questões cinematográficas
Mar 2011 08h16
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Em meado de janeiro, na cerimônia de entrega do Globo de Ouro – prêmio da Associação de Correspondentes Estrangeiros de Hollywood –, ao ser anunciado o melhor filme não falado em inglês, foi projetada cena, supostamente representativa da coprodução dinamarquesa e sueca premiada, em que um bando de crianças negras, descalças, corre atrás de uma camionete que levanta nuvem de poeira na cara delas.
A projeção durou alguns segundos – tempo suficiente para entender que mais uma vez estavam sendo premiados bons sentimentos. Ao ganhar também o Oscar, há duas semanas, na mesma categoria, “Em um mundo melhor” comprovou que visões piedosas são receita certeira para ganhar troféus nos Estados Unidos. Lição que nossos produtores, profissionais de cinema, ministério da Cultura e jornalistas, que todo ano se agitam para indicar um representante da pátria para a seleção dos filmes que concorrerão ao prêmio da Academia de Arte e Ciências (feita em Los Angeles), já poderiam ter aprendido.
Quem escolheu a cena de “Em um mundo melhor” projetada na cerimônia de entrega do Globo de Ouro merecia um troféu especial pela propaganda mais eficaz e enganosa. Os meninos correndo atrás da camionete, que está partindo de um campo de refugiados na África, são um apelo às consciências culpadas. Mas a cena está longe de sugerir o tema central do filme – a discriminação e barbárie que florescem na Dinamarca.
O roteirista Anders Thomas Jensen aplica fórmula conhecida, sem esquecer nenhum elemento, acumulando em duas horas variada gama de conflitos, todos gastos por fadiga de material. O resultado disfarça mal o preconceito de reservar o terror para a África, enquanto em casa, suecos e dinamarqueses evitam tragédias por serem todos, no fundo, gente de bem.
Centrada em dois adolescentes – um simplório heróico e um psicopata salvo de cometer assassinato – a trama gira em torno de um conjunto de estereótipos: casal de médicos separado; viúvo odiado pelo filho que o responsabiliza pela morte da mãe; pai dedicado à ação humanitária, que recusa responder à violência com violência, preferindo dar a outra face como exemplo para os filhos etc.
Quem fizer uma lista de bons sentimentos, e for conferir, encontrará quase todos no filme premiado com o Globo de Ouro e o Oscar. Em qualquer outro lugar, terá dificuldade de encontrar tantos reunidos.