festival piauí de jornalismo
Tatiane de Assis 06 Set 2026
3 min de leitura
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
“Se até mesmo nessa democracia [dos Estados Unidos], que ditou como devemos nos comportar, o presidente pode se dar ao luxo de tratar a imprensa desse jeito, então em nossas democracias menos estáveis ou em desenvolvimento será possível barbarizar e mandar os jornalistas calarem a boca sem nenhuma consequência.” A declaração em tom alarmista é da jornalista ucraniana Olga Rudenko. Ela é uma das protagonistas do documentário Defendendo o futuro da mídia, um média-metragem produzido pelo Instituto Internacional de Imprensa (IPI) e exibido neste sábado (5) no Festival piauí de Jornalismo, que acontece na Cinemateca Brasileira, em São Paulo.
O filme (disponível no YouTube, neste link) retrata o cerceamento à liberdade de expressão e a ofensiva crescente contra a imprensa, na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina. Depois da exibição, foi realizado um debate com a participação da própria Rudenko, que é editora-chefe do Kyiv Independent, veículo que se tornou a maior referência para o mundo sobre a guerra contra a Rússia. Ao lado dela estava o jornalista Carlos Dada, cofundador do site El Faro que, em exílio, cobre a situação política de El Salvador. O debate foi mediado por Paula Miraglia, cofundadora da Gama Revista e do Nexo Jornal, além de conselheira do IPI, organização fundada em 1950 com o objetivo de promover o jornalismo no pós-Segunda Guerra.
O tom do documentário é alarmante, não sem razão. Com uma montagem rápida, ele mostra a investida de líderes autoritários como Vladimir Putin e Javier Milei contra o exercício livre do jornalismo. Mas há nuances. Márton Gergely, editor-chefe do Heti Világgazdaság (HVG), um dos poucos veículos que sobreviveram à repressão de Viktor Orbán na Hungria, dá um recado aos aspirantes a ditador: “Não é possível construir a máquina de propaganda perfeita.” A frase é pertinente ao contexto húngaro. Nas eleições de abril deste ano, Orbán, que governava a Hungria desde 2010 com mão de ferro e muita propaganda estatal, foi derrotado por Péter Magyar, do partido de oposição Tisza.
No debate, Paula Miraglia perguntou aos convidados o que os motivava a persistir no jornalismo, apesar dos riscos que correm em seus países. Carlos Dada, citando um amigo, disse que é jornalista para tornar mais difícil a vida de autocratas. Olga Rudenko, por sua vez, afirmou: “Eu não sei a que outra coisa eu poderia doar a minha vida neste momento, considerando a situação que meu país está passando.” Ao fim da conversa, os dois ressaltaram a importância da solidariedade internacional para manter de pé o trabalho da imprensa nos dois países. “Nós não estaríamos fazendo jornalismo se não fosse o apoio de organizações internacionais, incluindo as organizações de advogados”, disse Dada.
Depois do debate, foi realizada uma oficina de jornalismo investigativo ambiental. A atividade foi ministrada por Maria Rosa Darrigo, gerente do Pulitzer Center, Veronica Goyzueta, fundadora do portal Sumaúma, e Flávio Ferreira, repórter especial da Folha de S.Paulo. O trio destacou como é importante apostar em apurações de fôlego sobre questões ambientais. “Elas estão mais conectadas à política do que pensa a nossa vã filosofia”, disse Darrigo. “A privatização da Sabesp, na cidade de São Paulo, que já aconteceu, era uma pauta ambiental”, concordou Goyzueta. Em sua fala, Ferreira contou que, para ele, no último ano, jornalismo ambiental foi sinônimo de emendas parlamentares. O repórter da Folha produziu uma série de reportagens intitulada Poder e Devastação, que mostra como esse mecanismo orçamentário vem impactando o meio ambiente no Brasil.
Os três jornalistas também destacaram como o uso de bancos de dados fortalece pautas como essa. Somado à apuração com personagens, eles disseram, esse tipo de instrumento ajuda a dar mais profundidade ao debate público e dificulta a contestação por parte de políticos e grupos que não querem que essas informações sejam divulgadas.