questões cinematográficas
Mai 2011 07h05
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Situado à latitude 22º28’12" sul e à longitude 43º49’32" oeste, a uma altitude de 363 metros do nível do mar, o município de Barra do Piraí, a cerca de 100 km do Rio de Janeiro, está à venda. Ao menos é o que anuncia um americano habilidoso, vivendo há anos no Brasil, primeiro como representante para a América Latina da Motion Pictures Association, sucedendo o célebre Harry Stone, e desde 2009 à frente da Rio Film Commission, criada pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro e pela Prefeitura da Cidade.
Será que os valorosos 94.855 habitantes de Barra do Piraí sabem disso? A esta altura, se tiverem lido “O Globo” de sábado (14/5/2011), terão tomado conhecimento que o município foi oferecido esta semana a produtores internacionais, durante o Festival de Cannes, por Steve Solot – um dos artífices da passagem dos “Velozes e furiosos” e outras produções pelo Rio, graças a recursos obtidos, segundo suas próprias palavras, através de “um único editalzinho público, criado no ano passado e que oferecia R$ 1 milhão.”
Houve época em que a página inteira do “Globo” causaria escândalo, além de, quem sabe, passeata com cartazes “Yankees go home!” e pedradas nas vidraças do consulado. Passamos de um extremo a outro e, hoje, sem qualquer nostalgia pelo anti-americanismo primário do passado, espanta que ninguém proteste contra tamanho disparate. Pelo contrário, as secretarias de Cultura do Estado e da Prefeitura consideram serem suas atribuições criar facilidades para produções estrangeiras dando, inclusive apoio financeiro indireto. E ainda contam para isso, segundo a matéria do “Globo”, com o apoio de Alberto Flaksman, assessor da Ancine; Lucy Barreto, produtora, e Walkiria Barbosa, diretora-executiva do Festival do Rio – todos cobrindo a atuação de Steve Solot de elogios. Pobre Barra do Piraí!
A subserviência colonial é tamanha que ninguém parece se incomodar com o uso de recursos públicos como estímulo à venda das fazendas tradicionais do Vale do Paraíba para servirem de locação de filmes internacionais. “Acordos de cooperação técnica” teriam sido assinados, com essa finalidade, entre a Rio Film Commission e a prefeitura de Barra do Piraí, além das de Búzios, Paraty e Nova Friburgo.
Steve Solot tem todo direito de continuar prestando serviços para seus antigos patrões. Duvidosa é a legitimidade do apoio que recebe para isso dos governos estadual e municipal através das secretarias de Cultura. E descabido o elogio à mediocridade que ele faz, recomendando a estudantes de cinema brasileiros que deixem ambição criativa de lado e se dediquem a serem bons vendedores de paisagens.
Quanto ao governo do Estado e à Prefeitura, seria recomendável subordinarem de vez a Rio Film Commission à Riotur – Empresa de Turismo do Município do Rio de Janeiro e fazer da RioFilme um órgão de fomento da produção cinematográfica brasileira. Assim, talvez fosse possível reformular os objetivos do programa Rio Audiovisual, anunciado em 2009, passando a dar prioridade à criação cinematográfica de produtoras, realizadores, técnicos e artistas brasileiros.
No artigo “Gringos para nós mesmos”, publicado no “Globo” de domingo (15/5/2011) tratando do filme “Rio”, Luciano Trigo deixou de assinalar o fato das secretarias de Cultura do Estado e do Município do Rio de Janeiro serem co-responsáveis, através da atuação da RioFilme e da Rio Film Commission, por termos chegado talvez, nas palavras dele, “à realização extrema da utopia panamericana dos anos 1940: Hollywood exporta o Brasil para o próprio Brasil”.
Diante de tudo isso não há como deixar de lembrar da música “Aluga-se”, de Claudio Roberto e Raul Seixas, incluida no álbum “Abre-te Sésamo”, de 1980, e censurada em plena ditadura. Diz a letra: “A solução pro nosso povo/Eu vou dá/Negócio bom assim/Ninguém nunca viu/Tá tudo pronto aqui/É só vim pegar/A solução é alugar o Brasil. […] Vamos embora/Dá lugar pros gringos entrar/Esse imóvel tá prá alugar […] Os estrangeiros/Eu sei que eles vão gostar/Tem o Atlântico/Tem vista pro mar/A Amazônia/É o jardim do quintal/E o dólar dele/Paga o nosso mingau […] Está Prá Alugar Meu Deus! Nós não vamos paga nada! Nós não vamos paga nada! É tudo free! Vamo embora!”.
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