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QUANDO PERSIO ARIDA ENCAROU A MEDUSA

Economista descreveu a concepção de relato publicado na piauí sobre sua participação como revolucionário na ditadura militar
Foto: Durval Litoldo
Foto: Durval Litoldo

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“Quis escrever para minhas filhas.” Foi assim que o economista Persio Arida explicou sua motivação ao escrever o artigo Rakudianai, publicado na piauí em 2011 e considerado um dos textos mais célebres da revista em seus vinte anos de existência. O tocante relato do acadêmico sobre suas memórias da juventude e do seu envolvimento com a militância de esquerda na ditadura militar foi esmiuçado neste domingo (6), durante o 10º Festival piauí de Jornalismo, em uma conversa de Arida com Fernando de Barros e Silva, repórter da piauí, e Fernando Gabeira, comentarista político da GloboNews. 

Arida afirmou que tinha dúvidas sobre a relevância do texto antes de escrevê-lo. “Não gostaria de escrever mais um relato sobre a tortura. Além disso, minha presença na luta armada foi periférica”, disse. Depois, convenceu-se de que a história continha “uma certa reflexão sobre o país”. “É difícil para os jovens de hoje entenderem o que foi aquele período. Quando se tenta apagar o passado, os fantasmas voltam. O fato de o Brasil não ter lidado com os crimes da ditadura nos fez pagar um preço alto”, ponderou Arida. “Foi um equívoco fazer a Lei da Anistia do jeito que foi feita. Passando por cima dos crimes cometidos. Falar da Anistia foi a segunda motivação para esse texto.”

O texto começa com Arida em sua casa contando aos pais que ele estava envolvido com uma organização de esquerda, a Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares, e que havia o risco de que ele fosse preso pelos militares. Fernando Gabeira relembrou que, para tentar apagar vestígios de sua militância, o economista despejou no Rio Pinheiros uma mala cheia de livros escritos por Lenin. Para Gabeira, a cena é uma metáfora das desilusões de Arida sobre a crença nos ideais revolucionários. “Durante a minha militância, eu tinha consciência de que aquilo não ia dar em nada”, afirmou Arida. “Mas faltou coragem para ser covarde e desistir. Não queria ficar conhecido por desistir de uma causa justa e que tornaria o mundo melhor, mas também não tinha coragem de dizer que tinha medo e que achava que aquilo não daria em nada. E tem outra coisa: ser revolucionário encantava as meninas”, disse o economista. 

Entre continuar na organização ou se afastar da luta revolucionária, Arida tentou encontrar o meio do caminho. Primeiro, aceitou ajudar o grupo a pendurar uma faixa na Avenida Nove de Julho com os dizeres “morte ao mau patrão”. Depois, escondeu na casa de seus pais um militante, Massafumi Yoshinaga, que estava fugindo dos militares. “Era um nissei mirrado, trêmulo, acuado e nervoso. Ele abriu a mala e vi uma metralhadora. Mas notei que estava morrendo de medo. Chegou à noite e foi embora pela manhã. Disse ao meu pai que era um amigo e ele acreditou.”

Apesar de nunca ter pego em armas, Arida foi preso em São Paulo e torturado no Rio de Janeiro. No Festival piauí de Jornalismo, ele refletiu sobre como lidou com o passado de militância. “Todo aquele sacrifício foi em vão? Foi. Mas por outro lado reforçou em mim uma identidade, um compromisso com o Brasil. Que cada um segue a sua maneira, no seu caminho. Cada um contribui a sua maneira para o Brasil. A minha foi intelectualmente, através de meus escritos sobre economia. Por muito tempo eu não olhava para trás. Como se o passado fosse uma Medusa, que se você olhar para trás ela te devora”, afirmou ele, que presidiu o BNDES e o Banco Central nos anos 1990 e foi um dos formuladores do Plano Real.  

Barros lembrou que o texto de Arida na piauí gerou uma reação do coronel Carlos Brilhante Ustra, artífice da tortura. O militar escreveu um artigo na Folha de S.Paulo intitulado O delírio de Pérsio Arida, em que negava as torturas. Arida respondeu ao artigo confirmando as violências que havia sofrido. O economista lembrou que pessoas próximas recomendaram que ele não respondesse a Ustra, ainda que a ditadura já tivesse acabado havia duas décadas.

“As pessoas me diziam para não responder e não incomodar os militares. Mas isso não era uma questão para mim. O ataque do Ustra me surpreendeu. No texto da piauí não falo dele e de nenhum outro torturador. Queria denunciar o regime. Ele se incomodou com meu relato porque vinha de alguém que não era mais comunista e de esquerda. Era de alguém de fora. No artigo para a Folha digo algo como: ‘Eu era um jovem com ideias equivocadas, e você, um torturador. Entre a minha posição e a sua, escolheria a minha. Eu teria vergonha de estar na sua posição.’ Ele [Ustra] não respondeu.”

No fim da conversa, Arida foi indagado se o fantasma autoritário que assolou o Brasil na ditadura pode retornar. “Pode”, afirmou ele. “Hoje tem uma percepção geral muito forte de antissistema. Olha Bukele [presidente de El Salvador], o Donald Trump. O Bukele mata sob a alegação de combater a criminalidade, mas em questão de tempo terá a mesma violência contra o cidadão comum. O pano de fundo da Guerra Fria sumiu, mas a ameaça autoritária ainda existe.”


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Repórter da piauí e roteirista de cinema