festival piauí de jornalismo
Thallys Braga 06 Set 2026
5 min de leitura
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O maior equívoco da imprensa americana nas eleições de 2016, que terminaram com Donald Trump na Presidência, foi confiar demais na avaliação dos analistas políticos e não escutar os eleitores. Essa é a avaliação de Dean Baquet, jornalista que atuou como editor-executivo do The New York Times entre 2014 e 2022, um período turbulento da história americana. Baquet participou neste sábado (5) do 10º Festival piauí de Jornalismo, que acontece na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. “É muito fácil ser seduzido pelos especialistas, e esse é um grande problema da cobertura política”, disse Baquet, numa conversa mediada por André Petry, diretor de redação da piauí, e Natuza Nery, comentarista e apresentadora da GloboNews.
Na avaliação de Baquet, o Times, bem como o resto da imprensa americana, não foi capaz de perceber a raiva e o sentimento anti-establishment que predominavam em parte do eleitorado. “Muitos leitores acharam que a cobertura foi muito dura com Hillary Clinton [candidata democrata que concorreu contra Trump em 2016]. Não acho que tenha sido esse o problema. Nós não soubemos cobrir o país.” Em retrospecto, Baquet avalia que a imprensa subestimou o ressentimento da população branca depois de oito anos de governo Obama, assim como a insegurança com os rumos da economia. “O desejo de mudança era generalizado, o que também ajudou a explicar o fortalecimento de Bernie Sanders”, afirmou o jornalista.
Baquet assumiu a direção do Times depois de trilhar uma carreira premiada como repórter investigativo. Nascido em Nova Orleans, cursou literatura na universidade de Columbia, em Nova York, mas não concluiu a graduação. Em vez disso, retornou à cidade natal, onde descobriu sua paixão pela imprensa. Mesmo sem nunca ter feito uma aula de jornalismo, passou a exercer a profissão e se tornou um repórter de renome. Aos 32 anos, contratado pelo Chicago Tribune, ganhou o prêmio Pulitzer por uma reportagem sobre corrupção na Câmara Municipal da cidade.
Quando assumiu o New York Times, em 2014, Baquet se valeu dessa experiência para guiar sua equipe em investigações de fôlego. O jornal, que antes não chegava a ter dez jornalistas investigativos, passou a ter quarenta. O investimento deu frutos durante a campanha eleitoral de 2016 – um fato que Baquet relembrou ao comentar uma crítica recorrente na época, segundo a qual o Times havia pegado leve com Trump. “Nenhum outro presidente americano teve seus impostos de renda investigados e revelados ao público”, disse o jornalista. “Se hoje as pessoas sabem que Trump se comporta mal com as mulheres, é graças à imprensa.”
Baquet foi o primeiro afro-americano a dirigir o Times e, na sua gestão, o expediente ficou mais diverso. Dos funcionários contratados em 2018, 43% eram pessoas não brancas. “Me causa preocupação a possibilidade de o jornalismo se transformar numa profissão de elite”, disse o americano. Ele também comentou as críticas que o jornal recebeu por ter publicado, em 2020, um artigo de opinião em que o senador republicano Tom Cotton defendia o uso de forças militares para conter o movimento Black Lives Matters. Baquet esclareceu que, no Times, os artigos de opinião não passam pelo crivo da redação – mas disse acreditar que um jornal deve publicar todo tipo de ideia. “Inclusive aquelas que nos deixam desconfortáveis.” Na época, o artigo gerou discordâncias internas no jornal. “Você deve construir uma redação que reflita o país. Se o país está em turbulência, como sua redação não estará?”, ele disse.
Aquele foi um período especialmente difícil, disse Baquet. Por causa da pandemia, ele só conversava com sua equipe por videochamadas. Ele relembrou uma noite em que, depois de fechar a edição do jornal, saiu na rua de moletom para ver de perto uma manifestação do Black Lives Matter que acontecia perto de seu prédio. “Me sentei no Washington Square Park e acendi um charuto, ciente de que estava no meio de um furacão histórico.”
O New York Times, como muitos jornais, sofre pressão para que certas reportagens não sejam publicadas. Um exemplo está descrito no livro Ela disse (Companhia das Letras), em que as repórteres Jodi Kantor e Megan Twohey narram os bastidores da investigação sobre os abusos sexuais cometidos pelo produtor Harvey Weinstein. O produtor de Hollywood chegou à redação do jornal em Manhattan acompanhado de advogados para tentar impedir a divulgação das acusações que atrizes e produtoras faziam contra ele. “Em casos assim, minha resposta é: ‘Prove para mim que alguém vai morrer se a reportagem for publicada. Caso contrário, desista. Meu contrato com o leitor é contar o que eu descobri’”, disse Baquet.
Hoje, o jornalista dirige o Local Investigations Fellowship, um programa do New York Times criado para dar a repórteres de veículos locais tempo, dinheiro e orientação para que consigam fazer grandes investigações em suas próprias comunidades. Desde 2023, os bolsistas já produziram dezenas de reportagens, algumas delas com efeitos concretos sobre políticas públicas. A crise do jornalismo local, disse Baquet, é um dos fatores que dificultaram à grande imprensa entender o que se passava nos Estados Unidos em 2016.
Baquet não se arriscou a prever o que acontecerá ao fim do atual mandato de Trump. O presidente aceitará passar o bastão a seu sucessor? “Há muito tempo deixei de tentar prever o comportamento de Trump”, disse o jornalista. “O que posso dizer é que ele estará mais velho, e muitos republicanos vão querer que ele saia do cargo, porque desejam o emprego dele.”
Além de Baquet, participaram do Festival piauí de Jornalismo outros sete jornalistas de diferentes países que contaram suas experiências comandando veículos em momentos incandescentes. Entre eles, Olga Rudenko, editora-chefe do jornal digital The Kyiv Independent; Musikilu Mojeed, editor-chefe do jornal nigeriano Premium Times; e Jeffrey Goldberg, diretor de redação da revista The Atlantic. Confira aqui a lista completa.