rádio piauí
Mar 2026 09h36
54 min de leitura
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Semanalmente, os apresentadores mencionam as principais leituras que fundamentaram suas análises. Confira:
Conteúdos citados neste episódio:
“O corredor da propina, ou da ‘muçarela'”, reportagem de Breno Pires e Arthur Guimarães para a piauí.
“129 milhões de aberrações”, reportagem de Rafael Mafei para a piauí.
“PGR foi alertada em novembro de que Vorcaro obteve dados sigilosos de investigações contra ele”, reportagem de Ana Pompeu para a Folha de S. Paulo.
“ACM Neto recebeu R$ 3,6 milhões do Master e da Reag, aponta Coaf”, reportagem de Victoria Azevedo, Sarah Teófilo, Dimitrius Dantas e Eduardo Gonçalves para O Globo.
TRANSCRIÇÃO DE ÁUDIO:
Sonora: Rádio piauí.
Fernando de Barros e Silva: Olá, sejam muito bem vindos ao Foro de Teresina, o podcast de política da Revista Piauí.
Sonora: Quando os contratos foram feitos, essas empresas estavam dentre as principais instituições financeiras do país.
Fernando de Barros e Silva: Eu, Fernando de Barros e Silva, da minha casa em São Paulo, tenho a alegria de conversar com os meus amigos Ana Clara Costa e Celso Rocha de Barros, no Estúdio Rastro, no Rio de Janeiro. Olá Ana, bem-vinda!
Ana Clara Costa: Oi, Fernando! Oi pessoal!
Sonora: Não tem nada aqui que fuja do governo Bolsonaro no centro do esquema que possibilitou tanto o roubo do INSS quanto o escândalo do Banco Master.
Fernando de Barros e Silva: Diga lá, Celso Casca de Bala.
Celso Rocha de Barros: Fala aí, Fernando! Estamos aí mais uma sexta-feira.
Fernando de Barros e Silva: Mais uma sexta-feira. Mas antes dos assuntos dessa semana a gente tem uma novidade para vocês. O Foro de Teresina vai passear por aí. Eu sairei de vez em quando da minha choupana e levarei os meus amigos para fazer alguns programas ao vivo pelo país, e a gente vai começar pela querida cidade do Recife, no dia 25 de abril. Recife, da Maria Júlia, nossa produtora. Recife, de Manoel Bandeira, de João Cabral de Melo Neto. Recife De quem mais, Celso? De Joaquim Nabuco!
Celso Rocha de Barros: Chico Science!
Fernando de Barros e Silva: Recife, de Kleber Mendonça Filho, claro, e do Agente Secreto. Onde Clarice Lispector viveu dez anos de sua infância. A gente vai fazer uma edição do programa com plateia, ao vivo, e nas próximas semanas a gente traz mais informações sobre o local, o horário e a venda de ingressos. Guardem então a data, dia 25 de abril, e fiquem ligados. A gente quer estar com vocês teresiners de Pernambuco. Agora sim, sem mais delongas, aos assuntos da semana. A gente abre o programa pela crise do caso Master, que é uma constelação de crises envolvendo personagens do setor financeiro, da política e do Judiciário. A Segunda Turma do STF começa a julgar hoje, sexta-feira, se mantém ou não a prisão de Daniel Vocaro. Ele foi preso em São Paulo, no último dia quatro, por determinação do ministro André Mendonça, e transferido para Brasília. O ministro Dias Toffoli, que é da Segunda Turma, se declarou suspeito e não vai participar do julgamento. Ex-relator do caso Master, Toffoli deixou a função em fevereiro, num acordo entre os ministros da Corte que não o declararam formalmente suspeito, apesar da revelação de que ele, Toffoli, era sócio da empresa que vendeu uma parte do resort Tayayá a fundos de investimento ligados a Vorcaro. Com a saída de Toffoli desse julgamento sobre a prisão, o destino imediato do pirata da Faria Lima será decidido por quatro ministros o relator Mendonça, Gilmar Mendes, Kássio Nunes Marques e Luiz Fux. Se der empate, Vorcaro será solto. Toffoli também se declarou suspeito nessa semana para analisar o pedido de instalação de uma CPI na Câmara sobre o Master, o Tayayá alegou razões de foro íntimo. E eu tenho até aflição de imaginar o que vai pelo foro íntimo de Toffoli. E Cristiano Zanin foi sorteado para analisar o pedido da CPI. Além do Tayayá, quem continua com o foro íntimo enrolado é Alexandre de Moraes. Na segunda-feira, o escritório de advocacia de Viviane Barci divulgou uma extensa nota confirmando que foi contratado pelo Banco Master entre fevereiro de 2024 de novembro de 2025. Nota que, sem citar cifras, deveria justificar, entre aspas, o valor escandaloso do contrato, que era de 129 milhões em três anos, conforme sabíamos já há três meses ou mais. O texto, no entanto, pouco explica a respeito do essencial e as dúvidas sobre as relações entre o casal Barci de Moraes e Daniel Vorcaro seguem intactas. Alexandre de Moraes deve ao país explicação sobre as mensagens de WhatsApp que trocou com o banqueiro no dia em que ele foi preso pela primeira vez, em novembro do ano passado. De tudo isso e das notícias sobre a Reag, que Ana Clara acompanha de perto, a gente vai falar nos dois primeiros blocos. No último bloco, a gente vai falar da conexão entre essa crise e a sucessão presidencial. As coisas já estão conectadas, é óbvio. O Supremo será um assunto importante da campanha eleitoral e servirá, como já está servindo, para que a direita bolsonarista alimente o discurso antissistema, misturando tudo para deslegitimar as instituições e vender a versão de que a prisão de Jair, o pai golpista do agora candidato a golpista Júnior, Flávio Bolsonaro, tudo foi uma armação de juízes corruptos ou corrompidos. Cabe, não à esquerda, mas aos democratas, o desafio de separar as coisas. O escândalo do Master é uma coisa, o julgamento dos golpistas foi outra, mas cabe exigir, ao mesmo tempo, que todos os personagens, incluindo os dois ministros do STF, sejam investigados e respondam por seus atos. Contemporizar, diante dessa lambança, não é uma opção. A gente vai falar ainda das pesquisas de opinião que mostram como o desgaste da imagem do Supremo está sendo metabolizado politicamente. E vai falar também da investida do governo norte americano para que organizações criminosas no Brasil, como o Comando Vermelho e o PCC, sejam classificadas como terroristas ou narcoterroristas. Se isso ocorrer, o Brasil fica mais vulnerável no tabuleiro de War de Donald Trump. Depois do sequestro de Nicolas Maduro e da escalada militar contra o Irã, o próximo território à sua escolha pode acabar sendo o nosso. O Itamaraty entrou em campo para frear esse movimento. Dependendo de como esse processo evolua, o Brasil pode ser arrastado para a estratégia de segurança desenhada em Washington em ano de eleição um presidencial. É isso. Vem com a gente.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem! Ana Clara, vamos começar com você. E eu passei a semana inteira curioso para tentar entender o que vai pelas entrelinhas da nota da Viviane Barci de Moraes, já que nas linhas não entendi muita coisa, ou que eu entendi não é suficiente. Explica pra gente.
Ana Clara Costa: Bom, eu também não sei se eu entendi, mas vamos lá. Depois que as mensagens da semana passada foram reveladas, o ministro Alexandre de Moraes, ele tinha duas opções: ou ele reconhecia a conexão com o Vorcaro e tentava explicá-la de alguma forma, ou ele podia negar tudo, né? E ele optou pela segunda opção, usando esse argumento de que aquelas mensagens não foram para ele… E como são mensagens instantâneas, elas não estão expostas ali, né? Enfim, ele criou uma, uma perícia ‘made in gabinete dele’ para dizer que aquelas mensagens não vieram do celular dele, coisa que todos os peritos que foram ouvidos pela imprensa depois disseram que não fazia sentido, né?
Fernando de Barros e Silva: Eu tô aqui imantado pela notícia de que a gente vai para Recife. Tô pensando que esse mistério é pior do que a perna cabeluda do Agente Secreto. O mistério das mensagens do Alexandre de Moraes.
Ana Clara Costa: É, ele alega que não saíram do celular dele, mas a verdade é que as mensagens que foram enviadas para ele batem com aqueles horários daqueles escritos no bloco de notas e a respostas dele em seguida, né? Enfim, isso aí vai criar toda uma discussão, mas vale lembrar que tanto a Folha quanto o Globo foram ouvir peritos que tiveram acesso ao mesmo material que a imprensa e esses peritos não corroboraram essa justificativa dada por ele. E ele continuou sem explicar nada, né? Porque se o contato com o Vorcaro era legítimo, já eram amigos de charuto, sei lá. E tá dentro do escopo do que se espera de um ministro do STF, por que não falar sobre essa relação se eles só jogavam poker? Não sei. Você pode falar, né? “Olha, a gente era amigo de poker, jogava poker no fim de semana”. Você pode falar, mas aí que você continua sem explicar nada. E logo o Alexandre de Moraes, que conduziu o Inquérito das Fake News, que combateu a desinformação no bolsonarismo, ele usa um argumento para descredibilizar a polícia quando ele fala que essas mensagens não foram do celular dele e tal, ele acaba jogando uma nuvem de desconfiança sobre o trabalho da investigação, que é uma estratégia que é comum, né? Não é o primeiro a fazer isso. Inclusive, ele foi alvo disso quando havia o inquérito do golpe e, de certa forma, isso que ele fez azeitar um pouco essa narrativa de que há um complô contra ele, de uma conspiração contra o STF, que a direita está fazendo uma conspiração contra o STF e tudo mais. Isso até pode colar, eu acho. Para quem tortura os fatos, para fazer caber esses fatos dentro de uma história que a pessoa quer acreditar, né? Mas o fato é que o Alexandre de Moraes é um ser humano. Seres humanos erram. Ele fez um trabalho exemplar em um caso que ele conduziu e errou, né?
Fernando de Barros e Silva: Ou dois seres humanos, segundo um colunista suspeito também que…
Celso Rocha de Barros: Esse cara aí…
Fernando de Barros e Silva: Doctor Jack…
Celso Rocha de Barros: Esse colunista aí… Não sei não, hein?
Fernando de Barros e Silva: Colunista duvidoso! Colunista duvidoso.
Ana Clara Costa: Verdade. Dois seres humanos. Bom, enfim, a derrubada do mito não é bem digerida por todo mundo, né? Eu acho que essa explicação que ele deu não explica nada e ela joga ainda mais fumaça onde deveria haver esclarecimento. E aí o escritório da Viviane Barci, que nunca havia aceitado informar os serviços prestados ao Master, como a gente falou várias vezes aqui, inclusive. Diante dessas mensagens, resolveu emitir uma nota contando que serviços foram esses. Eles contrataram uma assessoria de gestão de crise e tal, porque realmente fica complicado depois daquelas mensagens, porque havia as mensagens instantâneas trocadas no dia da prisão e haviam as mensagens em que o Vorcaro conta que iria se encontrar com Alexandre de Moraes, conta que queria conversar com Alexandre de Moraes. Então, assim, além das mensagens instantâneas, há outras mensagens, né? E só depois que essas mensagens foram expostas é que veio a nota do escritório.
Fernando de Barros e Silva: Essa nota do escritório veio de charrete. A crise veio de foguete e a nota veio de charrete, devagar pela estrada.
Ana Clara Costa: Eu ia falar um negócio, mas o Fernando foi muito mais direto e…
Fernando de Barros e Silva: Três meses depois chega de burrinho com a nota.
Ana Clara Costa: Claro.
Ana Clara Costa: Exato. Não, mas a questão é: eles teriam enviado uma nota? Se as mensagens tivessem continuado em sigilo, ela iria se explicar? Ela iria explicar o trabalho que foi feito? Não sei, mas a impressão que dá é que ele só se dispuseram a explicar qualquer coisa, estou falando do escritório, especificamente, porque não tinha saída. Fica para vocês avaliarem como vocês quiserem, né? E aí assim, a explicação… As 94 reuniões presenciais ou virtuais, 36 pareceres, a elaboração de um Código de Conduta e Compliance do Banco que, claramente, não foi colocado em prática. Código este que tem sido revirado pela imprensa nesses últimos dias, e há trechos copiados de outros códigos, imagens da internet que são gratuitas. Ou seja, a imprensa fica procurando formas de justificar o preço do contrato, né? E foi isso que foi apresentado.
Sonora: No Manual de Compliance, não sei se vocês leram, diz que não pode roubar. Vocês viram? Não pode subornar autoridades públicas. Se tivessem seguido o contrato, o Manual de Compliance.
Ana Clara Costa: Bom, só a título de comparação, um relatório de inteligência do Coaf sobre o Master, ao qual eu tive acesso, mostra que entre outubro de 2024 e julho de 2025, o escritório do Walfrido Warde, que, até pouco tempo atrás, era o principal escritório de advocacia do Master e que coordenava inclusive a defesa do Vorcaro, fazia parte da interlocução do Master com o Banco Central, com a CVM, enfim, todos esses órgãos que o Master gostava de atuar… O escritório do Walfrido tem ex-funcionários desses órgãos no seu escritório. Bom, segundo esse relatório, o escritório do Warde recebeu do Master nesse período de dez meses, cerca de 40 milhões de reais, o que dá mais ou menos 4 milhões por mês, um valor muito parecido com o que recebia o escritório da Viviane, segundo o contrato firmado com o Master, de 3,6 milhões por mês. Ou seja, o escritório dela recebeu o mesmo valor que o principal escritório do Master por um trabalho que, enfim, não somos nós a avaliar se o trabalho é merecedor desses honorários ou não, mas de fato, trabalho que foi executado pelo escritório dela não parece ser o trabalho prioritário para um escritório de advocacia no caso do Master, principalmente porque está bem claro que o banco não tinha qualquer intenção de cumprir regras de compliance. Ainda falando em perspectiva, para a gente ter uma noção do que são honorários, segundo esse relatório de inteligência, o Master era o principal cliente do Warde. Um outro grande cliente do Warde era a JBS, que pagou, nesse mesmo período, 2,6 milhões de reais para o escritório do Warde em dez meses, dividido por dez meses, ou seja, 260 mil por mês se a gente dividir igualmente. O que mostra como já o valor pago pelo Master para o Warde já era uma coisa bem extravagante para o que se fala de honorários. Se a gente comparar com outro grande cliente que é a JBS, então só tô falando esses números que estão nesse relatório do Coaf para colocar em perspectiva o valor vultoso que foi pago para o escritório dela. Só para a gente entender que não é banal, né? Esses honorários de quase 4 milhões por mês. E aí, depois dessa explicação do escritório, o ministro continua sem qualquer intenção de explicar nada, né? Independentemente de ele ter feito algo pelo Master ou não, e vamos aqui trabalhar com a presunção de inocência, que ele não fez nada… Nesse cargo que ele está, que carrega a Constituição nas costas, você tem que ter alguma prestação de contas, né? No final, são agentes públicos que se encontram em situações ambíguas, para dizer o mínimo. E eles têm que dizer o que eles fizeram e porque eles fizeram, né? Tem que se declarar suspeito, se tiver alguma relação pessoal tem que explicar a relação pessoal. Eu não consigo entender até agora por que o ministro Dias Toffoli não se declarou suspeito desde o princípio, sabendo que ele tinha uma relação financeira e pessoal? Eu acho que assim, numa tentativa de se proteger individualmente, eles acabaram colocando uma bomba atômica dentro da instituição, o que não é bom para ninguém, para o Brasil, para a democracia, para a instituição em si. E essa crise que o Supremo vive agora, ele culpa em parte o governo por ela. Eu já falei aqui na semana passada, alguns ministros da corte estão totalmente indignados com os arquivos enviados pela PF para a CPI do INSS e eles atribuem essa atitude da PF ao governo. E eles também ficaram indignados com a visita do Andrei ao Fachin para falar do Toffoli. E essa cisão, de certa forma, entre o governo e a corte vem desde a época da Lei Magnitsky, porque, naquela época, o STF achou que não foi suficientemente defendido pelo governo, que o Banco Central queria mesmo que eles fechassem as suas contas sob temor de risco sistêmico. Então, assim, é uma coisa que vem desde lá atrás e já o governo está aí, apanhando da opinião pública justamente pelas razões opostas, ou seja, por ser, de certa forma, visto como simpático ao Supremo. Então, se tem uma situação totalmente esquizofrênica entre o que de fato está acontecendo na relação entre governo e Supremo e como a opinião pública está vendo a relação governo supremo, né? Bom, a gente vai falar isso no segundo bloco, mas eu acho importante colocar esse ponto aqui, porque ele é fundamental para o que está acontecendo no Supremo hoje. E o André Mendonça acabou determinando que os delegados que cuidam da investigação não compartilhem nada com seus superiores. Ou seja, ele impôs um dever de sigilo sobre esse material que exclui superiores hierárquicos, o que é muito incomum, né? O juiz dar esse tipo de ordem para investigação. Mas tem uma questão que é a seguinte: depois da relação que se criou do ministro relator com a investigação, pelo Alexandre de Moraes no caso do golpe nas investigações que ele tocou no governo Bolsonaro, como é que o Supremo, o Fachin chega lá e fala pro André Mendonça “olha, acho que você está exagerando. Você não pode fazer isso com a Polícia Federal”. O cara vai achar que ele pode fazer também, do mesmo jeito que o outro fazia. E aqui eu não estou fazendo juízo de valor, se está certo ou errado. Era o que era possível naquele momento. E eu acho que a Procuradoria-Geral da República tem uma parte importante nessa questão. Porque para você ver como o sistema de freios e contrapesos está desequilibrado, a dinâmica que se estabeleceu na época do Aras, no inquérito do golpe, que ele não fazia nada, basicamente, que era não fazer nada.
Fernando de Barros e Silva: Nada.
Ana Clara Costa: Convidou o Supremo a ter a conduta que ele teve, né? De certa forma, de procurador, de investigador, de tudo. Porque você tinha uma PGR que não fazia nada.
Fernando de Barros e Silva: O Aras é o nome de resort. Eu chamaria, se eu tivesse um resort, o resort Aras. Ele é o próprio sinônimo de ociosidade.
Celso Rocha de Barros: E o Congresso também não fazia nada, porque um monte de coisa de fiscalização contra o golpe deveria ter sido feito pelo Congresso, que estava comprado pelo Orçamento Secreto.
Ana Clara Costa: É, que não parecia…
Fernando de Barros e Silva: Nada.
Ana Clara Costa: Parecia não estar preocupado com o golpe, né? Bom, e aí a gente lembra o que acontecia naquela época e hoje isso meio que se repete. Não porque o Gonet queira, necessariamente, passar pano para o caso, mas uma vez que aquela dinâmica se alterou, você não consegue mais falar assim “olha, STF, agora volta para o seu lugar, agora eu decidi atuar”, entendeu? Agora tá desequilibrada a relação e a PGR não ajuda as coisas quando a gente fica sabendo, no caso, pela Folha de São Paulo, que eles souberam em novembro, que eles estavam sendo hackeados pela turma do Vorcaro e não fizeram nada. E aí depois, agora, nessa operação da semana passada, em que o André Mendonça pediu a manifestação da PGR sobre a operação que prendeu Vorcaro, e a PGR não deu essa manifestação no prazo que foi dado. Enfim, a situação está de certa forma conflagrada ali, nessa coisa PGR e Supremo, governo. As coisas não estão equilibradas. E agora, não se sabe se a atitude do André Mendonça, quando ele proíbe os delegados de compartilhar as informações desse inquérito, tem a ver com a indignação dos colegas dele com o governo ou se ele não quer que o Andrei Rodrigues, que é o diretor geral da PF, saiba o que está sendo investigado e informe o Planalto sobre isso. Quem está acompanhando o tema em Brasília, acredita que a segunda opção é mais plausível, que o André Mendonça acredita que o Andrey possa informar o Lula e ele não quer que o Master sirva de munição para o governo.
Fernando de Barros e Silva: Quem está acompanhando aqui da choupana, em São Paulo, também acha que essa segunda opção é mais plausível.
Ana Clara Costa: O Andrei Rodrigues hoje está numa situação delicada, porque ele se aproximou muito do Alexandre de Moraes durante a investigação do golpe. Trabalhavam em para ali, e agora ele chefia o órgão que pode vir a encontrar provas que prejudiquem Moraes.
Fernando de Barros e Silva: E o Andrei Rodriges estava numa das muitas viagens ao redor do globo, nessa que foi para o Hotel Peninsula, em Londres, que a gente já mencionou em outros programas, tomando uma Macallan e tal, não estava? Fumando charuto…
Ana Clara Costa: Sim, essa degustação de uísque foi revelada essa semana.
Fernando de Barros e Silva: Não é moralismo barato, nada disso, mas não é um comportamento adequado para pessoas que estão…
Celso Rocha de Barros: Não é bom. Agora o Andrei que prendeu o cara, né?
Fernando de Barros e Silva: Sim, o Andrei prendeu o cara. É. E tem gente, enfim, sem prova nenhuma, porque o Alexandre de Moraes não admite nem que conversa foi com ele, mas quando o Vorcaro pergunta “conseguiu bloquear?”, tem gente que fala “para quem que ele está falando? Só pode ser para PF, se a PF conseguiu bloquear, se o Andrei Rodrigues”… Enfim, tô falando aqui suposições, né?
Celso Rocha de Barros: A suspeita é essa.
Fernando de Barros e Silva: A suspeita é essa. Agora, o fato que a PF prendeu o cara.
Ana Clara Costa: Foram abertas brechas, e aí eu tô falando nessa relação PF, PGR, etc que foram úteis para desarmar o golpe, mas que agora podem ser um problema diante do envolvimento desses ministros. E aí, eu não tô falando de um envolvimento, necessariamente, ilícito com esse grande investigado que é o Daniel Vorcaro. Embora os ministros estejam em modo de autoproteção, eles não estão unidos no discurso, entendeu? Então, assim, você tem a Cármen Lúcia e o Fachin, que são absolutamente refratários ao jogo que está sendo jogado ali. Você tem o Fux, que tá achando bom que não seja com ele, porque ele que foi o foco meses atrás. Enfim, cada um tem o seu calcanhar ali para olhar, entendeu? Então, assim, não existe uma união no discurso como havia na época do golpe. Na época do golpe, era o Supremo inteiro, totalmente alinhado, para se defender do que estava acontecendo. Agora, isso não é a mesma coisa. As ações não estão sendo coordenadas e o desfecho é imprevisível. A gente não sabe exatamente o que o caso Master vai expor, mesmo porque as investigações não estão só nos relatórios da PF. Elas estão alimentando a CPI do INSS, a CPI do Crime Organizado.
Fernando de Barros e Silva: Parece aquela cena de barragem que vai furando aqui e ali. Tem vários canais de investigação. Você não consegue, por um lado, faz pelo outro. Enfim, tá uma confusão. É difícil até para a gente acompanhar onde está saindo o quê, né? CPI do Crime Organizado, CPI do INSS, coisa da PF, enfim, tem várias frentes e você vai montando um negócio, né?
Ana Clara Costa: Exato. As mensagens que foram divulgadas na semana passada, elas mostraram essas relações com o Supremo e também confirmaram o que a gente já sabia das relações do Vorcaro com políticos da direita, né? E aí, essa semana já começou a sair alguma coisa sobre isso, quando O Globo revelou que pagamentos foram feitos para o ACM Neto, que não tinha cargo público, diga-se de passagem, naquele momento, a título de consultoria. E esse pagamento foi feito pela Reag, que a gente já está esquadrinhando, na verdade, que era o veículo em que as transações republicanas e não republicanas eram feitas. Então apareceu o ACM Neto e a gente, enfim, não sabe se aparecerão outros nomes. Mas o fato é que essas pessoas que estão nas mensagens, o Rueda, presidente do União Brasil, Ciro Nogueira, presidente do PP, são fregueses de todos os esquemas que têm aí. O Breno Pires e o Arthur Guimarães informaram, na última edição da piauí, que o Rueda trocava mensagens com esses empresários ligados ao PCC, que lavavam dinheiro na Reag, em que eles falavam de movimentações financeiras de mais de 5 milhões de reais. Então, assim, são nomes que falta às investigações sobre a AG mostrarem na verdade, o que eles significam nesse esquema. Mas aqui eu queria, com muito amor, discordar do meu amigo Celso, porque eu acho que, embora a direita seja numericamente maior nesse esquema, vou citar uma situação hipotética, né? Imagine que o senador do centrão ou da direita seja pego numa das mensagens, ou sejam capturadas transações financeiras, compra de participação em hotel ou coisas parecidas nesse caso. Aí, esse caso chega na segunda turma, onde está o Toffoli, onde está o Nunes Marques, que tinha contato com o Vorcaro… Vamos supor que eles declarem suspeitos de julgar qualquer coisa em relação ao senador. O senador vai se perguntar: “peraí, mas por que eu estou sendo julgado? E os três ministros que se relacionaram com o cara estão aí só se declarando suspeitos?”. Isso, na melhor das hipóteses, porque talvez não se declare, né? Como que esses três ministros da segunda turma vão julgar esse caso?
Fernando de Barros e Silva: Lembrando que, lá no início, antes do caso ser sorteado para o Toffoli, o Fachin decidiu sortear… A defesa do Vorcaro pediu para que fosse o Kássio Nunes Marques, o ministro, porque os advogados têm esse direito de pedir, daí o presidente da corte acolhe o pedido ou não. Eles falaram “ah, o Kássio já está cuidando de um outro caso que tem a ver com esse negócio aqui”, enfim…
Ana Clara Costa: É, quer dizer alguma coisa você pedir para ser um ministro…
Fernando de Barros e Silva: Por que eles queriam que fosse o Kássio Nunes Marques? Fica essa pergunta. Não vamos, não vamos avançar em relação a isso, fazendo justiça ao probo Kássio Nunes Marques.
Ana Clara Costa: É, você… Vamos supor, você descobre que um senador tal vendeu um apartamento que vale 5 milhões por 10 milhões para o Master via Reag. Ou seja, 5 milhões ele ganhou de corretagem, para dizer a um termo exato. E aí, como é que você vai dizer que o caso do Tayayá é melhor? Entendeu? Então, o que está acontecendo no Supremo é tão grave que tem o poder de prejudicar as investigações sobre os parlamentares, que pode ser que tenham sido pagos da mesma forma.
Celso Rocha de Barros: Foram pagos.
Ana Clara Costa: Né? Assim, é isso.
Fernando de Barros e Silva: Pode ser que tenham… Foram. Bom, a diretora já está me cobrando aqui, a gente vai encerrar o primeiro bloco do programa. Fazemos um rápido intervalo. Na volta, a gente segue falando da crise do Master. Já voltamos.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Estamos de volta. Celso, deixa eu te ouvir.
Celso Rocha de Barros: Então, Fernando, já começando a falar o óbvio, né? Essas ligações entre o Vorcaro e o Alexandre de Moraes são uma vergonha, né? Como disse o Rafael Mafei, grande Rafael Mafei, grande mestre Rafael Mafei, na piauí, assim, com essa pergunta, assim ‘conseguiu bloquear?’, “não é sobre jogo de vôlei, certo?”. Então, a gente pode não ter certeza sobre o que é, mas sobre o que seria, certo? Me diga. Pode não ser a prisão, pode ser uma outra coisa qualquer. Pode ser… Alguém já especulou, por exemplo, que seja alguma operação que ele estava querendo fazer para arranjar um financiador para cobrir o rombo do Master, sei lá, alguma coisa… Pode ser. Mas enfim, o que não tá com cara de ser nada bonito, certo? Então, assim, o ideal seria o Xandão e o Toffoli se afastarem do STF, pelo menos para responder às acusações, para ter uma investigação. Isso não vai acontecer, entendeu? Assim, o mais provável é que as instituições continuem sangrando credibilidade e o Brasil se ferre de algum jeito. Bom, o que tudo parece indicar, mas que o meu departamento jurídico interno, que é muito vagabundo, trabalha muito mal, tá me dizendo aqui para não dizer com certeza. É que o Vorcaro dava dinheiro para os ministros do STF para que eles acobertar as suas picaretagens. Não tem a menor evidência disso. Tenho certeza que é mentira, entendeu? Jamais me ocorreria acusar qualquer juiz de qualquer época do mundo de ter feito uma coisa dessas. O tipo de crime em questão, por exemplo, se tem corrupção, se é advocacia administrativa, tem vários crimes possíveis para enquadrar, que é o quanto isso tudo pode ser provado, que é importante também. Por exemplo, tem coisas aqui que a imprensa apurou em off, entendeu? Isso para o jornalismo é 100% ok, mas não para o Judiciário, certo? Assim, o Judiciário não tem off. Então, enfim, tem coisas aqui que podem até ser suficiente para provar que o cara fez uma mutreta do ponto de vista da opinião pública, mas pode não se sustentar no tribunal, certo? Então, tudo isso eu deixo para os juristas discutirem. Mas o que está claro é que o Xandão e o Toffoli se meteram em alguma coisa feia e que eles deviam ser investigados, pelo menos. Agora, se você está impressionando com o quanto o Vorcaro pagou para o escritório da esposa do Alexandre de Moraes, 129 milhões, ou pela parte lá do Toffoli no Tayayá, que pelo que tá apurado até agora, pela imprensa, é algo como 15 milhões, você imagina o quanto que o Banco Master roubou, né amigo? Porque isso tudo é para abafar o que o Daniel Vorcaro e o Banco Master fizeram. Então, você imagina o que esses caras fizeram. E aí que eu acho importante a gente colocar a história do STF em perspectiva, até para conversar com o que a Ana falou antes. O STF entra na história do Master no final, o Master já roubou o dinheiro de todo mundo, os parlamentares de direita do Congresso já fizeram tudo que eles podiam para livrar o Master de quebrar. O governo de direita do Distrito Federal já tentou salvar o Master com dinheiro público, com dinheiro do Banco de Brasília e deu errado. O Banco Central não deixou. Aí entra o STF na história. E o STF entra de maneira horrenda, rntendeu? A atuação do STF nesse negócio foi horrorosa. Isso que a Ana falou aqui, quer dizer, que o cara tá lá acusado e aí que moral que o ministro do Supremo vai julgar o cara, entendeu? Isso aí é tudo verdade. Isso aí não tem o que dizer, não tem que passar pano para nada do STF, tem que passar pano para ninguém. Enfim, é isso aí. Sobre isso, acho que não tem muita, muita margem para discordância. Agora, o Master teve um rombo de 52 bilhões de reais, que foi o que o FGC teve que cobrir. Só o Cláudio Castro, governador do Rio, botou quase 1 bilhão de dinheiro de aposentados do Rio de Janeiro no Banco Master. A escala dessas quantias de desvio do Banco Master é um dos pouquíssimos escândalos que você consegue comparar ela com grandezas macroeconômicas. Então, por exemplo, o superávit do governo em janeiro foi 86 bilhões, que é da mesma escala de número do que o Master tirou do FGC. Isso é raríssimo. Nenhum desses casos de corrupção você consegue comparar ele com uma coisa de macroeconomia ou coisa que o valha. Então, assim, a gente tem que contar a história do STF fazendo merda no caso Master, me perdoe o meu francês, mas ele é o final da história do Banco Master. E na história do Banco Master, além de ter um picareta da Faria Lima dando golpe nos clientes e sócios, etc, tem bastante político. E aí, a oposição não é ou a direita ou o STF. A oposição da direita é a esquerda. Então, a comparação em que a direita está muito mais envolvida que todo mundo é com a esquerda. Mas, assim, é óbvio que é uma crise do STF também, né? Agora, eu acho muito importante a gente ter a noção de que o STF chega na história no final, por exemplo, a gente pensar como é que vai ser essa CPI do banco Master caso ela aconteça, pode não acontecer, entendeu? Tem altas propostas de pizza acontecendo dentro do Congresso. Mas para me concentrar no caso da CPI que o senador Alessandro Vieira está propondo, não tenho nada contra o senador Alessandro Vieira. Enfim, a princípio me parece um cara bem intencionado até que me prove o contrário. Agora, eu tenho um certo medo dessa CPI por dois motivos: primeiro, eu não gosto da ideia de uma CPI do Master que seja só sobre os ministros do STF.
Ana Clara Costa: Exato.
Celso Rocha de Barros: Exatamente. Aí reforça muito a impressão…
Ana Clara Costa: Por que não a CPI do Master? Exato. É isso que eu quero.
Celso Rocha de Barros: É isso que eu quero. Eu quero uma CPI que corte na carne do Congresso. Porque, cara, final do ano passado tavam todos os partidos grandes de direita e eles pegaram um projeto que era um projeto meio de esquerda, essas coisas contra autonomia do Banco Central, que daria autonomia para o Congresso tirar diretores do Banco Central. Os partidos de direita ressuscitaram isso no final do ano passado, enquanto o Banco Central estava decidindo sobre o Banco Master, pedindo urgência para esse troço para intimidar a diretoria do Banco Central. O Ciro Nogueira, todo mundo sabe, tentou a emenda Master que teria quebrado o Brasil, basicamente, que seria aumentado a cobertura do FGC de 250 mil para 1 milhão. O Brasil tinha quebrado. O Felipe Barros, que eu citei aqui no último programa, apresentou um projeto de lei que fazia exatamente a mesma coisa. Felipe Barros, do partido do Bolsonaro.
Fernando de Barros e Silva: PL do Paraná, acho que vai ser candidato a deputado ou vai ser candidato ao Senado. É o que eles querem.
Celso Rocha de Barros: Exato. Tem chance de ganhar, sem dúvida. E o cara, basicamente, tentou quebrar a economia brasileira para salvar o Master. Então você fazer uma CPI do Master seria urgente, seria super necessário. Mas assim, quem vai fazer a CPI do Master se ela ocorrer no mundo real, são esses caras. Na hora que começar a briga para ver quem vai ser os membros da CPI, vocês acham que vai ser quem? Eu teria uma lista de parlamentares honestos, não é uma lista longa, mas eu tenho, que poderiam fazer uma boa CPI do Banco Master, entendeu? Poderiam. Eu duvido que qualquer um deles entre se for ter uma CPI do Master nesse congresso que a gente tem. Então, já acho isso bastante complicado. Então, eu tenho certeza que é por isso, porque o Alessandro Vieira sabia que jamais passaria uma CPI do Master, que ele está tentando fazer só dos ministros do STF. Eu já não acho isso bom, você vai dize “ah, mas pelo menos pegou alguém”. É, mas aí eu acho que esse desequilíbrio de quem pegou e não pegou pode ser ruim para o Brasil. Assim, pode queimar as instituições de um jeito que eu não gosto. Agora, mesmo essa CPI, que eu tenho seríssimas dúvidas se conseguiria fazer alguma coisa, o pessoal do centrão e da direita no congresso não tá afim de fazer. Nem o governo federal também quer fazer porque não quer marola, não quer que descubra o negócio PT da Bahia, sobretudo, quer que esse assunto morra porque já percebeu que queimar o STF é queimar o Lula.
Ana Clara Costa: É, nitroglicerina para eleição.
Celso Rocha de Barros: Exato. Então, nesse caso, ninguém tá querendo essa CPI. Quem não tá querendo também, é a família Bolsonaro. O Eduardo Bolsonaro xingou o Alessandro Vieira de cínico, no fim de semana, e o Flávio Bolsonaro fez um negócio que eu achei particularmente bizarro, que ele assinou a CPI e se declarou contra.
Fernando de Barros e Silva: Sim, sim.
Celso Rocha de Barros: Sei lá, né? Enfim, vai ver que é isso que às vezes o pessoal confunde achando que ele é moderado, né? Porque ele não consegue ter uma posição. Porque ele assinou o negócio, e, sei lá, no dia seguinte, sei lá, ele veio falar que a CPI é ilegal, que não pode investigar atos de, enfim, sei lá o argumento picareta que ele usou. Também saiu chamando o Alessandro Vieira de hipócrita, então. E enfim, a probabilidade maior é que esse negócio acabe numa pizza qualquer, o que é muito ruim porque vai ficar aquele mal estar antissistêmico fermentando na população e sabe Deus o que que vai acontecer. E aí, olha só, no meio dessa confusão em que você tem, basicamente, uma maioria parlamentar no Congresso que vem apoiando Master, e você tem ministro do Supremo, já começa os senhores milicos a falar, por exemplo, para o Merval Pereira, que está incomodado do Lula não enquadrar os ministros do STF. Amigo milico, você cale sua boca, meu amigo, entendeu? Você tá maluco? Quem é você para dar palpite sobre isso? O que que você quer que o Poder Executivo faça exatamente para enquadrar o STF? E, olha só, se tá querendo se meter a macho vai para o Irã, cara, vai para Ucrânia, tá cheio de guerra aí para você dar tiro nas pessoas. Vai lá, meu. E agora, o que que esse bonitão tá querendo fazer dando esses recados na imprensa? Os caras estão querendo dizer assim “Olha só, a gente tá aqui de guardião da ética, é o Lula que tinha que dar um jeito nisso, entendeu?”. Isso, é claro. Discurso claramente golpista.
Fernando de Barros e Silva: Exato.
Celso Rocha de Barros: E esse discurso tinha que ser abortado basicamente pelas instituições, funcionando assim. Basicamente, o Alexandre Moraes e o Toffoli tinham que sair do STF para responder essas acusações. Bom, aí eu nem sei o que poderia acontecer no Congresso para eles tomarem vergonha na cara e investigar o Master a sério. Mas enfim, sei lá, espíritos de luz podiam baixar em massa ali dentro do Congresso Nacional e obrigar os caras a fazerem isso.
Fernando de Barros e Silva: No mundo real as coisas estão complicadas. Ana Clara, vamos lá.
Ana Clara Costa: Falando em CPI, essa semana o João Carlos Mansur, dono da Reag, foi ouvido na CPI do Crime Organizado. João Carlos Mansur, que nunca tinha aparecido desde das operações Quasar Carbono 14, no ano passado, em que descobriu-se a relação dos fundos dele com o PCC, e ele estava fora do Brasil quando isso aconteceu e também estava, curiosamente, fora do Brasil, quando veio a Compliance Zero. Bom, ele negou tudo na CPI, inclusive a parte de trabalhar para o PCC. E ele usou esse argumento, que o Master também usou muitas vezes para culpar o BTG por tudo que aconteceu, esse argumento de que eles estão sendo atacados porque eles são independentes, porque eles não fazem parte do sistema, porque eles são novos e tal. O Mansur fez a mesma coisa, de que eles são outsiders do mercado. E, de fato, eles são outsiders, porque eles sempre operaram no limiar da legalidade. E agora, segundo as investigações da PF, fora da legalidade. A Reag, ela era conhecida na Faria Lima por operar fundos que captam dinheiro de institutos de pensionistas de estados e municípios, coisa que o Master passou a fazer. Foi um dos principais negócios dele com os governadores de direita aí que são chamados RPPS, que são os regimes próprios de Previdência Social. Essa turma que pega o dinheiro dos aposentados desses institutos, e coloca em fundo cheio de ativo podre, ela sempre foi considerada meio que a escória da Faria Lima, porque, em geral, para pegar esse dinheiro, você paga propina para o gestor público. E no âmbito municipal, estadual, os controles são menos eficazes do que no federal, que já não é tão bom assim. Então, tudo que é fundo de RPPS é considerado lado B, lado C do mercado. E a Reag era especializada nisso. Então, economista, gestor, ninguém queria trabalhar na Reag, ninguém renomado assim, minimamente. Tanto que a primeira reportagem da Consuelo sobre o Master, em outubro de 24, já falava de um caso flagrante de fraude em RPPS envolvendo o Tanure, a Reag, o banco Máxima, que foi o banco que o Vorcaro comprou e transformou em Master. E esse esquema acontecia entre 2010 e 2017, ou seja, naquela década a Reag já operava esse esquema de RPPS. E aí, o Ministério Público abriu uma investigação, foi feito uma operação, inclusive chamada Fundo Fake, na época, em 2020, e nada aconteceu, nem com o Vorcaro, nem com a Reag, nem com o Tanure. Virou uma grande pizza naquela época. Pelo contrário, enquanto essa operação acontecia, o Vorcaro recebeu a autorização do Banco Central para ter um banco, Banco Master, diante dessa operação. E essa operação nunca deu em nada. O ovo da serpente do que aconteceu no Master vem da parceria da Reag com Tanure e com o banco Maximo, e com o Vorcaro, que ainda não era dono do banco, em Belo Horizonte, na década passada. Então, para o João Carlos Mansur chegar na CPI e ter a coragem de negar tudo e dizer que eles estão sendo perseguidos porque eles são independentes, é realmente chocante. Assim, para dizer o mínimo. Só para concluir, nunca houve um pedido de prisão contra o Mansur. Enfim, eu não estou aqui para questionar. Enfim, a polícia que sabe o que ela tem, mas diante do envolvimento da Reag, e diante do fato das pessoas que foram alvo de pedido de prisão ali, e diante do fato de Mansur estar no exterior a maior parte do tempo, me causou estranhamento o fato de nunca ter havido um pedido de prisão contra ele.
Fernando de Barros e Silva: Tem bons advogados, né? Quem é advogado dele mesmo?
Ana Clara Costa: É o Juca, o mesmo que defendeu o Braga Neto.
Fernando de Barros e Silva: Só o Juca?
Ana Clara Costa: Do Mansur é o Juca.
Fernando de Barros e Silva: Bom, então com este pot-pourri de emoções e revelações, nós vamos encerrando este bombástico bloco do programa. Fazemos um rápido intervalo. Vamos falar da conexão dessa crise com a sucessão presidencial. Já voltamos.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem, estamos de volta. Celso, vou começar com você. Tivemos aí rodadas de pesquisas relacionando essa crise do Master e o impacto dela no Supremo com o impacto da crise, por sua vez, no processo político eleitoral. Saiu pesquisa da Quaest, saiu agora a pesquisa Datafolha. Elas, mais ou menos, convergem nas conclusões, nos resultados. Vamos lá.
Celso Rocha de Barros: É isso mesmo, Fernando, o que as pesquisas vão mostrando é que o escândalo tem afetado mais a reputação do STF do que de qualquer outra instituição, o que até é mais ou menos compreensível, a gente falou que é um escândalo do STF também. A atitude dos ministros é escandalosa mesmo. Então, é inteiramente compreensível que a opinião pública vire contra o Supremo numa hora dessas. Agora, o que surpreende, num certo sentido, é o fato de que isso está batendo muito mais no governo Lula do que na direita. Então, a direita está ganhando com o escândalo Master até agora. Isso também é compreensível até certo ponto, porque o STF garantiu a democracia, evitou o golpe. Quem ganhou a eleição democrática foi o Lula. Então, na cabeça de quem não gosta nem do Lula nem do STF, foi o STF que colocou o Lula na presidência. Agora, só para lembrar, quem colocou o Lula na presidência foi a maioria do eleitorado brasileiro. O STF só garantiu que a vontade da maioria do eleitorado brasileiro fosse respeitada, impedindo que um bandido marginal destruísse a Constituição brasileira.
Ana Clara Costa: E quase não impediu. Se a gente pegar o que aconteceu com a PRF…
Celso Rocha de Barros: Exatamente. Exatamente. Então, enfim, o saldo é esse. O escândalo tá batendo pesado contra o governo Lula. E aí, vocês vão me desculpar ser meio repetitivo, mas eu acho meio escandaloso que a direita brasileira esteja com grandes chances de ganhar a Presidência da República como recompensa por ter quebrado um banco. Porque se você for lá, vamos pegar aqui os envolvidos nesse caso. Eu já falei aqui, entre os entes federativos que aplicaram o dinheiro de aposentado no Banco Master, mais ou menos 90% são de direita, deputados na lista de contatos do Vorcaro, 100% de direita. Deputados que apresentaram uma emenda constitucional ou projeto de lei para aumentar o limite do FGC e salvar o Master, 100% de direita. Governadores que tentaram salvar o Master com dinheiro público só tem um, tudo bem, mas é o de direita, é o Ibaneis. E o que eu acho mais interessante, pega, por exemplo, o Zettel, o Fabiano Zettel, o cunhado do Vorcaro. O cunhado do Vorcaro deu o dinheiro e botou o avião a disposição para vários políticos. Ele é o maior doador individual da campanha do Tarcísio, da campanha do Bolsonaro. E ele deu o jatinho para o Nikolas viajar pelo Brasil fazendo campanha para o Bolsonaro.
Fernando de Barros e Silva: Uhum.
Sonora: E, aqui tem uma diferença importante, se você pegar, por exemplo, o escândalo das empreiteiras, o escândalo que a Lava Jato pegou, as empreiteiras, sim, eram ecumênicas. As empreiteiras davam um dinheirão para o PT e um dinheirão para o PSDB. E o trato era: eu vou continuar aqui fraudando licitação da Petrobras e das outras obras públicas todas. Qualquer um dos dois aí que ganha eleição não me enche o saco. Vou nomear um cara meu aí para para garantir que eu vou continuar roubando aqui numa boa. Não há nenhum registro até agora do Zettel ter emprestado avião ou dado dinheiro para qualquer candidatura, já não digo nem da esquerda, mas, assim, mais para o centro. Ele só botou esse aparato todo à disposição de candidatos de direita. É muito diferente do escândalo das empreiteiras.
Ana Clara Costa: E o Ciro é o amigo da vida, né?
Celso Rocha de Barros: Exato. Exatamente.
Fernando de Barros e Silva: Amigo “de vida”. Pior ainda do que “da vida”.
Celso Rocha de Barros: Eu já falei no bloco passado que, enquanto o Banco Central estava julgando o caso Master, partidos no Congresso Nacional assinaram um requerimento de urgência para um projeto que lhes permitiria demitir diretores do Banco Central por maioria simples no Congresso. Eles obviamente queriam demitir o diretor do Banco Central, que impediu a compra do Master pelo BRB. Quem são os partidos? São o PP, de direita, o PL, de direita, os Republicanos, de direita, o MDB, que, vamos lá… Centro. Sei lá. Na esquerda, você tem o quê? Você tem o Mantega fez lobby pelo Master. Fez mesmo. Se quiserem prender o Mantega, por mim, tudo bem. Até vai melhorar o nível do debate econômico dentro do PT. O Lewandowski teve um contrato completamente imoral lá com o Master. Ele também é totalmente injustificável. Agora, o Lewandowski também não… Pelo menos, não pegou nada que ele tenha feito a favor do Master. A Polícia Federal continuou livre para fazer o que quisesse enquanto isso. E o Lula que, cara, tem um monte de meios de comunicação botando o Lula em manchete, cara, sobre o Banco Master para dizer que esquerda e direita estão envolvidos. O Lula fez uma reunião com o Vorcaro, na presença do Galípolo e do Guido Mantega. Segundo todos os relatos disponíveis, o Lula falou “quem vai resolver isso é Galípolo, se vira aí”. Não tem nenhum… Até agora, não saiu nada que indique o contrário. Aí você vai dizer “ah, mas eu não acredito nisso”. Tem todo direito de não acreditar. Mas aí, o que que é relevante? A gente conhece algum desdobramento prático dessa reunião? Tem alguma medida do governo Lula que foi tomada para salvar o banco Master? Até agora não tem nada. Se você abrir todo o celular do Vorcaro, pode ser que apareça alguma coisa? Óbvio que pode. Aí a gente revisa esse diagnóstico, mas com os dados que a gente tem até agora, é o que eu estou dizendo há mais de um mês. Então, a cada dia que aparece mais dados, os dados só reforçam isso que eu tô dizendo até agora. Desculpa, gente, isso aqui não é uma crise do sistema político brasileiro. Isso aqui é uma crise da direita. E eu acho que você não dizer isso é muito ruim por vários motivos. Primeiro, você está escondendo uma coisa do público. O público tem o direito de saber disso. O público não é obrigado a fazer essa tabelinha que eu fiz sei lá quantos entes federativos e ver quem é que está governando cidade do interior por aí, para saber quem é que tem mais, quem é que tem menos. O público não é obrigado a acompanhar a emenda parlamentar para saber quem quer aumentar o valor de cobertura do FGC. Enfim, eu acho que ele merece ser informado que a maioria desses caras são de direita porque isso é verdade, factualmente falando, contando quantos tem de cada lado, fazendo uma tabelinha com quantos têm de um lado, quando têm do outro. E se você quiser ser rigoroso, mesmo numa análise quantitativa, você não tem só que contar cada um de cada lado. Você tem que ponderar esses números por quanto cada um fez de fato pelo Master, cara, aí a diferença fica maior ainda, meu amigo. A direita tentou mudar a constituição para obrigar a cobrir o rombo do Master. O Ibaneis tentou quebrar o banco de Brasília, o Cláudio Castro deu o dinheiro dos aposentados para o cara cuidar, entendeu? Então, assim, a diferença é muito gritante. Então, a primeira coisa é simplesmente você tem que dizer que o escândalo é de direita, porque isso é verdade. Não custa nada dizer a verdade, sempre serve para alguma coisa, a verdade. Agora, além disso, se você não contar isso para o público, vai acontecer o que está acontecendo, que é: as pessoas não vão saber o que é óbvio, que é o Supremo Federal está protegendo esses caras que ficam xingando o Supremo o tempo todo, no caso do Master. Se você pegar a lista de deputados na lista de contato do Vorcaro, o pessoal do Calma Urgente, o podcast do Gregório, do Bruno Torturra e da Alessandra Orofino notou bem isso, vários daqueles caras, a começar pelo Nikolas, é gente que fica o dia inteiro xingando Alexandre de Moraes. Basicamente, o que você vai percebendo, é que gente, como, por exemplo, o Nikolas de dia fica lá xingando o Alexandre de Moraes e de noite, antes de dormir, reza para o Senhor, para que o nosso amigo Alexandre de Moraes nos livre das investigações do Banco Master. O Nikolas, por exemplo, que tá lá envolvidíssimo nesse negócio, pegou avião do Vorcaro, é muito próximo do pessoal da igreja da Lagoinha que tá totalmente envolvida nesse negócio… O Nikolas, claramente, se o Xandão, por exemplo, matar o Master no peito, o Nikolas tatua a cara do Xandão na bunda, meu amigo. Esses caras aí estão todos torcendo para dar pizza. Esses caras que estão pedindo CPI, estão pedindo CPI e torcendo para dar errado. Isso é tudo teatro. Isso é tudo encenação. Enquanto você não contar para as pessoas que é a direita que está sendo protegida nesse caso, vai continuar essa interpretação na opinião pública, que eu acho inteiramente normal, dado a informação que as pessoas recebem, de que o problema basicamente é das instituições, que o problema é basicamente que, olha só, a democracia é uma porcaria mesmo. Os caras do STF são tudo ladrão. E os caras do STF realmente não estão saindo bem nessa foto mesmo, mas se você só contar essa história, você tá fazendo muito mal para a democracia brasileira.
Fernando de Barros e Silva: Perfeito. Muito claro. Ana Clara.
Ana Clara Costa: Bom, eu estava em Brasília na semana passada, antes da divulgação dessas mensagens, mas já tinha saído a pesquisa da Atlas/Intel, que falava sobre o empate entre Lula e Flávio. Então, Brasília já estava sob o impacto dessa notícia de que talvez não seja tão fácil assim para o governo sair dessa. E, era, assim, um clima de bastante frustração, sabe? Frustração com Supremo, frustração com o governo. Conversei com algumas pessoas de vários cantos de Brasília, e o tom era assim “o governo precisa se dissociar do Supremo, criar algum tipo de de narrativa que o coloque fora do grupo Supremo”. E até essa semana, a Bloomberg publicou uma reportagem sobre o Alexandre de Moraes, uma reportagem da Martha Beck e do Daniel Carvalho que fala do escândalo e é publicada na Bloomberg lá fora, em que eles apuraram que o Lula está cogitando apoiar o código de conduta do Fachin como sinalização de que ele não compactua com o que alguns ministros do Supremo estão fazendo. E, em Brasília, eu já tinha ouvido que se o Lula colocasse uma PEC para determinar mandato para ministro do Supremo, que é uma coisa que ele já falou lá atrás também como sinalização, mas se ele criasse uma PEC, poderia ser também uma alternativa para se dissociar dessa crise.
Fernando de Barros e Silva: O Barroso deu uma entrevista essa semana defendendo isso. Mandato de 12 anos, como na Alemanha, segundo ele.
Ana Clara Costa: Exato. Agora essa PEC até o Congresso pode enviar, em tese, na PEC o Congresso também pode estabelecer mandato para ministro do Supremo, né? Se o Congresso está tão insatisfeito, ele pode fazer isso. Mas eles não querem, porque daí significa articular, significa fazer política e não é bem o tipo de coisa que eles conhecem, né? Mas o fato é que assim, o Lula não quer essa briga, pelo menos até semana passada, era uma briga que ele não queria ter, porque o ano eleitoral é um ano mais curto no Congresso. Então, assim, ele vai usar todo o acervo do governo para viabilizar uma PEC como essa em tão pouco tempo… Segundo semestre não tem mais nada, tá todo mundo fora, então assim, não é o que ele queria. Mas em Brasília, era um pouco esse o tom. E aí, depois que saiu o Datafolha, saiu a pesquisa da Quaest, e eu tava conversando com o Felipe Nunes, da Quaest, que é inclusive nosso ouvinte viciado.
Celso Rocha de Barros: Grande Felipe!
Ana Clara Costa: E ele fala muito isso, Celso, essa questão do público enxergar o caso Master como um sintoma de um sistema podre, de um sistema todo contaminado. E o Lula seria uma figura desse sistema, né? E a oposição fica se colocando na posição de mudança desse sistema e que daí vinha a contaminação de se enxergar o Lula como uma figura que integra o sistema. Mesmo que o Master tenha crescido e florescido no governo Bolsonaro, na gestão do Campos Neto, isso parece que não chega. As pessoas não fazem as conexões, entendeu? Elas enxergam assim “ah, o Supremo, a gente não dá para confiar. Banco Central, a gente não dá para confiar. Congresso, a gente não dá para confiar. Governo, não dá para confiar. INSS, não sei o quê”. E aí, vira todo um bolo de insatisfação com tudo que tá aí, né? E essa é a avaliação do Felipe, que eu discordo. E por que eu discordo? Eu não discordo que a avaliação das pessoas seja essa, mas eu discordo que isso seja uma visão ampla do que está acontecendo, porque a gente está num momento de muito ruído, de muito barulho, as coisas estão saindo, tá todo mundo sendo impactado por isso. Então, a gente esquece que há seis meses o Flávio estava lá defendendo o tarifaço, a Magnitsky, defendendo a invasão dos Estados Unidos no Brasil, na época dos navios, que ele estava atacando os navios, que ele, na semana passada, defendeu a anistia do pai. Então, a gente teria ali, num governo Flávio hipotético, o Bolsonaro, ministro da Casa Civil. Não sei. Estou chutando aqui, entendeu? Então, assim, essas questões não estão na pauta. Por quê? Porque o governo não está fazendo campanha e não pode estar fazendo campanha. A verdade é essa. O governo está governando, está agindo para concluir as coisas que eles queriam concluir para, justamente, depois fazer a campanha dessas coisas que eles fizeram. E, pelo TSE, obviamente, o governo não pode fazer uma campanha contra o Flávio nesse momento. Então o Flávio está sozinho, o Flávio, a oposição, o PL, no caso, tá todo mundo sozinho, batendo, sem que eles possam ser atingidos pelo passivo deles. E, isso, eu to falando, passivo de seis meses, tá? Eu não tô falando nem da rachadinha, da loja de chocolate, dos imóveis da casa que o Flávio comprou em Brasília, que vale o dobro do valor que ele anunciou na escritura a juros de pai para filho do BRB. O que me deixa bastante intrigada nessas pesquisas é que a turma que o Felipe e a Quaest chamam de os independentes, que são os eleitores que decidiram a eleição passada no caso, e que, em tese, poderiam decidir a eleição esse ano também, que eles não estão olhando para a democracia como um ponto de preocupação. A questão da democracia que a gente falou aqui. Você falou, Celso, inclusive, que talvez a gente tenha que ter uma eleição sobre democracia de novo esse ano, né?
Celso Rocha de Barros: É tragédia.
Ana Clara Costa: Né? Exato. O que ele diz é que, pelo menos esse núcleo mais independente, é um termo que ele usa, mas é o pessoal que não é de esquerda nem direita, que pode votar em um ou outro sem nenhum problema. Esse pessoal, a democracia não vai ser assunto para eles nessa eleição. E eu achei isso um dado importante para a gente.
Celso Rocha de Barros: Sem dúvida.
Ana Clara Costa: E nisso, assim, o Flávio tá ali anunciando, o ministro da Fazenda está se reunindo com o mercado, já tá com o marqueteiro que vai fazer a campanha dele, que é o Paulo Vasconcelos, que é o mesmo que fez a campanha do Ramagem no Rio e a campanha do Cláudio Castro, o Duda Lima, que é o marqueteiro do PL, que era esperado que fosse o marqueteiro que faria a campanha do Flávio não foi escolhido, e, recentemente, declarou que encontrou Jesus num evento em Brasília e que isso o isenta de trabalhar com política, não é…
Fernando de Barros e Silva: Um deputado Jesus? Talvez?
Celso Rocha de Barros: Jesus é aquele cara do TCU, né?
Ana Clara Costa: Ele colocou um slide, mas, assim, o pessoal do PL não acredita muito que ele tenha saído do jogo porque ele encontrou Jesus, e sim porque o Flávio escolheu o Paulo Vasconcelos, que é um cara que…
Celso Rocha de Barros: Ainda não encontrou Jesus.
Ana Clara Costa: Aparentemente não.
Fernando de Barros e Silva: Essa história me lembra uma charge maravilhosa do Angeli. Deputado Urânio, diante da notícia no jornal “O enriquecimento do Urânio”. “Que história é essa de enriquecimento do Urânio?”. “Não, calma deputado, dessa vez não é com o senhor”. Essa história de Jesus, lembra o deputado Urânio.
Ana Clara Costa: O Paulo Vasconcelos é conhecido por ter uma abordagem não bolsonarista na campanha. Então, assim, o Cláudio Castro ganhou no Rio no primeiro turno, sem se colar tanto quanto ele poderia na imagem do Bolsonaro. E isso é uma ideia do Paulo Vasconcelos como marqueteiro, de que você pode vender a direita sem ser ultrabolsonarista. E o Flávio ter escolhido o Paulo Vasconcelos também já indica, não sei até que ponto ele pode se desvencilhar do pai. Enfim, não acredito que ele faça isso, mas é uma abordagem menos contundente do bolsonarismo, a do Paulo Vasconcelos.
Fernando de Barros e Silva: Queria falar um pouco sobre isso, porque a imprensa está ajudando o Flávio a se desvencilhar do pai um pouco. A gente tem algumas coisas importantes nesse momento. Primeiro, a consolidação do Flávio como opção da direita ou anti-Lula, por enquanto, é a consolidação dele e o fracasso, até segunda ordem, e acho que provavelmente definitivo para esse ano, da alternativa Kassabiana, a gente vai ter uma campanha entre um candidato democrata, de esquerda, de centro-esquerda, que é o Lula, contra um candidato de extrema-direita, que é o Flávio. Não vamos ficar fingindo que o Flávio não é de extrema-direita, ele é de extrema-direita. Ele vai soltar o pai dele. Ele tem uma agenda completamente atrelada ao que tem de mais radical na direita mundial Trump, Miley, o Bukele, etc, o Kast. Ele tá ligado a essa turma. Isso fala um pouco dos humores da sociedade brasileira. A sociedade que tem energia social, que catalisa a política é essa direita bolsonarista, não é uma opção semi democrática como essa, essa outra direita que estou chamando de terceira via, uma direita semi-democrática, se a gente pode usar esse eufemismo.
Celso Rocha de Barros: É mais democrática do que o Flávio. Mas porra.
Fernando de Barros e Silva: É mais democrático que o Flávio, mas eles são ambíguos em relação ao Bolsonaro. Eles são ambíguos, ou são omissos, ou eles acolhem.
Celso Rocha de Barros: Eles vão dar anistia.
Fernando de Barros e Silva: Então, que a gente tem uma candidatura de extrema-direita, como a candidatura do campo democrático.
Sonora: É, e olha só, e tem gente que diz assim “ah, eu me recuso a identificar a democracia com o Lula”. Bom, então lança outro candidato, cara, lança um candidato de direita democrático, ainda dá tempo. Vai lá.
Fernando de Barros e Silva: O Eduardo Leite dentro do PSD, tá fazendo…
Celso Rocha de Barros: Isso. Pega um cara desse e lança. Pronto.
Fernando de Barros e Silva: Um discurso claramente divergente dos outros dois candidatos, o Eduardo Leite, é um candidato de direita democrático.
Sonora: É contra a anistia. Foi contra o golpe.
Fernando de Barros e Silva: Exato. Agora o Ratinho Júnior e o Caiado. Eu não diria o mesmo. Não mesmo. Até onde eu posso ver, as coisas estão se dando dentro do script que o Lula planejou. Sem o Tarcísio e com o Flávio. O governo não está batendo no Flávio, até porque, quando chegar a Abril e a desincompatibilização não for mais possível, como o Tarcísio, certamente, vai ser candidato ao governo de São Paulo, etc. Aí o jogo começa para valer. Esse último mês, esse mês de março é o mês pré-desincompatibilização. O Tarcísio tem 99,99% de não ser candidato à presidência, mas a coisa ainda não está definida. Então, se o Flávio indicasse para baixo, a coisa poderia mudar. Eu já ouvi isso dentro do PT. É melhor que o Flávio se consolide do que a sombra do Tarcísio possa ressurgir. Acho que isso não vai acontecer mais, mas a gente está neste momento. Eu queria, só para completar esse raciocínio, acho que dá para a gente fazer um paralelo entre o que aconteceu quando o governo se beneficiou, meses atrás, do desastroso movimento do Eduardo Bolsonaro, das sanções contra o país, que deu o discurso da defesa da pátria ao Lula. E o que está acontecendo agora, quando a direita se apropria da crise do Supremo para reanimar o ressuscitar ou dar nova dimensão ao discurso antissistêmico? Eu acho que tem um paralelo entre esses dois, esses dois momentos, um sendo negativo do outro. A ver. Ana Clara.
Ana Clara Costa: Bom, essas pesquisas que têm saído, esse fortalecimento do Flávio e até a vitória do Flávio dentro das primárias da direita para ser o candidato. Isso, de certa forma, animou a turma bolsonarista que está em contato com o Departamento de Estado, o Eduardo, o Paulo Figueiredo, toda essa turma. Eles viram ali uma brecha no enfraquecimento do Alexandre de Moraes no Supremo, com a crise do Master, e no resultado das pesquisas feitas sobre o Flávio, eles viram uma brecha para voltar àquele ataque ao governo brasileiro por meio do Departamento de Estado e, de certa forma, tentar ajudar o Flávio nesse ponto. Então, o que eles fizeram? Eles começaram a fustigar ali, a procurar o pessoal do Departamento de Estado, do mesmo jeito que eles fizeram no ano passado sobre o Tarifaço, Magnitsky, para vender essa ideia de que Comando Vermelho e PCC são organizações terroristas e que o governo americano precisa se manifestar sobre isso e classificá-los como tal. E que é uma coisa que o governo brasileiro não quer de jeito nenhum, porque a partir do momento que há essa classificação, os EUA passam a ter uma certa ingerência sobre essas áreas, consideradas como áreas de organizações terroristas. Eles podem lançar mão de várias ações em relação a essas áreas que podem ferir a soberania do país. Até por isso, porque existe também essa atuação da extrema-direita nesse ponto que o governo tanto quer encontrar com o Trump para discutir justamente um acordo sobre o narcotráfico. E é a pauta principal do encontro do Trump com Lula, caso esse encontro aconteça. Inclusive, também foi pauta das duas ligações que eles fizeram no final do ano passado e em janeiro desse ano. O Paulo Figueiredo e o Eduardo voltaram a tocar nesse assunto, a levantar esse assunto. Muito porque os Estados Unidos acabaram deslocando para cuidar do Brasil dentro das secretarias ali que cuidam de América Latina, no Departamento de Estado, um cara super próximo da família Bolsonaro e super maga que é o Darren Beatty, que foi enfim demitido no primeiro governo Trump por ser fascista demais. E esse cara, primeiro ele foi designado para o Departamento de Estado, e ele está em contato com Paulo Figueiredo e com Eduardo Bolsonaro. A imprensa brasileira, especificamente, O Globo, ao ver essa movimentação acontecendo, questionou o Departamento de Estado sobre as intenções dele em relação ao Comando Vermelho e PCC. E o Departamento de Estado mandou uma nota dizendo que classifica essas organizações como ameaça regional. Ou seja, fica a indicação de que uma próxima etapa pode ser, de fato, a classificação como organização terrorista. Isso não está sendo tratado no âmbito da diplomacia. O Marco Rubio e o Mauro Vieira não estão discutindo sobre isso. O Marco Rubio não está antecipando para o Mauro Vieira que isso está na pauta. Mas você tem uma galera de setores do baixo escalão ali dentro que tá borbulhando essa ideia, né? Então, você tem a direita se movimentando também nesse aspecto da política externa e vendo essas brechas tanto do Alexandre de Moraes, quanto na questão do Flávio e do fortalecimento do Flávio nas pesquisas. E agora, o que eles estão pedindo de novo é a Magnitsky para o Alexandre de Moraes. Se o governo americano está disposto a isso, está preocupado com isso nesse momento, até agora, a diplomacia brasileira não tem notícia disso, mas eles estão tentando.
Fernando de Barros e Silva: É isso. Bom, a gente vai encerrando o terceiro bloco do programa. Fazemos um rápido intervalo na volta, o momento da diretora, Kinder Ovo.
Fernando de Barros e Silva: Muito bem, estamos de volta. Vamos para o Kinder Ovo. Diretora, você tem ganhado de lavada aí nos últimos. E o Flamengo ainda ganhou ontem, né? Aí a gente está gravando na quinta. Celso e é a diretora estão felizes. Minha amiga Renata Ventura, mineira, está triste porque é cruzeirense. Enfim, vai lá, diretora.
Sonora: Diz o ditado que o Brasil não é para amadores. Mas pera lá né? Não precisa profissionalizar tanto. O Brasil se tornou uma espécie de House of Cards misturado com o Poderoso Chefão.
Celso Rocha de Barros: Não é Jair Renan não, né?
Celso Rocha de Barros: É algum Nikolas Ferreira, amigo do Nikolas Ferreira.
Celso Rocha de Barros: Renan do MBL?
Fernando de Barros e Silva: House of Cards.
Ana Clara Costa: É carioca.
Sonora: É carioca. Carlos Jordi? Carlos Jordi.
Fernando de Barros e Silva: Eu sabia que era um desses pilantrinhas.
Celso Rocha de Barros: É, esse eu sabia que era do meu setor aqui, minha especialidade. É, quando eu ouvi, eu falei “Esse aí já ouvi muito em YouTube”.
Fernando de Barros e Silva: É da sua reserva de mercado, né?
Celso Rocha de Barros: Exato. Exato, é do meu segmento de atuação. O que esse cara quer dizer? O Brasil não é para amadores, mas não precisa profissionalizar tanto? Como assim, cara?
Fernando de Barros e Silva: Bom, para os anais, quem fala é o deputado federal Carlos Jordi, do PL, do Rio de Janeiro, o segmento do Casca de Bala, em seu canal no YouTube. Ai, ai! Mais uma derrota da classe operária. Puta merda! Não aguento mais perder Kinder Ovo. Faça um friendly para mim da próxima vez. Bom, pelo menos o Casca ganhou dessa vez.
Celso Rocha de Barros: Fazia tempo que eu não ganhava.
Fernando de Barros e Silva: Bom, vamos então encerrando o Kinder Ovo para o melhor momento do programa, o Correio Elegante, momento das cartinhas. Momento de vocês. E eu vou começar já lendo aqui a mensagem do Yan Felipe. “O conteúdo das mensagens do celular do Vorcaro foi uma cortina de fumaça para o Celso não comentar o verdadeiro crime cometido essa semana a demissão do Felipe Luiz”.
Celso Rocha de Barros: Finalmente uma pauta importante nesse programa.
Fernando de Barros e Silva: “Saludos de Recife e saudações santacruzense”.
Celso Rocha de Barros: É isso aí. Concordo.
Fernando de Barros e Silva: E a gente quer te ver aí no programa de Recife, então. Torce pro Santa Cruz e tá pró Filipe Luís.
Celso Rocha de Barros: Valeu, Ian.
Ana Clara Costa: A Maria Jaqueline Vasconcelos escreveu: “Oi pessoal! Sou ouvinte do Foro desde a pandemia e sempre tive vontade de escrever para vocês, mas daí penso o que mais posso acrescentar depois de ouvir tantas análises inteligentes e certeiras? Ganhei o incentivo quando minha filha mais nova, Sofia, me disse que passou a ouvir o Foro. Que alegria! Agora, só falta vocês me ajudarem a convencer meu marido Adriano e a nossa mais velha Beatriz, a também ouvirem vocês”. Um beijo, Adriano e Beatriz. Venham ouvir a gente!
Celso Rocha de Barros: Ô Adriano e Beatriz, veja só a Sofia aí.
Fernando de Barros e Silva: Siga o exemplo da Sofia, que já tem no nome a coisa da sabedoria.
Celso Rocha de Barros: Exatamente.
Fernando de Barros e Silva: Vocês, Adriano e Beatriz, não percam tempo.
Celso Rocha de Barros: Bora lá! A pessoa que se identificou como Chef.Rosa postou: “O episódio dessa semana foi tão tenso que se fizer uma mistura do Celso com o Eduardo Cunha vira algo do tipo ‘Então Fernando, que Deus tenha misericórdia dessa nação'”. É isso mesmo, chefe, É isso mesmo.
Fernando de Barros e Silva: É isso, gente! O que é bom acaba. E o que não é tão bom, também acaba. Não é isso? Assim, a gente vai encerrando o programa de hoje por aqui. Se você gostou, não deixe de seguir e dar five stars pra gente no Spotify. Segue no Apple Podcast, na Amazon Music. Favorita na Deezer e se inscreva no YouTube. Você encontra também a transcrição do episódio no site da piauí. O Foro de Teresina é uma produção do estúdio Novelo para a revista piauí. A coordenação geral é da Carolina Moraes. A direção é da Mari Faria, com produção e distribuição da Maria Júlia Vieira. A checagem a partir de hoje é da Ethel Rudnitzck, que vai substituir o Gilberto Porcidônio, que continua na Piauí fazendo outras coisas. A gente quer deixar então, o nosso abraço imenso para o grande Gilberto.
Celso Rocha de Barros: Grande Gilberto.
Ana Clara Costa: Gil.
Fernando de Barros e Silva: E as boas vindas para Ethel.
Celso Rocha de Barros: Seja bem-vinda, Ethel!
Ana Clara Costa: Olá, Ethel. Muito bom ter você aqui.
Fernando de Barros e Silva: A edição é da Carolina Moraes e da Mari Leão. A identidade visual é da Amanda Lopes. A finalização e mixagem são do João Jabace e do Luís Rodrigues, da Pipoca Sound. Jabace Rodrigues, que também são os intérpretes da nossa melodia tema. A coordenação digital é da Bia Ribeiro, da Emily Almeida e do Fábio Brisolla. O programa de hoje foi gravado aqui na minha choupana, em São Paulo, e no Estúdio Rastro do grande Danny Dee, no Rio de Janeiro. Eu me despeço, então, dos meus amigos. Ana Clara! Tchau, Ana.
Ana Clara Costa: Tchau, Fernando. Tchau pessoal.
Fernando de Barros e Silva: Tchau Celso.
Celso Rocha de Barros: Tchau Fernando. Até semana que vem.
Fernando de Barros e Silva: É isso gente! Uma ótima semana a todos e até semana que vem.