A TEIA DE VORCARO, OS BASTIDORES DE TRANCOSO E O XADREZ DA DIREITA

Imagem A teia de Vorcaro, os bastidores de Trancoso e o xadrez da direita

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Semanalmente, os apresentadores mencionam as principais leituras que fundamentaram suas análises. Confira:

Conteúdos citados neste episódio:

"No idioma de Rasputin", reportagem de João Batista Jr. para a piauí.

"O amigo do crime", reportagem de Breno Pires para a piauí.

"Coisas extravagantes", reportagem de Allan de Abreu para a piauí.

"Aliado dos Bolsonaro atuou para beneficiar Master e Vorcaro e pressionar BC e rivais", coluna de Malu Gaspar para O Globo.

"Empresas na teia do Master usam terras da União para fabricar R$ 45 bi em créditos de carbono", reportagem de André Borges, Adriana Fernandes e Lucas Marchesini para a Folha.

"Banco Master emprestou pelo menos R$ 22 mi para cunhada de Hugo Motta", reportagem de Lucas Marchesini para a Folha.

"Ex-ministro de Bolsonaro e empresas lideradas por ele receberam R$ 11 milhões do Master em dois anos", reportagem de Thalys Alcântara e Eduardo Goulart para o The Intercept

"Evangélicos abandonam Flávio Bolsonaro e migram para Lula e Renan", artigo de Juliano Spyer para a Folha.

"Partido do MBL se inspira em ultradireita do Vale do Silício para desafiar Bolsonaro", artigo de Ana Luiza Albuquerque para a Folha.

"O MBL, enfim, abraçou a extrema-direita", texto do substack de

Thiago Süssekind.

TRANSCRIÇÃO DE ÁUDIO


Sonora: Rádio piauí.

Ana Clara Costa: Olá, sejam muito bem-vindos ao Foro de Teresina, o podcast de política da revista piauí.

Sonora: Apesar de um problema no evento corporativo, o encontro jurídico, que, inclusive, participei esse ano já como presidente da Câmara, então não vejo problema algum.

Ana Clara Costa: Eu, Ana Clara Costa, substituo temporariamente o microfone de Fernando Barros e Silva para conversar com os meus amigos Celso Rocha de Barros e João Batista Júnior, aqui no Estúdio Rastro, no Rio de Janeiro. Hoje todos reunidos. Oi, Celso!

Celso Rocha de Barros: Oi, Ana, tudo bom?

Sonora: Jamais recebi quaisquer valores em contas no Brasil ou no exterior.

Ana Clara Costa: Oi João, bem-vindo!

João Batista Jr: Oi Ana, tudo bom?

Sonora: Ou, pior ainda, tem gente agora que tá apostando as fichas num tal de Renan Santos, do Missão Brasil do MBL. Um cara que até pouco tempo atrás estava fazendo emoji com coraçãozinho pro Moraes.

Ana Clara Costa: Na próxima semana o Fernando estará de volta das suas merecidas férias e voltaremos à configuração original. Por ora, vamos aos assuntos da semana. A gente abre o programa com a colaboração mais relevante que Daniel Vocaro deu para investigação sobre o Banco Master: o seu aparelho de celular. E também falamos da última operação da PF sobre o caso, que teve como alvo o senador Jaques Wagner, do PT da Bahia, e líder do governo no Senado. Com a retirada de parte do sigilo do processo no STF, vieram à tona mensagens, fotos, recibos, planilhas e áudios que dão ainda mais concretude ao que já se sabia, se é que isso é possível. Ciro Nogueira, personagem recorrente dessa história, reaparece agora cercado por detalhes constrangedores, como os gastos de 500 mil reais em viagens bancadas por Vorcaro para o digníssimo senador. E Hugo Motta, presidente da Câmara, também passa a figurar entre os protagonistas da cena. Ele não só foi convidado de honra de viagens nababescas, como também pediu um empréstimo de 22 milhões a Vorcaro em nome de sua cunhada. O fim do sigilo também colocou em termos mais cristalinos o funcionamento da Turma, a gangue de milicianos, hackers, bicheiros e bandidos de todo o tipo, que era comandada por Vorcaro e seu pai Henrique, para constranger quem ameaçasse os interesses da família. Tudo indica se tratar de uma organização criminosa que funcionava em paralelo ao círculo de relações de Daniel Vorcaro, e tinha Henrique como principal mandante. O que emerge dos relatórios da PF, é uma zona de contato entre dinheiro, poder e violência. E para terminar a semana em que o Master novamente dominou o noticiário, na manhã de quinta-feira, o ministro André Mendonça autorizou uma operação que teve Jaques Wagner como alvo. Além de Augusto Lima, o ex-sócio de Vorcaro, que também é da Bahia. A PF encontrou repasses milionários de Augusto Lima para familiares de Wagner. Há ainda mensagens que levantam suspeitas de que um apartamento de dois milhões e meio teria sido dado pelo ex-banqueiro ao senador. Segundo a investigação, até ingressos para shows em Los Angeles foram patrocinados por Lima para a família de Wagner. No segundo bloco, a gente continua no universo Master, contando detalhes até hoje não revelados sobre as festas promovidas por Daniel Vorcaro, uma apuração exclusiva do João Batista Jr. De Trancoso a Courchevel, passando por Nova York e pela costa mediterrânea, muito já foi revelado sobre os tours do ex-banqueiro mundo afora, mas os detalhes que o João traz pra gente envolvem políticos e artistas, além de uma rede estruturada de garotas de programa. No terceiro bloco a gente sai do Master, mas não dos seus efeitos. A direita se vê diante de um novo paradoxo: Flávio Bolsonaro está enfraquecido demais para unificar o campo, mas seus concorrentes ainda são pequenos demais para substituí-lo. O deserto de ideias é tão árido que a inércia de Ronaldo Caiado e Romeu Zema nas pesquisas nutre esperanças até mesmo em Renan Santos. Renan, quem? O ouvinte perguntará. O pré-candidato do Missão, partido do MBL, à Presidência da República. Tentando traduzir, é um protótipo de Buekele criado no laboratório de uma fintech de Osasco. E, como não podia deixar de ser, a Faria Lima começou a embarcar nessa ideia. É isso. Vem com a gente.

Ana Clara Costa: Bom, essa semana houve vários desdobramentos do caso Master, né? O primeiro deles foi a retirada do sigilo de parte da investigação pelo ministro André Mendonça. E há um timing curioso que é ele retirar o sigilo justamente antes do julgamento do Henrique Vorcaro, o pai do Daniel Vorcaro, pelo Supremo. Quem estava acompanhando esse caso relata que essa decisão do André Mendonça foi, de certa forma, para constranger os ministros que tenderiam a votar de forma favorável ao Henrique Vorcaro. E, no final, a prisão dele acabou sendo mantida, sendo que o único ministro que votou para liberá-lo foi o ministro Gilmar Mendes, numa movimentação ali interna que foi vista mais como apoio ao Alexandre de Moraes do que como uma chancela ao Master. Porque o Gilmar e o Alexandre estão fechados em copas para tentar conter os danos ao Supremo dessa investigação. Então, tudo o que eles puderem fazer, em tese, eles vão fazer. E votar de forma favorável ao Henrique Vorcaro foi uma dessas medidas que estão sendo tomadas, mas que acabou não levando a um desfecho favorável ao Henrique Vorcaro. Celso, você vai começar por onde? Também pela estratégia da família Vorcaro no Supremo? Vamos lá.

Celso Rocha de Barros: Ana, isso mesmo que você disse. O André Mendonça fez uma movimentação nesse jogo de xadrez ali entre ele e o Gilmar Mendes. Havia uma movimentação de bastidores da parte do Gilmar para tentar soltar o primo do Vorcaro e mandar o pai do Vorcaro para a prisão domiciliar, o que naturalmente reduziria a pressão para o Vorcaro fazer uma delação. Fazer uma delação de verdade, né? Porque essas delações aí do Vorcaro até agora não entregam ninguém, né? Elas são equivalentes àquelas pessoas que, em entrevista de emprego, perguntam para ela "Me diz um defeito seu?", e o cara diz "perfeccionismo", sabe? A delação do Vorcaro é meio assim. Ele não confessa nada, não entrega ninguém. E aí, se você tirasse os familiares dele da cadeia, você já tenderia a manter ele nesse mesmo ritmo, sem entregar ninguém. O Mendonça percebeu o que estava vindo, o que que ele fez? Tirou o sigilo da investigação porque, naturalmente, é muito mais difícil alguém votar a favor de qualquer pessoa ligada ao escândalo Master se o noticiário está cheio de histórias sobre Ciro Nogueira ganhando um apartamento de 22 milhões.

Ana Clara Costa: É, o envolvimento de milicianos e bicheiros... E realmente, pelas mensagens dá para ver que o Henrique Vorcaro era o chefe da quadrilha, que era inclusive o responsável pela área da violência.

Celso Rocha de Barros: Isso. E isso é uma coisa que acho que ainda precisa ser muito investigada, porque o tanto de dinheiro que o Sicário ganhava, ainda não apareceram os crimes que ele deve ter cometido para justificar essa grana. Essa coisa de ameaçar o Lauro Jardim, que tanto quanto sabe, nunca foi implementada. Eles não pagavam essa grana para o Sicário para de vez em quando ele xingar um jornalista ali no grupo de WhatsApp deles ou qualquer coisa desse tipo. Então, para ele ganhar grana que ele ganhava e para ele ter se matado na polícia, ao invés de confessar, esse cara deve ter feito coisa muito pesada a mando da família Vorcaro, que ainda não foi descoberta. Então, assim, tem toda uma avenida de investigação, que são esses crimes violentos do esquema Master que a gente ainda não... Sequer começou a encostar, porque a grana que o Sicário ganhava é grana para matador profissional que trabalha bastante. Esse cara certamente devia fazer serviço violento e ainda não apareceram crimes suficientes para justificar esses pagamentos todos. E aí, quando você solta essas histórias todas que você vê que o Master era uma quadrilha criminosa muito barra pesada, quando você vê a quantidade de grana que ele pagou para políticos, naturalmente os ministros que tenderiam a votar com Gilmar, falam: "não, não vou fazer isso, não". Então o André Mendonça ganhou esse round. Ele conseguiu manter essa turma gente finíssima aí da família Vorcaro na cadeia. Agora, eu queria só anotar que uma coisa talvez seja uma injustiça, o Gilmar Mendes no voto dele a favor de soltar lá a família Vorcaro, ele se referiu a vários abusos da Lava Jato para dizer que "não, não se pode fazer a mesma coisa que a Lava Jato". Mas eu acho que o Gilmar tá sendo injusto aqui porque o Moro e o Dallagnol atualmente tão na mesma luta que o Gilmar. Estão tentando ajudar gente que está enrolado com o Master, o Mouro e o Dallagnol são da chapa lá com o Felipe Barros, o candidato ao Senado lá e, atualmente, deputado bolsonarista, que apresentou o projeto de lei para aumentar a cobertura do FGC e salvar o Banco Master. A história do Felipe Barros, aliás, teve um desdobramento muito importante no final da semana passada, quando a gente já tinha acabado a gravação, que foi quando a coluna da Malu Gaspar deu que ele transformou a Comissão de Relações Externas e Defesa Nacional do Congresso, que ele presidia, numa comissão para sediar a autoridade que investigava o Master. Então, a Comissão de Relações Exteriores começou a chamar o presidente do Banco Central, o cara da CVM, e quando os caras iam lá, eles apanhavam de tudo que era jeito, que era para intimidar qualquer autoridade que tentasse desvendar o esquema Master. E o que é mais interessante que a coluna da Malu mostrou, é que quando o Felipe Barros vira presidente dessa comissão, ele vira substituindo o Eduardo Bolsonaro, indicado pelo Eduardo Bolsonaro e o Eduardo Bolsonaro diz: "Se vocês acham que a minha influência sobre a comissão acabou aqui, vocês estão muito enganados". Então o Felipe Barros parece ser o link entre o Eduardo e a história do Master. O Eduardo disse que mandava no cara que quando era presidente da comissão instrumentalizou a comissão para ajudar o Master. E, contra o Felipe Barros, ainda ninguém descobriu compensação financeira, que o Ciro, por exemplo, perguntar por que ele apresentou a emenda Master? Obviamente, porque, porra, ele ganhava uma fortuna.

Ana Clara Costa: Foi muito bem pago ali, né?

João Batista Jr: A lista é longa, né?

Celso Rocha de Barros: O Felipe Barros ainda não apareceu nada, o que só reforça a suspeita que ele não fez isso por ele mesmo. Ele fez isso pelo cara que mandava nele, que era o Eduardo Bolsonaro, que é uma das linhas de investigação da Polícia Federal, que ele tinha sido sustentado nos Estados Unidos com essa grana que o Vorcaro dava para o Flávio.

João Batista Jr: Através do filme Dark Horse.

Celso Rocha de Barros: Através do filme Dark Horse. Exatamente. Mas essa semana teve muitas e muitas revelações novas sobre o Banco Master. Então, assim, se você se perdeu um pouco com o noticiário, a gente entende e vamos tentar ajudar você aqui a distinguir os casos. A primeira notícia era um cara que ainda não tinha aparecido no PowerPoint de ninguém, ao menos com esse destaque, foi o Hugo Mota, presidente da Câmara dos Deputados. Pelo menos no meu PowerPoint que eu divulguei no meu Instagram, se alguém tiver curiosidade de ver, algumas semanas atrás o Hugo Mota ainda não tinha entrado, mas ele merece um lugar de destaque lá, porque aparentemente ele intermediou um empréstimo de 22 milhões de reais para a cunhada dele.

Ana Clara Costa: Uma cunhada de 30 e poucos anos, uma grande empreendedora.

Celso Rocha de Barros: Isso. É. Exato, exato. Deve ser um prodígio realmente, né? E qual é a suspeita das pessoas de mente suja que acham que talvez isso aqui seja corrupção, que eu jamais faria isso. Muito pelo contrário. Quem sou eu? A suspeita que isso seja pagamento por uma emenda apresentada pelo Hugo Motta sobre investimentos em créditos de carbono que obrigaria seguradoras e entidades de previdência privada a investir cerca de 0,5% de todas as suas reservas financeiras em créditos de carbono. Ou seja, qual é a mutreta aqui? O Vorcaro estava tentando fazer com que as entidades de previdência privada fizessem a mesma coisa que aquelas entidades de previdência estatais fizeram por influência política do Vorcaro. A Rio Previdência não botou lá não sei quantos bilhões em crédito bancário que sumiu. Ele queria obrigar as instituições de previdência privada a fazer a mesma coisa.

Ana Clara Costa: Que, na verdade, no caso das previdências municipais, estaduais, era uma tratativa política esse investimento. O que ele tava querendo fazer é transformar isso em lei.

Celso Rocha de Barros: Exatamente. E forçar o setor privado. O setor de previdência privada nunca botou um centavo em dinheiro do Master, por quê? A gente já falou aqui sobre isso várias vezes. Isso é o pior investimento possível para fundo de previdência. Se você quiser arriscar uma empresa especulativa de um picareta, porque você acha que no curto prazo você vai ganhar, você pode tentar. Mas ninguém vai fazer isso com dinheiro do aposentado, que é a única grana que ele tem na vida. Então eles estão querendo forçar os caras a entrar nesse negócio de crédito de carbono.

Ana Clara Costa: Que eram empresas da família Vorcaro.

Celso Rocha de Barros: Exatamente. Aí você vai dizer "pô, legal, crédito carbono". Olhando esse projeto em si, você pode pensar "que legal, negócio ambiental". Não, mas é sacanagem. Uma matéria que saiu na Folha mostrou que as empresas do Vorcaro chegaram a inflar seu patrimônio em 45 bilhões, usando créditos de estoques de carbono, que não é a mesma coisa que o crédito de carbono. Então, o Vorcaro inflava os ativos dele, exagerando o valor de crédito de estoque de carbono que ele obtinha a partir de uma fazenda irregular na Amazônia, que era em terras da União. Ou seja, o negócio é errado de todos os pontos de vista. Então assim, terra basicamente roubada e, aqui, com lastro numa metodologia não autorizada pela regulamentação sobre crédito de carbono, que é um negócio muito sério e que vem crescendo e é muito importante. E então o plano dele era pegar essa terra meio roubada ali da União, inventar uma métodos picareta para dizer que aquilo ali que ele tinha, valia em termos de crédito de estoque de carbono. Dizer que isso valia bilhões e bilhões, botar na carteira dele e, supostamente, conseguir que o Hugo Motta passasse essa lei para obrigar todo mundo que tem aposentadoria em instituição privada. Se você tem previdência privada, essas coisas, uma parte da sua grana teria que ir para essa fazenda picareta do Vorcaro. Então, assim, se for comprovado que a grana para a família do Hugo Motta, o empréstimo, é em troca disso, é um negócio bastante grande.

Ana Clara Costa: É que tem um timing... Novamente o timing, né? Poucos meses, três ou quatro meses depois, que essa emenda foi aprovada, esse empréstimo saiu para a cunhada do Hugo Motta. É uma apuração da Folha de São Paulo, que foi publicada em março desse ano. E a cunhada deu como garantia para o empréstimo tão vultoso, uma empresa dela. Então, como que uma empresa vai garantir um empréstimo desse tamanho?

Celso Rocha de Barros: Não, e como que um banco dá, né? Se o banco estiver funcionando estritamente por critérios comerciais, quando é que o cara vai te dar um empréstimo que é 50 vezes o valor colateral.

Ana Clara Costa: Exato. Não se sabe se a cunhada pagou um real desses 22 milhões nesse empréstimo ou se foi, não sei de alguma forma...

João Batista Jr: Armação.

Ana Clara Costa: É. E se na quebra do banco acabaram esquecendo esse empréstimo ali, não se sabe. Mas o fato é que esse dinheiro foi usado para inteirar um valor que a família comprou um loteamento. E esse loteamento é o equivalente a três vezes a área do Parque Ibirapuera, em São Paulo. Isso, no caso, em João Pessoa, que é o loteamento que foi comprado em parte com esse dinheiro emprestado pelo Master e que não sabemos se algum dia foi pago pela família do Hugo Motta ao Master de volta.

Celso Rocha de Barros: Bom, o segundo personagem que apareceu essa semana, ele já estava ali rondando o PowerPoint do Master, mas agora entrou com tudo. Foi o presidente do Senado, o senador Davi Alcolumbre, que a gente já tinha falado dele aqui em relação com essa história. Mas a revista Veja publicou que o Alcolumbre teria recebido 30 milhões de dólares, cerca de 155 milhões de reais do Vorcaro, segundo a revista, o dinheiro teria sido depositado numa conta secreta do clube no exterior. Uma notícia bem feia. O Alcolumbre nega. Agora, qual é a grande suspeita no caso do Alcolumbre? É a previdência do Amapá. O Amapá é um dos estados que colocou dinheiro de aposentado em investimento do Master. Ou seja, queimou dinheiro de aposentado. Deu o dinheiro de aposentado para o Vorcaro, que esses aposentados nunca mais vão ver esse dinheiro. É um volume de dinheiro bem menor do que o da Previdência do Rio, mas como proporção dos ativos da Previdência no Amapá, é até maior. E a suspeita é que tenha sido o Alcolumbre, que indicou todos os responsáveis pela gestão da Previdência do Amapá. Então, nós já temos aqui o presidente da Câmara dos Deputados do Republicanos, partido do Tarcísio, Davi Alcolumbre, presidente do Senado do União Brasil, comandado por Rueda, que é um dos caras mais no centro do escândalo Master. Mais envolvido que o Rueda, só o Ciro Nogueira realmente.

Ana Clara Costa: No centro de todos os escândalos.

João Batista Jr: O Ciro é o PowerPoint.

Celso Rocha de Barros: Exato, o Ciro é a intersecção de todos os PowerPoints. Exatamente. Se alguém tiver curiosidade, a reportagem do Breno Pires na piauí desse mês. Cara, é impressionante como o cara sobreviveu até agora, porque ele tava em todos os escândalos. Desde que ele teve idade para participar de um escândalo, ele já está participando de escândalos. Bom, um personagem que já estava no PowerPoint, mas a história dele foi mais detalhada agora em uma matéria do Intercept, foi o ex-ministro da Cidadania do governo Bolsonaro, Ronaldo Vieira Bento. Ele ganhou, segundo Intercept, 11 milhões do Master. Claramente menos valorizado aqui do que o Alcolumbre. O Ronaldo ganhou bem menos. Ele também é filiado ao Republicanos, mesmo partido do Hugo Motta. Segundo o Intercept, em 2022, o Ronaldo Vieira Bento teria participado na autorização para que tivesse empréstimo consignado para os beneficiários do Auxílio Brasil. Para quem não se lembra, era o nome do Bolsa Família naquele final de governo Bolsonaro. E esse programa, inclusive, era um escândalo aquele negócio. Você está dando o Auxílio Brasil para as pessoas que estão numa situação de pobreza muito grande. Vocês ainda vão favorecer o endividamento desses caras? E essa dívida, evidentemente, não vai ser paga nunca, né cara? A chance disso aqui ser pago por um cara que tem tão pouco dinheiro que o governo precisa dar dinheiro para ele, assim, é remotíssima. E para vocês terem ideia, como esse programa era picareta, se vocês pegarem os dados sobre a concessão do crédito consignado, ele desaba assim que o Bolsonaro perde a eleição. Ele vinha crescendo, a concessão, até a eleição. No que o governo do Bolsonaro viu assim: perdemos. Não precisamos mais fazer isso. Para no dia seguinte. Porque era uma senhora picaretagem mesmo. E o último personagem, last but not least, falando meu inglês de juiz brasileiro na Copa do Mundo, a Polícia Federal realizou nessa quinta-feira a busca e apreensão num endereço ligado ao Jaques Wagner, ex-governador da Bahia e líder do governo Lula no Senado. Jaques Wagner, do PT obviamente. O Jaques Wagner, que já estava no meu PowerPoint, realmente tem muito que se explicar. Em primeiro lugar, ele teria negociado com o Augusto Lima, um dos sócios lá do Vorcaro. O Augusto Lima é um dos rios de picaretagem que desembocaram no grande rio Amazonas, que era a fraude do Master. Então, você tem o Augusto Lima vindo de um lado, o Tanure vindo de outro. Quadrado, vindo de outro, que tem a Reag lá na frente. Então, tudo isso convergiu nesse esquema de picaretagem que era o Banco Master. E o Augusto Lima, a Polícia Federal conseguiu evidências muito claras que ele era bastante próximo do Jaques Wagner. O Jaques Wagner é suspeito de ter pedido para ele um apartamento de milhões de reais e a empresas ligadas ao Augusto Lima teriam transferido para uma empresa da nora do Jacques Wagner 11 milhões de reais. E tudo isso, obviamente, é muito suspeito, porque a gente já percebeu que o método do Banco Master era sempre comprar essas autoridades, dando dinheiro para familiares, para empresas de familiares e coisas desse tipo. Só que eu achei curioso é que na justificativa da Polícia Federal para a operação, eu achei que eles iam falar sobretudo da atuação do Jaques Wagner como governador, porque o Jaques Wagner era o governador quando ele privatizou a rede de supermercados chamada Cesta do Povo, que depois seria a base para a construção do CredCesta, né? A empresa que dava crédito consignado e depois participou da história toda do Master. Então, eu achei que a justificativa seria baseado nisso e que seria interessante, inclusive, porque isso tem toda a cara de ser um negócio suspeito. Mas as autoridades não explicaram exatamente onde e em que momento vira mutreta, se é mutreta desde o começo. Enfim, tem até uma briga lá entre o pessoal da Bahia dizendo "Não, não, isso aqui quando foi feito era limpo e depois foi usado por sacanagem". Eu não sei. Tem os outros que dizem que não, que já era sacanagem desde o começo. Eu acho ótimo que a Polícia Federal investigue para esclarecer isso tudo. Mas a justificativa que a Polícia Federal deu nessa operação não foi por isso, o que a Polícia Federal tá dizendo é que o Jaques Wagner teria atuado em defesa daquelas medidas que o Ciro Nogueira e os outros bolsonaristas propuseram para salvar o Master. Então você teve a emenda do Ciro Nogueira, que, segundo a Polícia Federal, o Augusto Lima teria mandado a emenda por WhatsApp para o Jaques Wagner na época. Não ficou claro se o Jaques Wagner fez alguma coisa sobre isso, pelo menos. Você teve o projeto do Bolsonaro 2022, que autorizou o crédito consignado no Auxílio Brasil. A Polícia Federal diz que o Jaques Wagner também atuou a favor desse projeto. E, finalmente, tem uma mensagem do Augusto Lima para o Jaques Wagner na época que o Master estava tentando negociar a compra pelo BRB. E aí a Polícia Federal diz: "Olha, se ele receber uma mensagem sobre isso do Augusto Lima e que ele era, no mínimo, um interlocutor relevante para esses temas sensíveis". E assim você vai dizer: "Ah, mas isso não parece muito". Mas isso aqui é um pedido para busca e apreensão. Então, para busca e apreensão, você não precisa provar que o cara é culpado. Você tem que só dizer "olha, tem uma fumaça aqui, vamos lá dar uma olhada nesse negócio". Mas eu achei curioso que nada que a Polícia Federal apontou aqui é lá sobre o CredCesta, ou coisa que o valha, é sobre a atuação parlamentar do Jaques Wagner, que teria convergido com a desses caras como o Ciro Nogueira. É um negócio que, evidentemente, o Jaques Wagner vai ter que explicar. Enfim, foi uma semana de muitas adições e edições aqui no PowerPoint e eu tenho certeza que o pessoal que gostava de dizer que os escândalo do Master não tem ideologia, vai falar bastante do caso do Jaques Wagner, que já era conhecido, já estava no PowerPoint de todo mundo. Agora, só para deixar claro se você de fato desenhar o PowerPoint, se você botar todos os casos que apareceram até agora, continua tendo muito mais azul que vermelho, tendo muito mais envolvido de direita do que de esquerda. Os caras esquerda, obviamente, têm que ser presos junto com os caras de direita, mas eu acho irresponsável você não contar para o público que essa discrepância numérica existe.

Ana Clara Costa: João, vamos te ouvir.

João Batista Jr: Na verdade, o que eu gostaria de falar de um personagem citado nesse PowerPoint do Celso para ir para um outro personagem. O Hugo Motta, como diria aquele meme do Galvão Bueno: vai se criando um clima terrível para ele. Ainda que ele não seja, ainda, investigado pela Polícia Federal, o que se tem à mesa é muito ruim para ele. Então, vamos lá. Em 2024, ele foi a Lisboa, hospedado no Four Seasons com um cartão de crédito do Vorcaro. Daí descobriu-se que ele também foi para lá nesse mesmo ano, no jatinho do Vorcaro. Daí, no ano seguinte, mais uma vez em Lisboa, meio do ano, ele vai com o jatinho da FAB, ou seja, bancado pelo nosso dinheiro, pelo dinheiro do nosso imposto. Neste ano ele também foi. Ele disse que foi de voo comercial. Curioso é o seguinte: o Motta foi nesses três anos para o Gilmarpalooza. Neste ano em que tem uma lupa um pouco maior em cima do STF, dado que a gente tem discutido aqui a respeito do Master, ele quis mostrar uma certa fidelidade ao Gilmar Mendes. Daí tem uma outra coisa, tamo em Copa do Mundo, né? Um dos grandes responsáveis pelo Gilmarpalooza é o filho do Gilmar Mendes, o Francisco Mendes, que as pessoas chamam de Chico Mendes. O Chico Mendes, o Allan de Abreu, da piauí, conta a história dele magistralmente numa reportagem veiculada no primeiro semestre do ano passado. O IDP, que é a faculdade, a escola do Gilmar Mendes, tem um contrato com a CBF muito grande, com a CBF Academy, que é o laço de educação, digamos assim, da CBF. Depois da reportagem do Allan, muita coisa aconteceu mostrando quão forte tem sido Chico Mendes dentro da cartolagem. Ele não tinha até então nenhum cargo na CBF, mas agora ele tem. Em dezembro de 25, ele se tornou para dar um tom institucional para o entra-e-sai de dentro da CBF, ele assumiu a vice-presidência da Federação Mato-Grossense de Futebol. No mês seguinte, janeiro de 26, teve, digamos assim, um tour entre cartolas, presidentes de alguns times de futebol, mais presidentes de federações estaduais para países como Alemanha, Espanha, Inglaterra. Basicamente, eles foram ver como os campeonatos de lá funcionavam. Aí estava um monte de gente, como, por exemplo, Helder Barbalho Filho, da família Barbalho e um dos dirigentes do clube Remo, lá do Pará. Também estava a Michelle Ramalho, vice-presidente da CBF, presidente da Federação Paraibana, dentre muitas outras pessoas. O Gilmarpalooza do Chico Mendes, foi usado meses depois para receber essas pessoas. Então, o Gilmarpalooza tem sido aparelhado para ser um instrumento de lobby também pela CBF. E daí, o que se sabe é o seguinte: o Chico Mendes, na prática, ele já é o presidente da CBF. Tanto que teve esse primeiro jogo do Brasil contra o Marrocos, um jogo que...

Celso Rocha de Barros: Não foi lá uma exibição de gala.

João Batista Jr: No ônibus em que a seleção chegou para o estádio estava um cara chamado Rafael Carvalho, que vinha ser um dos coordenadores do IDP, escola de Chico Mendes. O presidente em exercício da CBF, em tese, é o Samir Xaud. Saiu a notícia de que ele teria levado a oficial e a amante para a Copa, sendo a oficial para o México e a amante para Nova York. Aí eu achei sacanagem também.

Ana Clara Costa: Poxa...

João Batista Jr: Mas enfim, teria sido um fogo inimigo interno da CBF para enfraquecê-lo. Porque a verdade é que o Chico Mendes está preparando o terreno para ele assumir a presidência da CBF. Então é só para misturar os assuntos. O Hugo Motta foi para o Gilmarpalooza. Gilmarpalooza, que, por sua vez, tem sido usado pelo Chico Mendes para ganhar mais espaço dentro da CBF. Em tempos de Copa, a vida pessoal do atual presidente acabou vindo à tona para enfraquecê-lo de alguma forma.

Ana Clara Costa: É tudo uma grande coincidência.

João Batista Jr: Exatamente.

Ana Clara Costa: Bom, vamos encerrando por aqui o primeiro bloco do programa, com essa semana extremamente movimentada. E no próximo bloco, a gente vai falar sobre as festas do Daniel Vorcaro. O João Batista com os seus bastidores. A gente já volta!

Ana Clara Costa: Estamos de volta no segundo bloco e agora o João Batista traz a parte mais saborosa e, digamos, ainda não oficial do caso Master, que são festas do Daniel Vorcaro em Trancoso e em Fernando de Noronha, né João?

João Batista Jr: Exatamente.

Ana Clara Costa: Muito luxo, muita gente importante, muitas mulheres, celulares eram proibidos e enfim, a gente quer saber o que ninguém sabe, João. Conta pra gente.

João Batista Jr: Ana, você sabe que muito tem se falado dos eventos que ele patrocinava aqui no Brasil e fora, mas eu queria entender como eles aconteciam e quem frequentava, né? Então, eu fui atrás de algumas pessoas para poder ver se a gente conseguiria levantar essa apuração. Até fiz uma matéria para o site da piauí, quem tiver curiosidade pode ler mais a respeito. Mas vamos lá. No ano passado, o Daniel investiu 40 milhões de reais para ter um camarote aqui no carnaval, mas foi todo um pacotão. Teve um camarote, ele fechou um andar no camarote ao Alma Rio, onde ele levou vários políticos. E ele também fez uma festa fechada no Parque Lage, onde o Ciro Nogueira estava, entre outras pessoas, e alugou uma mansão em Santa Teresa para os convidados estrangeiros dele ficarem dançando ao som de Alok vendo a Baía de Guanabara. Ele, muito generoso. Acaba terça-feira o carnaval no Rio de Janeiro, quando nem venceu a ressaca com Epocler, ele começa a fazer festas em Trancoso. Então, na Quarta-feira de Cinzas, Vanessa da Mata e Silva cantaram na casa dele, em Trancoso, para alguns dos amigos estrangeiros que chegaram. Tudo muito bonito. No dia seguinte, ele trouxe de avião um Atum Bluefin de Barcelona até Trancoso.

Celso Rocha de Barros: Ele trouxe o peixe inteiro?

João Batista Jr: A peça inteira. Ele contratou um chef de cozinha chamado Rafael Gomes, que foi vencedor do reality show MasterChef Profissionais 2018.

Celso Rocha de Barros: Olha só!

João Batista Jr: É até engraçado porque um funcionário da casa me contou a respeito de tudo isso e eu liguei para o Rafael para checar a informação e ele falou: "Não, eu nunca trabalhei para o Vorcaro". E o cara tinha me passado a data. Daí no Instagram do chef estava lá o peixe sendo desembrulhado com um monte de gelo. Eu mandei para ele: "Vamos falar sobre isso?". Daí, ele não respondeu mais.

Ana Clara Costa: Por que será, né João?

João Batista Jr: Em um dia a atração foi o Silvia e a Vanessa da Mata e no outro dia foi esse peixe. Mas enfim, daí eu falei com o funcionário que me contou coisas bastante curiosas. Assim, aquela casa de Trancoso, que é uma casa gigantesca, ela tem uma casa principal e outros bangalôs. Era uma casa que pertencia ao casal Sandra e Sérgio Habib, que ficaram muito, muito ricos com concessionárias de carros. Eles trouxeram a Citroen para o Brasil, Land Rover para o Brasil, Aston Martin...

Ana Clara Costa: JAC Motors.

João Batista Jr: Exatamente. Eventualmente, eles alugavam a casa para o Vorcaro. Teve uma festa cujo cantor foi Naldo Benny, em que lotou mais do que se desejaria e quebraram algumas coisas. O casal ficou bastante chateado. Daí o Vorcaro falou: "Quero comprar a casa". A Sandra falou: "não tá a venda". Ele falou: "me dá um valor". Ela deu um valor super alto para ele falar não, mas ele comprou, fechou.

Ana Clara Costa: Como o dinheiro não era dele, ele comprou.

Celso Rocha de Barros: É, exato.

João Batista Jr: 280 milhões de reais. Aí quando ele compra a casa, ele passa a ter um esquema em que os funcionários ficaram proibidos de fazerem foto, de fazerem vídeos. E ele foi bem estruturado. Eram 30 funcionários na casa, então eles eram divididos por alguns setores. Tinha jardinagem, camareiras e escritório. Tinha um RH para cuidar da escala das pessoas. A casa...

Ana Clara Costa: É uma empresa, né? 30 pessoas é uma empresa.

João Batista Jr: Maior do que muita empresa. E aí, as pessoas falam que ele era muito gente boa, muito legal. As festas começaram a mudar. Tinham festas que eram para a família e para amigos, como por exemplo com Silva, Vanessa da Mata, com atum espanhol e outras festas que eram mais para amigos, mais 18+. Aí o funcionário falou que ele tinha uma delicadeza, digamos assim, para com os convidados. Tinha um tradutor de russo para intermediar as conversas entre os amigos e as mulheres contratadas e um tradutor de inglês. A casa dele é de frente para o mar, tem uma saída exclusiva para o mar. Um vizinho contou o seguinte: que formava uma tenda branca ali. Então, tinha um paredão quase de seguranças e era comum ver mulheres muito jovens e amigos não tão jovens ali naquela região.

Ana Clara Costa: Mas é claro.

João Batista Jr: O Vorcaro estava construindo uma cerca viva um pouco maior para ele ter ainda mais privacidade. Ia passar de dois metros para três metros e vinte. Aí ele foi preso pela primeira vez, quando ele tentava embarcar no aeroporto de Guarulhos. Naquele momento, a cerca estava sendo construída, então a obra ficou um pouco parada e depois a obra foi finalizada. No réveillon deste ano, o pai dele, que hoje está preso por coordenar a parte violenta da organização criminosa, passou o réveillon lá, mas depois nunca mais ninguém voltou. Então, em abril deste ano, teve um passaralho. Dos 30 funcionários, 24 foram demitidos. Ficaram só com seis. Tinha uma pessoa, algumas pessoas responsáveis por lustrar prata e a louça. Ele gostava de Tânia Bulhões. Eu já não sei se era com o logo dos limoncello lá...

Ana Clara Costa: Também não surpreende gostar de Tânia Bulhões.

João Batista Jr: E enfim, teve esse passaralho. E desde então, desde o réveillon, ninguém mais voltou pra casa. A casa vai ser um dos grandes ativos, aliás, para os liquidantes, porque ela é num terreno muito grande, de frente para o mar. Talvez ele tenha pago algo inflacionado, mas o fato é que a casa vale muito. Agora a gente vai subir um pouco. Vamos para Fernando de Noronha. No réveillon de 22 para 23, ele tinha uma relação extraconjugal com a atriz Monique Alfradique.

Ana Clara Costa: Agora, só para a gente colocar no tempo espaço, essa época era a época de glória dele. Não tinha investigação nenhuma. O Banco Central não tava pegando tanto no pé dele. Era a época, enfim, o auge, né?

João Batista Jr: Aí ele fechou uma pousada lá em Noronha e ele fechou outra pousada ao lado para ninguém pisar, porque ele não queria atrapalhar com o barulho e ter privacidade. No dia 31, na noite da virada, ele não passou lá com os amigos. Ele passou com a família dele e depois ele retornou. Nessa temporada, o Vorcaro quis surpreender a atriz. Ele fechou o Forte de Nossa Senhora dos Remédios, conhecido por Farol Noronha, uma fortificação construída em 1737, sob o reinado de João V de Portugal. Ali, para apenas dez convidados, entre eles o ator e humorista Marcos Majella e o dentista Thales Bretas. Tocaram a banda Gipsy Kings e o DJ australiano Chet Faker. O Chet Faker estava no Brasil para fazer uma outra... Participar de uma dessas coisas de final de ano, e daí o Vorcaro gostou da ideia e levou para lá. Dentro de um festival chamado Playa, que acontece numa pousada chamada Zé Maria, ia ter o show do Silva. Daí o Vorcaro foi lá e ele quis fazer um camarote só para ele e para Monique. Ele pagou 150 mil reais só para fechar aquele espaço. E ele, em tese, não queria mais ninguém. Daí o lugar estava coalhado de artista, influencer e tal. Os artistas falaram "então a gente faz um camarote B" e ninguém foi para o camarote do Vorcaro quando ele começou a convidar. Então, ele e a Monique ficaram isolados num camarote. Ele gastou uma fortuna para passar duas horas ali, mas saíram no meio do show. A gente chegou na apuração de que o Vorcaro quando fica animado, ele gosta de cantar junto com os artistas. Nem todos os artistas gostam, mas ele contratava artistas assim, de mundos muito variados, tipo aquela banda de pagode Sambô.

Ana Clara Costa: Não conheço.

João Batista Jr: O Sambô faz versões assim do Coldplay em samba.

Celso Rocha de Barros: U2...

João Batista Jr: Sambô é um puta sucesso dos churrascos do Brasil afora, em Araçatuba tenho certeza que faz sucesso.

Ana Clara Costa: Mas eu não sou mais de lá.

João Batista Jr: Então, quem já foi contratado por ele para cantar em Trancoso? Nando Reis, Gilsons, Marcelo Falcão. Ele era um grande...

Ana Clara Costa: Financiador das artes.

João Batista Jr: Financiador do mundo, exatamente. Do mundo cultural. Isso é bastante interessante. Daí, o funcionário falou para mim que só reconheceu um político na casa dele. Eu perguntei: "quem?". Funcionário da Bahia, reconheceu ACM Neto. ACM Neto, que por sua vez, teve uma empresa que apareceu como, digamos assim, agraciada por um dinheiro vinculado ao Master, 3,6 milhões de reais. Aí eu entro em contato com a equipe do ACM Neto, ACMinho, para falar "Olha, estou fazendo uma apuração sobre as festas, gostaria de saber o outro lado". O assessor falou assim: "ele pediu para que você reavalie essa informação, pois está errada. Ele nunca esteve na casa. Não gosto de fazer isso, mas vou falar aqui. João, você não deveria publicar porque está errado. Você vai publicar?". Eu falei: "sim, eu vou publicar". Confiei na fonte, bati com outra pessoa. Daí ele falou então vou te mandar uma informação. Daí a nota do ACM Neto mudou: "em atendimento a demanda da revista piauí informo que frequento Trancoso há décadas. Estive uma única vez na residência de Daniel Vorcaro, no ano de 2024, mas nunca, jamais, participei de festa na casa dele".

Celso Rocha de Barros: Beleza.

João Batista Jr: Bom, a resposta oficial está aqui, né mesmo? Então é isso.

Celso Rocha de Barros: Se ele tá falando... Quem sou eu?

João Batista Jr: Exatamente. O Daniel Vorcaro era um cara muito generoso. Ele fazia muitas festas ali em Trancoso. Aparentemente, essa propriedade, comprada em junho de 2024, foi usada para diversas finalidades, tanto para receber familiares e namoradas, no caso, a Mata Graeff que teve ali inúmeras vezes.

Ana Clara Costa: A oficial.

João Batista Jr: Tanto para ele fazer essa promoção da cultura nacional, contratando artistas. Tanto para ele, talvez fechar negócios, assim, fazer umas festas mais picantes, 18+.

Celso Rocha de Barros: Que beleza, hein? Pessoal aposentado do Rio de Janeiro, vocês querem saber como foi gasto o dinheiro de vocês?

João Batista Jr: Em atum!

Celso Rocha de Barros: Foi esse peixe aí que viajou de avião.

Ana Clara Costa: Cara, ele tá preso agora. Ele deve ter boas memórias, pelo menos. Se a realidade não ajuda, né? O presente não ajuda, pelo menos o passado, deve trazer boas lembranças para ele. Tudo financiado com o dinheiro...

Celso Rocha de Barros: Dos outros, né? É isso que a gente tem que ter em mente.

Ana Clara Costa: Aquele dinheiro que se gasta mais fácil.

Celso Rocha de Barros: Para você chegar uma pessoa e falar "vou comprar sua casa", "não quero vender", "fala qualquer número que eu pago", é porque o dinheiro não é seu né cara?

João Batista Jr: Agora tem uma coisa que é muito fascinante, que é o seguinte: essas festas todas, a gente está falando aqui em tom de dando risada, porque tem o caráter de humor involuntário mesmo, mas era parte de como esse homem operava. Então assim, viagens para Nova York, financiamento de eventos em Londres e em outros lugares do mundo, viagens para Courchevel, tudo isso era uma forma de fazer com que esses políticos todos devessem favor para eles, correto? Quando você chama um artista do quilate desses que a gente citou para shows privês, você quer algo em troca.

Ana Clara Costa: Você compra acesso, compra, influência. Tudo é muito transacional.

João Batista Jr: Compra emendas.

Ana Clara Costa: Exato.

Celso Rocha de Barros: Já que o Fernando não tá aqui, eu vou fazer uma citação aqui, porque tem que ter. O Fernando, você não sabem, ele está de folga porque vai jogar na seleção Uzbequistão na Copa. Então, mas como dizia Adam Smith, na Riqueza das Nações, raras vezes os membros de uma mesma profissão se reúnem, mesmo que para diversão ou entretenimento, sem que a conversa termine em uma conspiração contra o público ou em alguns estrategemas para aumentar os preços.

Sonora: Cabeção.

Celso Rocha de Barros: O que ele queria dizer? Sempre que você tiver essa reunião de rico, mesmo que seja uma festa social, um negócio, é para armar alguma coisa contra os caras que não estão convidados para a festa. E no caso do Vorcaro é óbvio, a gente não está aqui só fazendo porque é engraçado a gente se meter na vida de um rico maluco. É porque, primeiro, esse dinheiro, como a gente disse, é roubado. E segundo, é assim que ele fazia o seu networking, assim ele ia montando essa sua rede de contatos políticos. Enfim, é aquilo que a gente tave dizendo outro dia aqui: teve gente dizendo que não podia divulgar o conteúdo inteiro dos celulares do Vorcaro, porque teria, enfim, vídeos íntimos das autoridades, etc. Cara, olha só uma coisa, se fosse um vídeo que o cara fez lá com a namorada dele e isso não é problema de ninguém.

João Batista Jr: Não interessa a ninguém.

Celso Rocha de Barros: Exato. Agora, veja bem, se a gente trata o cara voar no avião do Vorcaro como sinal de proximidade, se a gente trata o cara ficar hospedado na casa do Vorcaro como sinal de proximidade... O cara ir numa suruba com o Vorcaro, tem que ser tratado como sinal de proximidade, certo?

João Batista Jr: Exatamente.

Ana Clara Costa: É um grau de intimidade.

Celso Rocha de Barros: Cara? Exatamente. É um negócio muito sério.

João Batista Jr: Bom, ele providenciou uma tradutora para pessoa se comunicar bem na suruba.

Celso Rocha de Barros: Essas pessoas têm que ser um tradutor com um vocabulário muito específico, npe? Para ser tradutor de suruba. Tem que saber...

João Batista Jr: Na língua de Rasputin.

Celso Rocha de Barros: Tem que ser um troço bastante... Tem que ser profissionais altamente qualificados para fazer isso aí. Mas, enfim... Mas aí vocês vão vendo como é que é. Como é que esse mundo funciona. Quer dizer, por exemplo, quando eles dizem "não, fiz isso só porque o Ciro é meu amigo", ele é amigo do cara mesmo, mas é uma amizade forjada em torno de sacanagem. Então, todas essas fronteiras entre o público e o privado vão se dissolvendo. Não sei o que lá é. Só quem não participa da conversa é você que tinha dinheiro no Master, que o seu governo estadual botou dinheiro da sua aposentadoria do Master ou que a sua prefeitura pegou dinheiro público para botar em Dark Horse junto com os caras do Master e enfim, é por aí.

João Batista Jr: E ele era tão obcecado com privacidade que mesmo o staff dos artistas não entrava pela casa principal, entrava pelo acesso de serviço. Muitos não ficavam no local onde estava tendo a festa, tinham de ficar em um ambiente separado, mas ele era generoso onde hospedar essas pessoas todas ficavam no Fasano de Trancoso.

Celso Rocha de Barros: Olha só.

Ana Clara Costa: Claro.

Celso Rocha de Barros: Novamente, é um generoso com o dinheiro dos outros, né?

Ana Clara Costa: Bom, depois dessa apuração picante do João Batista sobre o departamento de festas.

Celso Rocha de Barros: Como é que era na Odebrecht?

Ana Clara Costa: Departamento de Operações Estruturadas.

Celso Rocha de Barros: Estruturadas. Exato.

Ana Clara Costa: Esse é o Departamento de Festas Estruturadas.

João Batista Jr: Master Parties.

Ana Clara Costa: Exato. Enfim, terminada essa apuração minuciosa do João, a gente vai para o terceiro bloco e a gente vai falar sobre o que acontece com os votos da direita caso Flávio Bolsonaro não sobreviva ao Master. A gente já volta.

Ana Clara Costa: A gente volta para o terceiro bloco. Na última pesquisa Quaest, sobre a qual a gente já falou no episódio anterior, é possível ver o Flávio Bolsonaro em queda e o Lula abrindo vantagem, mas não necessariamente as intenções de voto das pessoas que ficaram insatisfeitas com o Flávio, com o envolvimento dele com o Master e tudo mais, está migrando para o Lula ou nem mesmo para o substitutos do Flávio na direita, como o Romeu Zema ou o Ronaldo Caiado. Algumas razões que o Felipe Nunes da Quaest nos dá para esse movimento, ou seja, esse deserto que está acontecendo na direita, de eles não conseguirem absorver os insatisfeitos com o Flávio, é o fato deles não serem conhecidos. Então as pessoas falam "ah, eu vou... não votar no Flávio, votar nesse cara que ninguém vai votar? nesse Zema, quem que é?" Mas o fato é que havia uma expectativa de que se o Flávio desidratasse, haveria um herdeiro no campo da direita. Isso não está se confirmando nesse momento, apesar de que há um núcleo ali, sobretudo em São Paulo, Faria Lima etc, que quer alçar o Renan Santos, do MBL, que agora é um partido, partido Missão, a esse posto de herdeiro da direita não bolsonarista, né? Eles querem emplacar ele de qualquer jeito. Mas assim, até agora, as pesquisas mostram que ele é tão ou talvez mais desconhecido do que o Zema e o Caiado. Aliás, pelos números da Quaest, o índice de desconhecimento do Renan é de 70%, enquanto o do Zema é de 51% do Caiado de 48%. Acho que até por isso, um dos motes da publicidade da propaganda do Renan é: quem é Renan Santos? Então, vamos falar um pouquinho sobre como que tá esse deserto da direita com o Flávio titubeando. Celso, o que você nos traz?

Celso Rocha de Barros: É isso mesmo, Ana. As pesquisas têm mostrado uma queda do Flávio, que não está tendo uma subida correspondente nem no Lula nem nos outros candidatos de direita. Então, para onde estão indo essas pessoas e o que elas devem fazer no dia da eleição? É uma coisa que a gente ainda vai saber. Eu acho que vale a pena a gente separar dois grupos aqui. O pessoal que já era eleitor do Flávio, seja porque gostava do Flávio, seja porque odeia o Lula, e um pessoal que tinha migrado para o Flávio e que foi muito importante para aquele momento em que o Flávio empatou tecnicamente com o Lula. E eu suspeito seriamente que deve ter passado o Lula num certo ponto, que estava empate técnico com ele na frente e você sentia que a dinâmica da coisa estava apontando mais para ele. Esse movimento começou, sobretudo, quando saíram as denúncias contra o Alexandre de Moraes. As denúncias contra Alexandre de Moraes reforçaram esse sentimento antissistema, pareciam dar uma certa razão ao bolsonarismo no sentido de dizer que o Alexandre de Moraes era picareta. O que, aliás, não tem nada a ver uma coisa com a outra. Alexandre Moraes pode ser picareta e pode ter atuado brilhantemente no processo contra o golpe. Essas duas coisas não são absolutamente excludentes. Agora, esses eleitores que chegaram no Flávio por esse mecanismo provavelmente devem ter ido embora quando saiu um áudio do Flávio pedindo dinheiro para o mesmo cara que é acusado de dar dinheiro para o Xandão. Então, assim, se você chegou na candidatura Flávio por causa do escândalo Master, tem uma boa chance de você sair quando o Flávio passa para o centro do escândalo Master. Além disso, você tem alguns sinais evidentes de desgaste do Flávio com a base dele. O Juliano Spyer, que é colunista da Folha de São Paulo, é autor de um livro muito interessante sobre os evangélicos brasileiros. Escreveu um artigo na Folha no dia 15 de junho, em que dix: os evangélicos, abandonam o Flávio Bolsonaro e migram para Lula e Renan. Por que ele diz isso? Porque ele tem muitas fontes no meio evangélico, disse que os pastores estão muito decepcionados com o Flávio. Eles nunca se empolgaram com o Flávio, que eles queriam a MichelLe como vice do Tarcísio. O Malafaia, por exemplo, nunca fez nenhum mistério, que era isso que ele queria e disse que todas as grandes lideranças evangélicas queriam isso. E pelo menos em um caso, o da Igreja Ministério Madureira, da Assembléia de Deus, declarou apoio ao Caiado. Então, assim, o Flávio nessa base, que é a base onde ele ganha ou perde a eleição, porque, assim, Quando a gente fala desse crescimento da direita orgânica, ideológica, o importante aqui é a igreja evangélica. Quem faz trabalho de base, como os movimentos sociais faziam para o PT antigamente e tal, é a igreja evangélica. Essa base popular do Flávio não é muito entusiasmada com ele. Então essa coisa de ele ser ladrão, eles não estão particularmente surpresos com isso, inclusive, e eles gostariam muito de ter outra opção para votar. O Juliano nota que o Lula continua muito rejeitado pelo segmento evangélico, mas na última pesquisa o apoio dele subiu de 24 para 31% entre os evangélicos. É bom tomar cuidado com uma coisa: a margem de erro em subgrupos é bem maior do que na amostra inteira. Então esse 24 para 31 parece no olhômetro, assim, grande o suficiente para estar fora da margem de erro, mas não deve estar muito fora. Então o Lula deve ter subido, mas pode não ser tudo isso. Inclusive, o Juliano aí vai dizer que o Renan é o único da direita que cresce. Ele cresce três pontos, 40 para 43. Aí o risco é alto desse crescimento ter sido só margem de erro. Mas de qualquer maneira, é uma possibilidade. E por que isso está acontecendo? Primeiro, o Jair Bolsonaro foi muito eficiente neutralizar os rivais de direita dele ao longo dos últimos quatro anos. Ele exigiu submissão total daqueles governadores de direita que eram potenciais presidenciáveis. Os caras deram tudo o que o Bolsonaro quis. Os caras defenderam a anistia. Os caras disseram que não foi golpe. Os caras chamaram o Xandão de golpista, apoiaram Trump, apoiaram as maiores barbaridades. Ficaram bastante desmoralizados com quem não é bolsonarista. E aí depois o Bolsonaro largou eles a ver navios. Então esses caras já não são uma alternativa que entusiasmam o cara que tá afim de uma alternativa ao bolsonarismo porque eles entregaram tudo que Bolsonaro queria, com a diferença que eles não têm os votos que o Bolsonaro tem. O Zema teve um lapso momentâneo de consciência moral em que ele denunciou Flávio quando saiu o áudio do Vorcaro. Mas aí a direita inteira, a começar pelo partido dele, o Partido Novo, inclusive, incluindo Deltan Dallagnol, caíram de pau em cima do Zema, dizendo que ele não devia denunciar a corrupção do Flávio Bolsonaro.

Ana Clara Costa: Porque essa corrupção pode.

Celso Rocha de Barros: Essa daí tá liberado, porque prioridade é você combater o PT. Então você já vai vendo o peso real que o Partido Novo dá a questão da ética na política, né? Então, assim, a verdade é que esses outros candidatos de direita foram neutralizados pelo Bolsonaro. O Bolsonaro castrou esses caras. Então agora mesmo se o cara não quiser votar no Flávio, ele olha para esses caras e fala: isso aí é o Flávio castrado. Não dá para se entusiasmar com isso. O Renan é um caso diferente. Eu acompanho a história do MBL desde o começo. Eu acho um caso muito interessante, porque a direita brasileira sempre foi muito mais uma máquina do que um partido. Ela sempre tinha muito mais poder nas instituições do que propriamente na base da sociedade. Então, os partidos brasileiros, vários deles, sempre foram criados a partir do Estado, a partir de esquemas de corrupção locais, a partir de esquemas de patronagem, esquemas de clientelismo, etc. E a direita a partir, principalmente, de ditaduras, ela basicamente extinguiu os esquemas que eram ligados ao Varguismo, só sobra os esquemas dela. E é por isso que até hoje a política brasileira é dominada pela direita. Quando a direita passa uma temporada inédita na oposição, porque até o Lula ganhar a eleição, a direita nunca tinha sido oposição. Começam a surgir os incentivos para surgir uma direita orgânica, uma direita da sociedade civil, e surgem. E o MBL é o caso mais bem sucedido disso. Você pode achar o que você quiser do MBL, mas eles conseguiram botar multidões nas ruas durante a luta pelo impeachment. Bom, outro dia eu recomendei aqui o livro do Roberto Jefferson. Agora eu vou recomendar um livro do MBL. Só clássicos aqui no programa.

Ana Clara Costa: Puxa, Celso!

João Batista Jr: O Adam Smith não sei se vai ficar tão feliz com as suas recomendações.

Celso Rocha de Barros: Não vai. Na última Feira do Livro, teve dois autores já recomendados aqui no momento Cabeção, que protestaram pela recomendação do Roberto Jefferson. Antes eles eram felizes, tavam felizes de entrar na nossa lista. O livro se chama "Como um grupo de desajustados derrubou a presidente: MBL: A Origem". Sim, tem duas vezes dois pontos no título do livro. Escrito pelo Kim Kataguiri e pelo Renan Santos, o candidato a presidente agora, que é eles contando a história do movimento e é um documento interessante, eles foram um movimento importante naquele momento. Mas se vocês acompanharem a trajetória, vocês vão ver, eles começam num radicalismo bem tosco, inclusive bem juvenil. O Kataguiri tinha 18 anos, 19 anos. E muito ruim, assim, se você for analisar os documentos dele tentando achar a substância ali, mas a medida que eles vão se institucionalizando, o que é muito rápido, porque é muito fácil você ser político de direita no Brasil, então eles imediatamente são incorporados pela elite política brasileira. Eles primeiro tentam dar uma moderada. Eles tentam fazer uns eventos com o pessoal mais centrista. Eles tentam reconhecer o papel que eles tiveram durante a polarização durante o impeachment, dizer que a polarização pode ser um problema. O Kim Kataguiri, sobretudo, tenta se apresentar como um político mais institucional, normal. Enfim, eu conheço parlamentares de esquerda que disseram que ele era um cara que dava para conversar dentro do Congresso e que durante o bolsonarismo ele era um cara que não comprava aquelas maluquices do Bolsonaro. O problema é que isso não deu voto. Isso não deu certo. Eles não conseguiram decolar com o movimento. A base deles comprou o bolsonarismo. Então eles agora fizeram uma nova virada à direita, que é bastante extrema. Então, essas últimas ideias defendidas pelo MBL são muito radicais. Então eu recomendo para vocês duas coisas. Um é o texto da Ana Luiza Albuquerque, que é a jornalista que melhor cobre extrema-direita no momento. No dia 23 de maio 2026, ela escreveu um artigo na Ilustríssima chamado "Partido do MBL se inspira em ultradireita do Vale do Silício para desafiar Bolsonaro", em que ela vai contando, por exemplo, como o MBL chamou para o seu congresso aquele Curtis Yarvin, o Mencius Moldbug, que a gente já falou dele aqui. É um cara de Silicon Valley que defende que a democracia já deu o que tinha que dar. Acabou. Não serve mais para nada. Tem que ser substituída por uma espécie de monarquia meio tecnocrática. Um negócio que, aliás, é muito tosco intelectualmente, muito ruim. Assim, se não tivesse rico pagando para essas idéias circularem, elas jamais sobreviveriam no debate de ideias. Normal. Eles trouxeram o esse cara aqui no seu congresso. Aplaudiram ele de pé, acharam ele um grande sucesso. Se vocês quiserem também, um outro texto que recomendo para vocês é o do Thiago Süssekind, que escreveu no seu substack um texto chamado "O MBL, enfim, abraçou a extrema-direita", que é bastante chocante. Se vocês forem ver, tem gente do MBL defendendo voto censitário, voto regulado pela renda. O voto dos mais pobres valeria menos. Tem gente do MBL defendendo intervenção em estados pobres que costumam votar na esquerda, como no Maranhão. Então esses deveriam virar territórios como antigamente eram Roraima ou Rondônia. O nível do negócio é bastante radical, bastante tosco. Bom, e acho que todo mundo viu aqui o publicitário do MBL falando do Vinicius Jr.

João Batista Jr: Exatamente.

Celso Rocha de Barros: Se você não viu, eu não vou repetir aqui. É absolutamente escandaloso. Então eles abraçaram isso, mas misturado num lado meio farsesco. Se vocês pegarem as fotos do evento do MBL, parece um negócio meio carreta furacão fascista, sabe?

João Batista Jr: Exatamente.

João Batista Jr: Então você tem um cara vestido de onça pintada, o Renan com uma jaqueta militar segurando uma espada.

João Batista Jr: Com umas espadas.

Ana Clara Costa: Um cara com um brasão do Brasil Imperial? Que, cara, sei lá, entendeu?

João Batista Jr: Acima de tudo, eles são bem cafonas.

Ana Clara Costa: E você sabe que é com essa estética que alguns empresários da Faria Lima estão coletando dinheiro para financiar essa candidatura. Porque o Renan, ele quer uma van, micro-ônibus, um trailer, sei lá, algo do gênero, para correr o Brasil, para as pessoas conhecerem quem ele é. E aí esses empresários da Faria Lima estão fazendo uma vaquinha para tentar bancar essa viagem.

Celso Rocha de Barros: Vocês sabem que depois do episódio que a gente discutiu aqui o Curtis Yarvin, há um tempo atrás, que a gente estava falando desses milionários fascistas do Vale do Silício e tal. Um cara me mandou uma mensagem dizendo "Oi, eu organizo palestras para empresários e tem muita gente interessada nas ideias do Curtis Yarvin, você aceitaria falar sobre isso?".

Ana Clara Costa: Meu Deus.

Celso Rocha de Barros: Eu, obviamente, não aceitei. Pensei em ir lá e xingar todo mundo, mas.

João Batista Jr: Deixa eu ver minha agenda. Estou sem agenda.

Celso Rocha de Barros: Pois é. Então, bom, mas também, cara, se vocês olharem um lobby de aeroporto aqui no Brasil, o que que os caras estão fazendo ali? Tem alguém lendo livros minimamente desafiantes sobre assuntos relevantes? Não tem. Então esses caras vão achar o MBL inteligente mesmo, entendeu? Então é isso aí. Agora é bom sempre destacar o Renan tem um desempenho até bom na pesquisa para um cara que era totalmente conhecido, está no partido recém fundado. Isso lembra um pouco o desempenho do PT lá no comecinho, quando o PT só perdia a eleição. Então, se for analisar sob esse ponto de vista sobre um negócio que começou agora e eles querem fazer crescer daqui a 20 anos, o desempenho dele é bom. Mas nas pesquisas nacionais, ele ainda não teve nenhuma grande manifestação de sucesso. Ele ainda não entregou pontos de pesquisa que fariam mais gente aderir à candidatura dele. Ele é mais, por enquanto, um fenômeno de redes sociais, etc e tal do que alguma coisa que as pessoas na Central do Brasil estejam lá discutindo.

Ana Clara Costa: João, você que também tem muita apuração sobre esse périplo do Renan Santos e essa tentativa de alguns grupos fazerem o nome dele vingar, conta pra gente que você ouviu.

Ana Clara Costa: Tem uma coisa que é interessante. O Celso explicou o poder de mobilização digital que eles têm, o que eles fizeram com as manifestações, enfim, todos sabemos. Hoje o TSE pede para que, uma vez que homologado o pedido de criação de um partido em até dois anos, isso seja realizado. O Renan conseguiu mais de 547 mil assinaturas, que é o equivalente a 0,5% dos votos válidos para deputados federais para criar o Missão em menos de dois anos. Isso é grande. Aí ele colocou pessoas trabalhando de fato, recebendo dinheiro para trabalhar, para conquistar essas assinaturas em lugares como pontos de ônibus em São Paulo, aqui na praia no Rio de Janeiro e tal. Tiveram algumas polêmicas em relação porque muitas pessoas depois falaram que elas não estavam sabendo exatamente para que se tratava aquela assinatura. Então era você a favor da educação no Brasil? Sim. Quem não é a favor da educação no Brasil? Daí, quando você veio, você estava encampando a criação do partido do Renan. Eu tive com a vereadora Amanda Vettorazzo em São Paulo, no gabinete dela, para poder entender o Renan. Eles acreditam que por terem personalidades de fato, eles são anti-Bolsonaro. Na última eleição presidencial, eles pediram para que as pessoas não fossem votar no Bolsonaro. Não declararam apoio a ele. E o Renan tem batido muito na tecla de que o Flávio é corrupto, que o Flávio está dentro do guarda chuva do Master. Então ela disse que naturalmente quem é anti-corrupção e anti master e está descontente com o Flávio, vai cair no colo dele. Mas ela também assume que hoje o Renan tem um voto masculino, jovem, entre 25 e 35 anos e em São Paulo. Por isso o Renan tem feito o que ela chama de um tour ali pelo Nordeste. Ele já esteve no Maranhão, como você citou, Pernambuco, Bahia. A estrutura de campanha dele é pequena. Segundo ela, até três semanas ele tinha um segurança, mas agora ele está com dois e tem um cara que faz rede social do cara. O Renan, ele é muito esperto. Ele tem ido nesses podcasts, a exemplo do que o Trump fez na última eleição dos Estados Unidos, em podcasts cristãos, de Faria Lima que falam de dinheiro, e essa macharada de podcast, porque são muitos minutos, ele faz os cortes, as pessoas fazem os cortes, os fãs dele, e aquilo se replica, quase como o Marçal fazia. Só que o Marçal fez até a eleição municipal de São Paulo algo remunerado. Tinha os cortes do Marçal, então ele pegava um vídeo, a pessoa tirava fragmentos daquele vídeo e os vídeos da semana que mais alcançassem visualizações eram remunerados pelo Marçal. O Renan não remunera, mas ele estimula esse corte por parte dos fãs dele. Aí tem uma coisa interessante do MBL, que é o seguinte: o Renan, ele tem feito essa campanha com dinheiro de doações. Pix mesmo. Segundo a Amanda, não tem grandes empresas por trás, mas são pessoas que são altamente engajadas e que pensam como os americanos, que a sociedade civil tem que bancar os partidos e os políticos. Mas como veem o dinheiro do MBL? Primeiro, YouTube. Eles são muito fortes no YouTube, é a rede social principal deles, depois doações por Pix. E depois tem o lado, me perdoe a palavra, intelectual, da coisa. São dois fragmentos, tem o Livro Amarelo que são fascículos. Esse livro eles explicam a fundação do MBL, a que que veio, porque eles dizem que o MBL é um projeto de Brasil de 30 anos e que vai finalizar esse livro amarelo agora na campanha do Renan. E ainda tem uma revista, que é a revista Valete. Aqui um pequeno preâmbulo, João Moreira Salles que nos desculpe, mas a piauí ele não imaginava que chegaria tão longe. A Valete foi inspirada na Piauí, no tamanho.

Celso Rocha de Barros: Ah é, o formato é o mesmo!

João Batista Jr: O formato e também nos textos longos. Enfim, a Valete, no Brasil, ela custa muito caro, a assinatura anual é 1.800 reais e é impressa e o público dele é jovem. Segundo os dados oficiais, são mais de 5000 assinantes. Então, a plataforma de governo do Renan é diminuir o número de municípios do Brasil, fazer um mutirão anti Bolsa Família. Aí é uma questão muito complexa. Mas ele basicamente quer que os municípios que tenha 30% ou mais da população, que são beneficiários do Bolsa Família, passem por um mutirão de melhorias. Então, quem não quiser trabalhar, por exemplo, em saneamento básico, em iluminação, automaticamente perderia o Bolsa Família. Isso é super complexo. É super louco, porque parte das beneficiárias são mulheres que têm alguns filhos em casa, não têm como elas construírem uma manilha para saneamento básico.

Celso Rocha de Barros: Diminuir o número de municípios, até que uma boa ideia. Interessante. Ninguém... É muito difícil fazer, mas essa ideia do Bolsa Família é uma imbecilidade. Completamente.

João Batista Jr: E daí, tem coisas mais complexas, como por exemplo, prender pessoas em situações de rua que tenha alguma questão de saúde mental, porque ele fala que essas pessoas são assediadores e estupradores em potencial. O MBL tem essa estética fascista, como você falou. Tem o fato do Renan ser super católico, a Amanda ser super católica. Ali no gabinete dela tinha uma coleção de Nossa Senhora Aparecida e isso vai ao encontro do que tem acontecido nos Estados Unidos. A direita Charlie Kirk, JD Vacne, esses são pessoas que têm o catolicismo como um pilar muito importante da plataforma política deles. E ele tem uma questão também importante de falar do Estado Mínimo, né? Então ele fala com Faria Lima, ele já esteve em encontros do Esfera, do João Camargo, em que ele tem tentado ter um diálogo com o mercado, falando de Estado Mínimo, de meritocracia, aquela coisa toda. Existe já uma lista de quem serão os candidatos pelo Missão. Então o Kim Kataguiri, deputado federal por São Paulo, Guru Zacarias... Esses dois, o Missão dá como certo. Eles devem vencer. E eu acredito que sim, porque são pessoas que já tem uma...

Celso Rocha de Barros: Eles vão ser candidatos a deputado?

João Batista Jr: Deputado federal.

Celso Rocha de Barros: Então, o Kataguiri não vai ser candidato ao governo estadual?

João Batista Jr: Não. Segundo a Amanda, não, pelo menos no quadro do agora. Mas ela falou que ao todo, Celso, vão ser dez candidatos a governadores. É muita coisa. Dentre eles, tem um cara chamado Marcelo Brigadeiro, por Santa Catarina, que ele é um lutador de MMA e influenciador, tem uma estética Red Pill bem forte. Tem o Gabriel Piauí, que já defendeu que o Bolsonaro teria de ter dado um golpe de estado. Enfim, quando você vai no Renan, ele até tem um discurso que é mais palatável para o Faria Lima e para um público em geral. Quando você vai no miúdo, os candidatos a deputado estadual, federal e governadores, aí eles podem ser um pouco mais radicais. Tem um fato que é curioso, que é o seguinte: tem ocorrido no campo digital uma vaquinha para quase todos os candidatos. Você pode ser candidato à Presidência da República, deputado estadual, abre uma vaquinha que só pode ser resgatado esse dinheiro quando a campanha de fato começar. Para vir aqui hoje no Foro, eu estava dando uma olhada, ontem o Renan tinha arrecadado 898 mil reais. Hoje, já está em um milhão cento e quinze mil reais. É muito dinheiro para apenas um dia. Ele é disparado o cara que mais arrecadou. Tem um candidato a deputado federal pelo Pernambuco, o Jones Manoel, depois tem Marcel Van Hatten, etc. Mas o Kim é em quinto lugar e ele já arrecadou 167 mil reais. Então, o Missão com esse engajamento de rede social tem sido bastante eficaz em arrecadar dinheiro para as campanhas deles.

Celso Rocha de Barros: Eu acho que agora é só a questão da gente saber se a direita está interessada em comprar um novo ciclo de radicalismo. Estão a fim de começar tudo isso de novo? Quer dizer, vai começar uma outra onda antissistema de direita. Será que as elites brasileiras querem isso? Talvez queiram, mas assim seria triste.

Ana Clara Costa: Bom, então a gente encerra aqui o último bloco do programa e a gente vai para um rápido intervalo e na volta tem Kinder Ovo.

Ana Clara Costa: Estamos de volta e vamos para o momento Kinder Ovo. Pode soltar diretora, que hoje está de home office, mas vai soltar pra gente.

Sonora: Acho que o melhor companhia que o PL pode ter, ao contrário do que disse o Eduardo, a melhor companhia de gente mais decente, mais preparada.

Ana Clara Costa: Ricardo Salles.

Sonora: Que verdadeiramente acredita nos valores que está dizendo que acredita, é o Partido Novo.

Celso Rocha de Barros: Porra!

João Batista Jr: Esse sotaque do clube paulistano não engana, né? Você foi rápida.

Ana Clara Costa: Sem comentários pro o meu acerto. Bom, eu nunca ganho, né gente?

Celso Rocha de Barros: Que isso!

Ana Clara Costa: Quem fala é o deputado federal Ricardo Salles, do Novo, de São Paulo, em entrevista à CNN Brasil. Agora a gente vai para o Correio Elegante. Eu começo com a mensagem da Michelle: "Que plot twist! Além de banqueiro vigarista, mecenas de arte duvidosa, articulador de suruba, o peleleco também é lelé?". Ai, meu Deus! "Não tem como não rir da nossa própria desgraça. Eu amo vocês! Obrigada por mais um episódio". Bom, eu me recuso a comentar essas palavras aqui.

João Batista Jr: Aqui uma mensagem do Marlus Mendes: "O Foro é tão galático que até quando o âncora sai de férias, o programa continua necessário e imperdível. Vocês fazem um jornalismo de excelência. Parabéns!

Celso Rocha de Barros: Aêê!

Ana Clara Costa: Obrigada, Marlon.

João Batista Jr: Obrigada!

Celso Rocha de Barros: Valeu, Márcio! Na mesma linha, a Mariana Alvarenga faz uma proposta: "petição pública para sortear um ouvinte para ir no bar com Ana Clara e João". Mariana, esse vale aqui no mercado da night do Rio, vale milhões. Nem o Vorcaro tem dinheiro para comprar essa.

João Batista Jr: Vorcaro free!

Ana Clara Costa: É, João...

João Batista Jr: Não. Tá mais do que convidada!

Ana Clara Costa: E assim vamos encerrando o programa por aqui. Se você gostou, não deixe de seguir e dar five stars pra gente no Spotify. Segue no Apple Podcasts, na Amazon Music. Favorita na Deezer e se inscreva no YouTube. No site da piauí você encontra a transcrição do episódio. O Foro de Teresina é uma produção do Estúdio Novelo para a revista piauí. A coordenação geral é da Bárbara Rubira. A direção é da Mari Faria, com produção e distribuição da Maria Júlia Vieira. A checagem é da Ethel Rudnitzky. A edição é da Barbara Rubira e da Mariana Leão. A identidade visual é da Amanda Lopes. A finalização e mixagem são do João Jabace e do Luís Rodrigues, da Pipoca Sound. Jabace e Rodrigues, que também são os intérpretes da nossa melodia tema. A coordenação digital é da Bia Ribeiro, da Emily Almeida e do Fábio Brisolla. O programa de hoje foi gravado no Estúdio Rastro, do Danny Dee, no Rio de Janeiro. Eu me despeço do João Batista. Tchau, João! Até a próxima aqui com a gente.

João Batista Jr: Tchau, Ana! Tchau Celso! Mari, Maria Júlia, obrigado por tudo. A partir da semana que vem eu tô do outro lado do fone escutando vocês junto ao Fernando. Um beijo em todo mundo.

Ana Clara Costa: Muito obrigada pela sua participação! E do Celso, tchau, Celso!

Celso Rocha de Barros: Tchau, Ana! Tchau todo mundo! E um abraço especial pro João aqui, que nos brindou com sua presença espetacular nesses dias.

João Batista Jr: Obrigado.

Ana Clara Costa: É isso, gente! Uma ótima semana a todos e até semana que vem!


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