festival piauí de jornalismo
Maitê Silveira 06 Set 2026
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Num país em que 60% da população tem medo de se expressar, Carlos Dada, o cofundador e diretor do salvadorenho El Faro, considera sua posição um privilégio – mesmo estando atualmente exilado na Holanda. Junto a seu colega Jorge Simán, Dada fundou o El Faro – hoje um dos principais veículos de reportagens investigativas da América Latina – em 1998, no início da transição do jornalismo impresso para a era digital (o veículo salvadorenho foi o primeiro jornal nativo digital da região). Seu portfólio inclui reportagens em zonas de conflito no Iraque, Honduras e México. Além disso, Dada já colaborou com a piauí em três ocasiões e participou como convidado da primeira edição do festival, em 2014.
Entrevistado neste domingo (6) na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, pela repórter da piauí Consuelo Dieguez e pelo jornalista da GloboNews Marcelo Lins, Dada afirmou que, desde sua última participação no festival, há doze anos, “fazer jornalismo ficou muito mais complicado. Passamos de independentes para dissidentes”. Sob o governo do presidente nacionalista Nayib Bukele, no cargo desde 2019, El Salvador caiu da 38ª para a 143ª posição entre 180 países no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa.
Antes de sua eleição, Bukele fazia elogios ao El Faro, mas sua posição mudou rapidamente após assumir o poder. “Somos inimigos”, Dada resume. O governo – cuja bandeira principal é a prisão em massa de membros de gangues, política executada sem qualquer respeito aos direitos humanos ou estado democrático de direito – provocou o exílio de todos os membros da redação do El Faro, que hoje luta para conseguir se manter. Dada diz que o veículo enfrenta uma “tempestade perfeita”. Por conta do governo autoritário, a receita comercial é quase nula. “Ninguém quer colocar anúncios na nossa plataforma e acabar brigando com um ditador”, explica. Ao mesmo tempo, os gastos com defesas jurídicas e outros custos administrativos (o veículo hoje opera na Costa Rica) aumentaram. A receita caiu justamente num momento em que os custos cresceram. “Ainda estamos aprendendo a contornar isso. O preço a se pagar por fazer jornalismo é cada vez mais alto”.
Os jornalistas salvadorenhos precisam recorrer “à moda antiga” para ficar em contato com suas fontes, devido à intimidação e monitoramento ostensivo do governo. Dada contou que, no primeiro ano da gestão de Bukele, os funcionários públicos chegaram a passar por polígrafos para que o governo identificasse quem estava colaborando com a imprensa. “As fontes sempre estão correndo mais risco que a gente, por isso, nós temos a obrigação de protegê-las até mais do que nós mesmos”.
Nem sempre os métodos de Bukele para suprimir a informação funcionam bem. Quando Dieguez perguntou a Dada sobre os índices sociais e econômicos do país, ele explicou que, recentemente, para pegar um empréstimo do FMI, o governo se viu obrigado a divulgar as contas públicas. O que se viu foi uma situação calamitosa, que deve em breve resultar em políticas de austeridade que irão afetar sobretudo as aposentadorias dos salvadorenhos.
Em 2020, através de uma série de documentos e depoimentos de membros da MS-13 – também chamada de Mara Salvatrucha, uma das principais gangues salvadorenhas –, o El Faro comprovou negociações e troca de benefícios entre o governo atual e faccionados. Cinco anos depois, mais revelações sobre a proximidade entre o círculo de Bukele e as gangues do país emergiram.
Ao desconstruir a imagem que Bukele havia cunhado para si internacionalmente, Dada e os demais jornalistas do El Faro foram hackeados pelo software israelense Pegasus. Para demonstrar sua indignação com o monitoramento, Dada processou o fabricante israelense numa corte californiana – o processo está em andamento. Outro episódio em que a extensão da vigilância do governo atual ficou evidente foi quando jornalistas do El Faro se viram monitorados por drones. Quando um dos aparelhos voadores entrou pela janela do escritório de Dada, o jornalista respondeu com um gesto simples, mas simbólico: mostrou-lhe o dedo do meio.
Apesar dos riscos, Dada e o El Faro dizem não se intimidar. “A gente não será paralisado por medo. Enquanto tivermos a possibilidade de responder, isso é um trunfo.” Entre os objetivos dele, está manter o jornal conectado com a população local, evitar que a complacência do exílio se instale. “Como não acabar sendo um jornal de exilados para exilados?” O El Salvador que Dada deixou ainda resiste, apesar de Bukele.