A GUERRA DE FLÁVIO E MICHELLE E OS PARTIDOS CONTRA AS COTAS

Imagem A guerra de Flávio e Michelle e os partidos contra as cotas

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Semanalmente, os apresentadores mencionam as principais leituras que fundamentaram suas análises. Confira:

Conteúdos citados neste episódio:

"Michelle contra Flávio", coluna de Celso Rocha de Barros para a Folha.

"Quem salvará o Digimais?", repostagem de Consuelo Dieguez para a piauí.

"Flávio perde apoio onde mais precisava crescer para vencer Lula, diz cientista", reportagem de Marina Verenicz para o InfoMoney.

"Michelle prevê que escândalos vão nocautear campanha de Flávio Bolsonaro", coluna de Lauro Jardim para o Globo

Momento Cabeção
No “Momento Cabeção”, quadro em que os apresentadores indicam livros, filmes, podcasts e documentários aos ouvintes, eles sugeriram os seguintes conteúdos:

Celso: Fun home: Uma tragicomédia em família, história em quadrinhos de Alison Bechdel.

Ana: A primeira edição do Festival de Teatro de São Paulo, que acontecerá em setembro. 

Festival de Teatro do Rio, que acontecerá no final de julho.

Fernando: Ocupa Boal, ocupação cultural dedicada à trajetória e ao legado de Augusto Boal, no Rio de Janeiro. 

"O inimigo do apocalipse: uma leitura das 'Teses para a Era Atômica' de Günther Anders" , livro de Felipe Catalani

TRANSCRIÇÃO DE ÁUDIO


Sonora: Rádio piauí.

Fernando de Barros e Silva: Olá, sejam muito bem-vindos ao Foro de Teresina. O podcast de política da revista piauí.

Sonora: Chegaram ao absurdo essa semana de colocar em dúvida se a mulher tem capacidade de votar.

Fernando de Barros e Silva: Eu, Fernando de Barros e Silva, da minha casa em São Paulo, tenho a alegria de conversar com os meus amigos Ana Clara Costa e Celso Rocha de Barros, no Estúdio Rastro, no Rio de Janeiro. Olá Ana, bem-vinda!

Ana Clara Costa: Oi, Fernando! Oi, pessoal!

Sonora: Respeito demais a Michelle e tenho a convicção que a gente vai superar mais esse momento difícil e que ela vai estar caminhando junto com a gente.

Fernando de Barros e Silva: Diga lá, Celso Casca de Bala.

Celso Rocha de Barros: Fala aí, Fernando! Estamos aí mais uma sexta-feira.

Sonora: Vocês não acreditam! Eu vou até contar, sem dar nomes aqui, como é que era festa. O nome da festa: A noite das astronautas.

Fernando de Barros e Silva: Mais uma sexta-feira. Vamos, sem mais delongas, aos assuntos da semana. A gente abre o programa com a chanchada dos Bolsonaro, que disputa com Dark Horse o título da sarjeta do cinema mundial. Michelle Bolsonaro deixou a presidência do PL Mulher na última terça-feira. Foi a consequência pelo vídeo da semana anterior em que fez acusações pesadas contra o enteado Flávio Bolsonaro, o presidenciável do papai. De acordo com a madrasta, ele é truculento, tóxico, machista e inconfiável. As palavras são minhas. Foi o que ficou do depoimento dela. Defenestrada do PL Mulher, Michelle, no entanto, não abriu mão de sua possível candidatura ao Senado pelo Distrito Federal. Uma pesquisa da Atlas, divulgada nessa semana, mostra que 55% do eleitorado considera importante ou muito importante o apoio de Michelle a Flávio. Esse apoio, até segunda ordem, ficou para as calendas. É verdade que em política tudo é possível, mas a narrativa, como se diz, de uma eventual reconciliação, teria de ser muito engenhosa. O que se vislumbra no horizonte, por enquanto, é outra coisa. Como disse o Celso na sua coluna na Folha, Michelle Bolsonaro não teria gravado esse vídeo se achasse que Flávio vai ganhar a eleição. Foi um gesto de disputa pelo legado do Jair. O legado só estará em disputa se Flávio perder. Flávio Bolsonaro participou de um encontro do PL Mulher na quarta, sem a presença de Michelle e da senadora Damares Alves, a maior aliada da ex-primeira dama. Foi uma tentativa de Flávio de reduzir danos. Evento flopado. Mais brochante que as cenas que nos chegaram do convescote, só a cara de Gilberto Kassab ao ser anunciado como vice de Ronaldo Caiado em outro evento da direita nesta semana. Flávio elogiou a madrasta, dizendo que o trabalho dela no PL Mulher deve ser reconhecido, mas que talvez ela esteja sendo induzida ou, abre aspas, "não dá para entender muito bem", fecha aspas. O fato é que todo mundo entendeu o que ela quis ao repostar na segunda-feira um vídeo em que Anthony Garotinho diz ter visto imagens de festas de Vorcaro com mulheres peladas e homens que defendem a família. O gesto de Michelle foi entendido como resposta aos ataques que havia sofrido de Paulo Figueiredo, o golpista que é hoje uma espécie de baby-sitter do menino Eduardo Bolsonaro, nos Estados Unidos. Em vídeo, Figueiredo, neto do general presidente que afirmou preferir o cheirinho dos cavalos ao cheiro do povo, disse que as mulheres votam muito mal, principalmente as mulheres solteiras, e concluem uma série de baixezas dizendo que "se vocês soubessem as coisas que eu sei, teriam vontade de cortar os pulsos quando Michelle chama Jair de 'meu galego'". Flávio tentou contornar a fala do aliado: "Não concordo com o que ele falou. Completamente equivocado. Ele não faz parte da nossa campanha. Óbvio que é uma pessoa que nos ajuda muito nos Estados Unidos". Disso tudo, a gente vai se ocupar nos dois primeiros blocos do programa. No terceiro bloco, para fazer jus ao verso "Tristeza não tem fim" de Tom e Vinícius, vamos falar do lobby dos grandes partidos para mudar as regras de financiamento de candidaturas femininas e de pessoas negras. PT, PL e PSD, entre outros, levaram ao Tribunal Superior Eleitoral uma proposta para excluir as campanhas majoritárias, que são a presidência, os governos estaduais e o Senado, do cálculo das cotas do Fundo Eleitoral. Na prática, querem aliviar a obrigação de distribuir dinheiro para candidatos negros e candidatas mulheres. Hoje, a regra determina que 30% do fundo vá para candidaturas femininas e 30% para a candidatura de pessoas negras. Os partidos dizem que é difícil cumprir a lei. Vamos lembrar que as mulheres são mais de 52% do eleitorado, mas seguem subrepresentadas na política brasileira. No Congresso, elas ocupam 18% da Câmara e 20% do Senado. Que o PT esteja nesta barca do atraso ao lado do PL de Bolsonaro é algo bastante desolador, convenhamos. É isso. Vem com a gente.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Ana Clara, vamos começar com você. Eu mencionei alguns fatos dessa semana, vídeos, a saída dela do PL Mulher, esse convescote flopado do Flávio Bolsonaro. Eu sei que você tem várias apurações sobre essa confusão toda. Vamos lá.

Ana Clara Costa: Bom, Fernando, eu acho que para a gente chegar no momento que a gente está hoje, precisa de um leve contexto sobre a Michelle Bolsonaro e a entrada dela na política. Quando que o Valdemar Costa Neto percebeu o potencial da Michelle, o potencial eleitoral dela? Em 2022, na convenção do PL, que foi no Maracanãzinho e que foi a convenção que oficializou o nome do Jair Bolsonaro como candidato naquele ano, a Michelle foi ovacionada, foi aplaudida. Ela falou bem durante a convenção. Falou bem na avaliação deles, né? Mobilizou muita gente. Era uma estrela ali daquele momento. Foi quando cresceu o olho do Valdemar. E a partir de então, ele estreitou a relação com ela, deu um conjunto de salas para ela na sede do PL, deu dinheiro para ela montar esse PL Mulher. Enfim, se tem um partido que nunca deu muita pelota para a mulher, esse partido é o PL, né?

Fernando de Barros e Silva: O Valdemar só dá pelota para dinheiro. É a única coisa que conta para o Valdemar é dinheiro, né?

Ana Clara Costa: Exato. E aí, ele deu dinheiro para Michelle. Ele destinou mais de 16 milhões de reais para esse segmento do partido, para fazer eventos, para ela viajar o Brasil. Não é só com isso que esses eventos eram bancados. A Michelle também tinha uma série de apoiadores que doavam dinheiro para as coisas dela. Ela não vivia só do PL, mas é um valor considerável ali, que muita gente no partido invejava, inclusive. E esse papel dela foi muito fundamental para o Valdemar, pelo assunto que a gente vai falar no terceiro bloco, que é da cota de mulheres e negros nas campanhas, né? A Michelle, justamente, ajudou a trazer mulheres para um partido que não tinha praticamente mulher. A partir do momento em que ela trazia mulheres para o partido, são mulheres que poderiam potencialmente ser candidatas ou então laranjas, que é o que acontece em muitos casos. Então ela era extremamente útil para o Valdemar. E muito rapidamente o Valdemar mirou a Michelle Bolsonaro no Senado pelo Distrito Federal. Um outro ponto é que ela passou a desenvolver uma relação até de cumplicidade com o Valdemar, né? Ele virou uma espécie de conselheiro político dela. Ela conseguia com ele tudo que ela queria, fosse recursos, fosse poder dentro do partido e tal. Então, ela tinha uma relação boa e o Valdemar sempre falava muito bem dela publicamente. Até que ela começou a ter de fato vontade de fazer a influência dela valer dentro do partido, quando ela passou a não querer apenas fazer evento para o PL e levar a mulher para evento do PL. Quando ela passou a querer indicar pessoas para cargos e participar da construção das chapas para a eleição de 2026... Aí é que a gente vê como eles enxergam o papel da mulher, porque o papel dela era ali ser uma serviçal do PL para angariar mulheres. Era isso que o Valdemar queria que ela fosse e que seguisse a orientação dele de ser candidata ao Senado. E ia trazer um monte de deputado distrital junto. Era só isso que ele via. A partir do momento que ela passou a querer fazer valer o poder que ele disse que ela tinha, aí já não funcionava mais. Aí a gente vê como as coisas funcionam.

Celso Rocha de Barros: Ele queria como garota propaganda, não como política de verdade.

Ana Clara Costa: Exato. Exato.

Fernando de Barros e Silva: Sim.

Ana Clara Costa: Qual era a grande questão? Foi uma das coisas que eu perguntei para algumas pessoas do PL com que eu conversei nos últimos dias. Assim, com a quantidade de mulher que ela trouxe para o partido, com a possível eleição fácil que ela teria no DF, já que ela tinha esse potencial eleitoral todo, por que não deixar ela montar a chapa no Ceará, que era a grande questão? É porque a mulher que ela queria colocar como candidata ao Senado, que é a Priscila Costa, não faz parte do núcleo de poder do Valdemar. E quem que funciona para o Valdemar? O deputado federal André Fernandes, do PL, um jovem deputado que não tem ainda a idade mínima para ser candidato ao Senado, tem um pai que é deputado estadual, Alcides Fernandes E esse distinto senhor Alcides Fernandes, é quem seria o candidato ao Senado em nome do filho André Fernandes, que não pode ainda concorrer. E em troca, ali eles não lançariam um candidato ao governo do Estado, deixaria o Ciro Gomes pelo PSDB e era isso que o Valdemar queria. Ele queria um senador pelo PL no Ceará e o Flávio Bolsonaro queria que o PT perdesse no Ceará. Então, a única forma que eles encontraram de convergência desses dois interesses era que o candidato do Valdemar ou qualquer coisa que fosse próxima do que o Valdemar acredita ser um bom candidato, fosse para o Senado e PT perder no governo.

Fernando de Barros e Silva: Parêntese. Só lembrar que em 2022 o Bolsonaro também quis rifar a Damares. E foi a Michelle que manteve a Damares como candidata ao Senado pelo Distrito Federal.

Ana Clara Costa: Sim.

Fernando de Barros e Silva: E tanto que a Damares é do Republicanos, não é do PL. É um padrão esse comportamento.

Ana Clara Costa: Exato. Exatamente. E a Priscila Costa, ela queria que ela fosse candidata e o Valdemar não queria por achar... Aí, há mil razões para isso. A gente não sabe exatamente qual é a real, além do machismo. O machismo é uma certeza. As outras é que a gente não sabe. Mas assim, Alcides Fernandes, deputado estadual, teria mais possibilidade de fazer o Senado do que a Priscila Costa, que tem o apoio da Michele? Fica parecendo uma tentativa de manutenção do clube do Bolinha deles, né?

Fernando de Barros e Silva: Mesma coisa em Santa Catarina, a Caroline de Toni, que também está sendo preterida para disputar o Senado agora, em benefício do Carlos Bolsonaro, porque a Caroline de Toni seria eleita. Seria certo que ela ia ser eleita senadora.

Ana Clara Costa: E aí, uma das questões que eu fiz para uma fonte próxima ali do PL é: por que não deixar ela agir no Ceará? E o que eles me disseram foi porque se ela conseguisse emplacar quem ela queria no Ceará, ela ia querer em Santa Catarina. Ela ia querer e ia querer, ia querer e eles não querem deixar. Eles querem apenas que ela fique no PL mulher e seja senadora. E é isso que eles querem e eles acham que é de bom tamanho. Então, eles quiseram na verdade cortar as asas que eles tinham dado para ela por conveniência. E eu queria lembrar que a relação da Michelle com os filhos é horrível, todo mundo sabe. Isso é público. Com o Carlos é a pior relação, era pior do que com o Eduardo e com o Flávio. Então, vocês imaginem com Carlos como não deve ser. E tem uma coisa da Michelle que não é porque a gente está falando dela e do machismo, do qual ela está sendo alvo nesse momento, que ela é uma pessoa ponderada, né? Queria lembrar para vocês uma história da época do golpe. Quando eles estavam para sair do Alvorada, eles já tinham perdido a eleição e tava toda aquela situação que, enfim, a gente sabe bem. Ela estimulou o que aconteceu porque em determinado momento eles chamaram caminhões de mudança para tirar as coisas deles do Alvorada. Em algumas ocasiões, ela mandou o caminhão ir embora sem nada, porque ela tinha conversado com Deus, deixando bem entre aspas aqui a informação, e que ele tinha dito que eles não sairiam do Alvorada. Então, essa atitude dela, também, por mais que a gente que estivesse aqui não estivesse sabendo desse tipo de coisa, aquele entorno bolsonarista soube disso. Então, isso ajudou um pouco a inflamar aquelas pessoas. O fato dos caminhões terem ido embora vazios. Então, ela não é uma pessoa sensata. Ela está longe de ser uma.

Celso Rocha de Barros: Você tem toda razão, isso não é uma briga entre moderados e radicais.

Ana Clara Costa: Exato.

Celso Rocha de Barros: São dois lados radicais brigando pela liderança do radicalismo.

Fernando de Barros e Silva: Ela é casada com Jair Bolsonaro.

Ana Clara Costa: Agora, o que que aconteceu, né? A equipe dela passou a dizer nos bastidores que a razão do vídeo é o fato de que o Bolsonaro teria recebido informações em prisão domiciliar, de que haveria mais coisas sobre o Flávio na investigação do Master. E, diante dessas informações que o Jair Bolsonaro recebeu, ela teria sugerido o vídeo e ele teria dado o aval. Então, é isso que a equipe dela está dizendo nos bastidores. E a partir do momento que isso aconteceu, o vídeo e os seus desdobramentos, eu só queria concluir com uma uma situação de grande falta de sororidade nessas mulheres do PL que cresceram muito na esteira dela, né? A única que saiu para defendê-la foi a Damares, que foi muito atacada pelos partidários do Flávio e tal. Até a Damares fez um pronunciamento essa semana dizendo que estava recebendo ameaças, ela e a filha, ameaças de morte, ameaças de decapitação, de empalamento, coisas do bolsonarismo que a gente conhece bem. A Damares foi a única que foi vocal mesmo, a Damares e também a Celina Leão. De resto, todas as outras mulheres se calaram e os homens nenhum, obviamente, saiu em defesa dela. Os homens ou estão com o Flávio ou enfim...

Celso Rocha de Barros: Estão com medo.

Ana Clara Costa: Exato. E o Nikolas, eu queria falar do Nikolas, que é curioso. Ele não entrou na briga, né? Não tomou lado, não tá falando nada sobre ninguém, não tá defendendo o Flávio, não tá defendendo ela, porque existe uma questão familiar para o Nikolas. A mulher dele é hoje uma das melhores amigas da Michelle. Então se ele brigar com a Michelle publicamente, que eu acho que é o que ele deve estar querendo fazer pelo perfil dele, né? Ele sempre confabula junto com a machosfera ali. É porque se ele fizer isso, ele vai ter problema em casa, entendeu?

Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Celso, deixa eu te ouvir sobre esses acontecimentos.

Celso Rocha de Barros: É, Fernando, a retaliação contra a Michelle veio pesada dentro do bolsonarismo, né? Primeiro eu queria só fazer um depoimento pessoal aqui. Eu critico o bolsonarismo na minha coluna da Folha desde 2018 e acho que foi a primeira coluna em que os bolsonaristas foram lá comentar, não para me xingar, mas para xingar a Michele, para xingar outra pessoa. Então, em vez de ter gente xingando "quem é esse comunista que tá falando", não sei o que... Eles tavam falando "ah, essa...". E aí não vou nem usar os termos porque, enfim, respeito aos ouvintes. Mas eram ofensas muito pesadas. As jornalistas mulheres sabem o que esses caras falam. Eles já estão falando isso há dez anos, certo? Mas eu imagino que se você está do outro lado, se você é um apoiador da Michelle, você deve ter ficado chocado com o nível de baixaria que os caras falam, né? Porque em cinco segundos vira ofensa sexual, né? Assim, não demora duas frases de crítica política para virar ofensa sexual.

Fernando de Barros e Silva: Esse é um padrão que se estabeleceu e foi consagrado pelo Olavo de Carvalho. Vem desde lá do Diogo Mainardi, etc. E ganhou a sua versão consagrada no Olavo de Carvalho, e...

Celso Rocha de Barros: Bom, a Michelle perdeu a briga. Como resultado dela perder a briga, ela renunciou a presidência do PL Mulher e deixou em aberto a questão se ela vai ser candidata ao Senado. Eu acho que ela vai acabar sendo candidata ao Senado. Mas o fato é que até agora ninguém ofereceu nada para ela, para ela fazer um acordo de paz com o Flávio e, inclusive, o Flávio demorou muito tempo para criticar o Paulo Figueiredo, que fez aqueles vídeos que eu vou falar daqui a pouco. O Flávio, inclusive, quando criticou o Paulo Figueiredo, fez a ressalva "Não, eu discordo dele totalmente, mas ele de fato nos ajuda muito no exterior". E se vocês pegarem o novo vídeo do Paulo Figueiredo, que a desgraça que é o Brasil me fez assistir, ele agora vem inclusive dizendo assim: "não, teve gente da campanha do Flávio que me disse 'Não, você tem razão, mas para de falar desse assunto'". Então, enfim, até agora a reação do bolsonarismo é, basicamente, dar uma surra na Michelle. Não fizeram nenhuma concessão, não fizeram nenhuma, nenhuma mudança de roteiro na campanha. Enfim, esse é o universo dos bolsonaristas mesmo. E novamente, a gente obviamente não é chutar a pessoa quando ela está por baixo, essas mulheres do PL, que estão se sentindo excluídas também podiam checar um pouco se elas entraram no movimento certo, se elas queriam empoderamento. Enfim, não dá para você ser o militante nazista Isaac Goldstein, né, cara? O cara que, porra! Todo dia ele chega lá na sede do movimento nazista, batem nele porque ele é judeu. Tem certeza que você entrou com o movimento, certo, amigo? Será que você não podia ter pensado melhor essa decisão, não?

Fernando de Barros e Silva: Essas lideranças femininas de direita são paradoxais quando a gente olha de fora, né? Esse discurso que a Damares fez essa semana tem momentos que você concorda completamente. Eu, estou dizendo eu.

Celso Rocha de Barros: Mas é isso que é bom a gente distinguir. As mulheres conservadoras tem seus motivos.

Fernando de Barros e Silva: Ela fala que quando eles chamam o homem de vagabundo, eles dizem que é preguiçoso, mas quando chamam uma mulher de vagabunda é outra coisa que eles querem dizer. Ela falando isso... E ela ilumina coisas importantes.

Celso Rocha de Barros: Sem dúvida nenhuma.

Ana Clara Costa: Não, e t,anto que agora estão chamando dentro do bolsonarismo, a Damares e a Michelle de "militantes esquerdistas".

Celso Rocha de Barros: É, a facção, a tendência psolista do PL, que eles chamam. Exatamente.

Ana Clara Costa: O que é uma inverdade.

Celso Rocha de Barros: Eles estão falando isso, falaram lá comentando minha coluna: "é a tendência psolista". Porque, assim, a verdade é o seguinte: as mulheres conservadoras, especialmente nas classes populares, têm seus motivos. Isso tem que ser respeitado. Então, por exemplo, elas sofrem com maridos ausentes, com os pais dos filhos dela, são ausentes, os caras saem de casa, os caras não pagam pensão. Então, se tem um movimento que adestra esses caras, entendeu? Para elas é um bom negócio. Inclusive porque tem um movimento que faz o cara se preocupar mais com a família.

Fernando de Barros e Silva: O problema que tira do alcoolismo, por exemplo, muitos relatos de pessoa que se recupera do alcoolismo pela religião, claro.

Celso Rocha de Barros: Seria ridículo dizer que essa pessoa está agindo irracionalmente, que essa pessoa não sabe o que está fazendo, entendeu? A gente tem que primeiro lugar, sempre tem um pé atrás quando alguém diz que o cara é um idiota que está agindo completamente contra seus interesses. Aquela história do pobre de direita, eu odeio aquilo, entendeu? O cara que diz que o pobre de direita que não reconheceu... Então, assim, as mulheres conservadoras têm seus motivos, entendeu? Que a esquerda tem que entender e aprender a trabalhar com isso. Agora, se você for a liderança de um movimento que é misógino por natureza, eu já começo a achar que você tem uma estratégia meio estranha. Bom, vocês achavam mesmo que o PL Mulher ia ser super empoderado? Que o PL Mulher não serviria só para fazer essa campanha como a Ana estava dizendo? Parece um erro de cálculo meio sério, né? Enfim. Que eu acho que muitas dessas lideranças políticas provavelmente deveriam rever. E assim, o vídeo do Paulo Figueiredo, segundo vários bolsonaristas, fez mais mal para a campanha do Flávio do que o vídeo da Michelle, porque realmente é um show de horrores, né? Aquele negócio. Enfim, para quem não viu, ele diz que mulher vota mal para caralho. Fecha aspas. Bom, aí ou eu explico para vocês o que é Paulo Figueiredo ou eu poupo vocês de ouvir vulgaridade, certo? Assim, não tem como fazer as duas coisas. De modo, fica um aviso aqui que vai ter algumas vulgaridades daqui em diante.

Ana Clara Costa: Não, e o Flávio criticá-lo com dedos, né?

Celso Rocha de Barros: É, não, não, "ele está equivocado". Pô, equivocado? O cara diz que as mulheres votam muito mal, no minuto 29:43 do vídeo, principalmente as mulheres solteiras. No minuto 29:58, ele chama a Michelle e Damares de feministas, uma ideologia marxista e satânica. Ou seja, Michelle e Damares ainda por cima são marxistas e satanistas. E aí, ele disse que as mulheres que não concordarem com ele podem abre aspas, arrancar os pentelhos das calcinhas. Como eu disse, não tem como mostrar para vocês quem é esse cara sem mostrar vulgaridades. Ele é isso. Esse movimento que ele faz parte, é isso. Se você tentar resumir isso de maneira educada, você não vai conseguir passar para as pessoas a dimensão da coisa. E aí, ele conclui com aquela história que ficou famosa que "se vocês soubessem as coisas que eu sei, vocês teriam vontade de cortar os pulsos quando a Michele chama o Jair de 'meu galego'", que é claramente insinuando que ou a Michelle trai o Bolsonaro ou que a Michelle é uma péssima esposa, enfim.

Ana Clara Costa: O bolsonarismo insinuou nas redes que ela não só traía, como a filha não seria do Bolsonaro, inclusive.

Celso Rocha de Barros: Olha só que coisa linda!

Ana Clara Costa: Isso que eles estão fazendo com ela.

Celso Rocha de Barros: Exato, cara. O que estão fazendo com a mulher, cara. E eu volto a dizer se eu perguntar pra Maria do Rosário, a Maria do Rosário vai dizer "Cara, eu tô há 15 anos nisso, ouvindo esses caras me dizerem isso", mas eles fazerem isso com a mulher do Bolsonaro realmente pareceu chocante, né? E sobre a história do Paulo Figueiredo, vale discutir o seguinte: no vídeo dele, o argumento dele para dizer que as mulheres votam mal é que as mulheres não votam no mesmo candidato que ele. Olha só que surpresa, né? As mulheres não votam no mesmo cara que acha as mulheres umas idiotas completas. É realmente inexplicável porque que isso aconteceria. E porque nos Estados Unidos, em geral, as mulheres têm maior probabilidade de votar nos Democratas. Não é que não tem mulher que vota nos Republicanos, mas se a eleição fosse só entre as mulheres, os Republicanos não ganhariam nenhuma das últimas, sei lá quantas, eleições. Acho que desde 1980. E, obviamente, não passa pela cabeça do Paulo Figueiredo, que tenha sido a direita que fez alguma coisa errado e tenha afastado o voto feminino. No primeiro vídeo ele só fica nisso: "não, as mulheres votam mal porque votam na esquerda". No segundo vídeo, ele já viu que deu merda, né cara? Ele precisa inventar alguma coisa, então ele já tenta puxar o seguinte: "Não, não é que as mulheres votam mal. O que faz as mulheres votarem mal, é o feminismo". No primeiro programa não tinha feminismo aqui, não, eram as mulher que votavam mal e pronto, entendeu? Agora já virou a culpa do feminismo, que não bate com nada do que ele disse no começo e a gente vai falar aqui depois, no segundo bloco, sobre a situação do Flávio nas pesquisas. Eu acho que deve ter outros motivos para as mulheres não votarem nesses caras. Por exemplo, as mulheres, em geral, apoiam com mais frequência políticas sociais. Bom, porque basicamente os caras não têm responsabilidade com relação aos filhos deles, mas as mulheres têm. Então, assim, as mulheres querem que o guri tenha uma escola razoável.

Ana Clara Costa: E a maior parte são mães solo.

Celso Rocha de Barros: São mães solo.

Ana Clara Costa: Os pais não estão presentes.

Celso Rocha de Barros: É quem tem que tomar conta do garoto quando ele fica doente, ela, evidentemente, vai se preocupar mais com o hospital para levar o filho. Quando tiver que levar no hospital, é ela. Quando tiver reunião dos pais na escola, é ela que vai ter que ir. Então, enfim, é óbvio que ela é mais preocupada com isso. Então, assim, o problema aqui é a direita não fazer políticas sociais. Não é que as mulheres votem errado, certo? Agora, o filho do Paulo Figueiredo deu uma aula sobre o que o bolsonarismo de fato acha das mulheres, enfim. O Figueiredo, assim como o Olavo antes, o Eduardo, estão totalmente imersos na alt right americana, na extrema-direita americana, onde essas conversas são consideradas normais. Você conversar: devemos tirar o voto das mulheres? É um debate lá deles. Os caras discutem isso: Será que não devia ser um voto por família? E aí o marido decide pela mulher. Eles acham isso mesmo, eles discutem isso abertamente. O Pieter Thiel, que uma vez eu comentei aqui, ele é um dos maiores investidores do mundo. Fundou a Palantir, foi um dos investidores do Facebook iniciais. Esse cara tem um artigo que ele abandona a democracia, ele diz que a democracia não funciona mais e uma das coisas que ele diz que estragou foi o voto feminino. Então, não é assim um maluco de cueca com o notebook no porão da casa dele falando isso. É um dos caras mais ricos do mundo que tá falando isso. É um dos principais patrocinadores da campanha do Trump, é um dos principais patrocinadores do JD Vance. Então, esse debate nessa extrema-direita americana é normal, e o Paulo Figueiredo acha normal por causa disso. Ele vive nesse mundo. Agora, as mulheres para quem a Michele fala, não estão afim de perder o direito do voto, muito pelo contrário, elas querem ter mais poder, elas querem ter mais direitos, mesmo que não seja usando a mesma gramática e as mesmas estratégias do que as feministas de esquerda. Mas elas não estão absolutamente interessadas em perder a sua voz, nem perder seu direito de se manifestar ou nada disso.

Fernando de Barros e Silva: Perfeito. Perfeito. Eu ouvi o Octávio Guedes, da GloboNews, que é um jornalista que eu, a despeito de algumas discordâncias, eu respeito muito. Quando o vídeo da Michelle saiu, ele disse que nada era mais perigoso do que o discurso da Michele pelo conteúdo religioso. Ele colocava a ameaça de uma teocracia ou de uma derrubada de um desmanche do Estado laico como uma ameaça sem precedentes. E eu entendo o ponto dele. Mas eu acho que eu tenho aí uma discordância, porque é difícil a gente fazer comparação entre desgraças. Qual é a melhor? Qual é a pior? Mas sendo o Brasil o que é, eu acredito que a truculência sem doutrina do bolsonarismo é mais nociva do que o discurso da Michelle, sabe? Porque a ameaça real é dessa turma miliciana bolsonarista, dessa regressão sem dogma mesmo, a não ser a lei do mais forte, a violência pela violência, a falta de limite e tal... Eu não acho que a teocracia seja uma ameaça. É claro que a preservação do Estado laico é uma questão fundamental para a gente. Isso já está em risco. Mas não acho que a Michelle represente um risco maior do que esse que a gente está vivendo desde 2018.

Celso Rocha de Barros: Até porque os homens desse movimento defendem com igual entusiasmo argumentos teocráticos, né?

Fernando de Barros e Silva: Exato. E mesmo porque eles usam a fé evangélica segundo as conveniências.

Celso Rocha de Barros: E de maneira totalmente seletiva.

Fernando de Barros e Silva: Seletiva. Exato. Exato. Enfim. Encerramos então o primeiro bloco. Fazemos um rápido intervalo. Na volta, nós vamos continuar falando de Flávio Bolsonaro, da campanha presidencial. Já voltamos.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Estamos de volta. Celso, vou começar com você. Vamos falar um pouco do efeito dessa confusão toda sobre a corrida eleitoral e a candidatura do Flávio. Você andou, andou espiando os dados da pesquisa recente que saiu da Atlas/Intel Bloomberg, certo?

Celso Rocha de Barros: Isso mesmo, Fernando. A pesquisa Atlas/Intel, a gente já comentou aqui várias vezes. Ela tem uma metodologia diferente da do Datafolha e de outros institutos que fazem pesquisa na rua e tal. A Atlas/Intel faz uma pesquisa pela internet e tem lá um algoritmo deles, uma conta que eles fazem para corrigir os vieses de pesquisa feita pela internet, que eles não contam para gente qual é, porque isso é o negócio deles. Isso é o que eles têm para vender. Então, não dá para julgar, assim, fazer uma análise técnica da pesquisa, porque, enfim, os caras não vão te dizer como é que eles fizeram, porque isso é segredo comercial. O que a gente pode fazer é ir acompanhando ao longo dos anos as pesquisas da Atlas e vendo se eles acertam. E, pelo menos por enquanto, não vale a pena excluir eles, eu acho. Pelo menos pelos últimos resultados. A pesquisa saiu pior para o Flávio do que, por exemplo, o último Datafolha. No último Datafolha, a diferença do Lula para o Flávio estava menor. Aqui foi mais ou menos aquele resultado inicial depois do escândalo do Vorcaro, o Lula com uma certa margem confortável no primeiro turno, mais equilibrado no segundo turno, mas fora da margem de erro. Agora, o que é interessante aqui da matéria do InfoMoney é que, segundo eles, a pesquisa mostra que o senador Flávio Bolsonaro perdeu 10% entre o eleitorado feminino e oito pontos entre os que se denominam evangélicos desde maio. Ou seja, vamos explicar aqui para o Paulo Figueiredo, porque as mulheres estavam mais ou menos divididas entre o Lula e o Flávio até outro dia e agora voltaram a divergir a favor do Lula. Elas eram bem a favor do Lula, essa diferença caiu, e agora voltou a subir. É porque descobriram que o Flávio roubava dinheiro, porque pegaram o Flávio enrolado com o Daniel Vorcaro. Então, assim, não é porque, sei lá, as feministas enfiaram ideologia de gênero na cabeça delas. É porque o Flávio estava pedindo dinheiro pro Vorcaro num áudio que todo mundo ouviu. Se for para julgar que por alguma característica de gênero, o que se poderia deduzir desse ponto dos dados é que as mulheres parecem dar mais importância à ética na política do que os homens. Nesse caso, pelo menos. E isso é uma coisa que é sempre bom lembrar. O vídeo da Michelle vem depois da bomba Vorcaro, certo? Então, a bomba Vorcaro já tinha batido no Flávio Bolsonaro, especialmente no eleitorado feminino e no eleitorado evangélico. Porque aí, assim, se o Flávio começar a perder ponto entre os evangélicos, acabou. Não tem o que fazer. O Bolsonaro se elegeu em 2018, quase se elegeu em 2022, porque ele tinha uma vantagem gigantesca no eleitorado evangélico. Se um candidato bolsonarista for para a eleição sem uma vantagem gigantesca, mesmo que seja uma vantagem, mas uma vantagem moderada, não dá nem para o começo. Lula é eleito no primeiro turno. Por isso que a gente diz que o vídeo da Michelle bateu onde dói, né?

Fernando de Barros e Silva: Sim.

Celso Rocha de Barros: No eleitorado menos firme do bolsonarismo, os evangélicos que são conservadores querem votar na direita, mas que acharam péssimo. Não só o Flávio tá enrolado com o Vorcaro, mas o Flávio mentir sobre estar enrolado, porque, é bom lembrar, a primeira reação do Flávio foi rir na cara do jornalista do Intercept.

Fernando de Barros e Silva: Sim, exatamente.

Celso Rocha de Barros: Assim como, aliás, a primeira reação do Flávio ao vídeo da Michelle foi: "ah, hoje tem jogo do Brasil. Nada vai me incomodar". Aqui vale lembrar também que agora, em 1 de julho, o Lauro Jardim disse que a Michelle acredita que novos escândalos vão derrubar o Flávio Bolsonaro, que vai vir mais coisa de Master sobre o Flávio. Como todo mundo viu, ela postou um vídeo lá do Garotinho... -Olha só, esse grande herói do Kinder Ovo! - Falando sobre a tal da festa do Astronauta, que seria uma orgia lá do Vorcaro em que as mulheres teriam vestido de astronauta, e o fato da Michelle repostar esse vídeo foi interpretado por todo mundo, inclusive pelo Flávio, que se defendeu como se fosse uma sugestão de que o Flávio estaria na festa do Astronauta. E todos já sabemos o que o Flávio vai dizer se pegarem ele mesmo na festa do Astronauta, ele vai dizer que ali era só um filho pelado pedindo dinheiro para uma mulher vestida de astronauta para fazer o filme sobre o pai dele.

Ana Clara Costa: Ai, Celso, para! Eu não quero pensar nessa cena. Caramba!

Celso Rocha de Barros: Isso aí vocês já podem ter certeza que é isso que ele vai dizer em sua defesa. Mas isso é uma coisa que todos os caras da direita estão com medo, porque o Flávio mentiu no começo, dizendo que não tinha nada contra ele. Agora ele todo dia aparece dizendo "não, mas é só isso que tem". Aí aparece uma coisa nova. "Ah não, mas isso não conta". Aí aparece uma coisa nova, ele fala: "Não, não, mas isso aí é outra coisa completamente diferente". Então, ele tá obviamente sendo pego na mentira toda semana, né? Já sabe, por exemplo, que teve outro encontro dele com Vorcaro. A gente ainda não sabe o que aconteceu ali. Então, assim, isso aí era uma suspeita desde o começo do vídeo da Michelle que ela talvez tenha ido para porrada, porque ela sabe que o Flávio é muito fraco porque ele vai tomar mais porrada de banco Master e falou: "Bom, eu vou tentar ser candidata enquanto dá tempo, vou tentar ficar aqui, pelo menos de plano B, para, se estourar um negócio em cima do Flávio, eu tô aqui, né? E eu queria só terminar dizendo que o Flávio Bolsonaro tem ensaiado fazer gestos assim para ganhar o eleitorado feminino, entre os quais a escolha da Daniella Marques, que era uma assessora do Paulo Guedes, para ser uma, enfim, a sua principal assessora econômico, seu Posto Ipiranga, aquelas coisas todas. Bom, o currículo de qualquer pessoa que foi assessor do Paulo Guedes é, por definição, péssimo.

Ana Clara Costa: Ela trabalhava com Paulo Guedes antes de ele ir para o governo. Ela trabalhou a vida inteira com ele na gestora dele.

Celso Rocha de Barros: Olha só. Então, mas aí é que tá. Teve pelo menos um período de seis meses em que ela trabalhou em outro lugar. Ela trabalhou no Digimais, o banco do Edir Macedo, que outro dia foi alvo de operação policial. E quem tiver interesse. inclusive, saiu uma excelente matéria da Consuelo Dieguez na piauí de março de 2026: "Quem salvará os Digimais?". Então, a Daniella Marques pode ser um gesto para o público feminino, mas talvez traga para dentro da campanha do Flávio outro banco confuso, hein? Então, isso é uma coisa para a gente acompanhar.

Ana Clara Costa: Confuso para dizer o mínimo.

Celso Rocha de Barros: Exato. Confuso para evitar processo.

Fernando de Barros e Silva: Ana Clara, deixa eu te ouvir a respeito disso.

Ana Clara Costa: Bom, a gente falou no primeiro bloco sobre como as coisas aconteceram para o lado da Michelle e de como ela sofreu as consequências desse enfrentamento. E para o lado do Flávio, é importante dizer que se o objetivo dela era dividir o bolsonarismo entre um núcleo mais puro, digamos, e livre de relações espúrias e tal que seria o dela, e outro núcleo que seria o núcleo mais contaminado, que é o do Flávio, dá para a gente dizer agora que o núcleo mais contaminado está ganhando, inclusive, levando junto esse bolsonarismo que se diz puro. Silas Malafaia fez o casamento dela com Bolsonaro na igreja evangélica, não se posicionou ao lado dela. Sóstenes Cavalcante, que é o Silas Malafaia com cargo político...

Celso Rocha de Barros: É o mimimi.

Ana Clara Costa: Não se posicionou a favor dela. Mas a gente falou do Nikolas no primeiro bloco, nenhuma liderança do PL fez qualquer aceno a ela, mas, em compensação, o Flávio Bolsonaro se reuniu com Valdemar, teve o apoio do Valdemar, se reuniu com várias lideranças do PL ao longo desses dias, ele está sendo defendido nas redes. Levantamentos do PL mostram que o debate nas redes foi vencido pelo Flávio Bolsonaro. Bom, também pudera, né? Assim, a máquina que eles têm e a virulência daquela máquina...

Celso Rocha de Barros: Se eu fosse a campanha do Flávio, eu daria valor zero para essa estatística, porque você fez isso acontecer artificialmente. Então, você não está medindo o estado real da opinião pública.

Ana Clara Costa: É, uma reação orgânica né? É uma reação manipulada. Mas isso para dizer que o PL está com o Flávio de uma forma majoritária e não abre. Inclusive, está mais com o Flávio agora, porque essa contenda com a Michelle serviu, de certa forma, para unir o bolsonarismo, que estava um pouco desarticulado até, mesmo antes do Dark Horse. Assim, você não tinha uma coisa da galera engajada, né? "Nossa, Flavio, nosso líder". Não tinha. Só que agora, ao fazer o que ela fez, ela colocou um bode na sala que o bolsonarismo se viu na seguinte situação: ou a gente apoia esse cara ou a gente vai morrer na praia, então vamos todo mundo no barco dele. E é isso, entendeu?

Fernando de Barros e Silva: Vamos morrer na praia com ele.

Ana Clara Costa: Exato.

Fernando de Barros e Silva: Corre o risco de morrer em alto-mar e não vai chegar nem na praia.

Ana Clara Costa: E as falas do Valdemar têm sido nessa linha de apoio ao Flávio. Os veículos de comunicação ali alinhados, eu já falei aqui outro dia daquela Rádio Auriverde para vocês, que é o núcleo Bolsonaro. Na verdade eles são Bolsonaro, Jair Bolsonaro, e o pessoal lá dos ETs, entendeu?

Celso Rocha de Barros: Isso! Bebe detergente...

Ana Clara Costa: É, que pediu antena parabólica para atrair ET. Exato. Essa turma da Rádio Auriverde é uma turma que tá com o Jair Bolsonaro e essa turma tá totalmente com o Flávio. A Jovem Pan que tá meio, né? Saiu um pouco do circuito, perderam muito poder da eleição de 2022 pra cá, né? Enfim, acabaram sendo substituídos por outros, também estão com o Flávio. Até outro dia o Flávio tinha compartilharam o vídeo de dancinha. Então tem um stablishment da direita hoje que se viu ameaçado com essa atitude da Michelle e que está disposto a abraçar o Flávio agora mais publicamente, entendeu? Então, esse foi o impacto mais direto que as pesquisas não mostram ainda. A gente não sabe se isso tem um valor de voto neste momento. Talvez não tenha, talvez tenha zero.

Fernando de Barros e Silva: O que pode ter um descompasso entre esse agrupamento aí, esse reforço entre os bolsonaristas mais próximos e mais profissionais e mais ligados, e o movimento da população.

Celso Rocha de Barros: Inclusive o conservadorismo popular.

Fernando de Barros e Silva: É, o conservadorismo popular e o voto feminino. Enfim, as duas frentes que a Michelle mina o Flávio no segmento evangélico e entre as mulheres que são, mulheres, que é o calcanhar de Aquiles desse idiota, e o segmento evangélico que é fundamental para ele também, no qual a Michelle tem uma liderança muito evidente. Isso não está em contradição com o que você falou, mas talvez seja... Enfim, sejam movimentos distintos, né?

Ana Clara Costa: Não, com certeza. A questão é as lideranças evangélicas proeminentes no bolsonarismo não manifestaram apoio a ela. E nos bastidores, elas manifestam ao Flávio, não publicamente, mas nos bastidores. E há uma orientação de engajamento que não havia antes. Então, essa é a grande mudança que esse momento do bolsonarismo trouxe. Agora, a conta real a gente não consegue fazer ainda que é: até que ponto essa atitude da Michelle afasta as mulheres evangélicas do Flávio e acaba colocando as diante de outras opções? E aí pode ser Zema, Caiado, Renan ou até Lula. Ou essas mulheres vão acabar, por alguma razão, se distanciando da Michelle e indo pelo candidato Bolsonaro, que existe. Então, é uma coisa que as pesquisas ainda não mostram. Ainda tá muito cedo. E eu acho que isso não está ainda bem digerido. Enfim, aconteceu há poucos dias. Ainda não está bem digerido, até pelo fato de as redes estarem totalmente fervorosas sobre esse assunto e essas brigas e ameaças e etc. E a Damares reclamando e fulana de tal sendo atacada. Isso ainda vai ser digerido e a gente vai poder ter uma ideia um pouco mais pra frente do impacto real. Mas o fato é que o bolsonarismo está com Flávio. O resultado dessa semana é esse. E um bastidor sobre isso, é que o Jair Bolsonaro, depois de todo esse furdunço, não está assistindo TV, nem lendo nada sobre o assunto. Está falando que não quer nem saber. A bomba estourou e ele tá não querendo nem ver as repercussões disso. E há pessoas que acreditam que esse aval dele para Michelle fazer o que ela fez, que acabou sendo contra o Flávio, foi uma coisa muito da dinâmica do casal. Assim, como eles não se dão bem e não têm um relacionamento tradicional, digamos, tudo que ela pede, assim, ele fala: "ai, tá bom, fala para ela que sim, fala para ela que não". Às vezes nem é ela mesma que pede, é via algum funcionário, entendeu? Ajudante de ordem e tudo mais, né? E que esse aval dele não teria sido para algo tão grande quanto acabou se tornando esse vídeo e que agora ele não quer nem saber mais.

Fernando de Barros e Silva: Não seria agora que ele ia começar a ler. Bolsonaro não lê nem legenda de filme. Nunca leu uma linha na vida. A gente encerra então o segundo bloco do programa por aqui. Fazemos um rápido intervalo. Na volta, nós vamos falar do lobby dos partidos contra as candidaturas das mulheres e as candidaturas das pessoas negras. É disso que se trata. Já voltamos.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Estamos de volta. Ana Clara, vou começar com você. Neste país que viemos descrevendo nos últimos dois blocos, os partidos estão fazendo lobby para tirar dinheiro das candidaturas de mulheres e de pessoas negras. E é desolador que o principal partido de esquerda, o partido do presidente Lula, o PT, esteja aí junto no bonde do atraso. Um retrocesso, uma sem-vergonhice danada esse negócio. Para mim, é muito desolador. Vamos lá, Ana. Você apurou coisas aí sobre isso.

Ana Clara Costa: Bom, Fernando, desde que essas cotas foram estabelecidas pela lei eleitoral, os partidos encontram subterfúgios para tentar burlá-las. O principal deles são as candidaturas laranja de mulheres. Elas funcionam, sobretudo, no âmbito das candidaturas proporcionais a deputado estadual. Então, como é que você faz isso? Você pega o dinheiro do fundo eleitoral e aí você tem limites de uso desse dinheiro por cada deputado ou cada senador. No caso dos deputados, é cerca de 3 milhões por deputado. E esse deputado escolhe cinco pessoas para serem candidatos a deputado estadual, porque são pessoas que vão levar a candidatura dele de deputado federal, porque o que acontece? O deputado estadual vive de fazer campanha para o deputado federal dele.

Celso Rocha de Barros: É, o federal para se eleger tem que fazer dobradinha.

Ana Clara Costa: Exato. Que é o que eles chamam de dobradinha. E aí, o que que virou uma prática nos partidos? Os candidatos a deputado estadual serem mulheres e, de preferência, mulheres negras, que eles consideram que isso é o suprassumo para cumprir a cota: ser mulher e ser negra. E que daí essas candidaturas que recebem esse dinheiro acabam, na verdade, financiando a candidatura do deputado federal. Essa é a prática padrão que os partidos usam para cumprir a cota, que é de 30% do valor do fundo para candidaturas de mulheres e negros. Acontece que, mesmo fazendo isso, eles não conseguem cumprir a cota. O que acontece desde que essa lei foi criada, é que os partidos não a cumprem e são anistiados a cada eleição. A gente teve agora, o Supremo aprovou, validou, na verdade, por seis votos a quatro, uma emenda que anistiou os partidos de muitas das violações dessas cotas eleitorais. Então, assim, sempre há anistia para esse não cumprimento. Mesmo eles fazendo todos esses subterfúgios, eles não conseguem cumprir. Bom, fica difícil para um partido, no caso do PT, que é um dos protagonistas dessa questão, junto com o PL também, defender os direitos das mulheres, defender a causa dos negros, defender medidas antirracistas. Se na origem você não consegue cumprir a regra e você não cumpre ela frequentemente e pede a anistia frequentemente, que é o que acontece. Então eles querem mudar a regra. E aí, é todo mundo coligado nessa ideia ali, tanto a direita quanto a esquerda. O que que eles querem fazer? Na questão das candidaturas presidenciais, a grande maioria, esmagadora maioria, é composta de homens, tanto na cabeça de chapa quanto na vice. Como você tem uma candidatura presidencial que tem um custo muito alto para o fundo e você não tem nenhuma mulher ali. Então, vamos supor, você direciona 40% do teu fundo para a candidatura presidencial. Aí você vai precisar pegar outros 30% e direcionar para mulheres e negros. Aí vai sobrar 30% para todas as outras candidaturas para governador, para senador, para deputado estadual que não estejam dentro da cota. E aí, o que esses partidos estão pleiteando? Que a cota não seja aplicada para candidaturas majoritárias, ou seja, presidência, governo e Senado e sim para as proporcionais como deputado federal e estadual. E só. Ou seja, você pode gastar o tanto que você quiser com a presidencial e o resto. E aí do que sobrar do que sobrar do que sobrar, você aplica a cota de 30%. É isso que eles estão pedindo. Para que não haja esse pedido de anistia frequente. Enfim, é uma tristeza, porque primeiro, a cota não estava sendo cumprida a contento por nenhum partido ou pela maioria deles. E segundo, agora você tem de fato uma ação para tentar impedir que ela seja colocada em prática num contexto em que, cada vez mais, depois dessas subsequentes reformas eleitorais, o dinheiro está concentrado na mão dos presidentes, dos dirigentes partidários. Então, já está super concentrado o recurso na mão de quem é próximo do dirigente.

Celso Rocha de Barros: Que em geral é homem, também.

Fernando de Barros e Silva: Geral é homem branco, daí "mas o que está em jogo agora é derrotar o bolsonarismo, ou então, o PT...". Enfim, nós estamos dentro de uma encruzilhada histórica. Isso é uma falsa questão, uma falácia. E o bolsonarismo é isso que a gente está vendo. A gente falou o programa inteiro isso. As coisas se confundem. É a mesma coisa que a gente está falando. Se você acha que essa discussão é menor, é porque você não entendeu nada, né?

Ana Clara Costa: E a Michelle, no caso, ela estava servindo justamente para ajudar o Valdemar a cumprir a cota. E era só essa função que ele queria que ela tivesse. Então esses blocos estão muito interconectados porque o PL não tinha nem mulher, entendeu? Ela foi uma coisa que veio a calhar para o Valdemar, para o partido que tem o maior fundo eleitoral, maior fundo partidário, o maior número de deputados no Brasil e que faz isso com a mulher.

Celso Rocha de Barros: Do principal líder.

Ana Clara Costa: Do principal líder e com a mulher que levantou, que estruturou o PL Mulher. É isso que o partido fez.

Fernando de Barros e Silva: Nesse assunto, o que me incomoda profundamente é a esquerda participar disso de alguma forma, porque da direita eu não espero outra coisa, não espero outra coisa do Valdemar, etc.

Celso Rocha de Barros: Tem toda razão. Não, e se a prioridade é combater o bolsonarismo, não devia nem precisar de cota para a maioria ser mulher, porque eu me lembro de quem estava combatendo o bolsonarismo. As mulheres foram muito mais firmes no combate ao bolsonarismo. Se vocês pegarem as jornalistas de política, mulheres, por exemplo. Elas foram muito mais eficazes na investigação, muito mais incisivas nos seus diagnósticos, do que um bando de cueca que está aí com a maioria das colunas que não serve pra nada. Você pega a Maria do Rosário que já brigava com o Bolsonaro muito antes de ser modinha, entendeu? Então, assim.

Fernando de Barros e Silva: O seu livro sobre a história do PT não começa pelo movimento sindical, começa pelo movimento de mulheres. O primeiro capítulo do seu livro começa justamente pela importância do movimento de mulheres na fundação na origem do PT, certo?

Celso Rocha de Barros: E eu vou contar, esse capítulo foi escrito porque eu ia começar pelo sindicato. E aí, uma assessora da Erundina com quem eu falei, ela perguntou: "Como é que tá o livro?". Eu contei, ia falar do sindicato, ia falar lá dos grupos guerrilheiros, ela falou: "mas só tem homem nessa merda de livro?". E aí, ela disse: "Cara, quem começou tudo lá amassando barro na periferia fomos nós. Cara, você tem que ir atrás de quem organizou aqueles movimentos de donas de casa, dos primeiros jornais feministas... Que, aliás, é muito interessante. Quem organizou os primeiros jornais feministas era ex-guerrilheira e era participante desse movimento de donas de casa da periferia. Enfim, se vocês quiserem, tem mais lá no livro. Mas assim, a história do PT começa com umas mulher corajosa para cacete que foram lá isso antes de abertura, entendeu? Antes da ditadura começar a tirar ali os aspectos mais repressivos do regime, ali mais para o final. Não, antes disso, elas estavam lá em Jardim Ângela, que, aliás, tinha outro nome.

Fernando de Barros e Silva: Fica aqui a minha recomendação para quem ainda não leu.

Sonora: Cabeção.

Ana Clara Costa: E o PT, embora tenha tido uma presidente mulher, a Gleisi foi presidente por vários anos, participou como sócio dessas articulações desde o início para burlar as cotas. Então, assim, quando as cotas foram estabelecidas, os dirigentes partidários fizeram reuniões para falar sobre o assunto e a reunião de todos os partidos foi num tom de "Ah, que ótimo! Temos essa regra, vamos cumprir. Tá tudo certo. As mulheres merecem mesmo?", aquela coisa proforma. Quando chegou na discussão petit comitê que daí vai PT, vai PP, vai DEM na época, que depois que virou União Brasil, vai o PL, que era PR na época. Na discussão petit comitê, eles chegaram a conclusão "Bom, a gente não vai conseguir. A gente tem que articular uma anistia. E foi o que acabou acontecendo". E o PT, só porque eu estou falando da Gleisi, eu quero lembrar de uma situação específica que, embora seja justamente o partido que teve uma mulher presidente, no governo de transição, a Gleisi ficou por muito tempo esperando que ministério ela iria ocupar, porque apesar de ser presidente do PT, o PT não podia reivindicar o ministério para o Lula e era prerrogativa do presidente escolher. Mas ela tinha sido, enfim, desde o governo Dilma, uma das principais defensoras da Dilma, aliada da Dilma, foi ministra da Dilma. Durante a prisão do Lula, também estava lá junto. Foi presidente do PT naquele período e foi participando ativamente da campanha. Ela era uma das coordenadoras da campanha do Lula. Então, nada mais lógico do que ela ser colocada em algum ministério. Sabe como ela ficou sabendo que ela não teria um ministério? No CCBB, que é onde aconteciam as reuniões do governo de transição, num anfiteatro com uma maioria masculina, o Lula disse publicamente "Ah, mas os ministros estão aqui e tal. A Gleisi não vai ser ministra porque eu preciso dela na Câmara e preciso dela na presidência do PT, brigando pela gente". Ou seja, ele disse para ela que ela não teria um ministério na frente de todos os homens. Sem dizer isso para ela no privado, expôs publicamente ela numa coisa que todo mundo sabia que ela queria. É claro que a gente não pode, diante de tudo que a gente falou aqui hoje, a gente comparar o PT com o PL no tratamento as mulheres sim, né? Não existe comparação, mas o PT erra muito também. Tá muito aquém.

Celso Rocha de Barros: Não, assim, o que a gente viu lá desses bolsonaristas, Paulo Figueiredo, só são os caras que querem fazer a coisa andar muito para trás da situação atual. Agora, a coalizão para não deixar andar para frente é muito mais ampla que o bolsonarismo.

Fernando de Barros e Silva: Muito mais amplo.

Celso Rocha de Barros: Exato. E aí vai estar todo mundo lá.

Fernando de Barros e Silva: Mas lembrando que Dilma é a única presidente, mulher, presidente da República, mulher e é justamente do PT.

Celso Rocha de Barros: É, não pode diminuir o que o PT fez, senão você está diminuindo as lutas feministas, a luta das mulheres que brigaram.

Fernando de Barros e Silva: Ao longo da história, eu não me lembro de candidatas... Teve a Heloísa Helena em 2006, que foi uma candidata relevante, e a Marina.

Celso Rocha de Barros: Que são duas dissidentes do PT, inclusive.

Fernando de Barros e Silva: Duas dissidentes do PT. São todas do campo de esquerda. A Marina, muito mais uma liderança do que a Dilma, né? A Dilma foi uma indicada pelo Lula. A Dilma só foi candidata e só se viabilizou porque era o nome do Lula. A Marina, não.

Celso Rocha de Barros: Pô! A Marina, o currículo de petista da Marina não é só melhor do que a da Dilma, mas é pau a pau com a do Lula.

Fernando de Barros e Silva: Exato. A Marina tem uma história gigantesca e a Simone Tebet, claro, que foi candidata agora na última eleição, que é uma liderança importante feminina, também. Não é de esquerda, mas que é do campo democrático, e muito importante. E lembrando agora, com essa saída do Jaques Wagner, assumiu agora a senadora Tereza Leitão é a líder do governo no Senado. Tereza Leitão, que é do PT de Pernambuco. Ontem eu vi uma entrevista dela, ontem, quarta-feira, para a gente que está gravando, no jornal da Aline. Muito boa, criticando o PT nesse ponto que a gente está abordando.

Celso Rocha de Barros: Já que estamos falando de ex-petistas, é sempre bom lembrar da Marta Suplicy, que foi uma pessoa que durante muitos anos conduziu, praticamente sozinha, no começo, a briga por essas cotas para mulheres. No começo, falaram assim "não, cota para candidatura", mas aí era tudo laranja. Você olhava assim quem teve zero votos quando saía lá a apuração. era tudo um monte de mulher que entrou e que eles botaram só para preencher a cota, não deram dinheiro nenhum para ela e nem ela votou nela, entendeu? Porque ela sabia que a campanha dela era picareta. Se você for ver a porcentagem de candidatos que só tem um voto, que só tem dez, não sei o que lá, proporcionalmente, é bem mais mulher. Mas por quê? Porque essas mulheres não são candidatas de verdade. O cara do partido chegou: "você topa botar teu nome aqui pelo partido? Mas é só para preencher a cota". A mulher topa. Provavelmente também por algum cálculo, né? Talvez ela ganhe algum prestígio dentro do partido por deixar fazer isso. Mas boa parte dessas cotas são fraudadas mesmo, né? E essa coisa que os caras estão propondo agora, "olha só, não, tira o cargo executivo da cota", cara. Mas aí assim, um dos objetivos da lei era fazer com que vocês lançassem mais candidatas mulheres aos cargos executivos, né, cara? Porque aí você vai dizer "não, porque os homens são melhores". Cara, isso é muito ofensivo, porque olha quem são os caras que estão ocupando cargos majoritários. Não é possível que você não conheça uma mulher no Rio de Janeiro melhor do que Claudio Castro, cara.

Fernando de Barros e Silva: E mais uma vez falando de história, as prefeitas de São Paulo, mulheres, as duas foram do PT. São do PT. Luiza Erundina e Marta Suplicy, que foram prefeitas importantes de São Paulo, governadora do Rio de Janeiro, Benedita da Silva, mulher negra, enfim. Então, o PT tem um histórico importante na construção desse negócio.

Celso Rocha de Barros: Que é mérito das mulheres do PT, que muitas vezes tiveram que brigar com os homens do PT.

Ana Clara Costa: E a Marta, ela era prefeita de São Paulo quando o Lula foi candidato, em 2002. Então, muito do que ela fez por São Paulo, onde o Lula ganhou, foi usada como plataforma de campanha para o Lula. E foi a primeira vez que ele ganhou em 2002. Ele não tinha um cargo executivo anteriormente, então ele não tinha o que apresentar de feitos. O que tinha para ser apresentado era o CEU da Marta, era a unificação do transporte público que a Marta fez.

Fernando de Barros e Silva: Bilhete Único.

Ana Clara Costa: Então a parte prática foi muito a Marta que garantiu para o Lula em São Paulo. São Paulo, que foi fundamental para a eleição dele em 2002.

Celso Rocha de Barros: O PT vai dizer que não tem mulher boa para lançar para candidato? Vai lançar quem? Quaquá? Entendeu? Assim, pelo amor de Deus.

Fernando de Barros e Silva: A Marta fez uma revolução no transporte público ao baratear, inventar o bilhete único.

Ana Clara Costa: Ela, ela integrou.

Fernando de Barros e Silva: Integrou e barateou muito. E todo mundo falava que ia quebrar e que não sei o que lá, aquelas coisas... É que nem a escala seis por um, quando você quer acabar, "ah, não pode porque vai...".

Ana Clara Costa: Não, não, gente, não existia cartão de transporte público. Se você tivesse que pegar dois ou três ônibus, você tinha que pagar duas ou três viagens. Então, assim, ela criou uma coisa que hoje a gente nem sabe como é que existia.

Celso Rocha de Barros: Como é que era antes, né?

Ana Clara Costa: Então assim, é... A Marta foi muito fundamental.

Fernando de Barros e Silva: Então, a gente vai encerrar o terceiro bloco do programa por aqui. Rápido, intervalo e na volta, nossa cota de sofrimento. Por falar em cotas. Kinder Ovo, com a diretora Mari Faria. Já voltamos.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Estamos de volta. Sem mais delongas, Mari Faria, pode soltar aí a hora do sofrimento. Kinder Ovo.

Sonora: Eu não sou responsável pelas bobagens que, eventualmente, um amigo ou outro diga por aí, tá?

Celso Rocha de Barros: Bia Kicis?

Fernando de Barros e Silva: Nossa!

Celso Rocha de Barros: Aê, finalmente! Fazia tempo que eu não acertava.

Fernando de Barros e Silva: Aí o Celso fazendo jus a sua cota.

Celso Rocha de Barros: É bem na minha, na minha especialidade aqui Bia Kicis.

Ana Clara Costa: Nossa, essa eu não saberia.

Fernando de Barros e Silva: Matou aí, hein, Casca? Tá afiado.

Celso Rocha de Barros: Até o Kinder Ovo foi bem inserido assim com o tema.

Ana Clara Costa: Verdade.

Fernando de Barros e Silva: Para os anais, deputada Bia Kicis, do PL do Distrito Federal, em entrevista ao Contexto Metrópoles. Muito bem, Casca de Bala! Você reclamou que fazia tempo que não ganhava mais, tá aí Bia Kicis para te salvar.

Celso Rocha de Barros: Olha lá.

Fernando de Barros e Silva: Bom, depois deste momento glorioso de Celso Casca de Bala, temos um momento cabeção.

Sonora: Cabeção.

Fernando de Barros e Silva: Hoje é dia de Cabeção. Vamos lá, sem mais delongas também. E eu vou aproveitar que o Celso ganhou. Vou passar a bola já pra você, Celso, já que você tá com a bola toda, comecemos o Cabeção.

Celso Rocha de Barros: Bora!

Fernando de Barros e Silva: Por você. Qual é a sua dica?

Celso Rocha de Barros: Eu queria recomendar uma história em quadrinhos.

Fernando de Barros e Silva: Opa!

Celso Rocha de Barros: Que é um gênero que eu gosto muito, e essa é uma das minhas sessões de quadrinhos favoritas, então vou compartilhar aqui com os leitores. Se chama Fun Home, da Alison Bechdel. A Alison Bechdel, enfim, já ganhou um monte de prêmio. Esse quadrinho ganhou o Prêmio Eisner, que é o maior prêmio do quadrinho americano e ela é a autora das Leis de Bechdel. Para quem não conhece, para julgar se um filme representa bem as mulheres, que teria três princípios. Primeiro, precisa ter pelo menos duas mulheres que você sabe o nome delas, o que, por incrível que pareça, não é verdade sobre todos os filmes. E aí que começa a ficar interessante. As duas mulheres precisam ter uma conversa entre elas e a conversa não pode ser sobre homem. Se você for tentar aplicar o Teste de Bechdel, num monte de filme famoso, você vê que muitos deles não passam no teste de Bechdel. As mulheres são só meio acessórias ali à história dos homens. Essa história é de Funeral Home, a família dela. É uma história autobiográfica sobre a vida dela. O pai era dono de uma funerária, a família do dono de uma funerária. E a história começa quando o pai dela morre. Numa circunstância meio, talvez seja suicídio, talvez não. E aí ela vai contar a história dela com o pai, que é muito bonita, passa pela descoberta da sexualidade dela. A Bechdel é lésbica. Depois você vai descobrindo mais histórias sobre a família e eu acho uma história muito, muito boa. Inclusive, se você nunca leu uma história em quadrinhos para adulto, digamos, essa é uma das melhores maneiras de começar, na minha opinião.

Fernando de Barros e Silva: Muito legal! Ana Clara, você.

Ana Clara Costa: Há alguns meses aqui, no Momento Cabeção, eu indiquei uma peça que, na verdade, é uma adaptação teatral do romance do José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira, pelo Grupo Galpão, que é um grupo mineiro de teatro.

Fernando de Barros e Silva: Sensacional. Grupo de teatro Galpão.

Ana Clara Costa: Exato. Na época eles estavam em cartaz em São Paulo, mas estava esgotadíssimo. Hoje, eles estão em cartaz em BH. E, aí vem a minha sugestão para o momento Cabeção A gente vai ter em São Paulo o primeiro Festival de Teatro de São Paulo, em que 22 peças vão ser exibidas em setembro. Entre elas, Ensaio sobre a Cegueira, do Grupo Galpão Prima Face, com a Débora Falabella, que eu acho que todo mundo já viu, porque enfim, né? Tá indo Há alguns anos já, o país inteiro, um monólogo sensacional da Débora Falabella. Mas quem não viu, vale a pena.

Fernando de Barros e Silva: Eu não vi. Tenho essa lacuna.

Ana Clara Costa: Sem comentários. E o Celso ficou quieto aqui.

Celso Rocha de Barros: Fiquei quieto. Eu também não vi não, gente.

Ana Clara Costa: Bom, enfim.

Celso Rocha de Barros: Mas é que eu não achei ingresso, não consegui ingresso.

Ana Clara Costa: Em São Paulo, em setembro. Os ingressos vão começar a ser vendidos na semana que vem, segundo a coluna da Mônica Bergamo. Então, assim é a chance de assistir para quem ainda não viu, tanto Ensaio sobre a Cegueira quanto Prima Facie, entre outras peças. São vinte duas que vão ser apresentadas no festival. A primeira edição do Festival de Teatro de São Paulo. E vale dizer que aqui no Rio, no final de julho, também vai ter o Festival de Teatro do Rio com os mesmos organizadores e também com o Ensaio sobre a Cegueira, com o Grupo Galpão. Enfim, vão todos ao teatro. Festival de teatro é tudo de bom.

Fernando de Barros e Silva: Eu adoro quando a gente dá dicas de teatro. Bom, como você falou de São Paulo, eu vou falar do Rio. Fazemos a ponte aérea. Está em cartaz aí no Rio, no Espaço Cultural Sérgio Porto, Humaitá, o Ocupa Boal, que é um evento dedicado a obra do teatrólogo dramaturgo Augusto Boal, que morreu em 2009 e que é o fundador do Teatro do Oprimido, uma das figuras centrais do teatro brasileiro. Anos 50, 60... Enfim, tem exposição, oficinas e conversas. Tem um espetáculo inspirado na autobiografia dele. Enfim, recomendo vivamente. Vai até o dia 19 de julho, aí no Rio. Além disso, eu quero indicar um livro que eu estou começando a ler do Felipe Catalano, que é um professor de filosofia e pesquisador da Unifesp de São Paulo, que chama 'O inimigo do Apocalipse: Uma leitura das Teses para a Era Atômica de Gunther Anders'. O Gunther Anders é um intelectual austríaco que foi crítico, filósofo, ensaísta, conhecido no Brasil pelo livro 'Kafka Pró e contra', um estudo que ele fez sobre o Kafka, famoso. Mas essas teses para Era atômica, ele escreveu em 1959. E o que ele diz, basicamente, é que depois de 6 de agosto de 1945, a humanidade passa a ter a possibilidade objetiva de se autoaniquilar. E isso muda tudo. E ele reflete sobre os aspectos morais e políticos e existenciais desse acontecimento. Eu acho que está na ordem do dia. Nunca deixou de estar, é o que nos diz o Gunther Anders. Quando a gente esquece disso, nas épocas em que a gente acha que o perigo atômico está equacionado ou resolvido, ele chama de esses períodos de normalidade, de terror suave. Quando a gente esquece que a gente pode acabar se o Trump resolver apertar um botão. Esse livro que eu citei acabou de ser lançado pela Editora Boitempo. A gente encerra o momento Cabeção e vamos para o melhor momento do programa: Correio Elegante. Momento das cartinhas. Momento de vocês. Eu começo então por uma mensagem aqui da @piaurp, postou o seguinte: "Acertar o momento Kinder ovo logo nas primeiras palavras proferidas causa emoções conflitantes. Uma das mãos soca o ar a lá Pelé e a outra procura o número do analista nos contatos do smartphone".

Celso Rocha de Barros: É exatamente isso.

Fernando de Barros e Silva: Muito bom.

Ana Clara Costa: A Alexa Prates escreveu: "enquanto eu ouvia o Foro, o carteiro chegou com o meu presente de aniversário: o livro do Celso".

Celso Rocha de Barros: Oba!

Ana Clara Costa: "Não podia ter chegado em hora melhor. Celso Casca de Bala, as análises embasadas em versão impressa".

Celso Rocha de Barros: Pô, que legal, Alexa! Depois manda aí o que você achou do livro. O Maurício Velloso preparou o seu próprio momento Cabeção. Nossa, isso aqui é um clássico já das mensagens! "Fernando Pessoa, aquele que escreveu: Todo Flávio é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir pudor onde pudor não está presente". Muito bom, hein, Maurício? Parabéns!

Fernando de Barros e Silva: Muito bom! Bom, então é assim, parodiando Fernando Pessoa, nós vamos encerrando o programa de hoje por aqui. Se você gostou, não deixe de seguir e dar five stars pra gente no Spotify. Segue no Apple Podcast, na Amazon Music. Favorita na Deezer e se inscreva no YouTube. Você também encontra a transcrição do episódio no site da piauí. O Forno de Teresina é uma produção do Estúdio Novelo para a revista piauí. A coordenação geral é da Bárbara Rubira. A direção é da Mari Faria, com produção e distribuição da Maria Júlia Vieira. A checagem é da Ethel Rudnitszky. A edição é da Bárbara Rubira e da Mariana Leão. A identidade visual é da Amanda Lopes. A finalização e mixagem são do João Jabace e do Luís Rodrigues, da Pipoca Sound. Jabace e Rodrigues que também são os intérpretes da nossa melodia tema. A coordenação digital é da Bia Ribeiro, da Emily Almeida e do Fábio Brisolla. O programa de hoje foi gravado aqui na minha Choupana, em São Paulo, e no Estúdio Rastro do Danny Dee, no Rio de Janeiro. Me despeço então dos meus amigos. Tchau, Ana.

Ana Clara Costa: Tchau, Fernando. Tchau, pessoal.

Fernando de Barros e Silva: Tchau, Celso.

Celso Rocha de Barros: Tchau, Fernando. Tchau, amigos. Até semana que vem.

Fernando de Barros e Silva: É isso gente! Uma ótima semana a todos e até a semana que vem.


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