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NA MONTANHA-RUSSA DO SÉCULO

Paradoxos do progresso em Corumbá aos olhos de um intelectual refugiado do nazismo
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Anatol Rosenfeld morreu há quarenta anos, em 1973, tempo mais do que suficiente para que um professor de literatura seja esquecido. Não foi o caso dele, cuja obra continua viva, especialmente no meio teatral, em que os seus estudos sobre o teatro épico, os escritos de Brecht e o movimento cênico dos anos 60 e 70 se tornaram clássicos e fazem parte da dieta intelectual da nova geração. Com menos presença, mas qualidade igual, os demais ensaios sobre literatura também continuam a ser lidos, sendo que alguns são bibliografia obrigatória. Penso particularmente nas “Reflexões sobre o romance moderno” e no trabalho sobre “Mário e o cabotinismo”, ambos publicados em Texto/Contexto, um dos bons volumes de ensaio em nossa literatura. Hoje, graças à tenacidade da Editora Perspectiva, a obra completa de Anatol está editada e disponível.

Para evitar a nota acadêmica, que não combinaria com os fatos, quero começar pelas circunstâncias desfavoráveis, ou melhor, catastróficas, em que se deu a vinda dos intelectuais refugiados ao Brasil. Quando chegou, em 1937, Anatol – que era judeu e de esquerda – tinha 25 anos, acabava de escapar por pouco a uma intimação da polícia nazista, que podia significar a morte, e deixava para trás, provavelmente para sempre, um doutorado semifeito sobre o romantismo alemão, na Universidade de Berlim. Também a hospitalidade brasileira, que mais adiante seria generosa, inicialmente foi relativa, sem contar que o país, naquele ano de 1937, estava se tornando por sua vez uma ditadura, embora incomparavelmente menos drástica do que a europeia. Na época, a orientação oficial quanto aos imigrantes era aproveitar o braço estrangeiro na lavoura, possivelmente para proteger da concorrência o emprego dos trabalhadores já instalados nas cidades. E, de fato, Anatol começou trabalhando na enxada, numa fazenda no interior do estado de São Paulo, onde seu serviço consistia em arrancar pragas de uma plantação de eucalipto novo. Como ele mesmo gostava de contar, a tarefa era um problema, pois ele não sabia distinguir entre a muda da planta e a praga que devia eliminar.

Esse desperdício de qualificações, que não custa comparar com o proveito que os norte-americanos tiraram da imigração europeia, não era um caso isolado. Tanto que meu pai, que também era um intelectual imigrante, em 1939 foi encaminhado para carregar bananas no porto de Santos, proposta que ele teve o bom senso de não aceitar. Já Anatol, sendo moço e sem família, e querendo mudar de vida depois do que o nazismo lhe ensinara sobre a moral das classes médias alemãs, não recusou a experiência. Na fazenda, fez amizade com a professora da escola rural, que lhe deu aulas de português e o ajudou a encontrar outro trabalho na cidade. Em seguida, Anatol foi lustrador de portas no Paraná, depois do que se tornou caixeiro-viajante, ocupação em que conheceu o interior do Brasil de alto a baixo, além de ganhar bem. Era conhecido como o caixeiro das duas malas, uma de mercadorias e outra com os livros de que precisava para retomar os estudos.

Quando achou que tinha economias suficientes, Anatol deixou cair a posição comercial que havia conquistado, com a qual poderia enriquecer, e tirou dois anos livres. Alugou um porão na casa de outro imigrante judeu em São Paulo, que por seu lado se dividia entre uma representação comercial e o piano. Mobiliou o porão com o mínimo – uma cama, uma mesa, uma lâmpada de relojoeiro, tábuas montadas sobre tijolos, servindo de estante para os livros, algumas cadeiras de pau – e lá passou um bom tempo enfurnado, em regime de dedicação integral, estudando para retomar a vida intelectual interrompida. A civilidade com que recebia visitas e mantinha a conversação nessas condições precárias beirava o inverossímil. São fatos interessantes, que dão uma ideia do desapego material e da determinação prática, ou melhor, da clareza de objetivos com que Anatol agia, traçando um itinerário só dele. Estava começando a sua carreira de jornalista na Crônica Israelita de São Paulo, nos inícios da década de 40.

Que eu saiba, Anatol não deixou testemunho escrito de seu trabalho na enxada. Lembro-me de uma única frase, que não consegui localizar, em que garantia que não era fácil. Já sobre a sua temporada como caixeiro-viajante, ele deixou meia dúzia de crônicas sumamente interessantes, seja pela visão meio humorística da vida comercial no interior, seja pelo que revelam de sua própria personalidade, incomum e admirável. Encontram-se numa coletânea póstuma chamada Anatol Rosenfeld on the Road,[1] que reúne poesia, crônica, sátiras e um conto longo.

A primeira delas é um convite à viagem, mas um convite sui generis, animado por segundas intenções. Quem tem a palavra é um apaixonado pelo Brasil profundo, que se dirige aos citadinos acomodados, os quais pensam conhecer o país, quando só conhecem duas ou três de suas cidades principais. Com espírito de professor de geografia, ou de guia de viagem, o cronista explica que quem só conhece a orla costeira não tem ideia da hinterlândia, que quem conhece o Sul não sabe como é o Norte, que em matéria de economia, vegetação ou cultura há vários Brasis.

O que sabe do Brasil quem só viaja de avião entre as capitais? É preciso viajar de trem, tomar a Noroeste em Bauru e percorrer o Mato Grosso. “No caminho, fiquem alguns dias em Aquidauana e Miranda. Excursionem pelos campos. Depois prossigam até Porto Esperança e Corumbá. Tomem ali o naviozinho de rodas e vão até Cuiabá; depois, de caminhão, até Diamantino. Olhem um mapa. Isto é viajar! Peguem a jardineira em Campo Grande e vão até Ponta Porã, na fronteira do Paraguai, sim, senhor, e se atolarem no caminho devido a uma chuva tropical, tanto melhor! Assim é que se conhece um país!” O leitor terá notado, espero, que aos poucos o convite à viagem muda de tom e vai adquirindo uma nota de provocação, uma ênfase antiturística, contrária ao conforto, para não dizer terrorista, que culmina na louvação já francamente agressiva do ônibus debaixo do aguaceiro, encalhado no lamaçal, na fronteira com o Paraguai.

O sentido dessa mudança de clima literário se esclarece no parágrafo seguinte, quando entendemos que o destinatário do escrito não é o brasileiro em geral, mas o leitor da Crônica Israelita, quer dizer, um membro da pequena comunidade judaica de São Paulo, de cujas preferências sociais Anatol, então com 28 anos, discretamente discordava. Não há dúvida de que o cronista exortava o leitor a percorrer o Brasil, mas o objetivo de fundo talvez fosse outro, de âmbito mais específico e de ordem mais irônica. O que ele queria é que seus leitores saíssem da trilha burguesa “que os leva, infalivelmente, a Campos do Jordão, a Águas de São Pedro e àquela ilhazinha em frente a Santos que começa com a letra ‘G’, cujo nome me escapou no momento, de certo devido a algum lapso freudiano”. “Não se entreguem à rotina dos balneários”, prossegue o cronista, “no dia em que um balneário tornar-se rotina, ele perde o seu sentido de balneário, que é o de escapar à rotina.”

Assim, atrás dos bons conselhos de um entusiasta de viagens percebe-se a caracterização crítica de uma comunidade de imigrantes bem-sucedida, voltada para si mesma e esquecida do país e do mundo, ávida de ascensão social e de balneários da moda, em especial o Guarujá – a ilhazinha em frente de Santos, que começa com a letra “G” –, que dava a nota nas colunas mundanas. Na promessa final, que é também uma estocada, Anatol assegura aos leitores que em Porto Esperança, no atual Mato Grosso do Sul, eles poderão “aprender jogos de baralho bem diversos, com os quais nunca dantes sonharam”. É como se a rotina abastada do carteado – o ritual do bridge e do buraco em que a colônia se comprazia – se devesse à falta de alternativas menos burguesas; como se ela, a ordem burguesa, fosse um vício triste, que uma boa aventura no barro, na fronteira com o Paraguai, pudesse curar.

Tomando distância e imaginando a situação, digamos que um jovem intelectual que escapara por pouco ao enlouquecimento da Europa, ou ao salve-se quem puder da perseguição antissemita, tentava corrigir com seus conselhos meio sinceros e meio maldosos uma comunidade de refugiados como ele, a qual se reaburguesava o mais rápido que podia, fechando-se em si mesma como se nada tivesse acontecido.

De outro ângulo, observemos que esta crônica nos mostra Anatol diante de seu primeiro público brasileiro, uma comunidade de imigrantes recentes, quase sem contato com a vida intelectual do país. Mais adiante, graças à criação do Suplemento Literário do jornal O Estado de S. Paulo, em 1956, no qual ele foi titular da coluna de letras germânicas, o seu público seria bem mais amplo e diverso, composto pelos brasileiros interessados em literatura alemã, especialmente a literatura moderna e suas ousadias. Assim, depois de um bom tempo de obscuridade, o intelectual de primeira linha escapava à estreiteza endogâmica da vida no interior da comunidade judaica de São Paulo.

Nos anos 60, por fim, Anatol encontraria um público na sua medida, superando o papel de divulgador de alto nível que fora o seu até então. O crítico havia se enfronhado na vida teatral brasileira, que nas imediações do golpe de 1964, um pouco antes e um pouco depois, atravessava um grande momento de combatividade e invenção artística. No bojo da agitação social formara-se uma liga avançada de artistas, estudantes e intelectuais, engajados no debate estético-político do teatro de ponta, ao qual Anatol se integrava com brilho e posição própria. Várias das questões europeias dos anos 30, que haviam forçado a emigração da comunidade judaica e da inteligência de esquerda, voltavam a colocar-se, por um momento como esperança, em seguida como pesadelo. Solidamente plantado em sua experiência alemã, e agora brasileira, Anatol havia se tornado uma referência, um intelectual oposicionista de envergadura nacional.

Voltando às crônicas, a mais interessante delas chama-se “Corumbá, a cidade branca”. Perdida nos confins do então Mato Grosso, uma localidade pequena é despertada de seu sono tropical pela chegada do progresso. O cronista a encara por uma diversidade vertiginosa de prismas, ela mesma fazendo parte da modernização galopante. Em espaço breve, sucedem-se anotações de cientista social espantado, filósofo, economista, viajante comercial, freguês queixoso de hotéis e restaurantes de quinta categoria, comentador das religiões que rivalizam na praça, admirador do colorido racial das mulheres do interior do Brasil, historiador da civilização contemporânea, a qual está em curso também naquele fim do mundo, e o que mais for. A sucessão dos enfoques produz paradoxo sobre paradoxo, desmentindo chavões, relativizando certezas e abrindo perspectivas inesperadas sobre o presente, sempre superando preconceitos e nunca se fixando numa posição à custa das demais.

A nota peculiar é dada pela suspensão do juízo, um verdadeiro exercício intelectual, uma disciplina do espírito que permite ao filósofo explorador, ou ao estrangeiro esclarecido, ou ao caixeiro-viajante de ampla cultura, colocar à prova o arsenal corrente de conhecimentos e lugares-comuns, que não resistem ao teste da realidade, mesmo que esta seja tão remota e historicamente desprestigiada quanto Corumbá. Posso estar enganado, mas em matéria de livros que poderiam ter sido, tenho a impressão de que esta crônica delineia um espaço original e substantivo na literatura brasileira, uma apreciação imparcial, além de irônica, dos saltos recentes da correnteza do progresso, especialmente no interior, a qual se acelerava naqueles anos de 1940. O leitor lamenta que o experimento tenha ficado em esboço, como tentativa mais ou menos isolada, sem os desdobramentos que dariam substância a um ângulo dos mais interessantes, que a ficção e a teoria social brasileira ainda estão devendo.

Dito isso, os leitores machadianos talvez tenham sentido no procedimento de Anatol um formato conhecido. Com efeito, o narrador dos grandes romances de Machado também circula, suspendendo o juízo, entre os pontos de vista da alta cultura europeia e os aspectos ínfimos e relegados da realidade local. É claro que não estou sugerindo que Anatol tenha imitado a técnica literária do romancista, que naquela altura ele dificilmente conheceria. Mas há de fato alguma convergência no andamento da prosa dos dois autores, que exploram humoristicamente a distância entre o repertório sistematizado da cultura ocidental e o aspecto peculiar e pitoresco das relações sociais do país. Digamos que o extraordinário Machado de Assis teve a percepção plena, que realizaria na sua obra, da tensão entre nossa experiência local e as construções intelectuais hegemônicas de seu tempo, que ficavam postas em questão. É possível que muito tempo depois algo de parecido se tenha imposto a um refugiado atento e sem prevenções como Rosenfeld, organizando-lhe o curso da escrita.

A Corumbá do início da crônica é uma cidadezinha plantada no Pantanal brasileiro, “cujos dias são devastados por um sol furioso e cujas noites parecem cavernas fechadas, ressoando ao zunir de nuvens de mosquitos”. A sua vida está sob o signo da luta encarniçada entre civilização e natureza, “no limiar exato entre disciplina humana e moleza entorpecida, entre a ação criadora e o abandono ao clima tropical”, antagonismos em que o primeiro termo se relaciona ao segundo como o superior ao inferior. O leitor estará reconhecendo, por um lado, os pares conceituais da antropologia filosófica, que opõem a consciência à existência opaca, a capacidade histórica ao magma informe. Por outro, ele se sente no universo do romance naturalista, com seus determinismos simples, em que a pujança do trópico derruba a vontade dos homens e impede a formação de uma sociedade moderna. São dualismos algo rasos, saturados de preconceito de classe e ideologia burguesa do trabalho, para não dizer de racismo tácito, que entretanto servirão de ponto de partida ao andamento verdadeiramente magistral da crônica. À maneira de Thomas Mann, a dialética da apresentação vai ironizar e desmentir aquelas oposições iniciais, em que estão resumidas e exaltadas muitas das valorações caras aos habitantes brancos e ricos do hemisfério norte, ou por outra, caras ao imperialismo.

O primeiro chavão a ser desmentido é o da superioridade racial. O inglês loiro, que chegara vestindo terno de casimira e carregando uma pasta de couro debaixo do braço, pouco tempo depois dorme na rede em mangas de camisa, de boca aberta e calça amassada, o cachimbo caído no chão, derrotado pelo calor. Nesse primeiro round, o determinismo do clima leva a melhor sobre o determinismo racial e parece intransponível. Em seguida, entretanto, vem a constatação inesperada de que, a despeito das condições do ambiente e da derrota das raças superiores, há sim um progresso febril em Corumbá. Porém, nova surpresa, nem por isso a vida melhora, pois num estado como Mato Grosso, onde os bifes por assim dizer crescem nas árvores e a natureza está em toda parte, não há carne para comer, nem legumes, nem leite, e os ovos são mais raros do que diamantes, sem falar nos hotéis, que são mocambos mas custam mais caro do que um hotel relativamente luxuoso em Ribeirão Preto, Campinas ou Uberaba.

Assim, o progresso não só não se deve às raças superiores e ao clima temperado, como é causador de desordem e não corresponde ao que se espera dele, conforme pôde observar em primeira mão o caixeiro-viajante estrangeiro e reflexivo. Mas qual então a sua natureza e quais as suas causas?

A cidadezinha minúscula, “que parecia esquecida no seu abandono tropical, está fazendo negócios. O dinheiro corre como nunca. Os preços sobem como bambu ou como o mercúrio no termômetro, da noite para o dia. Ganham-se cobres como que por encanto”. Mais uma vez, contudo, as causas não são as mais óbvias. “O milagre não se realizou por ter sido encontrado ouro ou petróleo, nem se poderia dizer que a guerra tenha sido a causa principal deste boom, que pegou como uma epidemia.” Os motivos do milagre são menos evidentes, ou de uma ordem mais impalpável ou abstrata – nem clima, nem raça, nem riqueza natural. Eles estão ligados ao tráfego, a causas geográficas e técnicas. Corumbá tinha uma posição no mapa que subitamente se tornou privilegiada, perto da fronteira com a Bolívia, com grandes perspectivas em função duma hipotética estrada de ferro que ainda iria ser construída, o que aliás trouxe para a cidade a sede da Comissão Mista encarregada da construção. Além disso, a evolução da aviação comercial era intensa, e as grandes linhas transcontinentais passavam a fazer escala na cidade.

Em resumo, sem ter explicação nas teorias correntes nem cumprir o que prometia, o progresso era outra coisa, algo a adivinhar e decifrar. Embora o número de lojas aumentasse e se inaugurasse uma sala de cinema, e também uma torre com relógio elétrico, que apitava as horas e atrapalhava a sesta, o que os novos tempos ensinavam aos cidadãos sonolentos é “que o tempo é uma matéria-prima preciosíssima, mesmo quando não produz outra coisa senão juros”, o que não deixa de ser um anticlímax.

Paradoxalmente, acompanhando a modernização, que em princípio seria laica, vem a multiplicação das religiões. Com os negócios chegam sabatistas, batistas, metodistas, adventistas e espíritas, enchendo o ar com variados acentos do inglês, castelhano e português, e provocando uma discussão violenta sobre o dia de descanso fixado por Deus: seria o domingo ou seria o sábado? Os recursos da disputa são citações da Bíblia. “Os novos escolásticos baseiam seu pensamento na Revelação, de acordo com a qual o Sol gira ao redor da Terra, mas no entanto servem-se, para viajar, de aviões, produtos da ciência, segundo a qual a Terra gira em torno do Sol. Talvez eles pensem como aquele árabe, que perguntou a um inglês qual seria a força que haveria de segurar um avião no ar. ‘Gasolina!’, respondeu secamente o inglês. ‘Não!’, replicou serenamente o árabe, ‘Alá!’.”

As relações entre religião e capitalismo são mesmo um assunto controvertido, e a distante Corumbá iria infligir outras derrotas às teorias mais consagradas sobre o assunto. Aqui não são os puritanos, como queria Max Weber, nem os judeus, como queria Werner Sombart, que dão o impulso à acumulação do capital. São os sírio-libaneses, descendentes católicos dos árabes. Inacreditavelmente trabalhadores, suando atrás do balcão e manejando a arma do metro de medir tecidos, são eles que derrotam a adversidade do clima, bem como as predestinações raciais e religiosas, acumulando dinheiro rapidamente e montando fábricas de seda em São Paulo. Qual a mola que os move? O sonho de triunfar em São Paulo, o prazer do trabalho, l’art pour l’art, ou simplesmente o espírito de concorrência? O rol dos motivos possíveis faz rir, como a disputa entre as seitas sobre o dia do descanso, mas a perplexidade é real. Seja como for, os sírios representam um fator importante no progresso geral da cidade, ao mesmo tempo que continua de pé o mistério da acumulação e do regime bárbaro de esforço que esta supõe. Sem prejuízo da ironia e da mão leve, a crônica passou em revista e colocou em perspectivas contraditórias um bom número de ideias consagradas sobre o que se poderia chamar de progresso num país retardatário.

Fechando o círculo, há os changadores, ou carregadores, que são os representantes mais típicos do estilo de vida em Corumbá. Antes de aceitar um serviço, eles “costumam perguntar se as malas não são muito pesadas”. “Visivelmente aceitam o trabalho como um castigo mandado por um deus furioso, não como a essência da vida. Depois de terem carregado duas ou três horas as malas mais leves encontráveis em Corumbá, eles descansam na sombra, enrolando um cigarro de palha e, finalmente, dirigem-se a passos lentos e despreocupados para casa: ganharam hoje o bastante para viverem até amanhã. Qualquer que seja o ‘Alá’ que eles adoram, Ele não os deixará cair, mesmo se a gasolina acabar.” Dependendo do ponto de vista, estes trabalhadores são a própria encarnação dos vícios do trópico. Rosenfeld, entretanto, os apresenta com inequívoca simpatia, pela distância que guardam das ofuscações do progresso, da acumulação de riquezas e da mitificação do valor do trabalho. Num sentido nada desprezível, eles são as figuras mais civilizadas de Corumbá, o que Mário de Andrade, autor de Macunaíma, entenderia perfeitamente.

Concluindo, peço licença para transcrever um breve depoimento que dei há quinze anos sobre Rosenfeld: “A liberdade intelectual do Anatol era surpreendente. O segredo estava nas coisas deprimentes que ele não fazia: não passava a perna nos outros, não vivia atrás de vantagens, não cortejava os influentes, não negociava elogios, tinha horror à autopromoção, não se deslumbrava com a celebridade alheia, nem com a própria. Em contrapartida, tinha uma clareza nada convencional quanto ao que vale a pena. O pessoal que confunde liberdade com baixaria achava o Anatol quadrado.”

[1]Anatol Rosenfeld on the Road, org. Nanci Fernandes. São Paulo: Perspectiva, 2006.


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É crítico literário. Publicou, entre outros livros, Martinha versus Lucrécia (Companhia das Letras).