anais das tenebrosas transações
Ana Clara Costa Mai 2026 09h16
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Até a ascensão de Daniel Vorcaro, o banqueiro André Esteves era o expoente do setor financeiro com mais trânsito junto ao poder desde a redemocratização do país. Ecumênico e pragmático, sempre circulou bem na esquerda e na direita, mantendo pontes com o Legislativo e o Judiciário, no qual tinha relação especialmente próxima com o ministro Gilmar Mendes, do STF.
Ao longo do governo Lula, Esteves se aproximou de Fernando Haddad, numa relação que rendeu ganhos a ambos. O banqueiro ajudou o ministro na interlocução com o então presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e atuou para distensionar sua relação com a Faria Lima. Quando Haddad cogitou indicar Gabriel Galípolo para a diretoria do Banco Central, já prevendo que ele iria suceder a Roberto Campos Neto, Esteves e um de seus sócios, Marcos Maluf, também próximo de Haddad, trabalharam em favor da escolha. Avaliavam que, ao levar um nome alinhado ao ministro para a autoridade monetária, o BTG ampliaria sua interlocução no centro da política econômica.
À custa das viagens em jatinhos, das negociatas via fundos e dos honorários advocatícios milionários, Vorcaro conquistou espaço central no Congresso e no STF, mas nunca teve trânsito semelhante no governo. Haddad jamais o recebeu, e Lula só o fez por insistência de Guido Mantega – e ainda assim na presença de cinco assessores.
Dada sua aversão à calmaria, seria surpreendente que André Esteves não estivesse envolvido nas articulações sobre o Master e seu labiríntico ecossistema. Embora o BTG, assim como a XP Investimentos e outras plataformas, tenham distribuído os CDBs hoje sabidamente problemáticos de Vorcaro, o banco de Esteves foi um dos primeiros agentes de mercado a reagir ao chamado “risco Master”.
No fim de 2024, por meio de seus assessores de investimento, o BTG aconselhou seus clientes a não aportar mais que 250 mil reais em CDBs do Master – exatamente o teto de cobertura pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC). E interrompeu a distribuição de novos títulos do Master em suas plataformas. No início de 2025, a XP também interrompeu a distribuição de novos títulos. O movimento foi decisivo para selar a derrocada do Master, que dependia de novas emissões para honrar os compromissos assumidos, e a XP era sua principal distribuidora.
BTG e XP chegaram a discutir a suspensão total das negociações, inclusive no mercado secundário, que permitia a venda entre clientes. Entretanto, como revela uma reportagem publicada na edição deste mês da piauí, eles receberam um pedido inusitado, que ficou escondido até agora: a diretoria de Fiscalização do Banco Central telefonou aconselhando mais cautela. A instituição alegou que uma interrupção abrupta por parte do BTG e da XP poderia desencadear uma corrida bancária e resultar numa crise de liquidez no sistema. E assim o próprio BC contribuiu para manter ativa a cadeia de ardis do Master.
Para o BTG, porém, a deterioração do banco de Vorcaro já parecia inevitável. Ainda no início de 2025, o BTG deixou de repassar ao Master os ganhos de uma carteira de crédito de 600 milhões de reais do Credcesta – um cartão de crédito consignado – a qual ambos detinham em sociedade. Era um sinal eloquente de que a Faria Lima sabia o que estava acontecendo bem antes das operações policiais que desbarataram as irregularidades do Master.
Esteves tomou essa decisão porque temia que novos fluxos não se materializassem em caso de quebra do Master. Em uma reunião interna em março de 2025, como mostra a reportagem, diretores do BTG concluíram que seria menos oneroso enfrentar eventuais disputas judiciais por descumprimento contratual do que arcar com um possível default da operação.
Enquanto a crise do Master parecia não existir para os órgãos reguladores, os primeiros movimentos da Faria Lima foram no sentido de sempre: lucrar. O BTG saltou à frente e se preparou para ganhar com qualquer desfecho do caso. Em 2025, um diretor do banco de Esteves, Oswaldo de Assis Filho, ocupava – e ainda ocupa – uma cadeira no Conselho Consultivo do FGC. Entre os integrantes do FGC já havia consenso de que o Master extrapolara todos os limites. Mas o problema não era mais o banco em si. Diante da dimensão das distorções, crescia o temor de que uma eventual quebra produzisse efeitos em cadeia, atingindo o próprio BTG e, em última instância, o sistema financeiro.
Com experiência em situações de estresse, o BTG tinha potencial para desempenhar papel central no dia seguinte à quebra do Master. Sua área de “ativos estressados”, conhecida no jargão como special situations ou special sits, é especializada em identificar empresas em dificuldade e extrair valor de suas partes mais rentáveis. Não surpreende, portanto, que Esteves tenha se movimentado para estruturar uma solução de mercado para assumir os ativos considerados mais saudáveis do Master e evitar sua liquidação. Na proposta, segundo publicou o colunista Lauro Jardim, em O Globo, o FGC entraria com recursos para honrar os compromissos do banco, Vorcaro deixaria o negócio e o BTG ficaria com os ativos de seu interesse, como a carteira do Credcesta.
A proposta não avançou. A essa altura, os bancos já disputavam entre si. As instituições que contribuem para o FGC, prevendo a derrocada do Master, avaliaram que o fundo arcaria com a maior parte das perdas, enquanto elas próprias acabariam assistindo ao BTG capturar os ativos mais valiosos. Quando a negociação veio a público, o BTG negou envolvimento. Queria evitar dar a impressão de que interferia diretamente na situação do Master.
A crise do Master, assim, estava confrontando dois banqueiros de alta voltagem. A relação de Vorcaro com Esteves era atravessada por admiração, uma certa dose de inveja e um quinhão de inimizade. Vorcaro gostava de mostrar a interlocutores mensagens de WhatsApp em que Esteves elogiava determinados ativos do Master, o que o deixava visivelmente envaidecido. Nas mensagens que Vorcaro trocava com sua ex-noiva, Martha Graeff, Esteves era assunto recorrente. Ele avisava quando estava com Esteves, quando passava pela sala de reuniões de Esteves, quando Esteves prometia aparecer em seu camarote na Sapucaí, quando Esteves ofereceu sua vinícola na Itália para hospedar o casal – que recusou o convite.
Apesar disso, Vorcaro se descreve à ex-noiva como um perseguido. Diz que Esteves estaria determinado a destruí- lo, manipulando o Banco Central e plantando notícias desfavoráveis na imprensa. Em diversas ocasiões, afirma estar em “guerra” e identifica o banqueiro como o seu “inimigo”. Um capítulo da guerra que expôs o poder alcançado por Vorcaro em Brasília ocorreu dentro do Congresso Nacional, quando tramitava uma Medida Provisória que criava incentivos para a concessão de crédito a pequenas empresas. A MP beneficiaria grande parte do setor bancário, mas excluía o Master, cujo modelo de negócio não dependia da oferta de crédito. Suspeitando que a medida favoreceria o BTG, Vorcaro atuou para travar sua tramitação. E conseguiu. O tema só voltou a avançar depois que executivos do Santander e do Bradesco, em vez de recorrer aos parlamentares, procuraram Vorcaro para dizer que a MP era irrelevante para Esteves, mas essencial para eles, bancos de varejo. A medida acabou aprovada.
Dos diálogos, depreende-se que Esteves tentou comprar o Master em diferentes momentos, inclusive durante o período em que Vorcaro negociou a venda para o BRB. Vorcaro descreve Esteves como “desesperado”. Quando o anúncio da venda foi feito, em março do ano passado, relata com risos – “kkkk” – que Esteves procurou o presidente do BC, Gabriel Galípolo, para reclamar do negócio. Nas conversas, Vorcaro também se mostra envaidecido com a repercussão do caso envolvendo seu banco. “Nunca um assunto, na história do Brasil, no mercado financeiro, deu tanto pano para manga. Cada meme, notícia louca. Eu fui na XP e no BTG e não consegui andar no hall dos prédios. As pessoas me parando, surreal.”
Em uma das mensagens que trocou com Alexandre de Moraes no dia de sua prisão, em novembro do ano passado, Vorcaro já sabia que seria alvo da Polícia Federal e se referiu à investida como “a batida do Esteves”. Se a obsessão de Vorcaro em estreitar laços com ministros do STF tinha, por um lado, a busca por respaldo político, também funcionava como demonstração de poder diante do concorrente e de sua influência na corte. Alexandre de Moraes nunca dera tanta abertura a Esteves quanto deu a Vorcaro. E, a exemplo de Vorcaro, passou a encarar Esteves como inimigo.
A interlocutores, Moraes disse acreditar que as informações sobre o milionário contrato de sua mulher com o Master haviam sido obtidas pela equipe econômica do governo e vazadas à imprensa por Esteves. Chegou a desconvidar seu amigo Rodrigo Maia, ex- presidente da Câmara dos Deputados, para sua festa de aniversário, depois que Maia anunciou sua entrada no BTG no início deste ano. Hoje, fizeram as pazes. Esteves tende a baixar a fervura da briga, enquanto Gilmar Mendes atua para apaziguar a relação entre Moraes e o banqueiro. Mas o dono do BTG continua preocupado, pois teme acabar envolvido numa investigação criminal autorizada por Moraes – a que apura um possível crime de insider trading. A investigação, aberta em julho de 2025, quer identificar quem no mercado lucrou cerca de 500 milhões de reais no dia em que Donald Trump anunciou o tarifaço contra o Brasil.