questões cinematográficas
27 Mai 2011
3 min de leitura
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Na entrevista publicada no “Globo” há três semanas (7/5/2011), dada a Arnaldo Bloch, além de reclamar, Julio Bressane faz acusações e apelos dramáticos – não quer ser “assassinado” em seu próprio país, nem enterrado vivo.
Um projeto recente dele teria sido “barrado” em três editais; ele próprio estaria sendo “vítima de um trabalho prolongado de censura” por parte da imprensa; um de seus filmes teria sido tratado de maneira brutal e vulgar etc. etc.
Segundo Bressane, “é uma mentalidade genocidiária. O que não quero é que me enterrem vivo, isso é que não pode. Essas coisas representam uma espécie de veto à sua vida. […] Às vezes o que para uma pessoa é uma coisa natural pode levar outra à morte. Conheço em cinema pelo menos três casos.”
E declara ainda que “a tentativa de me ‘matar’ tem sido feita sistematicamente. […] Você é vetado, boicotado, silenciado, por forças poderosas.”
Quero acreditar na sinceridade de Bressane. Mas me parece que ele erra o alvo quando aponta as causas do seu desespero.
Terá razão para se lamentar quem fez oito longametragens nos últimos vinte anos, todos patrocinados com recursos públicos e, no momento, anuncia estar fazendo mais um? Em termos brasileiros, a média de um filme a cada dois anos e meio não é de todo má. No entanto, Julio Bressane reclama, considerando estar sendo injustiçado por que um de seus projetos recentes não foi escolhido em editais de patrocínio.
Seria preciso lembrar não ser ele o único que a cada novo edital tem seus projetos preteridos? Entre centenas de concorrentes, cerca de 10% apenas são escolhidos. E tratando-se de concursos públicos, em tese todos concorrem em condições de igualdade, nenhum cineasta tendo direitos adquiridos.
Em vez de pôr em questão os mecanismos de financiamento da atividade que o favoreceram durante 20 anos, Bressane personaliza a questão, e posa de vítima de um complô. No lugar de uma avaliação política que diga respeito à atividade como um todo, concentra-se nos seus interesses pessoais e espalha brasa em forma de acusações generalizadas.
Sem perceber, levanta uma bandeira em defesa do parasitismo, enquanto em Lisboa ocorria a décima-primeira retrospectiva dedicada à sua obra. Declara estar ameaçado de morte, enquanto se prepara para passar oito meses “circulando por festivais na Itália”. Ataca o que chama de “esquerdistas”, admitindo que seu último filme foi produzido graças a um deles.
Diante da falta de reação às declarações de Bressane, de duas uma: ou atingimos o paroxismo da indiferença e ameaças de morte não causam comoção, ou ninguém leva mais a sério entrevistas de cineastas como a de Julio Bressane.
Em tempo: parasitas, ensina rápida consulta à Wikipédia “são organismos que vivem em associação com outros aos quais retiram os meios para a sua sobrevivência, normalmente prejudicando o organismo hospedeiro, um processo conhecido por parasitismo”.