questões criminais
Breno Pires, de Brasília 08 Out 2026
6 min de leitura
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
Enquanto cumpria prisão domiciliar em São Paulo, em janeiro deste ano, Daniel Vorcaro ordenou um ataque hacker para apagar os vestígios de sua conta no iCloud, o serviço de armazenamento de dados na nuvem do iPhone, onde ficam guardadas fotos, mensagens e todo tipo de informação salva no celular. Àquela altura, já fazia dois meses que a Polícia Federal estava em posse do aparelho do ex-banqueiro e havia bloqueado o acesso externo aos dados digitais, por serem evidências de crime. Se Vorcaro tivesse sido bem-sucedido, o ataque poderia atrapalhar as investigações sobre o caso Master.
O ataque também mirava a conta de iCloud de Fabiano Zettel, o cunhado e principal operador financeiro de Vorcaro. Dias antes, em 14 de janeiro, Zettel havia sido preso enquanto tentava embarcar para Dubai, no Aeroporto de Guarulhos. Ele foi solto no mesmo dia, mas seu celular foi apreendido e incorporado às investigações da PF.
Pela lei brasileira, a tentativa de destruir evidências em uma investigação criminal pode ser considerada crime de obstrução de justiça. O caso está sob análise da Polícia Federal. Segundo as informações obtidas pela piauí, a invasão às contas de iCloud foi encomendada por Vorcaro ao publicitário e lobista Thiago Miranda – o mesmo que o aproximou de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e cobrava insistentemente os repasses financeiros acordados entre o senador e o banqueiro a pretexto da realização do filme Dark Horse. Depois de receber a encomenda do ataque, Miranda acionou o especialista em segurança digital Thiago Santos, que trabalhava com outros profissionais. O objetivo da operação era apagar tudo, antes que os dados dos dois celulares (de Vorcaro e Zettel) fossem colhidos pelos investigadores. Segundo as informações obtidas pela piauí, Thiago Santos chegou a acessar o iCloud de Vorcaro, mas a invasão foi detectada pela PF, que conseguiu conter a investida e preservar os dados.
Semanas antes, Vorcaro já havia incumbido Miranda de outras tarefas. Tão logo recebeu autorização para cumprir prisão domiciliar, no final do ano passado, pediu ao publicitário um relatório sobre um agente da PF que investigava o escândalo Master e um dossiê sobre um diretor do Banco Central. Queria também derrubar notícias publicadas nos Estados Unidos que desagradaram a então noiva de Vorcaro, a influenciadora Martha Graeff.
Thiago Miranda era dono da agência MiThi e foi alvo de uma operação de busca e apreensão da PF em julho deste ano, sob suspeita de atuar para obter informações sigilosas e coagir desafetos de Vorcaro. Seu passaporte foi apreendido por ordem do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. Além de atuar como mensageiro entre Vorcaro e Flávio Bolsonaro, Miranda manteve contato frequente com o deputado Mário Frias (PL-SP) e com Eduardo Bolsonaro ao longo do ano passado, segundo mostra o conteúdo do celular de Vorcaro em posse da PF.
Miranda e Thiago Santos não faziam parte da chamada “Turma”, grupo liderado por Felipe Mourão, conhecido como Sicário, que promovia ataques hackers e planejava atos de violência contra desafetos de Vorcaro. Ainda assim, a investigação da PF mostra que os dois fizeram atividades de monitoramento e contrainteligência a pedido do ex-banqueiro, quando ele estava em prisão domiciliar, com tornozeleira eletrônica. Vorcaro, mesmo depois de preso, fazia questão de saber tudo sobre as pessoas que o investigavam ou que pudessem atrapalhar, de alguma forma, seus interesses financeiros. A lista incluía jornalistas, mas também servidores públicos e policiais.
Um exemplo disso foi um comentário feito por Vorcaro durante uma audiência no STF, em 30 de dezembro de 2025. O banqueiro, na ocasião, mencionou um agente da PF chamado “Wilker, que pelo que eu entendi tá desde 2019 tentando me pegar de alguma forma”. Doze dias antes da audiência, o grupo digital coordenado por Thiago Miranda havia elaborado um dossiê justamente sobre esse policial, que se chama Wilker Goulart.
Depois de tentar invadir as contas de iCloud, Thiago Miranda recorreu novamente a Thiago Santos, desta vez para tentar derrubar notícias sobre Vorcaro e Martha Graeff, publicadas por veículos de Miami. O grupo também entrou em contato com escritórios de advocacia digital nos Estados Unidos para que eles fizessem pedidos formais de remoção diretamente à Meta, de modo que as notícias fossem removidas das redes sociais. O serviço prestado pelos escritórios foi pago, ainda que não integralmente.
Além de comandar o ataque hacker, monitorar um policial e tentar apagar notícias sobre Vorcaro, Thiago Santos produziu um dossiê de onze páginas sobre Renato Dias de Brito Gomes, diretor do Banco Central responsável pela área de Organização do Sistema Financeiro e Resolução, que cuida de processos de liquidação de bancos como o Master. Segundo a investigação da PF, Santos também fez relatórios sobre André Esteves (BTG Pactual), Milton Maluhy Filho (Itáu)* e alguns políticos.
Por ter participado diretamente da análise que resultou na liquidação do Master, em novembro de 2025, Renato Gomes foi o principal alvo da ofensiva de Vorcaro. Os ataques incluíram uma montagem que associava Gomes a “fios emaranhados”, sugerindo negligência em sua atuação no BC, e a imagem de uma caixa de pizza com o título: “Mais rápido do que uma pizza: Renato Gomes liquida banco em 40 minutos e joga conta bilionária no seu colo.” A primeira montagem foi publicada por um perfil de Instagram chamado Comuacin, que tem 3,9 milhões de seguidores. A segunda veio da página Alfinetei, também no Instagram, que soma mais de 25 milhões de seguidores.
Os monitoramentos continuaram até poucos dias antes da segunda prisão de Vorcaro, em março. A equipe de especialistas em segurança digital, encabeçada por Thiago Santos, também monitorava a situação de familiares do ex-banqueiro, como seu pai Henrique e o primo Felipe, já que eles também estavam sendo investigados pela PF.
Os diálogos entre Vorcaro e Thiago Miranda tratavam, frequentemente, de maneiras para tentar controlar a narrativa na imprensa sobre o caso Master. O banqueiro estava pessoalmente envolvido, em tempo real, na definição do que seria ou não divulgado publicamente sobre o escândalo e sobre sua vida pessoal. Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, autoridades envolvidas na liquidação do Master sofreram, entre 28 e 29 de dezembro de 2025, uma onda de ataques coordenados nas redes sociais, com um pico de 4.560 publicações em 27 de dezembro. Os fatos estão sendo investigados no inquérito da Polícia Federal sobre o “Projeto DV”, a estrutura voltada para arregimentar páginas de fofoca e influenciadores digitais para publicar conteúdos pressionando o Banco Central.
Indagado pela piauí, Thiago Miranda não comentou as informações da Polícia Federal sobre o ataque hacker e as demais operações digitais. Seu advogado Rafael Martins enviou uma nota defendendo “a absoluta legalidade de todos os atos praticados pelo constituinte e que são alvo de apuração por meio das operações Compliance Zero e Projeto DV”. Martins disse também que “a apuração dos fatos e a publicidade das investigações reforçam a inexistência de atos ilícitos praticados por Thiago Miranda”. Por sua vez, Thiago Santos negou qualquer tipo de atividade irregular e disse que se apresentou espontaneamente à Polícia Federal para prestar esclarecimentos sobre o caso. A defesa de Daniel Vorcaro não respondeu.
*
* A família do fundador da piauí integra o bloco de controle do Itaú Unibanco.