questões crônicas & agudas
Mario Sergio Conti Jun 2013 09h27
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Antonio Candido salvou Antonio Prata de ser castrado a dentadas. Os dois Antonios moravam numa mesma vila de casas geminadas no Itaim Bibi, o bairro paulistano. Candido, o crítico literário, olhava o vizinho Prata conversar com sua neta. E se alarmou quando ela avisou ao amigo que ia tirar-lhe a calça e morder seu pinto. O professor interveio e impediu o pior. Sua neta tinha 5 anos; Prata, 4.
Noutra ocasião, o pequeno Antonio foi abalroado por um carro na vila. A ensaísta Gilda de Mello e Souza, que foi casada com o grande Antonio por mais de sessenta anos, saiu de casa correndo para acudi-lo.
Candido e dona Gilda protegeram o petiz da pá virada dos percalços da infância, e o vizinho pôde virar escritor como eles. Prata publica crônicas todas as quartas-feiras na Folha de S.Paulo. Tem 35 anos e aparenta dez a menos. É baixo (1,69 metro), franzino, usa óculos para os 4 graus de miopia, veste camisetas listradas e calças de moletom que lhe revelam o cofrinho quando se abaixa.
Seus amigos, que o chamam de Pratinha, zoam com ele dizendo que começou a pintar os cabelos. Até seu pai, o também escritor Mario Prata, autor da novela Estúpido Cupido e da peça Besame Mucho, mandou-lhe um e-mail perguntando que tinta ele usa. O cronista afastou a franja e permitiu uma análise meticulosa da raiz do material em questão: o cabelo está mais escuro do que na adolescência, mas ele não o pinta (ainda?).
A Folha publica as crônicas de Antonio Prata na casa das máquinas do jornal. Elas saem no caderno Cotidiano, emboladas numa página com a previsão do tempo, informações sobre o trânsito, reclamações de leitores e um resumo burocrático daquilo que o jornal noticiou há meio século.
A prata da Folha está alojada na vetusta página 2, pedestal para opiniões de terno e gravata acerca do nheco-nheco da política, e no fim da Ilustrada, a torre aveludada de azul-marinho de onde pontificam sobre todos os assuntos do universo. Já o Prata cronista acha maneiro o seu cantinho no térreo. “Prefiro ficar numa esquina onde todo leitor passa para ir de uma página séria a outra”, disse.
Na crônica, é assim mesmo: o escritor puxa um papo fiado com o passante. Fala do café aguado que tomou na padaria, do absurdo que lhe disseram, da coisa tola que lembrou há pouco. Observa a paisagem urbana que muda e as pessoas que atravessam a rua. Tenta captar um fulgor esquivo que não voltará jamais, e que se perderá para sempre na internet assim que a crônica for lida. Se for em papel, a página com a crônica poderá forrar a gaiola do passarinho.
Como em muitos outros assuntos literários, uma boa análise da crônica foi feita pelo vizinho de Antonio Prata. São umas poucas páginas, com o título “Ao rés do chão”, que Antonio Candido escreveu há mais de três décadas como introdução a uma antologia de cronistas. O professor aposentado da Universidade de São Paulo começa dizendo que a crônica não é um gênero maior, “nem se pensaria em atribuir o Prêmio Nobel a um cronista, por melhor que fosse”. Mas a seguir comemora:
“Graças a Deus”, seria o caso de dizer, porque sendo assim ela fica mais perto de nós. E para muitos pode servir de caminho não apenas para a vida, que ela serve de perto, mas para a literatura. Por meio dos assuntos, da composição solta, do ar de coisa sem necessidade que costuma assumir, ela se ajusta à sensibilidade de todo o dia.
Ao se colar ao cotidiano, prossegue Antonio Candido, a crônica quebra o monumental e o enfático: “Em lugar de oferecer um cenário excelso, numa revoada de adjetivos e períodos candentes, pega o miúdo e mostra nele uma grandeza, uma beleza ou uma singularidade insuspeitadas.”
A crônica, “filha do jornal e da era da máquina, onde tudo acaba tão depressa”, nasceu na França há quase dois séculos com o nome de folhetim. No Brasil, ela foi primeiro artigo de rodapé sobre questões políticas, literárias e urbanas do dia a dia. Depois encurtou de tamanho, ganhou uma feição à toa, abandonou a lógica argumentativa e adotou uma dicção coloquial. Com isso, os cronistas se contrapuseram ao requinte gramatical pomposo e à sinonímia opulenta (a mania rui-barbosiana de achar sinônimos afetados para termos pedestres: petiz no lugar de criança) que distinguia os pincenês bem letrados do pobre do leitor.
Como a jiboia, a crônica desliza pelo chão e é eminentemente brasileira. José de Alencar e Machado de Assis foram cronistas. Olavo Bilac deu-lhe traços que ela mantém até hoje, como o humor suave, os laivos de lirismo e a linguagem sem badulaques. No modernismo, Mário de Andrade, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade escreveram crônicas. A brigada ligeira das Minas Gerais atacou nos anos 50, tendo à frente Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Otto Lara Resende. O gênero chegou ao apogeu no fim daquela década e na seguinte. Só a Manchete, a revista de maior vendagem, publicava quatro crônicas por semana.
Antonio Candido resumiu a força do gênero: “A crônica está sempre ajudando a estabelecer ou restabelecer a dimensão das coisas e das pessoas.” O cronista não busca o abstrato nem a história. Trata com retidão o que vê ao rés do chão e compartilha pensamentos com o leitor, tornando íntima a sua voz. Com esse apego ao mundo próximo e material, dá uma medida ao homem.
Como literatura não é culinária, a descrição dos ingredientes da crônica não funciona como receita. O seu conteúdo também não conta: escrever sobre o cotidiano não faz um cronista. É a intuição do escritor, o andamento que dá às frases, que faz com que meia dúzia de parágrafos virem crônica. Incorporar os nervos da vida à forma literária é o desafio para achar a medida do homem. É preciso arte para fazer isso.
Os Antonios saíram da vila no Itaim Bibi. O bairro foi devorado pela especulação imobiliária. Sobradinhos, galpões, depósitos e o pequeno comércio deram lugar aos edifícios envidraçados das grandes corporações, a centenas de escapamentos de ônibus, a restaurantes com manobrista e a congestionamentos perenes. A ruela de Candido e Prata não existe mais.
O professor, hoje com 95 anos, vive num apartamento perto da avenida Paulista. O cronista morou no térreo de um pequeno prédio nas Perdizes, onde uma vizinha de cima jogava no seu quintal bitucas com marcas de batom vermelho. Agora sentou praça nos arredores de São Paulo, numa casa de condomínio com o nome infame de Residence Park.
Antonio Prata soube no fim da infância que a vila no Itaim seria posta abaixo. Ficou perplexo. Era ali que andara de bicicleta, se escondera no matagal no fundo da rua, desentranhara tampinhas de refrigerantes de frestas entre paralelepípedos. Pegou um papel, escreveu sobre o assunto e o entregou à irmã e à mãe, a escritora e dramaturga Marta Góes, autora de Um Porto para Elizabeth Bishop.
As duas se comoveram e choraram. Prata ficou mais perturbado. Então é possível fazer mulheres chorarem com um texto?, espantou-se. Passara a meninice ouvindo o tec-tec-tec do pai batendo à máquina, fechado num quarto. Achava legal que ele trabalhasse em casa, mas nunca pensara em ser escritor. Passou a se interessar mais pelas aulas de redação. “O Antonio levava jeito, tinha uma atenção às coisas e um balanço na escrita que eram incomuns”, disse Angela Carvalho, que foi sua professora no Colégio Oswald de Andrade.
Prata fez filosofia na USP (entendeu pouco e saiu), cinema na FAAP (achou chato e foi embora) e ciências sociais na PUC (fez até o último ano, mas não concluiu o curso). Com pouco mais de 20 anos, viajou com três amigos pelos confins do Piauí, do Ceará e de Pernambuco. Patrocinados pelo programa Comunidade Solidária e empresas, tinham um projeto vagamente literário.
Foram com ele o escritor Chico Mattoso, o jornalista Paulo Werneck, hoje na Folha, e o ilustrador José Vicente da Veiga. Tiraram fotografias da caatinga e suas gentes, escreveram crônicas, fizeram desenhos e criaram enredos para fotonovelas interpretadas por sertanejos. Da empreitada resultou o livro Cabras: Caderno de Viagem, que teve succès d’estime.
Mesmo distantes, Prata e Candido mantinham um contato enviesado: a diarista Gorete trabalhava em dias alternados na casa de um e de outro. Por meio dela, mandou um exemplar ao ex-vizinho. Na semana seguinte, a empregada contou que o crítico lera o livro, dera risadas e dissera a dona Gilda que gostara de Cabras. Houve interesse, meses depois, em se lançar uma segunda edição. Prata pensou em pedir um prefácio a Antonio Candido.
Daria uma crônica: o jovem criou coragem, escreveu ao velho uma carta mendigando o prefácio e a entregou a Gorete, para que ela servisse de pombo-correio. Uma semana se passou e a empregada trouxe a resposta: “O professor disse que faz.” Quinze dias voaram com Prata perguntando, ansioso: “E aí, Gorete, ele escreveu?” Mas o prefácio não vinha. Até que Gorete lhe contou que havia chamado o outro patrão na chincha e dissera algo como “Ô, professor, que que é isso? O Antonio lá esperando o negócio dele e o senhor aí sem dar resposta”. Como Prata, Candido temia e obedecia a Gorete. Naquela mesma tarde datilografou o prefácio.
“O que eu quero é saudar esses quatro simpáticos rapazes que se meteram pelo Nordeste com uma disposição e um discernimento de fazer inveja ao nosso hábito inveterado de conhecer o Brasil por tabela, sempre nos louvando no relato e na opinião dos outros”, escreveu Antonio Candido. “Os rapazes andantes souberam compor um livro que se lê com o maior interesse e retrata a vida como se ela fosse uma espécie de invenção reveladora.” E concluiu: “Bom trabalho, rapazes.”
Antonio Prata foi convidado pela revista Capricho para ser cronista. Era uma situação sinistra: o autor de 23 anos escreveria para meninas de 16. Adotou a estratégia do memorialismo precoce: escrever para adolescentes o que ele, dez anos antes, achava das meninas da sua idade. Marcadamente geracionais, suas crônicas falaram de tensão pré-menstrual, dos três porquinhos, como dar e levar um fora, a escolha da faculdade, camisinha, drogas, dificuldades com o corpo em crescimento, rock escutado alto.
Angela Carvalho, a professora de Prata na adolescência, o convidou há pouco para fazer uma palestra no Vera Cruz, uma escola particular na Vila Leopoldina. Ela dá aulas lá para o 2º ano do ensino médio, e passou o semestre orientando os alunos a escrever crônicas. Havia uns 100 estudantes de 15 anos numa sala abafada e desatenta. Embora seja proibido namorar e ligar o celular durante as aulas, dois casais de meninas se beijavam e, discretamente, muitos checavam mensagens no Blackberry ou no iPhone.
Prata falou tanto de temas pueris – soltar pum, sachês de ketchup – como literários. Atribuiu um verso de Fernando Pessoa a Bandeira, mas só Angela percebeu. A curiosidade aumentou quando ele contou que escrevia para a televisão e colaborara na novela Avenida Brasil. Os sete que fizeram perguntas foram bem específicos. Queriam saber como escrever melhor. No final da palestra, a sala gritou e assobiou como a claque do programa de Luciano Huck.
Depois dos autógrafos, ele foi almoçar num restaurante por quilo ali perto. Uma das crônicas de Prata fala da difícil etiqueta na fila para se servir antes de pesar o prato. Deve-se afetar bonomia ou demonstrar impaciência com os lerdos? É de bom-tom passar na frente de todo mundo e ir direto para a seção de carnes? Pega bem bufar quando o brutamontes ao lado se serve de pepino e rúcula com o garfo próprio e usado? São questões fúteis mas reais.
Prata notou que naquele quilo o problema era menor. Havia filas dos dois lados da mesa com comidas, atenuando o congestionamento de esfomeados. Mas ele não sabe tudo sobre o assunto: sem noção, foi para o andar de cima como um bobo alegre, enquanto Angela Carvalho o esperava numa mesa no térreo. Deve ter ficado uma meia hora rodando sabe-se lá onde.
A professora contou que o interesse dos alunos pela literatura é cada vez menor. “A internet, a troca de mensagens e a televisão são onipresentes”, disse Angela Carvalho. “Mas sempre há um grupo de alunos que passa a gostar de literatura. O caminho certeiro para chegar a eles é começar pela crônica.” A irmã da professora morrera na semana anterior e Antonio Prata abraçou-a apertado e longamente.
O cronista precisava ir depois do almoço à produtora O2, na mesma rua do Vera Cruz. Ele está escrevendo roteiro para a série Os Experientes, que será levada ao ar pela Globo no ano que vem. Tinha uma reunião com o produtor da série, Fernando Meirelles, diretor de Cidade de Deus. Prata foi a pé. O calor o abraçava como um velho amigo do Recife que há muito não o via.
A frase anterior é de Ivan Lessa. Um dos truques dos cronistas é referir-se à linguagem que acabou de empregar. Outro é criar imagens palpáveis (o abraço do amigo do Recife) em vez de dizer o de sempre (que fazia calor), obtendo uma graça que permanece na memória. Um terceiro recurso é chamar as pessoas pelo primeiro nome: Ivan tinha uma tese em quatro partes para explicar por que a crônica é uma especialidade da casa como a moqueca. A elas.
Primeiro, achava que o fôlego literário nacional é curto. Não via demérito nisso e citava Machado, Lima Barreto, Clarice Lispector e Dalton Trevisan, escritores mais de piscina que de mar aberto. A única exceção que nadava de braçada larga no texto era Euclides da Cunha. Esquecia Grande Sertão: Veredas de caso pensado porque considerava Guimarães Rosa mandacaru vermelho, araçá azul, tutameia, folclore.
Em segundo lugar, o cronista tem consciência da extraordinária violência com que o tempo vai levando as coisas e as pessoas, sustentava Ivan Lessa, e daí vinha a necessidade de registrar o que se passou e passa no âmbito pessoal.
Prosseguia a tese quadrúpede falando que a celebração da vida, quase que no próprio instante em que ela se passa, leva o escritor a se congratular consigo mesmo. “A crônica é a nossa autobustificação”, afirmou. “É a nossa autonomeação para assessor disso ou secretário daquilo.”
Por fim, dizia, havia a questão da grana. A crônica é mal remunerada, mas o tutu pinga todo fim do mês e dá para pagar umas contas. Já o romance e a poesia, mesmo que vendam bem, só saem no mínimo a cada cinco anos, redundando num salário mensal igualmente mínimo. Não há quem aguente.
Ferrado nas quatro patas da tese, Ivan Lessa não via senões no escritor que narra sua ida ao barbeiro e que a crônica seja rasa como um pires. Que outros escafandristas literários perquirissem insondáveis recessos abissais. Que encontrassem pré-sal.
Ivan Lessa morreu no Corpus Christi do ano passado. Dilma Rousseff interrompeu o feriado e soltou uma nota dizendo que “o Brasil perde um de seus cronistas mais talentosos”. Abandonando o registro burocrático, a presidente acertou na mosca ao descrever os escritos do morto: “Ivan Lessa foi irônico, mordaz, provocador, iconoclasta e surpreendentemente lírico.” (Telefonei para o Palácio do Planalto e contaram que foi a própria crítica de extração búlgara que fez a nota.)
O âmago da apreciação está no “lírico”. A palavra vem de “lira”, instrumento que acompanhava o recitar de poemas na Antiguidade. O Eu lírico expressa uma subjetividade irredutível, não desfigurada pela vida social e às turras com ela. Ainda que em prosa, o cronista artisticamente ambicioso conserva algo da força da poesia. Retém o seu poder de criar imagens que buscam o cerne da vida individual para atirá-lo contra a sociedade, lugar de exploração ou superação.
A crônica é menor do que a poesia lírica porque é ditada pelo ritmo lucrativo e mecânico do jornal, e não pela liberdade do artista. Por isso, a leitura de enfiada de uma dezena de antologias de crônicas provoca certo fastio. Nelas superabundam a repetição atroz do lirismo funcionário público e relógio de ponto, as armações sentimentaloides para boi dormir, a desconversa meia-boca, a nostalgia fingida dos bons tempos de outrora que só interessa ao autor, se tanto.
Individualmente, algumas crônicas têm vivacidade e luz. Recolhidas num livro, jazem mortiças e dão vontade de procurar literatura profunda – o que é uma das funções da crônica, mas devagar com o andor que o santo é de acrílico. Manuel Bandeira estava certo ao dizer que a crônica num livro é um pássaro morto.
Exceto com Rubem Braga, o sabiá da crônica. Seus escritos para jornais de ontem não só resistem à publicação hoje em livro como, entrelaçados, formam um sistema, uma obra – prova de que se está diante de um artista. Quem analisou com argúcia a obra do velho Braga (expressão que ele usava em relação a si mesmo desde a mocidade) foi o crítico Davi Arrigucci Jr., aluno de Antonio Candido.
Arrigucci percebeu naquela “prosa divagadora de quem conversa sem rumo certo” a “meditação lírica de um Eu que falasse sozinho, recordando contemplativamente, em tom confessional, momentos vividos com grande intensidade”. O crítico apontou nas crônicas de Rubem Braga a “matéria mesclada de cotidiano, aspirando, humildemente, à comunicação humana e fazendo da solidariedade social um valor básico”.
Estudioso de Manuel Bandeira, Arrigucci aproximou o “alumbramento” da poesia humilde do pernambucano aos flashes com que o capixaba iluminava o gesto gracioso de uma moça vista de relance da janela do carro, o voo de um beija-flor com o coração do tamanho de uma semente de laranja, a faina cava dos pobres.
“Humildade”, o sentimento definidor da arte de Bandeira e Braga, deriva do latim humus. A palavra significa “chão”. Humus também está na origem de “homem” e “humanidade” – todo esse povo que anda na rua, mas raramente vê o sublime que se oculta ao rés do chão onde vivemos e somos enterrados.
Carlos Drummond de Andrade gostou do ensaio de Arrigucci e o deu a Rubem Braga. O cronista começou uma carta ao crítico e a perdeu. Três meses depois, reencontrou-a. Terminou de escrevê-la e foi ao correio enviá-la. Convidou o ensaísta a visitá-lo.
Arrigucci veio a frequentar o apartamento de Rubem Braga, uma cobertura na rua Barão da Torre, em Ipanema, onde foram filmadas cenas de Terra em Transe. Ia junto com o poeta Cacaso e sua namorada, a cantora Maria do Rosário, que vive na Itália. “A Maria do Rosário era uma negra lindíssima, e o velho Braga, mulherengo, ficava fazendo graça para ela com aquela cara dele de leão-marinho”, contou Arrigucci.
Millôr Fernandes conversava todas as manhãs com Rubem Braga. O estúdio do humorista também ficava em Ipanema, do outro lado da praça General Osório. Eles aprenderam a linguagem semafórica dos marinheiros e compraram aparelhos para trocar mensagens matutinas de bom-dia. Fizeram assim até que um prédio fosse construído na praça e tapasse a vista entre eles.
Braga não escreveu a respeito. Millôr, sim. Seu texto tem o título de “A última vez que vi Rubem Braga”. Danuza Leão, também ela cronista, atriz de Terra em Transe (por quem Braga se apaixonou perdidamente, sem nunca lhe dizer nada), esteve há pouco no apartamento do conterrâneo capixaba. “É impressionante, a favela do Cantagalo cresceu tanto que os barracos parecem estar a 3 metros da cobertura do Rubem”, disse Danuza. “Aquela Ipanema, aquele ambiente que aproximava as pessoas, só não se perdeu de vez porque o Millôr escreveu aquela crônica linda.”
Rubem Braga descobriu em meados de 1990 que tinha câncer na laringe. Não quis se tratar. “Ele achou que ficaria desfigurado com a quimioterapia”, disse Arrigucci. O cronista continuou recebendo os amigos e bebendo com eles. Deixou escrito que dispensava o velório. Morreu quatro meses depois. Tinha 77 anos.
Arrigucci fez a orelha de Meio Intelectual, Meio de Esquerda, de Antonio Prata. Disse que o livro iria “cair sobre a tua cabeça, distraído leitor, como um piano”. Para ele, o cronista se revelava não apenas um mestre lapidar de seu ofício, capaz de dizer tudo em dois dedos de prosa, sem perder a leveza, mas sobretudo um notável cronista do absurdo, das miudezas malucas do cotidiano – coisas, seres, classes, lugares, costumes, acontecimentos – numa metrópole desencontrada de si mesma.
“O Antonio está mudando”, disse-me ele. “Escrevia de um jeito no Estadão e agora é outro na Folha. Ele é moço e tem talento, precisamos acompanhá-lo para ver o que acontece.” Para Arrigucci, há tentações e perigos rondando Prata e todos os cronistas. Uma tentação seria partir para o romance comercial. Fazer romance dá mais prestígio que crônica. E fazer comércio dá dinheiro. Outro perigo seria os cronistas se meterem com a televisão e se perderem: o meio é industrial e a escrita, completamente diferente. A crônica é um instantâneo. A televisão, fluxo.
Há também o estilhaçamento provocado pela internet e a crise da imprensa escrita. A rede permite que as crônicas sejam lidas por muito mais gente que o jornal impresso. Mas nela circulam diariamente porrilhões de pessoas berrando a sua subjetividade: “Olha eu aqui!” Fica difícil escutar a conversa de um cronista. Na imprensa, houve mais de uma centena de demissões nos últimos dois meses. Elas ocorreram no Estadão, no Valor, em revistas da Editora Abril e na Folha, onde Danuza Leão perdeu o emprego – e os leitores a sua crônica.
As manifestações de massa, a princípio, não atingem os cronistas. São mais um assunto, ainda que Ivan Lessa lembrasse que a política era um tema evitado por eles. Ele implicava com o conformismo e negaceios dos cronistas, mormente os mineiros. Sacava a sua Luger 9 mm e atirava: “Fernando Sabino ganhou um cartório do sogro governador e escreveu uma ode a Zélia Cardoso de Mello, Otto Lara Resende foi adido cultural durante o AI-5, e Drummond não usou a sua autoridade moral de maior artista brasileiro para escrever uma mísera crônica atacando a ditadura.”
Recorde-se, ainda, que em 1977 o cronista Lourenço Diaféria, da Folha, foi preso pelos militares por ter cutucado a tigrada com vara curta: escreveu que as pessoas comuns, fartas de falsos heróis, mijavam no pé da estátua do Duque de Caxias, patrono do Exército.
Esses perigos todos agitam a crônica, fazem com que ela tropece, ande às tontas, procure o seu lugar tentando não pisar no pé de ninguém. Mas ela não corre o perigo de ter uma síncope e bater a caçoleta, segundo Arrigucci. “As formas literárias demoram a crescer e morrer”, disse. “O romance vive um longo estertor desde o começo do século passado, o que não impede que bons romances sejam publicados.”
Há alguns meses Antonio Prata recebeu um e-mail de Arrigucci. Ficou todo pimpão. O grande crítico, autor de uma orelha inesquecível, queria falar com ele. Telefonou e Arrigucci estava no supermercado. Conversaram assim mesmo.
O crítico foi crítico: havia lido uma crônica de Prata sobre ex-namoradas e achou que não ficara boa. Ela era genérica, dava lições, não se baseava na experiência direta do autor, falava aos leitores de cima para baixo, tinha um quê de alegoria. Prata sentou e matutou um tempão. Parecia O Pensador de Rodin. Achou que Arrigucci tinha razão. Encontraram-se depois num almoço na Vila Madalena, mas havia mais gente – o escritor Raduan Nassar estava lá – e não houve como retomar a conversa.
Antonio Prata está no epicentro da barafunda. Descolou um patrocínio da coleção Amores Expressos e passou um mês em Xangai recolhendo material para um romance. O livro encalacrou e gorou. Trabalha cada vez mais para a televisão. Arrigucci disse que ele pisara na bola. Foi às grandes passeatas do mês passado e escreveu que não estava entendendo nada.
No final da entrevista, Davi Arrigucci falou de sua irmã, figura querida em meios literários e boêmios de São Paulo. Sempre se repete às gargalhadas as tiradas de Lena sobre burrice (“Fulano não articula bom com dia”), filmes de máfia (“Não é que eu gosto: eu concordo”) e amor (“Onde passa o peru, não tem jeito”).
Lena soube que tinha câncer no pulmão. Ao se internar, ela citou Manuel Bandeira para avisar que deixava “a casa limpa,/ a mesa posta,/ com cada coisa em seu lugar”. Fraquejou, a doença avançou e ela perdeu a consciência. Os amigos aguardavam a chegada da indesejada das gentes no corredor do hospital quando, num inesperado total, Lena despertou e chamou o irmão. Pegou-lhe as mãos e disse “Feliz aniversário”. Só então Arrigucci lembrou que ele fazia anos naquele dia. Lena tomou um gole do uísque que o pessoal levara e morreu pouco depois.
Humberto Werneck, cronista dominical d’O Estado de São Paulo, não liga para teorias sobre a crônica. “Eu sou passarinho e não ornitólogo”, disse. Tampouco é atraído pelo romance e pela televisão: “Quero apenas ser um bom cronista.” Não vê problema em que crônicas não perdurem no tempo. “Mais de 90% dos romances, contos e poesias que são feitos hoje não vão ficar para a história”, avaliou. E repetiu a segunda frase com um acréscimo: “Quero apenas ser um bom cronista hoje.”
Werneck conhece Prata desde menino. Ele mora nas Perdizes. Aproveitou nosso café para matar uma curiosidade: “Pergunta ao Pratinha se o fato de morar num condomínio fechado não limita suas crônicas. Ele não sente falta de andar na rua, comer pão na chapa, ouvir as conversa em torno? Eu sinto.”
Na saída, ele me levou à rua Cardoso de Almeida. Queria me mostrar um poste de iluminação centenário, a gás, enferrujado, carcomido e inútil. Talvez fosse um símbolo da crônica, também ela abandonada na metrópole onde nem se nota um poste perdido na rua. Ou talvez fosse o caso de escrever uma crônica na qual a relíquia sem serventia, paradona na calçada, fosse protagonista.
A casa de Antonio Prata na Granja Julieta fica num terreno com árvores, passarinhos e gramados. É ampla, sem muros e tem nos fundos uma piscina compartilhada com os moradores de outras cinco casas. Ela está em reforma e ganhou claraboias porque receberá em breve uma nova moradora: Olívia, o nome que Prata e Julia Duailibi escolheram para dar à primeira filha. Julia é repórter e trabalha no Estadão. Vai para o emprego pelo Rodoanel de manhã e Prata fica em casa, no terraço, batucando o laptop e tomando Coca-Cola.
Ele respondeu à pergunta encaminhada por Werneck: “Meu pai passou a infância em Lins, uma pequena cidade no interior de São Paulo. Sua sensibilidade foi marcada pelos tipos únicos, o padre, o velório, a prostituta. Já eu estou às voltas com twitters, SMS, Facebook, que são mais marcantes para mim que a vida na calçada.”
Entrevistei Mario Vargas Llosa naqueles dias. Ele relativizou a importância da experiência direta na criação literária. Citou como exemplo Jorge Luis Borges. “Me maravilham a sutileza, a elegância e ao mesmo tempo a inexperiência vital de Borges”, disse o escritor peruano. “A frase dele ‘Muitas coisas li e poucas vivi’ está na sua literatura. Ele teve uma experiência de bibliotecas que é prodigiosa, e uma experiência de vida que parece mínima, quase insignificante.”
Prata publicou pouco depois uma crônica que teve repercussão nas redes sociais. Ela contava o seu diálogo com um motorista de táxi cuja mulher morrera. O taxista não gostava das fotos que tinha dela. Todas eram posadas ou em situações artificiais – festas, férias, passeios. Nenhuma a retratava no dia a dia. O chofer só se consolou quando foi ao barzinho em que se conheceram, há 25 anos, em Santos. Lá, conseguiu uma velha foto do bar. Ele fica contemplando a fotografia antiga e se pergunta quando a mulher vai chegar e se sentar numa mesa com ele, ou se já saíram.
Pois bem: foi tudo inventado. Não existem a mulher morta, o taxista viúvo, o bar em Santos, a foto antiga e o cronista monossilábico. Crônica é ficção. Se não há experiência direta, ela pode ser inventada.
É o que faz Manoel Carlos, cronista da Veja Rio e autor de novelas. Muitas das suas crônicas se passam no Café Severino, no Leblon, onde ele mora. “A turma do bar existe em grande parte, mesmo com os nomes ficcionais”, disse ele num e-mail. “Às vezes reproduzo o que falamos lá. Outras vezes coloco o que acho que falaríamos, se lá estivéssemos.” Para Manoel Carlos, “nada é real sem passar pela ficção, e o contrário também é verdade. Costumo dizer: a verdade é que eu minto”.
Aos 80 anos, Manoel Carlos é o autor de novelas há mais tempo no batente. Ele gosta muito de escrever crônicas. “Se o que eu recebo fosse de acordo com o meu prazer, eu seria um cronista de salário nababesco”, afirmou. Mas disse também que “em profissão alguma se ganha mais do que quem escreve novelas”. Não tem ido ao Severino. Sua mulher andou meio doente e ele trabalha na sua próxima novela para a Globo, Em Família.
Em fevereiro do ano passado, Manoel Carlos terminou uma crônica assim:
Perdi um segundo filho há uma semana. Muitas das mensagens de solidariedade que venho recebendo vieram de pessoas que não conheço, que gentilmente se apresentaram como leitores desta crônica quinzenal. E, por essa razão, reservei este espaço para o meu agradecimento chegar até elas. Um pequeno poema do Drummond está tatuado no meu coração desde a morte do meu primeiro filho, em 1988. E é lá, nesse ferido coração, que meus rapazes repousam para sempre. Com os dois versos do poema “Cemitério de bolso” encerro a crônica de hoje:
“Do lado esquerdo carrego meus mortos.
Por isso caminho um pouco de banda.”
Um velho adágio da imprensa britânica diz que notícias são aqueles troços publicados entre os anúncios. Uns mais, outros menos, todos os jornais e revistas dependem de publicidade. O que varia é o percentual da receita oriundo da propaganda e o que vem da venda de exemplares aos leitores. A grande imprensa é uma indústria que produz mercadorias. Mas não só isso. Para existir, ela precisa noticiar, analisar, comentar, agradar o leitor. O que propicia uma autonomia relativa, tensa e volátil, aos seus profissionais, inclusive os cronistas.
Na televisão, a coisa muda de figura: o motor dela é a propaganda. A TF1, a maior rede francesa de televisão, é a líder de audiência. Ela pertence a Martin Bouygues, um dos homens mais ricos do país, cujo grupo empresarial tem mais de 130 mil empregados e negócios em oitenta países. Em 2008, Patrick Le Lay, na época presidente da TF1, explicou o que é a televisão:
Na base, o negócio da TF1 é ajudar a Coca-Cola, por exemplo, a vender o seu produto. Para que uma mensagem publicitária seja percebida, é preciso que o cérebro do espectador esteja disponível. Nossos programas têm por vocação tornar o cérebro disponível, ou seja, diverti-lo, relaxá-lo entre dois anúncios. O que vendemos à Coca-Cola é o tempo disponível do cérebro humano.
Ao mudar do jornal para a televisão, o cronista passa a trabalhar numa indústria de números megassuperlativos. Uma novela do horário nobre da Globo dura 180 capítulos, envolve milhares de profissionais e é acompanhada por dezenas de milhões de pessoas. Cada capítulo requer cerca de 750 mil reais de investimento. Entre todos os programas, a novela das 9 horas é o que tem o maior faturamento na Globo. A publicidade não está só nos anúncios, mas no merchandising: mercadorias são exibidas ou elogiadas pelos personagens, agências bancárias servem de cenário, a trama é orientada no sentido de realçar determinados produtos.
Antonio Prata ganha da Folha 1 500 reais por crônica. Humberto Werneck, 1 200 reais do Estadão. Um autor de novela da Globo – com mais de dez anos de casa, que tenha emplacado pelo menos três sucessos, e que conte com um bom advogado para negociar com a rede – pode ganhar até 700 mil reais por mês. Quando sua novela está no ar, ele tem direito a um percentual do merchandising. Ganha então 350 mil reais a mais. Por mês. (As cifras foram ditas por duas pessoas com autoridade para tanto, na condição de que lhes preservasse a identidade.)
“Não escrevo pelo salário”, disse João Emanuel Carneiro, autor de Avenida Brasil. “Escrevo porque gosto de escrever, é a minha profissão.” Ele foi corroteirista de dois filmes de arte, Cronicamente Inviável, de Sergio Bianchi, e Central do Brasil, de Walter Salles. Apreciou a experiência, mas observou que os filmes não eram dele, e sim dos diretores.
Perguntei-lhe qual é o grande barato de fazer novelas. “A novela é lisérgica”, respondeu Carneiro. “Há poucas coisas melhores do que saber que o que você escreveu está sendo visto naquele momento por dezenas de milhões de pessoas.” Ele tem 43 anos, é afável e ri fácil. Quando não está fazendo novela, vê um filme por dia e lê romances ingleses do século XIX.
João Emanuel Carneiro é meticuloso no trabalho. Fica acordado até as duas da manhã para poder assistir e corrigir eventuais erros no capítulo que irá ao ar naquele dia. Cada capítulo tem 35 laudas escritas. Ele escreve dezessete delas antes de repassar as cenas aos colaboradores, que fazem os diálogos. Quando não gosta, reescreve tudo e não reclama.
Em novembro de 2006, Antonio Prata publicou na piauí “How do you do, Dutra?”, reportagem que narrava a sua viagem pela rodovia ligando São Paulo ao Rio. Topou com vendedores de pamonha, lojas que ofereciam esculturas de golfinho para piscinas e a menor vaca leiteira do mundo. Concluiu que era mais arriscado dirigir de uma cidade a outra do que remar da África a Salvador. João Emanuel Carneiro gostou do retrato da Dutra e quis conhecer o seu autor. Um amigo em comum os colocou em contato.
“O Antonio tem muito talento e é um sujeito adorável”, disse Carneiro. Em Avenida Brasil, Prata escreveu diálogos das cenas das quais participava um personagem que era casado com três mulheres. “Ele escolheu palavras dos diálogos que esclareciam direitinho quem era o personagem”, disse Carneiro. O trabalho dos colaboradores é bem limitado: quem decide o sentido da trama e o destino dos personagens é o autor. Em homenagem a Prata, Carneiro encaixou na novela a frase “Fulano é meio intelectual, meio de esquerda”.
Aguinaldo Silva, o autor de Fina Estampa, gosta de ouvir bastante gente enquanto escreve uma novela. Pega a Ponte Aérea para São Paulo e assiste, atrás de um vidro escuro, pesquisas qualitativas com representantes do público, que a Globo reúne para opinar sobre os capítulos que foram ao ar. Sempre que pode, vai ele mesmo ao supermercado comprar o jantar, “para escutar o que as caixas e balconistas estão achando dos personagens que crio”.
Ele mora numa casa de condomínio na Barra, mas comprou um apartamento na avenida Atlântica e está de mudança. “Copacabana é o bairro ideal para pessoas da minha idade”, disse Aguinaldo Silva, que tem 70 anos. “Dá para a gente andar a pé meio incógnito e observar as pessoas, escutar o que estão conversando.”
É o que fazia Danuza Leão para escrever crônicas. “É preciso ir sozinha aos restaurantes, senão você fica conversando e não examina os casais das mesas ao lado. Ao ver se eles se bicam como galinhas, se se pegam as mãos e trocam olhares, se estão dispersos ou contam casos, dá para perceber em qual fase do romance estão.”
Aguinaldo Silva afirmou que preferia só assuntar e escrever. “Mas você tem que ir a seminários de venda, supervisionar seriados, falar com executivos, é uma chatice”, disse. Não parece que venha a sossegar: ele faz coisas sem parar. Passa metade do ano em Lisboa, onde tem um apartamento e um restaurante badalado, o Brasileiríssimo, e é dono da Locanda della Mimosa, a pousada de Petrópolis. Cuida deles pessoalmente, escolhendo das flores ao menu, e zela para que deem lucro. Coleciona peças art nouveau (tem uma Valquíria em bronze polido e marfim, de Colinet, que é o fino) e frequenta leilões de arte. Vigia o seu blog e tuíta com frequência inconcebível.
Durante a entrevista, ele organizava simultaneamente uma festa de casamento na Locanda para 350 pessoas. “Os noivos agora pediram para servir saquê, e onde vou arrumar saquê em Petrópolis?”, perguntou, rindo. Ele cogita fazer outras coisas. Outro dia, numa roda em que se lamentava que O Globo seja o único jornal de peso no Rio, “e prefira publicar maledicências no lugar de reportagens”, Aguinaldo Silva ameaçou: “Olha que eu faço um novo jornal!” Ele criou e dirigiu, ainda nos anos 70, o primeiro jornal gay nacional, Lampião.
Ele gostaria que os cronistas fossem “mais cronistas e menos articulistas”. Acha que a novela também precisa mudar. “Esse negócio de 180 capítulos é uma especificidade brasileira que vai acabar cansando”, disse. “Precisamos fazer coisas curtas, sérias e mais dramáticas. O problema aqui é que todo mundo quer ser engraçadinho, dos autores aos atores, e a vida não é isso, ou não é só isso.” Deu como exemplo de inovação os seriados americanos de tevê a cabo como Família Soprano e Mad Men. Dias depois, Mario Vargas Llosa falou que The Wire é um modelo de boa dramaturgia televisiva.
A atriz Fernanda Torres, que transita entre a crônica, o artigo e a televisão, tem opinião semelhante. No final de 2006, ela publicou na piauí “No dorso instável de um tigre”, uma reportagem-artigo sobre o medo de entrar em cena. A direção da Veja Rio gostou e a chamou para ser cronista da última página. A Folha a convidou em seguida para escrever artigos na Ilustrada. “Fui aceitando sem saber e tive que aprender na marra”, disse.
Fernanda Torres também pensa que os novos seriados americanos podem influenciar positivamente a dramaturgia brasileira. “Desconfio que eles já estão influenciando as novelas”, disse. “No primeiro capítulo de Amor à Vida houve dezenas de cenas quase simultâneas, e foram iniciadas outras tantas subtramas. Os cortes foram mais rápidos e a iluminação estava diferente.”
O autor de Amor à Vida, Walcyr Carrasco, tem um pé atrás em relação à experimentação em novelas. “Há muita experiência na televisão americana que é simplesmente ruim, não chega a lugar nenhum e logo é tirada do ar”, disse. “A novela é uma arte popular que é acompanhada por milhões de pessoas, não pode ser modificada assim, sem mais. Quando quero fazer algo inovador, escrevo uma peça para o circuito alternativo.” Ele perguntou: “Você não está tendo preconceito com uma arte popular?”
Carrasco estava desempregado quando foi convidado pelo suplemento paulistano de Veja para escrever crônicas. Rapidinho, foi a uma livraria e voltou com uma dúzia de antologias de crônicas. Leu todas, sentou para escrever – e saiu um artigo. Reescreveu e continuou artigo. Na terceira tentativa fez uma crônica. Em busca do público nacional, mudou anos depois para Época e lá ficou.
Gourmet e guloso assumido, recentemente ele foi aluno de um curso para aprender a fazer sushi. O primeiro colocado ganharia um emprego de sushiman. Walcyr Carrasco ganhou. O salário que lhe ofereceram era de 1 500 reais. Por mês. Preferiu continuar sendo noveleiro e cronista. “Quando estava desempregado teria aceitado a proposta”, disse. “Estaria hoje atrás do balcão e com varizes.”
Rubem Braga escreveu uma crônica na qual falava de um rapaz que, sem mágoa e sorridente, deixava o pão todas as manhãs na porta da sua casa e dos vizinhos, e avisava com um grito: “Não é ninguém, é o padeiro!” Esse “ninguém” pode ser Antonio Prata entregando sua crônica. E dentro da casa está o homem comum, o leitor, que vai pegar sua crônica quentinha para alimentar o espírito enquanto toma o café da manhã.