vultos das eleições

IMPEDIDO

Mesmo com dinheiro e o apoio de Flávio Bolsonaro, o neomineiro Eduardo Cunha acabou rejeitado pelos eleitores – mas estará em espírito no Congresso Nacional, por meio da filha
Eduardo Cunha também não se elegeu 2022 ao concorrer para deputado federal por São Paulo - Divulgação/Republicanos
Eduardo Cunha também não se elegeu 2022 ao concorrer para deputado federal por São Paulo - Divulgação/Republicanos

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As eleições do último domingo terminaram com sabor agridoce para Eduardo Cunha (Republicanos). O ex-presidente da Câmara, maior articulador do impeachment de Dilma Rousseff, recebeu pouco mais de 32 mil votos e não conseguiu se eleger deputado federal por Minas Gerais. Já Dani Cunha (PL), sua filha, foi reeleita no Rio de Janeiro com 116.984 votos. Assim, a dobradinha da família no Congresso, por ora, foi adiada. 

A candidatura de Cunha, o pai, foi repleta de percalços. Decisões de tribunais eleitorais baseadas em seu histórico parlamentar minaram boa parte de sua campanha. Mesmo com o auxílio de líderes evangélicos, com o apoio de Flávio Bolsonaro (PL) e com a Maravilha FM se expandido e jorrando dinheiro no futebol local, o ex-deputado foi rejeitado nas urnas pelo eleitor mineiro.

O apoio de Flávio a Cunha começou a ser costurado em um domingo, 9 de agosto. Era dia dos pais e os dois se encontraram em São Paulo, na Igreja Mundial do Poder de Deus, para assistir a um culto do pastor Valdemiro Santiago – aquele mesmo que usa um chapéu de vaqueiro e, entre multas, encargos trabalhistas e impostos, deve mais de 600 milhões de reais à União.

“Meus amigos de Minas Gerais”, disse Flávio Bolsonaro, num vídeo gravado no templo de Santiago, “estou aqui com uma pessoa que tem um papel importante na história do nosso Brasil. Foi aquele que abriu os olhos da população brasileira e derrubou a Dilma.” Cunha retribuiu o afago: “Meu partido está neutro, mas eu estou apoiando o Flávio Bolsonaro.” No fim daquele mês, Flavio, enfim, pediu votos à candidatura do carioca. 

Não era a primeira vez que trocavam elogios. Em 2 de junho, o filho de Jair Bolsonaro esteve em Belo Horizonte e concedeu entrevista à rádio Maravilha FM. Trata-se da rádio fundada por Cunha apenas um ano atrás e que, nesse breve período, ampliou seu sinal para quase 60% do estado de Minas Gerais. Na ocasião, Flávio preferiu manter discrição sobre o encontro. Não declarou apoio ao ex-deputado e, ao contrário do que fez Cunha, não divulgou a entrevista em suas redes sociais. Com o início do período eleitoral, porém, Flávio e Cunha estreitaram relações, numa tentativa de avivar o sentimento antipetista de parte do eleitorado mineiro.

Quem também acompanhou o misto de culto e comício de Santiago foi Dani Cunha (PL). Embora fosse dia dos pais, Cunha tinha muito o que agradecer à filha. Foi graças à lei complementar no. 219/2025, a chamada “Lei Eduardo Cunha”, idealizada por Dani e aprovada no Congresso, que o ex-deputado achou uma brecha para alterar a lei da Ficha Limpa e pôde sair candidato nas eleições deste ano. É que a “Lei Eduardo Cunha” flexibilizou os prazos de inelegibilidade de candidatos ficha suja, beneficiando, entre outros políticos condenados por corrupção, o ex-governador fluminense Anthony Garotinho e, é claro, Cunha.



Quando tudo parecia conspirar a favor, a candidatura de Cunha recebeu um golpe. Em 3 de setembro, por unanimidade, os seis desembargadores do Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais atenderam parcialmente ao pedido do Ministério Público Eleitoral e indeferiram o registro de sua candidatura. Os argumentos do MPE foram dois. O primeiro é que, pelas regras anteriores à “Lei Eduardo Cunha”, a inelegibilidade do ex-deputado só termina em 1º de fevereiro de 2027 e, como a nova lei alterou a forma de contagem desse prazo, o TRE-MG afastou sua aplicação ao caso, enquanto sua constitucionalidade segue em discussão no STF.

O segundo argumento é a suspeita de que Cunha, como mostrou reportagem da piauí publicada na edição de agosto da revista, integrou uma organização criminosa que desviou milhões de reais em emendas parlamentares para atender aos interesses eleitorais do ex-deputado em seus redutos políticos em Minas. Segundo investigação da Polícia Federal, Cunha, que não é deputado desde 2016, quando foi cassado por seus colegas por possuir uma conta secreta na Suíça, gerenciou informalmente parte do orçamento da Câmara. Por esse motivo, o ministro Flávio Dino, do STF, ordenou o bloqueio de 6,15 milhões de reais que o nêmesis do Partido dos Trabalhadores distribuiu a aliados usados como laranjas em cidades mineiras.

No mesmo dia em que teve a candidatura impugnada, Cunha esbravejou contra a Justiça Eleitoral. “Essa decisão foi política, foi teratológica!”, disse, num vídeo publicado em suas redes sociais. “Eles simplesmente decidiram que a lei complementar que dá suporte à minha candidatura é inconstitucional. Que é um papel que cabe ao STF fazer.”

Daí em diante, o ex-deputado até se esforçou em imprimir um tom de normalidade à sua campanha. Como qualquer outro candidato, participou de carreatas, distribuiu panfletos, comeu pastéis de feiras e abraçou crianças pelas ruas. Mas Cunha não é qualquer candidato. No dia 15 de setembro, recebeu outra má notícia: o TRE-MG rejeitara um de seus recursos à corte, reiterando sua inelegibilidade. Há menos de um mês das eleições, restavam dois caminhos ao neomineiro Cunha: apelar ao STF e ao Tribunal Superior Eleitoral.

Na tarde de quarta-feira, 23 de setembro, a defesa do ex-deputado entrou com um pedido no STF para anular o acórdão e o TRE-MG julgar novamente o caso. Ironia das ironias, o pedido foi parar nas mãos da mineira Cármen Lúcia, que já se manifestou pela inconstitucionalidade da “Lei Eduardo Cunha”. Rápido no gatilho, em menos de 24 horas Cunha desistiu da ação, evitando que Cármen Lúcia tivesse tempo para julgá-la.

Já no TSE, a sorte talvez tenha piscado para o ex-deputado. Seu recurso foi distribuído ao ministro Floriano de Azevedo Marques Neto, que em 28 de agosto aliviara a barra de Garotinho, suspendendo as restrições que o TRE-RJ havia imposto à campanha do ex-governador. Mas não só o histórico de votações do ministro conta a favor de Cunha. Contava também o tempo: elegível ou inelegível, se o recurso do ex-deputado não fosse votado pelo TSE até o primeiro turno, o nome de Eduardo Cosentino da Cunha constaria nas urnas eletrônicas mineiras.


A dor de cabeça causada pelos entraves da Justiça Eleitoral não é uma experiência nova para Eduardo Cunha. Em 2022, aconteceu quase a mesmíssima coisa: ele saiu candidato por um estado que não era o dele (naquela oportunidade, São Paulo), viu sua campanha ser suspensa pelo STF e depois viabilizada por uma decisão provisória da Justiça. No fim das contas, seu nome estava nas urnas. Só que Cunha angariou apenas 5 mil votos e não foi eleito deputado federal.

O sonho frustrou-se em 2022, mas nem tanto, já que Dani Cunha foi eleita para o mesmo cargo pelo Rio de Janeiro. Teve início então o projeto 2026, com as articulações bem-sucedidas de pai e filha nos bastidores do Congresso para a aprovação do projeto que flexibilizaria as punições da Lei da Ficha Limpa. A pedra no sapato, outra vez, foi a Rede Sustentabilidade, que pediu ao STF que declarasse a lei inconstitucional (foi também a Rede que, ao lado do Psol, pediu a cassação de Cunha em 2016). O placar no plenário virtual do STF, por ora, está 2 a 1 contra a constitucionalidade da lei.

Além do arsenal jurídico, Cunha mobilizou outros recursos para tentar viabilizar sua eleição em 2026: o dinheiro e a influência política. Esta última ficou particularmente patente no caso das emendas parlamentares que irrigaram suas novas bases eleitorais no interior de Minas. Na peça de defesa que remeteu à Justiça Eleitoral, porém, Cunha garantiu que “não apresentou, indicou ou deu direcionamento” a qualquer verba do Parlamento. Apenas procurou certos deputados e sugeriu uma ou outra ideia, como “qualquer cidadão comum” poderia fazer. Se por um acaso algumas dessas ideias foram acatadas, antecipam-se os advogados de Cunha, “sempre será desses titulares [do mandato] a responsabilidade pela iniciativa”.

Já o dinheiro (o privado, não o público) foi empregado pelo ex-deputado para inaugurar dezenas de estúdios da rádio Maravilha por Minas Gerais. Rádio que constou, inclusive, no número de urna de Cunha: 1089 (a frequência FM da Maravilha é 89.1). Mas ao TRE-MG, Cunha contou outra história. Em contraste com o que dissera aos moradores de João Pinheiro, Pirapora, Pouso Alegre, Varginha, Cambuí, Governador Valadares, Ubá, Uberaba e diversas outras cidades, ele não seria o dono, mas apenas faria “as vezes de porta-voz” da rádio Maravilha.

Porta-voz ou dono, o certo é que Cunha valeu-se da Maravilha FM para aproximar-se da arraia-miúda da política mineira. E não só da rádio: o ex-presidente da Câmara tornou-se patrocinador do Uberaba Sport Club, um dos times mais tradicionais do interior de Minas. Acontece que o grande objetivo esportivo da equipe, subir para a primeira divisão do campeonato mineiro, não se concretizou – prejudicando a tentativa do ex-deputado de atrair para si os eleitores que torcem para o Uberaba.

Todo esse dinheiro, que serviu ainda para bancar as viagens de helicóptero de Cunha pelo estado, é de origem desconhecida, já que parte do patrimônio do ex-deputado encontra-se bloqueada por suspeita de desvio de emendas parlamentares. Indagado pela piauí sobre a origem dessa fortuna, Eduardo Cunha foi curto e grosso: “Não tenho que dar satisfação sobre atividades de natureza privada.”


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É jornalista e doutor em Comunicação pela UnB