vultos do voto
Leandro Aguiar 10 Ago 2026
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Desde que deixou a prisão em 2021, Eduardo Cosentino da Cunha – o ex-deputado carioca cassado por esconder milhões em uma conta secreta na Suíça – está focado em seu projeto de vida. Quer, a todo custo, voltar à Câmara dos Deputados, casa que presidiu com mãos de ferro por pouco mais de um ano, entre 2015 e 2016, protagonizando escândalos de corrupção e sobretudo o processo de impeachment contra Dilma Rousseff.
No Rio de Janeiro, o plano não foi adiante. Num primeiro momento, ainda em 2018, o ex-deputado lançou a candidatura de sua filha, Danielle Cunha. Na ocasião, divulgou uma “carta aos brasileiros”, em que dizia que a filha era “muito mais preparada” do que ele e advertia: “Os meus adversários podem aguardar que ela dará mais trabalho do que eu dei.” A filha teve apenas 13 mil votos e não se elegeu. Mas tentou novamente na eleição seguinte e, dessa vez, teve sucesso.
Para não disputar espaço com a filha, Eduardo Cunha transferiu seu título eleitoral para São Paulo em 2022. Graças a uma decisão judicial provisória que lhe devolveu os direitos políticos, lançou-se a deputado federal pelo PTB. Teve apenas 5 mil votos. Em 2024, então, Cunha voltou então suas atenções para Minas Gerais, onde nunca morou, nunca teve parentes nem negócios. “Minas é a síntese do Brasil”, diz ele, toda vez que sobe num palanque. Mas não está em busca de sínteses. Quer votos para eleger-se deputado pelo Republicanos.
Para tanto, Cunha tem circulado por cidades mineiras a bordo de um helicóptero Agusta A109 (que, novo, não sai por menos de 7 milhões de dólares). Em busca de apoio eleitoral, está patrocinando o Uberaba Sport Club e investindo em sua rádio, a Maravilha FM. Inaugurada em julho do ano passado com um único estúdio em Belo Horizonte e programação voltada ao público evangélico, a rádio já expandiu seu sinal para quase 60% do estado e espalhou seus estúdios por 32 cidades, como mostra uma reportagem da piauí deste mês.
Quando indagado sobre suas despesas, Cunha tem uma resposta na ponta da língua. “Não estamos ainda em período eleitoral para ter de dar satisfação do montante que tenho gasto.” Fora a singularidade de ser um ex-presidiário cassado cabalando votos num estado em que não tem conexões e chegar às cidades mineiras pelos céus, Eduardo Cunha tem feito o que faz boa parte dos candidatos. Mas há uma notável exceção: o uso de dinheiro público.
Nos últimos meses, não foram poucos os políticos mineiros que agradeceram publicamente a Cunha por verbas públicas. “Ele colocou aqui 1 milhão e 50 mil reais na saúde!”, festejou recentemente o vereador Guilherme Coxa (PP), ex-presidente da Câmara Municipal de João Pinheiro, no noroeste de Minas. A bolada para a saúde de João Pinheiro, cidadezinha de 46 mil habitantes, coincidiu com a chegada de Cunha ao município, onde desembarcou para comprar duas rádios locais e integrá-las à rede Maravilha.
Como Eduardo Cunha, sem ter cargo público, conseguiu distribuir verba federal com tanta facilidade? A magia intrigava os concorrentes, mas, em julho passado, as coisas começaram a ficar mais claras – e assombrosas. Cunha estava manipulando verbas do orçamento secreto na Câmara dos Deputados, como se fosse um parlamentar. Uma investigação da Polícia Federal descobriu a manobra clandestina e informou o caso ao ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, que mandou bloquear 6,15 milhões de reais que o ex-deputado conseguiu distribuir a aliados e assim irrigou sua campanha em Minas.
Os 6,15 milhões estavam previstos em 21 emendas, todas destinadas a cidades mineiras e todas, nas palavras do ministro Dino, “forjadamente documentadas para escamotear o verdadeiro solicitante”. Funcionava assim: Cunha previa a distribuição de verba pública para uma determinava cidade e um deputado amigo aparecia publicamente como autor da emenda, embora fosse apenas um laranja.
O uso eleitoreiro das emendas era descarado. Na cidade de Manhuaçu, por exemplo, a distribuição da verba federal, por obra de adversários, estava sendo atribuída ao deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), e não a Cunha. O ex-deputado então até ameaçou cancelar o benefício. Para faturar eleitoralmente, ele precisava que o dinheiro fosse atribuído a Gilberto Abramo, seu deputado laranja.
Na prática, Cunha era um “agente privado com poderes políticos equivalentes ou até superiores aos de parlamentares em exercício”, segundo o relatório da PF. “Isso revela um quadro de gravíssimo desvio de finalidade, pois as emendas, criadas para atender demandas legítimas de representantes eleitos, acabam subordinadas a um esquema informal coordenado por quem não mais responde ao eleitorado, ao Parlamento ou às regras republicanas de transparência.”
Procurado pela piauí, Cunha mandou sua assessoria de imprensa dizer que as emendas foram “oficialmente apresentadas e indicadas por parlamentares, bancadas ou órgãos legitimados, os únicos que possuem competência sobre o processo orçamentário”.
Em agosto do ano passado, quando dava os primeiros passos para viabilizar sua candidatura, Eduardo Cunha foi atingido pela metralhadora verbal do senador Cleitinho Azevedo, seu colega no Republicanos que batalha para ser candidato ao governo de Minas Gerais. “Aqui em Minas tem um canalha, um vagabundo, que chama Eduardo Cunha, que está vindo para cá agora, querendo fazer campanha para deputado federal. Vocês vão ter coragem de votar num vagabundo desse?”, disse Cleitinho em um vídeo do Instagram. Em resposta aos desaforos, Cunha está processando o senador no STF.
Com a recepção pouco calorosa, Cunha tentou mudar de partido. Primeiro, bateu à porta do PL. Valdemar Costa Neto, dono do partido, gostou da ideia, mas a bancada mineira reagiu. Os deputados temiam que o passado de corrupto de Cunha respingasse nas demais candidaturas. Cunha continuou seu périplo partidário e ouviu negativas do Podemos, do PP, do PSD, do Avante e do MDB, legenda na qual, um dia, deu as cartas com desembaraço. As recusas seguiam um roteiro teatral: o líder nacional do partido demonstrava boa vontade, mas, ao consultar a bancada estadual, constatava o risco de debandada, pedia sinceras desculpas ao ex-deputado e encerrava as negociações.
Sem outra opção, Cunha permaneceu no Republicanos, onde ninguém assume que lhe abriu as portas. Ouvido pela piauí, o deputado Marcos Pereira, presidente nacional do Republicanos, desconversa. “Assuntos estaduais devem ser tratados com as executivas estaduais.” O presidente estadual, o deputado licenciado Euclydes Pettersen, também desconversa. Em entrevista ao jornal O Tempo, disse: “Cunha já estava filiado antes mesmo da nossa entrada. Não houve decisão do diretório estadual, simplesmente ele permaneceu.”
A decisão de Cunha de ficar no Republicanos não se deu apenas por falta de alternativas. Há também cálculo político. Gleidson Azevedo, o irmão gêmeo do senador Cleitinho, será candidato a deputado federal e, como é popular em Divinópolis, cidade da qual já foi prefeito, estima-se que arrebanhará um enorme balaio de votos. A regra do coeficiente eleitoral pode produzir a ironia das ironias: os votos de Gleidson, que também não gosta do “canalha, vagabundo”, podem ajudar a eleger Eduardo Cunha.