temendo por seu futuro.
Se Flávio Bolsonaro tivesse vencido a eleição, uma nova aliança teria sido forjada entre o bolsonarismo e a parte do Centrão que pretendia construir com ele um bloco de poder duradouro. A nova versão do Centrão sem medo de se aliar à extrema direita, como descrevi no artigo O Centrão sem medo e a encruzilhada do PT (piauí_204, setembro de 2023), teria um núcleo duro composto por PL, Republicanos e Podemos, além do Novo. Somando-se a esse bloco o bolsonarismo espalhado por diferentes partidos, seria possível chegar a algo como 210 deputados na Câmara. Em conjunção com um total aparelhamento do Estado – transformado em arma para perseguir ou favorecer, primeiro passo de um fechamento autoritário –, teria sido base suficiente para avançar sobre o Centrão e conquistar os votos restantes necessários para aprovar projetos por maioria simples (257) ou mesmo emendas à Constituição (308).
O que tinha sido antes o núcleo duro do Centrão sem medo na Câmara sob Jair Bolsonaro teria deixado de ser caçador para se tornar caça. Na eleição para a Câmara, comparando as bancadas eleitas em 2022 e agora, perderam PP (menos 6 deputados, ficando com 41), União Brasil (menos 11, com 46) e MDB (menos 5, com 36). Perderam ainda sócios minoritários, como o PSDB (menos 2, com 11). O PSD se manteve no mesmo lugar na Câmara (mais 1, com 43).
Mas as cadeiras não foram perdidas apenas para o bolsonarismo. Foram perdidas em especial para aquele que teria sido o novo sócio do “Bloquinho 22 no poder”, o Podemos, que praticamente dobrou sua bancada eleita em 2022, chegando a 27 deputados. Não por acaso, a presidente do Podemos, Renata Abreu, foi cotada para ser vice de Flávio Bolsonaro. O Republicanos, partido de proa do núcleo duro do projeto bolsonarista, ganhou uma cadeira na Câmara e perdeu uma no Senado, onde o Podemos também perdeu uma. E ganhou os governos dos dois estados mais populosos do Brasil, São Paulo e Minas Gerais, que reúnem pouco mais de 30% do total de habitantes do país.
No Senado, o quadro de quem perdeu cadeiras para o bolsonarismo muda um pouco. O PSD perdeu 5 cadeiras, ficando com 4 após a eleição de Omar Aziz para o governo do Amazonas. Em relação à bancada de 2022, o PP perdeu 1 cadeira, ficando com 6. O União Brasil perdeu 7, restando com 5. Os demais ficaram mais ou menos no mesmo lugar. As dificuldades do governo no Senado serão maiores porque, mesmo contando com o apoio daquela parte do Centrão que ligou o alerta para as pretensões hegemonistas do bolsonarismo, este tem, sozinho, maioria naquela Casa.
Não há quem tenha pena do Centrão, evidentemente. Mas, se o projeto da candidatura de Flávio Bolsonaro tivesse vingado, o resultado teria sido não só o início de uma regressão autoritária, mas, ao mesmo tempo, um processo de completa vorcarização da política. Para se ter uma ideia do que seria isso, é preciso ler a impressionante série de reportagens que a piauí publicou durante a campanha eleitoral a respeito de Daniel Vorcaro e o alcance de sua rede de traficâncias, brilhantemente apuradas por Breno Pires, Ana Clara Costa, João Batista Jr., Allan de Abreu, Felícia Cabrita e Mário Gouveia.
O dado mais importante aqui é que um Centrão com medo se torna um ativo para o futuro quarto mandato de Lula. A questão é se o presidente saberá utilizar bem esse medo para conseguir superar as evidentes e enormes dificuldades que terá no Congresso. E como fará isso. Se souber explorar bem o medo do Centrão, é possível que Lula consiga, em seu quarto mandato, o apoio bem mais significativo do que o alcançado em seu terceiro governo.
Há problemas de governabilidade inequívocos. O mais visível é o elefante do estrangulamento fiscal, que continuará no meio da sala, o que quer que aconteça. Outro dos mais evidentes é a crise no STF.
O STF foi um aliado fiel e decisivo de Lula em seu terceiro mandato. Liderando um governo de minoria, não poucas vezes Lula teve de recorrer à Corte para impugnar vetos presidenciais derrubados pelo Congresso, por exemplo. A Corte funcionou como anteparo e substitutivo de uma coalizão insuficientemente grande para aprovar medidas fundamentais para o governo.
Para que o STF continue a desempenhar papel semelhante, Lula terá de tirar as meias sem descalçar os sapatos. É alta a probabilidade de alguma séria baixa no tribunal. Ao mesmo tempo, é dado como certo que Lula conseguirá nomear um novo ministro antes de a nova bancada tomar posse no Senado, em 1º de fevereiro do próximo ano.
Ao se iniciar o bloqueio bolsonarista no Senado na próxima legislatura, pode ser que Lula passe quatro anos sem conseguir nomear nenhum novo ministro para o STF. E pelo menos duas vagas serão abertas com as futuras aposentadorias de Luiz Fux (abril de 2028) e Cármen Lúcia (abril de 2029). Se houver o impeachment de algum ministro antes disso, o tribunal poderá passar a funcionar com o quórum mínimo de oito ministros a partir de 2029.
Do lado do PT, a vitória na eleição significa, em primeiro lugar, que o pós-Lula será realizado com o poder federal nas mãos, o que é certamente uma grande vantagem. O pós-Lula coincide com a necessidade de lidar com formas pós-analógicas de política, com a onipresença do digital. Coincide ainda com a transição do capitalismo para uma configuração pós-neoliberal. É muita coisa para lidar ao mesmo tempo.
Para além das disputas internas, a transição para o pós-Lula dirigida pelo próprio Lula como presidente embute pelo menos três grandes ordens de problemas a enfrentar. O primeiro conjunto de problemas é de ordem tática e consiste em saber como o PT fará para barrar o projeto hegemonista do bolsonarismo no curto e no médio prazo. Vai se aliar taticamente ao Centrão com medo, por exemplo? Vai buscar dar mais organicidade ao campo progressista enquanto tal, incluindo todas as forças que recusem a se aliar à extrema direita? Vai dar mais poder e espaço no governo a figuras como Geraldo Alckmin na formação e gerenciamento da coalizão? Vai seguir como no terceiro mandato de Lula, sem modificações substantivas?
Outra dimensão desse mesmo problema é a estratégia a adotar para competir com o “Partido Digital Bolsonarista”. Esse partido digital não institucionalizado se vale de legendas tradicionais para ampliar seus recursos e chegar ao poder. Ou seja, infiltra-se nos diferentes partidos, onde consegue legendas para candidaturas, mandatos e financiamento público. Mas a coordenação e a tomada de decisões se dão em outro lugar, fora dessa institucionalidade.
Nas redes, nenhuma força política, hoje, compete de igual para igual com o Partido Digital Bolsonarista[1] em termos de organização. Trata-se de uma organização digital ampla, altamente mobilizada e engajada. Um partido sem CNPJ que, por isso mesmo, não está obrigado a prestar contas a ninguém sobre o tanto de dinheiro que corre em suas redes.
O Partido Digital Bolsonarista se organiza no interior de um ecossistema digital muito mais amplo. Nesse ambiente, convergem plataformas de streaming, cursos online, grupos e canais de WhatsApp, influenciadores, comunidades digitais de todos os tipos, fóruns de discussão. Permite que muitos sobrevivam apenas com o que ganham nesse universo, seja por monetização, assinaturas, propaganda e venda de produtos. Produz um tipo de cultura, de visão de mundo que leva pessoas a se identificarem como “bolsonaristas” quando indagadas sobre sua posição política em pesquisas de opinião.
Foi isso que a ditadura militar não teve, nem de longe. Tinha as Forças Armadas, uma organização inadequada para coordenar a política. Nunca antes a direita e a extrema direita brasileiras tiveram um partido de massas como o Partido Digital Bolsonarista. E isso faz toda a diferença.
O PT, de sua parte, foi a espinha dorsal da redemocratização. Desde que chegou pela primeira vez ao segundo turno da eleição presidencial, em 1989, tornou-se, a favor ou contra, a força organizadora da política. Isso explica a posição que o partido ocupa como reserva institucional de última instância. Mas, ainda que seja um partido de massas, segue sendo fundamentalmente analógico, tradicional.
Mesmo assim, do ponto de vista do sistema político, o PT sempre foi um “partido problema”. Não se encaixava no esquema tradicional dos partidos brasileiros. Nasceu como partido de massas, com vida interna, diretamente ligado a sindicatos e movimentos sociais, com grande capacidade de mobilização e articulação de rua e da esfera pública. Sua integração ao sistema político foi extremamente acidentada.
São características que fizeram do PT um partido paranoico. Por boas e más razões. Boas porque o partido desafiava o esquema tradicional da política brasileira, patologicamente elitista, clientelista e corrupto. Ruins porque, sendo um “partido problema”, sempre foi alvo e, para se defender, fechou-se em copas contra quaisquer força política e opinião que não fossem legítima e rigorosamente internas.
Em suma, o PT é um partido paranoico porque é, de fato, perseguido. O sistema político sempre se esmerou em tentar jogá-lo para fora da estrada. Só que o efeito disso foi o partido se fechar cada vez mais em si mesmo, limitando a vida interna e sua atuação de base. Isso funcionou durante muito tempo. Até que apareceu outro partido de massas – digital, desta vez – para fazer-lhe concorrência direta.
Faz parte da paranoia do PT ter desenvolvido uma personalidade controladora. Desde que foi fundado, nenhuma outra força política de peso remotamente semelhante se organizou à sua esquerda. Desconfia de qualquer mobilização de esquerda ou mesmo progressista que não tenha sido convocada por ele e vai sempre buscar desmontá-la se puder.
Faz isso porque é forte, porque tem enraizamento social e institucional real. Mas essa característica não ajuda no momento atual. Nem ao país nem ao próprio PT. O que leva às perguntas seguintes: apesar da justificada paranoia, o PT vai se abrir de verdade para mecanismos de participação, como prévias? Aceitaria estabelecer parcerias, ainda que tensas e conflituosas, com organizações digitais do mesmo campo, mas que não estão sob seu controle direto? Seria capaz de promover campanhas de filiação em massa e renovar sua vida interna? Vai se empenhar na construção de um ecossistema digital de esquerda (ou progressista) que seja capaz de lidar com a divisão da sociedade em termos culturais, econômicos, afetivos, políticos? Um ambiente digital com organicidade e propósito, capaz de chegar ao cotidiano das pessoas e oferecer sentido às suas experiências e vivências? Vai seguir nos mesmos moldes em que atua hoje?
As perguntas são muitas, porque o futuro dependerá, como talvez nunca antes, das decisões que o PT tomar a partir de agora. Não serão decisões de detalhe, mudanças táticas corriqueiras. Serão decisões e alterações de estratégia, de fundo.
Diante desse quadro, é possível que a esquerda brasileira, em sentido mais amplo, venha a se abrir para novas experiências. Pode ser que surjam organizações informais como a que se tornou referência para candidaturas de esquerda no Partido Democrata nos Estados Unidos, os Democratas Socialistas da América. Mas, para que qualquer uma dessas novidades se torne ganho organizativo, será necessário um enorme esforço de superar o esquema ainda predominantemente analógico que caracteriza a organização das esquerdas no país.
No segundo turno, dezenas de milhares de pessoas saíram às ruas para defender a candidatura de Lula e o programa progressista. Como há muito não se via. Como se fosse Junho de 2013. Quando foram divulgados os resultados do primeiro turno, mostrando Lula atrás do adversário, sua campanha ficou atordoada, sem rumo. Nesse momento, houve uma desconcentração do “poder de convocação”, que se espalhou pelo campo progressista como um todo.
Milhões se engajaram em militância digital, ao Exército do Lula, a microinfluenciadores de todas as proveniências. As pessoas se apropriaram de técnicas e tecnologias de que antes não dispunham. Não apenas executaram tarefas, mas passaram a usar esse novo conhecimento também para produzir peças políticas criativas, executadas de maneira autônoma e independente.
Essa notável mudança pode ser vista em inúmeros casos. Para ficar em apenas um, em janeiro do ano passado, o deputado bolsonarista Nikolas Ferreira (PL-MG) fez um vídeo sobre o Pix que causou um dano quase irreparável. O governo ficou atônito, sem saber como responder. Nesta eleição, um suposto “vídeo-denúncia” do mesmo deputado, realizado no Nordeste, foi desmontado como farsa de maneira relativamente rápida por ações que não tiveram participação direta da campanha de Lula.
O que será dessa novidade toda? Quem se engajou na campanha com outras pessoas em seu bairro, em grupos de WhatsApp, em comunidades e fóruns de debate vai seguir com esse engajamento? Vai buscar articulações mais amplas?
Não que essas perguntas se dirijam exclusivamente ao contexto brasileiro. Mas em alguns outros lugares, as coisas estão se mexendo. Mesmo que não se saiba ainda no que vai dar, um novo ciclo de revoltas da juventude teve início na Índia e em muitos lugares da Europa. Nos Estados Unidos, a esquerda do Partido Democrata desafiou com sucesso várias figuras tradicionais, conquistando em prévias candidaturas ao Legislativo e ao Executivo de estados que votam há décadas no Partido Republicano.
Algo dessas revoltas da juventude parecem ter chegado ao Brasil durante o segundo turno. Se ganharem densidade e corpo, serão tratadas pelo governo do PT de maneira hostil como foi Junho de 2013? Ou serão vistas como recurso de combate ao bolsonarismo? Desdobramentos como esse serão o teste de fogo para saber se o PT vai conseguir lidar com uma possível “perda de controle” – como se dizia em Junho de 2013. Sem isso, não há adensamento de um universo digital da esquerda que seja possível.
Outra ordem de problemas está na inserção geopolítica do país. As eleições de 2026 no Brasil tiveram como ponto central o alinhamento – ou não – com os Estados Unidos. Isso poderá definir o futuro da postura do governo em relação ao neoextrativismo, depois de quase quarenta anos de hegemonia neoliberal.
A guerra no Irã, travada por Israel e pelos Estados Unidos, bem como a intervenção militar da administração Trump na Venezuela (e uma possível intervenção em Cuba, conforme a ameaça da Casa Branca) servem também como um lembrete da posição periférica – ou semiperiférica – do Brasil no cenário internacional.
Ao assinar o Acordo de Comércio e Investimento Recíproco entre Estados Unidos e Argentina, em fevereiro, o representante de comércio americano, Jamieson Greer, afirmou: “O aprofundamento da parceria entre o presidente Trump e o presidente Milei serve como modelo de como os países das Américas, do Alasca à Terra do Fogo, podem promover nossas ambições compartilhadas e salvaguardar nossa segurança econômica e nacional.” O acordo eliminará tarifas sobre mais de duzentos produtos americanos – incluindo maquinário, equipamentos de transporte e produtos farmacêuticos e químicos –, ameaçando inviabilizar o que resta do setor manufatureiro argentino.
A declaração, contudo, promete muito mais. Ela estabelece uma parceria entre dois presidentes, e não entre dois países, e delineia o modelo que o atual governo americano propõe para todas as Américas – ao menos no que diz respeito aos incentivos positivos, quer dizer, à troca incerta por proteção e investimento. O lado coercitivo, por sua vez, tem se manifestado por meio da intervenção dos Estados Unidos na Venezuela e do bloqueio a Cuba. E ganha nova dimensão com a criação do Escudo das Américas proposto por Trump, destinado a consolidar a influência de Washington na região.
Em um discurso proferido em Dallas, no Texas, no final de março, Flávio Bolsonaro prometeu que os interesses do Brasil estariam totalmente alinhados aos dos Estados Unidos. E acrescentou: “O Brasil será o campo de batalha onde se decidirá o futuro do hemisfério, pois o país representa a solução para que a América rompa sua dependência da China no que tange a minerais críticos, especialmente elementos de terras raras.” Sem esses recursos naturais, completou ele, “a revolução tecnológica da América estagna, e a segurança nacional torna-se vulnerável. E, quando a América se torna vulnerável, todo o mundo livre também fica vulnerável”.
Essa é uma das defesas mais explícitas da posição neoextrativista em que o Brasil se encontra depois de décadas de desindustrialização e reprimarização – a tendência a um “neoextrativismo verde”, conforme estudo de Arilson Favareto e equipe[2]. É certo que também o novo mandato de Lula seguirá ainda preso à armadilha neoextrativista. Mas, à diferença da coalizão de direita com a extrema direita, a coalizão progressista vê essa posição como uma armadilha da qual o país precisa escapar.
A exploração de petróleo é especialmente relevante nesse contexto, dado o seu papel cada vez maior na economia brasileira. Entre os dois turnos da eleição, ficamos sabendo que a exportação de petróleo ultrapassou em valores a de soja, por exemplo. Entre janeiro e setembro deste ano, o superávit da balança de petróleo correspondeu à metade do superávit da balança comercial total. Mesmo levando em conta o aumento dos preços em razão do ataque dos Estados Unidos ao Irã, a tendência é que essa participação se mantenha nos próximos anos. À tendência a nos tornarmos um país petroleiro, é preciso acrescentar as significativas reservas de terras raras e minerais críticos e estratégicos.
Não há como um país semiperiférico sair sozinho da armadilha neoextrativista. É preciso construir coalizões com outros países, cartelizar produtos, fazer acordos de defesa mútua, de transferência de tecnologia[3]. Em setembro, foi lançada a iniciativa Parceiros pelo Multilateralismo (P4M), cujo manifesto foi assinado, inicialmente, por Lula, pelo presidente do Conselho Europeu, pelo presidente do Quênia e pelo primeiro-ministro do Canadá. Pode ser um passo nessa direção de construção de coalizões entre países para fazer frente à formação de poderes neoimperiais. Mas é bem pouco evidente como isso seria possível sem um acordo de grande alcance, como uma parceria com a União Europeia, por exemplo.
Outro conjunto de problemas por enfrentar é igualmente de ordem estratégica: a imagem de futuro que o PT terá para apresentar. Vai produzir um programa comum, uma imagem de futuro que seja expressão do campo progressista como um todo? Produzirá um programa à esquerda, buscando conexão com agendas globais que surgiram apenas sob a forma de ensaios tímidos no terceiro governo de Lula? Como fará isso?
Não é nem um pouco fácil construir um programa mais amplo, que sustente uma coalizão capaz de barrar a extrema direita no médio e no longo prazo. Para começar, exige reconhecer que a situação é crítica, que a ameaça é real e iminente. Exige uma mudança de postura por parte do próprio PT.
Há certamente todas as divisões que caracterizam há um bom tempo as disputas presidenciais. Lula tende a ter mais votos entre os mais pobres, as mulheres, os católicos, os mais velhos e as pessoas com menor escolaridade. Os Bolsonaro tendem a ter mais votos entre homens, jovens, evangélicos e pessoas com renda e escolaridade mais altas. Mas isso não é suficiente para pensar quais as imagens de futuro estão associadas a essa divisão do eleitorado.
Uma pesquisa Meio/Ideia realizada entre os dois turnos da eleição deu mais nitidez à divisão do eleitorado quanto a uma imagem de futuro. Como escreveu Cila Schulman no Valor Econômico de 22 de outubro, para “43% dos entrevistados, melhorar de vida significa ter o próprio negócio ou trabalhar por conta própria. Para 32%, significa ter carteira assinada e direitos garantidos. Flávio tem 62,3% no primeiro grupo; Lula, 65,4% no segundo”. Não é de surpreender, portanto, que Flávio Bolsonaro tenha prometido criar o Ministério da Prosperidade.
Dito de outra maneira, quem se beneficiou dos anos de prosperidade dos governos petistas foi quem agora menos votou no PT. Ou seja: na prática, o PT fez nascer um eleitorado cujas novas ambições não soube contemplar. A explicação para isso está justamente na seguinte discrepância: as expectativas para o futuro ficaram mais ambiciosas do que o acesso a produtos e serviços, como mostram Laura Carvalho e Guilherme Klein, no artigo Por que o desempenho econômico de Lula 3 não se converte em popularidade, publicado na Folha de S.Paulo em 9 de maio de 2026.
Há um enquadramento muito preciso para a mudança social que resultou em divisão eleitoral. Trata-se de uma alteração material nas condições de vida que encontrou uma contrapartida de visão de mundo no campo bolsonarista. A divisão do mercado de trabalho em formal e informal – por imprecisa que seja – corresponde a um tipo de injustiça crônica. Cria um mundo de direitos trabalhistas acessíveis apenas a quem está na “formalidade” – resultado do que a brilhante análise de Wanderley Guilherme dos Santos chamou, ainda em 1979, de “cidadania regulada”.
Não há prosperidade nem melhora dos serviços públicos e programas sociais que consiga mitigar os efeitos perversos dessa divisão. Acresce que há uma injustiça crônica presente também nas relações de subordinação entre patrões e empregados. Em uma pesquisa de âmbito nacional realizada pelo CCI/Cebrap em 2024, perguntamos qual seria a característica mais valorizada no trabalho. A primeira opção para 33% dos entrevistados foi “ser bem tratado”. O item “remuneração” veio como segunda opção e alcançou 24%.
Ou seja, fica claro de que maneira essa questão se entrelaça com o enfrentamento do bolsonarismo. A imagem de futuro proposta pelo bolsonarismo foi construída sobre uma base material muito palpável. E foi construída ao longo de mais de duas décadas. No campo digital, muito especialmente. Por forças e iniciativas que, na origem, nada tinham a ver com o bolsonarismo, que terminou por se apropriar e se beneficiar desse adensamento de longo prazo, resultado de um processo de acúmulo surgido nos anos 2000, como mostrou Camila Rocha em Menos Marx, mais Mises (Todavia, 2021).
Não se trata apenas da vitória de certa cultura do empreendedorismo, portanto. Há muito mais coisa envolvida. Não é só “guerra cultural”. É luta de classes. Que não se dirige contra o patrão, mas adota uma estratégia de fuga do enfrentamento direto com o poder patronal rumo à informalidade do empreendimento pessoal. Uma informalidade que se pretende “sem patrão”.
Isso acaba por produzir uma luta entre os mais e os menos lascados. Não há como chegar a regras compartilhadas de justiça nessas circunstâncias. Essa fratura estrutural tem de estar na base de qualquer programa político progressista, sobretudo porque, sob a direção da extrema direita, a luta dos mais e dos menos lascados tende a adquirir a forma limite da destruição do outro.
Dado por acabado e “renascido” inúmeras vezes, o PT está de novo em uma encruzilhada. E terá que decidir o que pretende ser daqui por diante. Da velha cara que mantiver ou da nova versão que adotará dependerão em boa medida os rumos do país e da democracia nas próximas décadas.
[1] Quem quiser saber mais, pode baixar gratuitamente o livro O partido digital bolsonarista no site cci-cebrap.org.br
[2] Veja Risco da transição ecológica é reproduzir desigualdade, no jornal Valor Econômico, em 31 de agosto de 2026.
[3] Veja O Brasil sob Trump: uma reflexão sobre a subglobalização em tempos ameaçadores, de Marcos Nobre (piauí_225, junho de 2025).