festival piauí de jornalismo

UM JORNAL NO ENCALÇO DE ZELENSKY

À frente do Kyiv Independent, a ucraniana Olga Rudenko diz que o presidente de seu país tem cada vez mais mecanismos para cercear a imprensa
Foto: Durval Litoldo
Foto: Durval Litoldo

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Os drones mudaram as estratégias de proteção dos jornalistas que cobrem a guerra da Ucrânia. Por causa desses equipamentos, nenhuma área é totalmente segura para apurar uma reportagem, gravar um vídeo ou fazer uma fotografia, disse a jornalista ucraniana Olga Rudenko ao participar, no domingo (6), da 10ª edição do Festival piauí de Jornalismo, que aconteceu na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. “Há uma guerra acontecendo na linha de frente, na fronteira, mas também na retaguarda, onde chegam os bombardeios. Às vezes, estamos em casa, de folga, e acordamos assustados com as bombas e as sirenes. Então temos que nos levantar e sair para documentar o que houve na rua.”

Rudenko é editora-chefe do jornal digital The Kyiv Independent, que publica notícias diárias sobre a Ucrânia em inglês. O site foi criado em 2021 por Rudenko e colegas jornalistas que também tinham sido demitidos do Kyiv Post, até então o jornal mais importante em inglês do país. Eles deixaram o veículo depois de se recusarem a amenizar as críticas ao presidente Volodymyr Zelensky, contrariando a vontade do dono do jornal, o empresário já falecido Adnan Kivan. Em três dias, Rudenko e seus colegas se juntaram para criar uma newsletter e dar continuidade ao trabalho investigativo que faziam. Em seguida, nasceu o site.

Quando as tropas russas invadiram a Ucrânia, em 2022, a redação do The Kyiv Independent ainda era nova e pequena. Alguns colegas de Rudenko decidiram deixar Kiev com suas famílias para se proteger. Outros, como ela, quiseram permanecer perto do front.

Entrevistada pelos repórteres da piauí Ana Clara Costa e João Batista Jr, Rudenko disse que os ucranianos se sentem abandonados pelo Ocidente. “O governo Trump nos trouxe uma sensação de desencanto. No fim das contas, estamos sozinhos.” Ela contou que, antes de subir ao palco do festival, passou o dia acompanhando o noticiário de seu país. Representantes da Casa Branca haviam acabado de se reunir com Zelensky, em Kiev, para negociar o fim da guerra com a Rússia. “Quando viajo para fora da Ucrânia, as pessoas pensam que fico feliz em poder dar uma respirada, mas na verdade fico com medo de perder algo porque estou longe do centro dos fatos”, disse a Rudenko.

Redações empenhadas em cobrir uma guerra por território, como a da Ucrânia, costumam sofrer uma pressão ainda maior das autoridades. Rudenko está familiarizada com a intimidação. Foi o governo de Zelensky que pressionou o Kyiv Post, jornal onde ela trabalhava até 2021, com pedidos para que as notícias fossem menos críticas e mais favoráveis às autoridades. “Agora, o governo tem ainda mais mecanismos para cercear o nosso trabalho. Se publicamos uma reportagem desfavorável à Ucrânia, o presidente pode cancelar as credenciais dos meus repórteres e impedi-los de trabalhar no front.”  Ainda assim, na percepção dela, há mais liberdade de imprensa do que seus colegas estrangeiros costumam imaginar. “Nossa independência foi conquistada a duras penas por jornalistas que vieram antes de nós. O que sentimos é uma certa fragilidade na liberdade que temos hoje.”

O veículo é sustentado principalmente pela colaboração de leitores. “Nossa relação com a audiência é direta”, afirmou a jornalista. “Quando uma pessoa cancela a assinatura, perguntamos o que a levou àquilo.” Para Rudenko, o que faz as pessoas assinarem o The Kyiv Independent é a dupla função que seus repórteres assumem: eles informam sobre a guerra e explicam o que é a Ucrânia para quem não é de lá, escrevendo sempre em inglês.

A essa altura, os jornalistas e os cidadãos ucranianos comuns se sentem abandonados até mesmo pelos europeus, disse Rudenko. “Estamos fatigados, queremos seguir nossas vidas. Precisamos que os jornais da Itália, da Polônia e toda a Europa convençam o público de que a guerra na Ucrânia não é um acontecimento distante, mas algo que diz respeito a todos.”

O tema do Festival piauí de Jornalismo este ano foi No olho do furacão – diretores de redação em tempos de tormenta. Além de Rudenko, participaram outros nomes importantes do jornalismo mundial. Entre eles, Dean Baquet, que chefiou o The New York Times entre 2014 e 2022; Musikilu Mojeed, editor-chefe do jornal nigeriano Premium Times; e Jeffrey Goldberg, diretor de redação da revista The Atlantic. Confira aqui a lista completa.


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Repórter da piauí, é autor do livro Filho (Companhia das Letras)