questões cinematográficas

FESTIVAIS – VÍTIMAS DE GIGANTISMO

Nas próximas duas semanas, o Festival do Rio exibirá mais de 300 filmes. A lista dos títulos ocupa 153 páginas. Não é de hoje que festivais sofrem de gigantismo. A doença parece ter atingido até eventos menores que anunciam a extensão de sua duração e o aumento da quantidade de sessões além do razoável.
Imagem Festivais – vítimas de gigantismo

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Nas próximas duas semanas, o Festival do Rio exibirá mais de 300 filmes. A lista dos títulos ocupa 153 páginas. Não é de hoje que festivais sofrem de gigantismo. A doença parece ter atingido até eventos menores que anunciam a extensão de sua duração e o aumento da quantidade de sessões além do razoável.

Ninguém pode em sã consciência, mesmo tendo disponibilidade total de tempo, o que já seria um sintoma preocupante, pretender ver senão uma parte ínfima dos títulos oferecidos no Festival do Rio. Haveria um critério de escolha?

Em primeiro lugar, os que não têm lançamento comercial previsto. Nessa categoria a mostra de 11 filmes de Amos Gitai é um programa obrigatório.

Não sei se os filmes de Ken Loach (“Rout Irish”), Jia Zhang Ke (“Memórias de Xanghai”), Abbas Kiarostami ( “Cópia Fiel/Copie Conforme”) e Andrei Ujica (“A Autobiografia de Nicolau Ceausescu”) serão lançados no Brasil. Sem ter visto nenhum deles, arriscaria dizer que devem valer a pena mas, com exceção do documentário de Andrei Ujica, ninguém precisa se afobar para ver agora pois suponho que venham a ser exibidos comercialmente.

Andrei Ujica é o co-diretor de “Videogramas de uma revolução”, realizado com Harun Farocki em 1992, disponível em DVD no Brasil. Um documentário de arquivo essencial, tratando do fim da ditadura romena, em que é ressaltado o papel estratégico da televisão na derrubada de Nicolau Ceausescu, em dezembro de 1989. “A Autobiografia de Nicolau Ceausescu”, que poderá ser visto no Festival do Rio, trata dos antecedentes desse mesmo evento, usando imagens de arquivo produzidas no auge da ditadura. Pelas amostras veiculadas no YouTube deve ser interessante.

Ujica realizou ainda “Out of the Present” (1996), documentário que inclui as primeiras filmagens em 35mm feitas no espaço por cosmonautas russos, seguindo instruções do próprio Ujica e de Vadim Yusov, diretor de fotografia de “Solaris”, de Andrei Tarkovsky (as imagens da Terra foram feitas em vídeo). A cooperação entre os cineastas e a agência espacial foi tão estreita que a trajetória da nave espacial foi programada para criar condições que permitissem a filmagem nos únicos 10’ de luz apropriada por dia.

A particularidade imprevista de “Out of the Present” é que quando o cosmonauta Sergei Krikalev partiu para a estação orbital MIR, em 1991, a União Soviética existia, e quando voltou dez meses depois tinha sido desfeita. Quando perguntaram ao cosmonauta Krikalev, ainda em órbita, quais das mudanças na Terra mais o impressionavam, ele respondeu: “Difícil dizer. Aconteceu tanta coisa. Mas o que mais me surpreende, talvez, é isto: agora há pouco era noite, mas agora está claro e as estações passam velozmente. Isso é o mais impressionante de tudo que se pode ver aqui de cima…”. (Agradeço a Silvia de Andrade Cabral pela cópia dessa entrevista de Andrei Ujica dada em 1996 a Michael Benson, e que está disponível aqui)

Amanhã publicarei um breve comentário de Consuelo Lins sobre “Cópia Fiel/Copie Conforme”, de Abbas Kiarostami.


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