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A DERROTA DE LULA E A FARRA DA TIGRADA

Imagem A derrota de Lula e a farra da tigrada

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Semanalmente, os apresentadores mencionam as principais leituras que fundamentaram suas análises. Confira:

Conteúdos citados neste episódio:

As pegadas de um Tigrinho, e de um senador a tiracolo, reportagem de João Batista Jr para a piauí.

Detalhes de uma delação inflamável, reportagem de Breno Pires para a piauí.

Alcolumbre, o onipresente, reportagem de Camille Lichotti e Allan de Abreu para a piauí.

Moraes faz jantar com Alcolumbre na véspera de derrota de Messias e Lula desconfia, coluna de Mônica Bergamo, para a Folha.

TRANSCRIÇÃO DE ÁUDIO:


Sonora: Rádio piauí.

Fernando de Barros e Silva: Olá, sejam muito bem-vindos ao Foro de Teresina, o podcast de política da Revista piauí.

Sonora: Votaram sim, 34 senadores e senadoras. Votaram não, 42 senadores. Foi rejeitada a indicação.

Fernando de Barros e Silva: Eu, Fernando de Barros e Silva, da minha casa em São Paulo, tenho a alegria de conversar com os meus amigos Ana Clara Costa e Celso Rocha de Barros, no Estúdio Rastro, no Rio de Janeiro. Olá Ana, bem-vinda!

Ana Clara Costa: Oi, Fernando! Oi, pessoal!

Sonora: Sou totalmente contra o aborto. Absolutamente. Da minha parte, não haverá qualquer tipo de ação de ativismo em relação ao tema aborto na minha jurisdição constitucional.

Fernando de Barros e Silva: Diga lá, Celso Casca de Bala.

Celso Rocha de Barros: Fala aí, Fernando. Estamos aí mais uma sexta-feira.

Sonora: Toda a sorte de mentiras para me desconstruir ocorreu. Nós sabemos quem promoveu tudo isso.

Fernando de Barros e Silva: Mais uma sexta-feira. Antes dos assuntos da semana, eu quero agradecer em nome do Foro e da equipe da piauí, a acolhida que a gente teve no primeiro Foro de Teresina ao vivo, no Paço do Frevo, no Recife, no último sábado, foi realmente um acontecimento, né turma?

Ana Clara Costa: Foi demais gente, assim, a gente ficou muito feliz.

Celso Rocha de Barros: Nossa!

Ana Clara Costa: O lugar incrível, maravilhoso, as pessoas super engajadas ali no programa. Foi muito legal.

Celso Rocha de Barros: Não, foi maravilhoso mesmo! O Paço do Frevo é lindíssimo, assim recomendo a todo mundo que for a Recife que visite. O pessoal de Recife foi muito gente boa com a gente. Tinha gente de João Pessoa, gente de Maceió. Realmente foi, foi muito legal mesmo.

Fernando de Barros e Silva: Muito legal. O nosso próximo encontro ao vivo será na Feira do Livro, no dia 30 de maio, sábado, em São Paulo. A gente vai dando mais detalhes nas próximas semanas. Agora sim, vamos aos assuntos dessa semana. E que semana! A gente abre o programa pela derrota que o Senado impôs a Lula ao rejeitar a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal. O nome do Advogado Geral da União, escolhido por Lula ainda em novembro do ano passado, foi derrotado de forma contundente pelos senadores liderados pelo presidente da Casa, Davi Alcolumbre. Foram 42 votos contra a indicação e apenas 34 a favor. Eram necessários 41 votos para que Messias se tornasse ministro do Supremo na vaga que foi aberta com a saída de Luís Roberto Barroso. O governo trabalhava com uma projeção apertada a favor de seu indicado e foi surpreendido pela manobra que juntou boa parte do centrão a direita bolsonarista. Horas antes da derrota em plenário, o placar na Comissão de Constituição e Justiça, de 16 a 11, a favor de Messias já indicava um cenário pouco promissor. Alcolumbre, como se sabe, não havia engolido o fato de Lula ter preterido o senador Rodrigo Pacheco, seu antecessor, na presidência da Casa. Lula optou por um nome de sua confiança. Prevaleceu, como se diz, o critério da lealdade, o mesmo que havia vingado nas escolhas de Flávio Dino e Cristiano Zanin. O ambiente, porém, mudou. Se a opção por Messias era ruim e era, a sua rejeição é bem pior e aponta para um horizonte sombrio. O resultado da votação, a derrota por lavada do governo, é sintoma da erosão de expectativa de poder. Os senadores não teriam embarcado no jogo de Alcolumbre se sentissem Lula como franco favorito à reeleição. O presidente do Senado já teria se comprometido, inclusive, a segurar a vaga para depois das eleições, o que reforça essa percepção. O país corre o risco de eleger Flávio Bolsonaro e ver uma Suprema Corte composta à imagem e semelhança do bolsonarismo. O que significa o fim da democracia. Nada menos do que isso. O Celso vem batendo nessa tecla há algumas semanas. Além disso, caso Master. Alcolumbre, como se sabe, está envolvido até o pescoço no escândalo. Como ele, parte significativa do centrão e ministros do próprio Supremo, Alcolumbre teria oferecido a cabeça de Messias em troca de um acordo para tentar barrar as investigações no âmbito do Congresso. A PF, no entanto, segue investigando o caso. Resta saber, entre outras coisas, como reagirá André Mendonça, evangélico como Messias, que também foi derrotado. No segundo bloco, a gente continua com esse assunto, jogando luz sobre a questão do aborto, que esteve no centro da sabatina de Messias. O candidato usou a sua posição conservadora sobre o tema para tentar conquistar o apoio entre os senadores. Não rolou, mas as concessões a respeito dessa pauta vão muito além da sabatina. Movimentações recentes no STF, pareceres da AGU e da Procuradoria Geral da República e ações do Conselho Federal de Medicina, esse antro do obscurantismo, mostram uma ação concertada contra o aborto legal, bandeira política da extrema-direita. A Ana Clara traz uma apuração exclusiva sobre esse assunto. A visão do Conselho Federal de Medicina tem ganhado espaço no Supremo e isso é bem grave. Por fim, no terceiro bloco, a gente fala da viagem do presidente da Câmara, Hugo Motta, com o senador Ciro Nogueira, presidente do Progressistas, no jatinho de Fernando Oliveira Lima, o Fernandin OIG, personagem equívoco do submundo das bets, que já foi esquadrinhado pelo João Batista Júnior na piauí. O voo em questão saiu da ilha de São Martinho, paraíso fiscal no Caribe, e pousou em São Roque, no interior de São Paulo, na noite de 20 de abril de 2025, há pouco mais de um ano, veio à tona agora porque a Polícia Federal investiga irregularidades no desembarque de bagagens que não passaram pelo raio-x. Como ocorre com qualquer cidadão comum, mas não com esses cidadãos de bem. Além de Hugo Mota e Ciro Nogueira estavam no voo, vejam só, os deputados doutor Luizinho, do PP do Rio de Janeiro, e Isnaldo Bulhões, do MDB de Alagoas. Estava também o ex-vereador de Teresina Victor Linhares, alvo de uma operação que investiga a ligação entre o crime organizado e o setor de combustíveis. Além dessa turma da pesada, também estava no avião o empresário Fernando Cavendish, dono da empreiteira Delta, aquele condenado pela Lava Jato do Rio de Janeiro. O mesmo da farra dos guardanapos de Sérgio Cabral. É isso. Vem com a gente!

Fernando de Barros e Silva: Muito bem! Ana Clara, vamos começar com você. Muita coisa para se falar. Você pode começar pelo relato aí, pela sua apuração do que ocorreu nessa quarta-feira, pelos desdobramentos. Te deixo à vontade para organizar aí o seu relato.

Ana Clara Costa: Socorro! Bom, eu quero começar primeiro me defendendo de mim, né? A gente tá gravando esse programa horas depois do ocorrido. Ainda tem muitas versões circulando sobre os fatos e muita gente ávida para comprar versões, muita gente ávida para emplacar versões. Então, assim, só conforme os dias forem passando que as informações checadas e rechecadas e confirmadas vão aparecer. É muito difícil você ter exatamente o que aconteceu tão rápido. Então, me defendendo de mim, começo. Eu queria começar pelo que já sabemos aqui e já falamos aqui, nós e toda a torcida do Flamengo, o time de vocês aqui, dessa insatisfação do Senado com o nome do Messias. O Senado queria o Rodrigo Pacheco desde o princípio, por algumas razões que se tornaram mais urgentes conforme o escândalo do Master foi transcorrendo. Primeiro, o Senado queria indicar o Rodrigo Pacheco, porque era um cara da casa e o Senado achava que o Lula devia isso para eles, porque eles seguraram vários rojões para o governo. Eles atuaram de maneira alinhada ao governo nos processos tanto econômicos quanto relacionados ao Bolsonaro. E eles achavam que o governo tinha essa dívida com eles. E o Supremo também via o Pacheco como um nome, digamos, consensual, um nome de acomodação. Talvez essa seja a melhor palavra. Que acomodava vários interesses ali o interesse do Senado, ou seja, que a oposição não faria uma crítica a essa indicação. O centrão, a direita e até mesmo a esquerda não tem nada muito forte contra o Rodrigo Pacheco, pelo contrário, ele, até segundo momento, se nada acontecer até agosto, ele seria o candidato do governo ao governo de Minas e o próprio Supremo manteve uma ótima relação com ele quando ele foi presidente do Senado. Só que isso é a radiografia do ano passado. Quando o Master aconteceu, tem uma movimentação muito contundente da classe política para matar esse inquérito que tá rolando com o André Mendonça. E conforme o André Mendonça foi se movimentando nesse inquérito, ele foi dando indícios de que ele não vai poupar o Supremo nessa história. Ele agiu de uma forma não a demonstrar que ele vai, ele próprio, ser o autor de qualquer coisa que prejudique o Alexandre de Moraes. Mas ele também não vai impedir.

Fernando de Barros e Silva: Eu, Dias Toffoli, né?

Ana Clara Costa: Nem o Dias Toffoli. Mas nesse caso, Fernando, verdade seja dita, o Dias Toffoli não tem... Hoje, falando do jogo de como estão as peças no Supremo, quem está tocando isso é o Alexandre de Moraes. O Dias Toffoli está sendo levado a reboque. Ele está sem condições políticas e de articulação para fazer qualquer coisa.

Fernando de Barros e Silva: Não, eu digo só para gente não esquecer que existe um Tayayá no meio do caminho. No meio do caminho existe um Tayayá.

Ana Clara Costa: Claro, é só que é o Alexandre que está liderando o movimento no Supremo.

Fernando de Barros e Silva: Perfeito. Perfeito.

Ana Clara Costa: O Alexandre e o Gilmar, no caso, por razões diferentes. O Alexandre porque ele quer sobreviver e o Gilmar porque ele acha que esse escândalo vai ser ruim para a instituição e aí indiretamente para ele próprio, né? Claro. Então quando o governo decide indicar o Messias, mesmo sabendo dessa contrariedade e o Messias usa muito essa carta do evangélico para tentar conseguir apoio. Então se aproxima do André Mendonça, que também foi AGU. Aliás, eles têm essa mesma origem, né? Coincidência. Também foi AGU do Bolsonaro. Ele se aproxima do André Mendonça. E isso, hoje, a preocupação número um do Davi Alcolumbre, do Hugo Motta, do Alexandre de Moraes, de todas as lideranças políticas, é o Master, é o que vai sair na delação do Daniel Vorcaro. Qual reação vai provocar a delação dele nas forças políticas? Esse é o retrato do Brasil, quando o Lula fala "não me importa que vocês queiram o Rodrigo Pacheco, eu quero que vá o nome do Messias". E quando o Lula faz isso, ele está partindo de uma premissa histórica de que, já que a prerrogativa do presidente, uma vez que o presidente indica esse nome, é aprovado, né? Que é o que aconteceu ao longo dos anos. O Lula acha: "bom, eles vão ficar contrariados, ok, mas vai passar". Até a gente falou aqui no Foro, há algumas semanas, o próprio Valdemar declarou publicamente: "não, vai passar". E de fato ia passar. Só que, conforme as coisas do Daniel Vorcaro foram se agravando, outras articulações foram sendo feitas ao longo do caminho para chegar no resultado que a gente teve agora. E foram articulações muito recentes. Então, eu vou tentar dividir em partes para não ficar muito confuso. Eu acho que o protagonista dessa história é o Davi Alcolumbre, por razões paroquiais, mas também por razões conjunturais. Ele próprio está envolvido no escândalo do Master, seja por meio do Fundo de Previdência do Amapá, que familiares dele tocam e investiram dinheiro no Master e perderam esse dinheiro, seja pela Carbono Oculto, que é aquela operação sobre a máfia dos combustíveis e como ela se associava com a Faria Lima. O Beto Louco, que é um dos operadores que era responsável por esse esquema e que está foragido. Entregou uma proposta de delação denunciando várias pessoas e citando inclusive o Davi Alcolumbre. Tem um caso específico que a piauí publicou em que eles pagaram um show do Roberto Carlos para o Davi Alcolumbre, no Amapá, em troca de uma decisão favorável na ANP, na agência reguladora do setor de combustíveis. Essa proposta de delação não foi aceita pela PGR até agora. Recentemente, um assessor do Davi Alcolumbre, a Polícia Federal, divulgou ali uma operação contra ele, em que pegou ele com um monte de dinheiro vivo. O Davi Alcolumbre, enfim, eu não vou ficar me estendendo muito sobre ele. Vocês podem ler sobre ele no perfil que a piauí publicou no mês passado, da Camile Lichotti e do Allan de Abreu.

Fernando de Barros e Silva: Excelente!

Celso Rocha de Barros: Excelente mesmo.

Ana Clara Costa: Tá esquadrinhado tudo ali, né? O modus operandi, como ele age, quais são os interesses que movimentam as decisões dele, né? Toda a imoralidade de um cara que ocupa a posição que ele ocupa nesse momento.

Fernando de Barros e Silva: É um gangster, falo eu. Não é o que está escrito. Um gangster do centrão que foi alçado à condição de presidente do Senado e foi visto na ocasião como a opção menos ruim, né? Um possível aliado de ocasião do governo, dadas as circunstâncias bastante desfavoráveis. É, e está aí. É um gangster.

Ana Clara Costa: Exato. Então, ele é o protagonista dessa história, porque ele assumiu para ele por interesses particulares e por interesses da Casa, do Senado, essa função de derrubar o Messias. E aí ele teve colaboradores cujo peso a gente ainda não consegue dizer ao certo. Então, assim, o Alexandre de Moraes seria um desses colaboradores. O Davi Alcolumbre e o Alexandre de Moraes tem uma boa relação há bastante tempo. O Davi Alcolumbre sempre barrou tudo que o PL quis fazer contra o Alexandre de Moraes no Senado. Ele barrou prontamente. Quando o escândalo do Master veio, o Davi Alcolumbre disse, logo de cara, que nada ia acontecer este ano contra ministro do Supremo no Senado. Eles têm uma relação, digamos, próxima. E dentro dessa questão do Master, eles caminham juntos no sentido de matar esse inquérito e de avaliar que o trabalho do André Mendonça vai contra o que eles querem. Nesse aspecto, a gente já falou aqui algumas vezes que inclusive tem uma questão de atingir o próprio governo. Mas o André Mendonça também quer que atinja o Supremo.

Fernando de Barros e Silva: Sim, todas as sinalizações do André Mendonça haviam sido, pelo menos até agora, nessa direção.

Ana Clara Costa: Bom, então essa posição do Alexandre de Moraes é vista como, digamos, importante para essa articulação toda contra o nome do Messias, mas não se sabe ao certo o que ele fez, quantos votos ele converteu. Ele, pessoalmente, negou qualquer atuação, foi procurado pelo Estadão e mandou uma nota dizendo que não falou com ninguém e tal. Mas antes da votação ele fez um jantar em que ele convidou o Davi Alcolumbre e várias pessoas do centrão para a casa dele. O jantar não era para o Davi e tinha pessoas do governo no jantar e etc. Mas nesse jantar, segundo a coluna da Mônica Bergamo, o Davi já teria falado que eles iriam derrubar o Messias em rodas nesse jantar. Tem uma outra questão que é o próprio Messias. Ele teria, segundo as fontes com quem eu conversei, garantido para o governo que ia dar, que ele ia conseguir esses votos, que ele, nesse beija mão que eles fazem, ele próprio tinha contabilizado que ele teria os votos que o governo poderia mandar para o Senado, que ia dar certo. Então, essa proatividade dele, essa convicção dele de que daria certo, teve um certo peso, né? E o Davi Alcolumbre, ele agiu de uma forma muito ambígua, o que dificultou para o governo se defender, porque assim o Davi Alcolumbre poderia ter falado abertamente: "ó, não adianta vocês mandarem. Não vai passar". Ele poderia ter falado isso, porque era o que ele estava falando nos bastidores. Só que ele não falou isso para o governo. Ele dava declarações ambíguas na relação com o governo ou então não recebia, não conseguia receber o Guimarães e tal. E isso deixou o governo também achando que podia conseguir chegar no laço, sabe? Conseguir os votos bem ali, no limite, mas conseguir os votos. Um outro ponto importante, dentro do governo, tem um cheiro de traição em relação ao Jaques Wagner no Senado, o que acontece? O Jaques Wagner, ao dar retorno para o Lula sobre essa articulação, teria dito para o Lula que eles estavam com os votos. Só que quando você olha as cenas da votação e essas cenas estão sendo divulgadas aí. O Jaques Wagner está ali interagindo com o Davi Alcolumbre, como se ele fizesse parte daquela turma ali, entendeu? Perguntando quantos votos... E no vídeo da votação, o Davi Alcolumbre fala para o Jaques Wagner que o governo vai perder por oito. O Jaques Wagner recebe essa notícia placidamente, até quase rindo. Dá um tapinha nas costas e sai. Como se fosse membro daquela própria confraria, entendeu? E não alguém que estivesse representando os interesses do governo. Então existe um cheiro ali dentro do governo de traição mesmo. Assim, há uma percepção de que o Jaques Wagner não foi fiel ao governo e sim ao Senado nesse aspecto. E tem ainda o Flávio Dino, que também nega ter feito qualquer articulação. Mas o governo recebeu informações nos bastidores de que a suplente do Dino no Senado teria votado contra o Messias. Teria dito nos bastidores que votaria contra o Messias, na verdade. E aí, por último, porque qual seria a lógica? Você pensar como é que o Alexandre de Moraes ou ministros do Supremo estariam concordando com uma articulação para vetar este nome e correr o risco de essa vaga ficar para um próximo governo, que talvez seja um governo Flávio Bolsonaro. Que lógica explicaria que o Supremo fosse parceiro dessa articulação? A explicação para isso, segundo as pessoas com quem eu conversei, é que, aí que entra o Flávio Bolsonaro na história, o Davi Alcolumbre teria tido conversas com o Flávio, buscando uma composição para ele continuar na presidência do Senado, caso o Flávio ganhe. Ou seja, a partir do ano que vem, porque a partir do ano que vem teria uma nova eleição para a presidência do Senado. E todo mundo sabe, é público e notório que o Rogério Marinho seria o candidato da direita para assumir o Senado. Isso é o que eles sempre quiseram, mas que o Davi teria condicionado essa atitude que ele teve. Ou seja, ele daria de presente uma vaga no Supremo para o Flávio, caso ele ganhe, se o Flávio se comprometer a apoiá-lo. E aí com isso, ele garante para o Alexandre que ele não vai pautar o impeachment do Alexandre ou de qualquer ministro do Supremo num governo Flávio. Seria esse o encerramento do ciclo dessa operação que impôs essa derrota para o governo. E para o governo hoje, falar: "ah, então era o Pacheco que vocês queriam? Então agora eu vou indicar o Pacheco". Não, entendeu? Porque daí já já ficou humilhante demais. Então o governo não vai indicar um novo nome, já está claro isso.

Celso Rocha de Barros: Você acha que eles não vão indicar ninguém e vão aceitar perder a vaga?

Ana Clara Costa: É porque, diante da situação, se você indica um outro nome já, você tá muito fraco, entendeu? O que aconteceu foi uma situação de fraqueza extrema e que você corre o risco de perder de novo e aí só piorar a situação, entendeu? Então, assim, o cenário hoje é de não indicar ninguém até a eleição.

Fernando de Barros e Silva: Isso pode mudar ao longo das próximas semanas. O que me chama a atenção nesse resumo que você fez tão bem é a delicadeza, a dificuldade desse acordo que contempla ao mesmo tempo os interesses do Flávio Bolsonaro e da direita bolsonarista e do Alexandre de Moraes. Alguém vai ser traído no meio do caminho, claramente. Isso mostra um pouco onde estamos pisando agora. Celso, para te colocar na conversa. Fragilidade do Lula. Isso expôs um pouco o momento que a gente já vem falando. O momento ruim, não quer dizer que o Lula não é um candidato competitivo, ele é sim um candidato competitivo. Mas esse episódio é ruim, bem ruim.

Celso Rocha de Barros: Então, Fernando, para o governo é péssimo. Quer dizer, você dá uma impressão de governo já no final, meio pato manco, sem condição de fazer as coisas. Eu discordo de quem acha que isso é indicativo para a eleição. Isso, eu acho que não. Sejamos honestos. Assim, se você for agora ali na Central do Brasil, perguntar para as pessoas o que você acha da rejeição do Messias, acho que ninguém nem viu isso. Ninguém está prestando atenção.

Fernando de Barros e Silva: Não, eu concordo com você, mas isso é mais como uma percepção. Os senadores não queimam dinheiro, pelo contrário, né?

Celso Rocha de Barros: Exato. Exatamente. Mas inclusive, se os aliados políticos, juízes não tiverem uma boa leitura política do caso, também não vão interpretar isso como sinal de fraqueza eleitoral. É um sinal de fraqueza do governo no momento para aprovar as coisas que ele quer?

Fernando de Barros e Silva: Sim.

Celso Rocha de Barros: E o Lula pode perder a eleição por outros motivos, mas não porque, enfim, o Messias não foi indicado para o STF. Bom, o que a Ana falou até agora é a melhor explicação que eu vi até agora sobre isso. E eu acho que esse processo todo, a rejeição do Messias, é fruto de dinâmicas diferentes que tem marcado a política brasileira recentemente. Primeira dinâmica, o Master, né? Então, como a Ana disse, se você for procurar, que assunto une Flávio Bolsonaro e Alexandre de Moraes? O Banco Master. A direita está pesadamente envolvida com o Banco Master. Alexandre de Moraes está pesadamente envolvido com Banco Master e, caso se confirme a manobra do Jaques Wagner contra o Messias, o PT da Bahia, basicamente o único ponto de contato da esquerda com o Banco Master. Então, o Master teria desempenhado um papel gigante nesse negócio. Para o pessoal que vem dizendo assim: "Isso me lembrou das semanas do impeachment". Gente, o impeachment era a classe política pressionando a Dilma porque ela não conseguia matar a Lava Jato. Então isso pode perfeitamente também ser pressão da classe política para o governo, para todo mundo dizendo: matem esse escândalo do Master, porque se começar a fuçar esse negócio, vai ser muita gente. Como disse a Ana, é difícil ainda a gente pesar precisamente o peso de cada fator nesse aspecto. Mas que a história do Master teve relação com isso, me parece bem claro, pelos agentes envolvidos e, principalmente, por essa aproximação entre bolsonarismo e Alexandre de Moraes. Eu realmente não imagino um outro assunto em que eles teriam interesses comuns para fazer uma aliança. A segunda dinâmica recente da política brasileira que tem influência nessa rejeição do Messias, é o enfraquecimento progressivo do Poder Executivo. A gente já falou que várias vezes, desde o segundo mandato da Dilma, o Congresso tomou para si um monte de prerrogativas que eram do Executivo. O Orçamento é o caso mais óbvio. Assim, a proporção do Orçamento que passou a ser composto de emendas parlamentares é um escândalo. Inclusive, você está animado a votar para presidente dizendo: "oba, vou votar no cara, vai fazer um monte de coisa, não vai?". Eu não sei quem vai ser o presidente, mas sei que ele não vai fazer um monte de coisa, que não vai ter dinheiro para ele fazer. Uma grande parte do dinheiro vai para a emenda parlamentar. E não foi só isso que o Congresso vem fazendo. No começo do governo Lula, quando o Lula estava montando o governo dele, o Congresso foi lá e mudou as atribuições de ministérios. Não sei se vocês lembram disso. Eles se intrometeram na formação da estrutura ministerial que nunca tinha acontecido. E agora, cá entre nós, o Alcolumbre está querendo que o Senado indique o ministro do STF. Não é que o Messias foi derrubado. Pelo que a gente está entendendo até agora, qualquer um que não fosse o Pacheco, Alcolumbre ia trabalhar contra. O Alcolumbre não está exercendo sua atribuição constitucional de vetar o indicado pelo Poder Executivo, que é direito do Senado. O Senado tem direito de vetar. Cá entre nós, já devia ter vetado muito mais gente que entrou para o Supremo, né gente? Pelo amor de Deus! O Messias está muito, muito longe de ser o pior cara que já foi indicado para o Supremo, certo? Inclusive, se tivesse entrado para o Supremo, estaria muito, muito longe de ser o pior dos ministros. Agora, o que Alcolumbre fez não foi só vetar uma indicação do Executivo. Ele exigiu que fosse o cara dele.

Ana Clara Costa: E tudo isso é muito ruim para o próprio Pacheco, porque demonstra que ele seria um cara do acordão, não um cara que cumpriu seu papel.

Celso Rocha de Barros: Exatamente. Então, uma coisa que já está claro é que, ao contrário do que a Constituição determina, essa vaga de ministro do STF não vai ser preenchido pelo cara que teve a maioria dos votos em 2022, como a lei determina. Vai ser preenchida ou pelo cara que tiver mais votos em 2026, caso a indicação fique para o próximo mandato, ou pelo presidente do Senado, entendeu? Que não tem atribuição constitucional de indicar ministros do Supremo. Então, assim, é um caso de deterioração institucional mesmo isso aqui. Não é tratar só como se fosse "bom, o Lula perdeu, o outro ganhou, não sei o que lá". Isso é um problema institucional sério. Assim, é um precedente bastante grave.

Fernando de Barros e Silva: Perfeito!

Celso Rocha de Barros: Inclusive, por exemplo, o bom do Moro é que ele é um fascista burro. Então, ele fala em voz alta o que os fascistas inteligentes fazem na encolha. Então ele falou durante a sabatina que ele achava que a vaga devia ficar para o próximo mandato, que é o que os outros bolsonaristas estavam tentando. Mas ninguém falava em voz alta, né cara? Porque é feio. E aí fica minha pergunta para o Moro: o Gilmar Mendes deve se aposentar em dezembro de 2030, pelo menos essa é a idade, o limite, para ele se aposentar pela idade, não sei o quê. Vai ser o último mês do próximo mandato presidencial. O Flávio Bolsonaro, caso seja eleito presidente, se compromete a deixar essa vaga para o presidente seguinte? Imagino que não. E antes que pareça que seja uma questão teórica, foi exatamente isso que aconteceu nos Estados Unidos.

Fernando de Barros e Silva: Sim, isso é importante. Com o Obama.

Celso Rocha de Barros: E, no último ano do governo Obama, o Obama indicou o Mark Garland para uma vaga que abriu na Suprema Corte quando morreu um juiz conservador. Os republicanos não deixaram nem sabatina falando: "não vai ter nada, ninguém mexe nisso. Vamos deixar o Trump preencher essa vaga quando ele se eleger". Foi isso que aconteceu. Não teve nem a arguição do Mark Garland e quando o Trump assumiu, ele indicou um outro cara e o Congresso confirmou. Aí você vai dizer: "tá bom, então a regra agora é que se for no último ano, fica para o próximo". Não, porque no último ano do mandato do Trump morreu uma juíza democrata. O Trump indicou outro cara e o Congresso aprovou na maior alegria. Então, assim, ninguém acredita que isso é uma questão de princípio, que, enfim, será que não é melhor se for no final do mandato? Isso é tudo sacanagem. É tudo mutreta. E, como consequência do Trump ter conseguido uma maioria na Suprema Corte, graças a essa maracutaia, a composição republicana do Supremo restringir o direito ao aborto derrubou a decisão que legalizar o aborto em nível nacional. Agora ficou para os estados e vários estados proibiram o aborto. E essa semana, cara, a Suprema Corte americana tomou uma decisão gravíssima. Ela quebrou um dos principais princípios que sustentavam o Voting Rights Act, que foi a decisão que proibiu a segregação racial no voto nos Estados Unidos, que proibiu medidas que dificultasse o voto dos negros, principalmente no Sul, que é onde isso acontecia com mais frequência. Então, essa semana a Suprema Corte barrou um mapa de distritos eleitorais da Luisiana, os Estados Unidos têm voto distrital, então os deputados não são eleitos por distritos. E a gente já falou aqui algumas vezes que o desenho desses distritos é sempre uma sacanagem sem limites, né? Quer dizer, os caras desenham o negócio para favorecer um ou outro. E, nesse caso, o que tinha acontecido é que a Luisiana tinha acrescentado mais um distrito na hora de redesenhar que ficava dois distritos de maioria negra. Então, passou a eleger dois parlamentares negros. Os caras que entraram com essa ação na Suprema Corte Americana, eles se identificam como não African Americans. Eles são o quê? Vamos lá, Chutem aí vocês. Eles são esquimós? São o quê? E eles entraram com um pedido lá na Suprema Corte pedindo pra derrubar esse mapa eleitoral e a Suprema Corte derrubou. Então, a Luisiana vai voltar a ter um distrito negro só, porque uma das estratégias para melar o voto das minorias é você dissolver o voto das minorias em vários distritos em que elas ficam sempre minoritárias. Então, se você tem um cinturão ali onde só mora negro, você bota cada pedaço desse cinturão como uma minoria num distrito onde tem mais branco e assim vai matando a chance de eleger uma minoria. Isso acabou de acontecer nos Estados Unidos só porque houve essas maracutaias toda de indicação de ministro da Suprema Corte. Então, assim, agora, se o Flávio tiver o direito de indicar essa vaga, ele já tem tudo para terminar o mandato com uma maioria no Supremo. Enfim, quem quiser achar que não tem risco isso continua fazendo o que está fazendo.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem. A gente encerra, então, o primeiro bloco por aqui. Fazemos um rápido intervalo. Na volta, nós continuamos falando do Supremo e da questão do aborto. Já voltamos.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem, estamos de volta. Ana Clara, vou passar para você que tem uma apuração a respeito da movimentação no Supremo, no próprio governo, e na Procuradoria Geral a respeito da questão do aborto, tentando consagrar esse retrocesso que está em curso.

Ana Clara Costa: É, estamos falando do aborto legal... Não do aborto...

Fernando de Barros e Silva: Do aborto legal.

Fernando de Barros e Silva: Não é da expansão do direito do aborto. A gente está falando justamente da tentativa de solapar.

Celso Rocha de Barros: O direito que existe.

Fernando de Barros e Silva: O direito ao aborto legal.

Ana Clara Costa: Eu queria começar, Fernando, pegando uma reflexão que o Celso fez no final da fala dele agora sobre essa mudança na composição do Supremo, que num hipotético governo Flávio, a gente poderia ter então o Supremo de maioria conservadora. Eu discordo, porque eu acho que a gente já tem um Supremo de maioria conservadora. É só que ele se movimenta ao sabor das circunstâncias. E acaba que numa situação como governo Bolsonaro, por exemplo, o Supremo acabou adotando uma postura de freio àquilo tudo. Mas eu não acho que isso signifique que é um Supremo de maioria progressista ou de maioria liberal, o que seja. As próprias indicações do Lula, o Cristiano Zanin, não é um cara conhecido pela sua visão progressista ou liberal, de qualquer forma. O Flávio Dino, mais ou menos, eu não sei. Eu não acho que Alexandre de Moraes seja essa pessoa também. Bom, então, dito isso, eu queria pegar um pouco que aconteceu na sabatina do Messias para trazer esse assunto que a gente já tratou outras vezes no Foro, que é essa cruzada do mundo conservador contra o aborto legal. Deixar claro que é legal.

Fernando de Barros e Silva: Aborto a que as mulheres têm direito legalmente quando são vítimas de estupro, quando a mãe corre o risco de morrer e no caso de anencefalia.

Ana Clara Costa: O Messias, ele usou a carta do aborto de ser contra o aborto, se diz, terminantemente, contra o aborto e tal como um ponto positivo da indicação dele dentro desse Congresso, desse Senado, desse congresso ultraconservador que a gente tem quando o assunto é aborto, né? E isso foi como se fosse um título de pertencimento para ele, né? "Tá vendo como eu pertenço ao mesmo grupo que vocês? Eu também sou contra. Eu também sou conservador". Isso é um sinal de algumas mudanças que estão acontecendo no centro do poder e que podem resultar, inclusive, na perda do direito do aborto legal, que é o único direito que a gente tem. A gente tem que prestar atenção porque está tudo acontecendo agora. Então, enquanto está todo mundo olhando para o Master, a imprensa e até a própria classe política e tal, tem movimentações acontecendo sobre esse tema que estão passando ao largo da cobertura ou da compreensão das pessoas muitas vezes interessadas nele. A gente já discutiu aqui no passado, em 2024, quando o Conselho Federal de Medicina, fazendo lobby no Congresso, e tendo como patrono o deputado Sóstenes Cavalcanti, líder do PL, tentou criminalizar a mulher que faz o aborto legal acima de 22 semanas. O que estava acontecendo naquele momento e que se mantém até agora? Não é que as mulheres estavam, as meninas, no caso, as crianças estavam indo fazer o aborto com uma criança de quatro ou cinco meses por vontade própria. Elas não estavam conseguindo fazer aborto na rede pública e isso fazia com que a gravidez se prolongasse mais do que devia e chegasse ao ponto de chegar nos cinco meses de gravidez e o médico não querer fazer o aborto porque já é uma criança formada e ele não queria fazer aquele parto, enfermeiros, médicos e etc.

Fernando de Barros e Silva: Aquela interrupção.

Ana Clara Costa: Fazer aquela interrupção. Exato. Mas o problema é: a gente não está conseguindo chegar no ponto de uma mulher poder fazer antes dos cinco meses, porque os próprios médicos e muitos enfermeiros não estão querendo fazer, seja por questões religiosas, seja por questões políticas e etc. Esse direito básico da mulher não está sendo garantido, e que está fazendo com que ela chegue até mais de 20 semanas com essa gravidez mantida. Bom, esse assunto foi para o Supremo, foi ser discutido no Supremo em 2024. E o que está acontecendo desde então? Primeiro ponto, a Procuradoria Geral da República se manifestou agora, em março de 2026, defendendo essa posição do Conselho Federal de Medicina sobre a proibição da sistolia fetal a partir da 22.ª semana de gestação, a PGR adotou, integralmente, os argumentos do CFM e chegou a dizer o seguinte na manifestação da PGR: não existe direito subjetivo público de exigir dos serviços de saúde do Estado a realização do aborto legal. Eu quero bater no ponto da temporalidade. Esse assunto está sendo tocado desde 2024 e, justamente agora, nesse momento, que a gente está vivendo tudo isso, a PGR se manifestou sobre esse tema. Uma outra coisa que aconteceu recentemente, tem uma uma ADPF que também corre no Supremo, sobre a possibilidade de enfermeiros poderem fazer o aborto legal sem a presença de médico, já que os médicos estão adotando essa posição. A Advocacia-Geral da União, sob liderança do Jorge Messias pediu para o Ministério da Saúde um parecer sobre esse pedido dos enfermeiros de eles poderem fazer, já que os médicos estão criando todo esse problema. O Ministério da Saúde deu um parecer técnico favorável para AGU.

Fernando de Barros e Silva: Favorável ao pleito dos enfermeiros.

Ana Clara Costa: Ao pleito dos enfermeiros. Pois bem, agora recentemente, enquanto o Messias estava fazendo esse périplo pelo Senado, a AGU apresentou duas manifestações nessa ADPF pedindo a improcedência dessa ação. Ou seja, mesmo que o Ministério da Saúde tenha se manifestado a favor, a AGU desconsiderou essa manifestação, pediu a improcedência da ação. Ou seja, enfermeiros não podem e sustentando que o aborto é crime no Brasil, o procedimento deve ser restrito exclusivamente aos médicos. E essa manifestação também, o timing dela foi agora, neste momento em que essas coisas estão acontecendo. A AGU, do Messias. Tem uma outra ação que está ocorrendo no Supremo, que está sob relatoria do Alexandre de Moraes, que é sobre autodeterminação de gestantes. O que significa isso? Significa a mulher gestante ter o poder sobre o que vai ser feito do corpo dela. Eu não estou falando de aborto. Eu estou falando de violência obstétrica, escolher o método de parto. Por exemplo, vou dar um exemplo para vocês, na época da pandemia, as mulheres que estavam internadas em razão da Covid e grávidas, como escolher o que ser feito naquele momento? Que procedimento que ela queria, se era possível aquela gravidez continuar ou não... Há muitos casos de mulheres que não tiveram como escolher entre a vida delas e a do próprio bebê, por exemplo. Há muitos casos em que médicos escolheram salvar os bebês e não as mães. Isso aconteceu na pandemia. Há casos tramitando sobre isso. Então, você tem essa ação no Supremo sobre a autodeterminação de gestantes que está com Alexandre de Moraes, esse caso também está tramitando já tem alguns anos, e agora em abril, ele liberou também, nesse mesmo timing, de todas essas manifestações contra o aborto legal, ele liberou essa pauta para julgamento e é uma ação que na verdade o CFM é contra essa autodeterminação de gestantes, entendeu? O CFM é a favor que a mulher não tenha necessariamente que decide nada que seja uma decisão do médico. Existe um retrocesso que está acontecendo, que a gente não está olhando, e que eu acho que ele está menos ligado menos a convicções de cada um deles, dessas forças políticas, que estão se movimentando, e mais ao ano que vem, entendeu? Se for um Senado super conservador, se for um Senado liderado pelo PL, o que esse Senado pode fazer para o Supremo? Se o Alexandre de Moraes estiver no Supremo, ele vai ser o presidente do Supremo. Ele vai ter essas ações na mão para pautar. Então, ele está jogando com isso. Seria ingênuo da nossa parte achar que ele não está jogando com pautas que interessam para o bolsonarismo, na hipótese de ele ficar no Supremo, na hipótese de a delação do Daniel Vorcaro não dinamitar o cargo dele, né? Eu estou falando dele, especificamente, mas eu não acho que ele seja necessariamente o principal personagem dessa história que eu falei. Eu acho que é um movimento que está acontecendo de todas as forças da República contra um direito garantido pela Constituição para a mulher.

Fernando de Barros e Silva: Isso tudo que você fala tem um aspecto mais cruel, e, ao mesmo tempo, assustador, que é um bando de homenzinhos ou de marmanjos dispondo sobre direitos da mulher. Não tem nenhuma mulher em posições de comando decidindo sobre isso, seja no Supremo, onde a Cármen Lúcia está sozinha, a AGU, a Procuradoria Geral, a maioria do Congresso, o próprio Executivo. E o Lula é responsável, nesse sentido, pelas nomeações que fez, por ter desconsiderado esse aspecto, que não é, não é menor. Pelo contrário.

Ana Clara Costa: E, no caso da assistolia fetal, que o CFM quer proibir a partir da 22.ª semana, o Barroso e a Rosa Weber já votaram contra o Conselho Federal de Medicina, votaram pela permissão da assessoria Fetal. E, há várias organizações, sobretudo a CNBB, a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, tentando, no Supremo, invalidar o entendimento de que votos de ministros que já saíram da Corte devem prevalecer. O entendimento, hoje, é que esses votos devem prevalecer. Mas a CNBB já tentou, com o voto da Rosa Weber, e agora, está tentando, com o voto do Barroso, derrubar essa jurisprudência para que esses votos não valham. Então, a única mulher que votou sobre esse assunto, a CNBB, quer que o voto dela seja cancelado.

Fernando de Barros e Silva: É sinistro tudo isso. Celso, deixa eu te ouvir.

Celso Rocha de Barros: Então, Fernando, eu fui dar uma olhada na resolução CFM 2378/2024, que é a resolução que eles fizeram lá, sobre a sobre assistolia fetal. Enfim, uma resolução difícil como todas discussões sobre isso, sobre aborto. Bom, o procedimento de assessoria fetal consiste em você injetar drogas no feto antes do aborto para garantir que ele não nasça com sinais de vida. E aí você vai dizer: "pô, mas aí, se eu nascer um bebê mesmo, se nascer vivo, quer dizer que você vai fazer, né?". A resolução do Conselho Federal de Medicina é essa mesmo, admite que um bebê nascido com 22 semanas, que são cinco meses, tem alta probabilidade de morrer de qualquer maneira. Enfim, por ter nascido tão pequeno, ou, na probabilidade remota de sobreviver, tem alta probabilidade ter problemas de desenvolvimento neurológico muito grave. Então, assim, o próprio Conselho Federal de Medicina recomenda que se o feto nascer nessas condições e não houver chances de sobrevivência, ou se houver risco muito alto de sobrevida com deficiências graves deve ser realizado os cuidados paliativos. Quer dizer, boa parte desses procedimentos, se você não fizer assistolia, e o bebê nascer com sinais de vida, o que vai acontecer é que o médico vai tomar os cuidados necessários para que ele morra sem sofrimento. É o máximo que se pode esperar na maioria dos casos. Então, basicamente o que o CFM está pedindo é que depois da uma mulher ser estuprada, ela teria que dar a luz a um bebê com pouquíssimas chances de sobreviver e altas probabilidades de defeitos neurológicos graves que praticamente inviabilizaria, por exemplo, uma adoção. E, assim, a crueldade envolvida nisso aqui é um negócio meio chocante.

Fernando de Barros e Silva: É, chocante.

Celso Rocha de Barros: Como disse a Ana, a mulher que foi estuprada quer interromper essa gravidez na hora. O certo seria ela chegar na delegacia, darem para ela uma pílula do dia seguinte e acabou, entendeu? Não tem o menor interesse em retardar essa interrupção de gravidez, certo? Então, assim, se chegou em cinco meses e ela não conseguiu fazer isso porque ninguém deu para ela a pílula do dia seguinte, porque ninguém deu para ela uma assistência médica adequada no momento em que ela foi lá reportar o estupro. E, porque, nesse tempo todo, ninguém proporcionou a ela o direito que a lei garante. Então, é uma tremenda vergonha da PGR dizer que o sistema de saúde não é obrigado a oferecer o serviço, porque o sistema de saúde é obrigado a oferecer os serviços de saúde necessários ao bem estar da população brasileira. Uma mulher ser estuprada e ficar grávida é um problema seríssimo, cara.

Fernando de Barros e Silva: Seríssimo. é uma sucessão de crueldades, né?

Celso Rocha de Barros: Exato.

Ana Clara Costa: Agora, tem um ponto que você falou dessa coisa, que a mulher quer no dia seguinte, já interromper essa gravidez. É que essa questão, ela é mais cruel ainda quando se trata de crianças, porque, muitas vezes, a criança não tem consciência do estupro, ela não sabe que está grávida.

Celso Rocha de Barros: Exato.

Ana Clara Costa: E aí, quando a mãe descobre que a criança está grávida, já se passaram três meses, não sei, dois meses. E aí é que começa o périplo para tentar o aborto legal. Então, quando se trata de crianças, muitas vezes, o intervalo entre você descobrir a gravidez e esse prazo para interromper a gravidez é muito curto. Caso esse prazo seja convertido em lei, né?

Celso Rocha de Barros: Aí é que a operação em pinça que está acontecendo. Por um lado, o Conselho Federal de Medicina vai lá e proíbe assistolia fetal aqui, quando a gravidez já está adiantada, e, do outro lado, o mesmo movimento político ao qual pertence a atual direção do CFM, que são os caras inclusive que foram coniventes com o Bolsonaro durante a pandemia e, portanto, são cúmplices do assassinato em massa de milhares e milhares de brasileiros. Esses mesmos caras, do outro lado, tem os seus advogados e as suas Damares Alves, por exemplo, tentando atrasar o acesso de crianças estupradas ao aborto legal. A gente teve um caso da Damares em 2020, em que segundo a reportagem da Folha, ela atuou para impedir o aborto de uma criança de dez anos que havia sido estuprada pelo tio. Então, basicamente, o que o CFM quer fazer aqui, nesse caso é: a Damares atrasa e o CFM aparece depois para dizer que agora não pode. Então não pode ser entendido essa resolução do CFM sem entender a ofensiva que vem pelo outro lado, para fazer com que o aborto das meninas que foram estupradas não aconteça num prazo mais adiantado. Enfim, é realmente um negócio de uma crueldade completamente brutal. E eu queria só reiterar algumas coisas que estão no parecer mesmo do CFM, que, obviamente, não pode legislar sobre o aborto, senão, o Ministério do Trabalho ia lá fazer um Conselho Federal trabalhista, e os caras regulavam a legislação trabalhista brasileira. Isso não existe. Quem que ia aceitar isso? O Congresso ia aceitar um negócio desse? Não. Um troço elementar aqui, o Conselho Federal de Medicina não pode mudar a lei. E, outra coisa, é, olha só, então já começa que a decisão quase inteira é dizendo que a vida começa na concepção, pô, esse cara, se a vida começa na concepção, como eles dizem,por que o prazo de 22 semanas seria relevante? Se é relevante discutir em que momento do desenvolvimento embrionário nós temos um ser humano, então, por exemplo, a ideia de que a vida começa na concepção está totalmente errada. Porque um óvulo recém fecundado, para você dizer que é um ser humano, você tem que forçar muito a barra. Então, por exemplo, é o que eu sempre digo: se você for um enfermeiro de um hospital, tem um terremoto qualquer, o prédio vai cair. Você pode salvar um bebê recém-nascido ou dois tubos de ensaio, cada um com um óvulo recém fecundado. Se você acha que a vida começa na concepção, você tem que deixar o recém-nascido morrer para salvar duas pessoas. Cara, quem faria isso? Ninguém faria isso. Ninguém acredita, de verdade, que a vida começa na concepção. Se os caras querem puxar esse assunto de quando é que começa a vida humana, durante o processo de gestacionário, então, legaliza o aborto para todas as outras mulheres até esse prazo, entendeu? Como é, na maioria dos países. É um negócio, assim, que realmente é difícil você comentar isso aqui sem que o departamento jurídico interno da sua cabeça não se manifeste contra você, entendeu?

Fernando de Barros e Silva: Sim, é verdade. Bom, a gente vai encerrando então o segundo bloco do programa por aqui. Vamos fazer um rápido intervalo. Na volta, nós vamos falar do aviãozinho, do Fernandinho, do Tigrinho, do Hugo Motta e do Ciro Nogueira. Já voltamos.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Estamos de volta. Celso, vou começar com você. Esse voo sobre o qual falei na abertura ocorreu há um ano, mas a investigação veio à tona agora, a investigação da Polícia Federal há pelo menos cinco bagagens que não teriam passado pelo raio-X, pela inspeção. Eu suspeito que não, não eram malas carregadas de ursinhos de pelúcia, né Celso?

Celso Rocha de Barros: É, ou então, aquelas camisetas assim: "eu fui para San Martin", sabe aquelas coisas? Sei lá, um coquinho pintado assim San Martin, é...

Fernando de Barros e Silva: Isso.

Celso Rocha de Barros: É, bom, para quem não sabe, San Martin é um paraíso fiscal do Caribe, né? Caribe tá cheio de paraísos fiscais e de lá partiu um aviãozinho do aviãozinho do Fernandi OIG, que é essa figura humana linda que foi retratada na reportagem do João Batista, na piauí. E, no aviãozinho do Fernandin, estavam o Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados... Olha que beleza! O senador Ciro Nogueira, que realmente merece um troféu porque está em todos os escândalos, né, cara? Não tem... É difícil você achar um escândalo de corrupção recente que não tenha o Ciro Nogueira. Está no centro do Master. Talvez seja, se você só escolheu um cara mais identificado com o Master na classe política, seria o Ciro Nogueira. Além do doutor Luizinho, que é o chefe do PP do Rio de Janeiro e o Isnaldo Bulhões, do MDB de Alagoas. E aí, quando chegou aqui o aviãozinho, pegaram, né? Enfim, as imagens de vídeo do piloto do avião. Na hora de passar com as bagagens pelo raio-X, ele passa numa primeira vez com duas malas. Aí passa pelo raio X, aí volta por fora do raio-x com as duas malas, aí volta com aquelas duas malas e mais outros pacotes de origem desconhecida que devem ser as camisetas "bem-vindo a San Martin", aquela coisa toda lá, entendeu? Sabe aquela bonequinha que dança hula-hula, que você bota em cima do carro dançando? Deve ser um monte daquilo. E aí fica a primeira suspeita, é que trata-se de muamba, de contrabando, mas não necessariamente contrabando, porque em especial as malas que foram e voltaram, pode ter entrado coisa nela depois que ela voltou, certo? Ela passou uma vez oficialmente. Depois, ela volta para trás e aí ela passa por fora nessa passagem por fora. Ela podia ter coisa a mais que não tava quando ela passou pelo raio-X.

Fernando de Barros e Silva: Oficialmente.

Celso Rocha de Barros: Oficialmente. E aí, há malas grandes chegando e todo mundo querendo esconder... Qual é a primeira coisa que você pensa? Dinheiro. Então, assim, o avião do cara das bets chegou de um paraíso fiscal com um monte de mala que ele não quis que ninguém soubesse o que tinha. E, nesse avião, estava o presidente da Câmara dos Deputados, o ex-chefe da Casa Civil do Bolsonaro e o chefe do PP no Rio, essa turma toda.

Fernando de Barros e Silva: O chefe da Casa Civil do Bolsonaro, que tentou mudar a legislação para favorecer...

Celso Rocha de Barros: Tentou mudar a Constituição para favorecer, tentou fazer uma emenda constitucional para salvar o Master, aumentando a cobertura...

Fernando de Barros e Silva: Para salvar o Vorcaro.

Ana Clara Costa: E todos esses políticos operaram para beneficiar o setor de Bets, que é o dono do avião, para eles pagarem menos imposto. Primeiro, para regulamentar do jeito que eles queriam. e, depois, para pagar menos imposto. Essa é a bancada das bets, né?

Fernando de Barros e Silva: Só faltou esses caras passarem ali no raio X com o guardanapo na cabeça em homenagem ao Cavendish.

Celso Rocha de Barros: Exato. Porque lá estava o Cavendish, né cara? A gente tinha esquecido do Cavendish, mas ele voltou. Olha só! Arranjou uns amigos novos, o pessoal de Bet deve ser um cara muito sociável, muito bom de fazer, amigo. E aí, voltou aqui ao noticiário. Olha só que coisa bonita! E ai primeiro fato que fica claro, é que a promiscuidade da elite do Congresso Nacional com esse tipo de empresário, que é o empresário que eles regulam, né cara? É absolutamente chocante, né, cara? Imagina se você descobrisse que o Xandão não só voou no avião do Vorcaro, mas voou no avião com o Vorcaro, e, na volta, tinha umas muamba... Imagina o que seria essa história? Certo? Então assim, agora que os caras foi isso que aconteceu. Os caras chegaram aqui e tá todo mundo tratando meio como uma coisa folclórica, uma coisa meio "ah, é o centrão. E isso é assim mesmo. Ah, esse centrão"... Que é isso que me escandaliza mais, inclusive no caso do Master também. A gente se acostumou a tratar esses políticos da direita, corruptos, como se fosse parte da paisagem. Assim, o político brasileiro médio é um ladrão de direita. Você acaba tratando disso como se fosse a regra, o pano de fundo da ação, que não pode ser mudado. Não tem muito o que fazer com relação a isso. E aí a gente vai ficando chocado, como o pessoal costuma dizer, daquelas pessoas com quem você tinha expectativa e, cara, assim, você, basicamente, está punindo as pessoas por terem feito alguma coisa que te deu essas expectativas. Você está recompensando os caras por serem tão ruins que nem deixaram você criar nenhuma expectativa. E vai passando o tempo, essas coisas vão se acumulando, eles vão percebendo que eles podem fazer isso, vão fazendo coisas cada vez piores. Então, enfim, você vai ver quem são os caras do aviãozinho do Fernandin? Quem são os caras da reportagem sobre Bet? Você pega a reportagem da piauí sobre Bets, pega a reportagem da piauí sobre o Master, vai ter uns caras lá igual, entendeu? Porque o tempo vai passando e eles não são responsabilizados por nada. Eles vão continuar fazendo, né?

Fernando de Barros e Silva: Com sorte, chega a Presidência da República. Caso do Temer.

Celso Rocha de Barros: Exatamente. Exatamente. Deviam estar lá trabalhando para vetar o Messias, Aí quarta-feira. O Temer, que, como todo mundo viu, tava lá, né, negociando lá com os Emirados Árabes para tentar salvar o Master. Tenho certeza que foram só contatos republicanos. Jamais me passaria pela cabeça sugerir qualquer coisa aqui. Mas enfim, essa história do avião vai mostrando como a sensação desse pessoal que comanda o Congresso, desde o Eduardo Cunha, basicamente. Mas depois, com o orçamento secreto, com toda essa tomada de poder que eles fizeram de atribuições executivas, a sensação deles é que eles realmente podem fazer o que eles quiserem. E, aparentemente, podem, né?

Fernando de Barros e Silva: Sim, mas foi bom você falar que o Eduardo Cunha, porque ali o negócio mudou de patamar, né? Inclusive, o avanço do Congresso sobre o orçamento público ou a começam do, começa com Eduardo Cunha. É isso. Ana Clara, o Celso citou a matéria do João Batista e você lembrava aqui, antes da gente começar a gravar, que o Cavendish é reincidente, é isso?

Ana Clara Costa: Antes dessa viagem ser trazida ao público, João Batista tinha relatado na piauí uma outra viagem do Ciro Nogueira com o Fernandin. Eles fizeram uma volta ao mundo durante o carnaval.

Celso Rocha de Barros: Opa!

Ana Clara Costa: Nesse gostream que ele tem.

Celso Rocha de Barros: Muamba.

Ana Clara Costa: E, nessa viagem, nessa volta ao mundo que eles fizeram, foram para a Ásia, enfim, para vários lugares. O Ciro Nogueira estava, a filha do Ciro Nogueira tava a mulher do Cavendish, do Fernando Cavendish, foi fotografada e filmada também nos iates e, enfim, nos lugares por onde eles passaram, embora o Cavendish não tenha aparecido nas fotos, porque o piloto da aeronave fazia lives da turma, o próprio piloto fazia lives da turma, enfim, se esbaldando na Europa, na Ásia, isso aconteceu no carnaval.

Celso Rocha de Barros: Só para passar por fora do raio X, ele também tinha essa...

Ana Clara Costa: Pois é, sempre que a gente vê alguém dando viagem, assim, dando voo no seu gostream, dando alguma coisa para alguém, não tem almoço grátis, né? A gente sabe. A amizade, ela tem alguns limites ali, né? É curioso, porque San Martin, acho que é San Martin, né? Não sei se a pronúncia é Martin ou Martin.

Celso Rocha de Barros: Eu falei Martin antes, mas pode ser que seja Martin.

Ana Clara Costa: Enfim, San Martin, fica a poucos minutos. 50 minutos de voo do principal, hoje, paraíso fiscal que tem no Caribe que as British Virgin Island. Depois que as Ilhas Cayman rodaram nos Panama Papers, ascendeu como principal destino e San Martin é um arquipélago muito próximo. Ali, só um detalhe geográfico, que não interessa para a gente, não tem nenhuma curiosidade, independente do que eles carregavam nessas malas que estavam burlando a receita. Se era muamba, se era bebida, se era droga, se era dinheiro. A gente não sabe. Eu queria só recapitular um pouco a história desse Fernandin. Ele era um assessor do Whindersson Nunes, humorista, e depois trabalhou com Wesley Safadão. E ele era um Zé mané qualquer assim, né? Tipo, a gente assim. Talvez um pouco pior. E ele ganhou muito dinheiro assim, do nada, de nada, trazendo o jogo do tigrinho para o Brasil, antes disso ser regulamentado, o João Batista conta isso bem nas reportagens dele, né? E eu quero trazer esse assunto para a pauta dos nossos dois primeiros blocos, essa história do Messias. Esse caso acabou caindo com Alexandre de Moraes como relator. Depois que se soube que havia parlamentares nessa viagem, o caso corria em sigilo. Curiosamente, o Alexandre de Moraes deu um despacho sobre isso essa semana, que ele levantou o sigilo desse desse despacho, esse despacho se tornou público. E aí, esse despacho também entra na conta dessas articulações que aconteceram, nesses últimos dias, sobre o caso do Messias. Porque, eu vou falar para vocês a avaliação de algumas pessoas com quem eu conversei mais próximas do governo. Então, aí vocês também modulam o que eu vou dizer em relação a tudo que a gente já falou aqui hoje. Mas, para essas pessoas mais próximas do governo, esse despacho do Alexandre é visto como uma estratégia bastante inteligente de colocar um clima de estado policial essa semana, durante a semana em que haveria o julgamento, em que os deputados lá Hugo Motta, as pessoas, senadores, etc, olhassem para essa situação e falassem: "Pô, os caras não param de ficar atrás da gente. Realmente, supremo é um problema. Vamos vetar essa indicação, entendeu?". Como se fosse uma estratégia de colocar um clima policial sobre a classe política, mesmo que o autor seja o próprio Alexandre, desse clima policial, entre aspas, mas que isso poderia impactar o voto contra o Messias, não contra o Messias, em si, mas seria um voto contra o Supremo, no sentido "não vamos votar isso agora porque o Supremo está...", enfim, a leitura do governo é um pouco essa. Assim, que ele colocou esse despacho ali para ascender um pouco, para dar um clima de estado policial. Por mais que ele fosse o autor do despacho e ele fosse a parte que queria que o Messias não tivesse sido aprovado, teria sido uma atitude dele para ter esse impacto nos senadores, entendeu? Um impacto de clima. Eu acho essa leitura um pouco, sei lá, fantasiosa demais, meio conspiratória. Mas essa leitura que o governo está fazendo. E aí, só para fechar com algo que a gente já falou em outros episódios do Foro, que é essa relação do governo com o Alexandre de Moraes, do governo com o Supremo, eu acho que isso conclui bem o que acontece entre eles, porque há muita gente que acha que é uma turma só, que o Alexandre de Moraes e o Lula estão na mesma, o mesmo barco, todo mundo remando na mesma direção. E não é o que está acontecendo. Pelo contrário, é uma relação conflituosa. Se tornou muito mais conflituosa nesses últimos meses. Não existe uma atuação em conjunto ali. O Supremo não acha que o governo está defendendo o Supremo. O Supremo acha. E aí, especificamente, a turma do Alexandre de Moraes acha que o governo está usando a Polícia Federal para prejudicá-lo, para enfraquecer o Supremo.

Fernando de Barros e Silva: O Toffoli acha isso.

Ana Clara Costa: O Toffoli acha isso também. O Gilmar acha isso também. Enfim, eles queriam que o governo aparelhassem a Polícia Federal para impedir que o Supremo fosse maculado pelo Master. E eles acham que o governo deve isso ao Supremo em razão da conduta do Supremo no 8 de janeiro e por isso a relação está cindida, de certa forma, ela se deteriorou nesses últimos meses. Há uma movimentação do Alexandre de Moraes que a gente ainda não conseguiu mapear exatamente qual, foi contra essa indicação, é também contra o governo Lula. É mais um tijolinho nessa ideia de que essa harmonia entre esses dois poderes, na verdade, é uma ilusão. Não sei de quem, na verdade. Você conversa com os dois lados e eles não têm nenhuma ilusão sobre isso. Mas criou se em algum lugar da opinião pública a ilusão de que existe uma harmonia ali.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Acho que com isso de la nada. Como você disse no começo, eu sei la nada. Lembro desse título incômodo do Sartre: El ser y la nada sei lá, nada. Vamos encerrando o terceiro bloco do programa por aqui. A gente faz um rápido intervalo. Na volta, Kinder Ovo. Já voltamos. Muito bem, estamos de volta. Mari Faria, Diretora, eu quero um Kinder Ovo gostosinho agora, depois desse programa difícil que fizemos, pode soltar.

Sonora: Eu sou do espectro político, da... não do bolsonarismo, não da extrema-direita, mas da verdadeira direita que dialoga, que senta, que conversa. Agora, você quer ver uma coisa sobre o meu estado, essa história de rouba do rouba, ladrão, ladrão. Quem quebrou o Rio de Janeiro foi a direita.

Celso Rocha de Barros: Otoni de Paula.

Celso Rocha de Barros: Não foi a esquerda. Então, eu posso ter crítica a esquerda, mas eu não mais. Mas eu não sou desonesto intelectual, não sou.

Celso Rocha de Barros: Fazia um tempão que eu não acertava, cara.

Fernando de Barros e Silva: Celso, casca de bala brilhando. Otoni de Paula tá um pouco fora do seu.... Porque é um personagem...

Fernando de Barros e Silva: Um pouco fora, mas é. Mas enfim, estou expandindo meu, meu...

Celso Rocha de Barros: Ele já esteve mais no seu...

Celso Rocha de Barros: Já esteve mais.

Fernando de Barros e Silva: No seu nicho, né? Para os anais, quem fala é o deputado federal Otoni de Paula, PSD, do Rio de Janeiro, em entrevista à BBC News Brasil. Muito bem, Casca. Com isso, a gente encerra o Kinder Ovo. Vamos agora para o momento das cartinhas. O melhor momento do programa, o Correio Elegante, o momento de vocês. Eu vou começar então com o recado da Cláudia Dias: "Minhas corridas noturnas, no meu amado Museu do Ipiranga, são mais felizes às sextas quando ouço vocês. Celso, sempre imagino você gravando um podcast sobre um assunto específico da política, como quem conta uma história. Não que eu ache que você trabalhe pouco, mas seria bom demais, hein? Fernando, vem, correu no museu comigo. Ana, me contrata como sua assistente".

Ana Clara Costa: Ah, eu quero!

Fernando de Barros e Silva: "Vou amar descobrir os furos de Brasília com você. Beijos da Claudia Dias". Beijo, Claudia.

Celso Rocha de Barros: Valeu, Claudia.

Ana Clara Costa: Um beijo.

Fernando de Barros e Silva: Claudia, só se tiver escada aí no Museu do Ipiranga. Eu tô subindo a escada só, e, olhe lá!

Celso Rocha de Barros: Ele sobe, sei lá, 150 degraus.

Ana Clara Costa: Uma coisa, não, mas corajosa, essas caminhadas noturnas ali.

Fernando de Barros e Silva: Eu tô engatinhando. E corridas noturnas.

Ana Clara Costa: Corridas noturnas então. Mas mesmo assim, corajosa. A Cátia Inácio mandou: "Fui ouvir o fora enquanto fazia um almoço, rezando para que minha pequena Cora de cinco meses, não aprontasse um escândalo por ficar no carrinho me esperando. E não é que ela dormiu plenamente em cinco minutos? A política brasileira realmente não é para iniciantes e de agora em diante vai rolar choro para bebês toda madrugada na minha choupana. Agradecida". Poxa, olha, Cora dormiu com a gente.

Celso Rocha de Barros: Dormiu com a gente. Muito bom, muito bom, muito bom.

Ana Clara Costa: Eu não sei...

Celso Rocha de Barros: É um serviço importante.

Ana Clara Costa: Mas não sei se a gente tá chato assim.

Ana Clara Costa: Porque que a Cora não se animou.

Fernando de Barros e Silva: Não será por falta de emoções da política brasileira.

Celso Rocha de Barros: O Cléber Gordiano escreveu: "Importante a observação do ouvinte a respeito da discrepância entre nós, meros amadores e os atletas profissionais. O Kinder Huevo, como ele escreveu, que ocupam a bancada do furo. Exemplifico: estava escutando o último episódio e enquanto tentava relacionar a fala do político que nos longínquos tempos pré-bolsonarismo, foi até presidenciável, ao nome do neto do Tancredo, Ana já havia finalizado a disputa. E como competir com Usain Bolt ou com o Sauer, esse cara aí que correu a maratona em menos de duas horas".

Ana Clara Costa: Ai, pois é. Nossa, mas eu tava errando todas.

Fernando de Barros e Silva: Cara, fez a maratona em menos de duas horas, isso sim, duas horas. Celso, você tá indo nessa direção? Você tá quase, quase.

Celso Rocha de Barros: Tô quase. Tô chegando lá. Tô chegando lá, cara.

Fernando de Barros e Silva: Correr a maratona em menos de duas horas. Quer dizer que ele fez o tempo todo a mais de 20km/h, eu não consigo correr cinco segundos a mais de 20 km. Não consigo nem chegar. Enfim. Bom, o que é bom dura pouco, que não é tão bom também acaba. E nós vamos encerrando o programa de hoje por aqui. Se você gostou, não deixe de seguir e dar five stars pra gente no Spotify. Segue no Apple Podcast, na Amazon Music. Favorita na Deezer e se inscreva no YouTube. Você também encontra a transcrição do episódio no site da piauí. O Foro de Teresina é uma produção do estúdio Novelo para a revista piauí. A coordenação geral é da Bárbara Rubira. A direção é da Mari Faria, com produção e distribuição da Maria Júlia Vieira. A checagem é da Ethel Rudnitsky. A edição é da Bárbara Rubira e da Mariana Leão. A identidade visual é da Amanda Lopes. A finalização e mixagem são do João Jabace e do Luís Rodrigues, da Pipoca Sound. Jabace e Rodrigues, que também são os intérpretes da nossa melodia tema. A coordenação digital é da Bia Ribeiro, da Emilly Almeida e do Fábio Brisolla. O programa de hoje foi gravado aqui na minha Choupana, em São Paulo, e no Estúdio Rastro do Danny Dee, no Rio de Janeiro. Eu me despeço então dos meus amigos. Tchau, Ana.

Ana Clara Costa: Tchau, Fernando. Tchau, pessoal.

Fernando de Barros e Silva: Tchau, Celso.

Celso Rocha de Barros: Tchau, Fernando. Tchau, pessoal. Abração aí.

Fernando de Barros e Silva: É isso, gente! Uma ótima semana a todos e até semana que vem!


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