LULA NO PÁREO E KASSIO NUNES NA PISCINA DE VORCARO

Imagem Lula no páreo e Kassio Nunes na piscina de Vorcaro

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Semanalmente, os apresentadores mencionam as principais leituras que fundamentaram suas análises. Confira:

Conteúdos citados neste episódio:

"Os vestígios da noite", reportagem de Ana Clara Costa, Breno Pires e João Batista Jr. para a piauí.

"A Corte de prazeres de Daniel Vorcaro", reportagem de Ana Clara Costa, Breno Pires e João Batista Jr. para a piauí.

"Flávio dividia conta com suspeito de lavar dinheiro do INSS, indicam emails", reportagem de Fabio Serapião e Natália Portinari para o UOL. 

"Living standards", artigo de Alex Ming e Clare Lally no site do Parlamento Britânico.

"Mensagens citam Kassio e relatam quarto 'com 5 meninas' em festa de Vorcaro", reportagem de Daniela Lima para o UOL. 

"‘Doméstica’ preside empresas de investigado na fraude do INSS ligado a Flávio Bolsonaro", reportagem de Alice Maciel e Paulo Motoryn para o ICL Notícias.

TRANSCRIÇÃO DE ÁUDIO


Sonora: Rádio piauí.

Fernando de Barros e Silva: Olá, sejam muito bem-vindos ao Foro de Teresina. O podcast de política da revista piauí.

Sonora: Encerrada em segundo turno a votação da nossa PEC pelo fim da escala 6x1, aqui no plenário do Senado. É vitória dos trabalhadores, é vitória das mulheres, é vitória de quem está nessa escala desumana.

Fernando de Barros e Silva: Eu, Fernando de Barros e Silva, da minha casa em São Paulo, tenho a alegria de conversar com os meus amigos Ana Clara Costa e Celso Rocha de Barros, no Estúdio Rastro, no Rio de Janeiro. Olá Ana, bem-vinda!

Ana Clara Costa: Oi, Fernando! Oi, pessoal!

Sonora: O canal ganhou 1 milhão de novos inscritos, novos soldados recrutados só depois da tentativa de censura pra cá. Essa é a nossa força.

Fernando de Barros e Silva: Diga lá, Celso Casca de Bala.

Celso Rocha de Barros: Fala aí, Fernando! Estamos aí mais uma sexta-feira.

Sonora: Segundo a PF, esse usuário master tem acesso operacional relevante a uma conta bancária, então vamos considerar que ele era o titular da conta.

Fernando de Barros e Silva: Mais uma sexta-feira, vamos, sem mais delongas, aos assuntos da semana. A disputa entre Flávio Bolsonaro e Lula está rigorosamente aberta. Pesquisa Quaest divulgada na noite desta quarta-feira mostra o senador com 46% e o presidente com 44%, em empate técnico. O Datafolha, publicado na noite desta quinta-feira, também registrou o empate técnico com vantagem numérica para Flávio, 51 a 49. Na semana passada, o mesmo Datafolha mostrava uma diferença de quatro pontos que caiu pela metade. As pesquisas parecem refletir a mudança de ânimo no campo progressista. Uma multidão a favor de Lula e a favor da democracia foi às ruas de forma espontânea, no final de semana e no feriado de 12 de outubro, dia da padroeira. A campanha bolsonarista que depois do primeiro turno já havia começado a discutir a formação do governo, teve que rever seus passos. A semana foi marcada pela votação no Senado, que decretou o fim da escala 6x1 para os trabalhadores. A vitória do governo foi acachapante, com 75 votos a favor e apenas um contra. Simbolicamente, o senador Hamilton Mourão, vice de Jair Bolsonaro. Flávio votou à distância, meio escondido e se comprometeu entre seus aliados, sobretudo no patronato, que a lei vai caducar se ele for eleito. Lula anunciou também um pacote aos chamados MEIs, os microempreendedores individuais. Entre as medidas está o perdão, a partir de 2027, para mais de 3 milhões desses empreendedores inscritos na dívida ativa da União. A gente vai falar sobre isso e sobre os bastidores das campanhas no primeiro bloco. No segundo, vamos tratar do comportamento do Tribunal Superior Eleitoral e da turma do KN, como Daniel Vorcaro costuma se referir ao ministro Nunes Marques. O Kassio com k. Nunes Marques, que participou de uma noitada com garotas de programa patrocinada por Daniel Vorcaro, num apartamento do ex-banqueiro, um triplex no Itaim Bibi, em São Paulo. A suruba suprema aconteceu numa sexta-feira, véspera de carnaval, no ano passado. Parte da história já era conhecida através de reportagens do portal Metrópoles e do UOL. Nessa quinta-feira, a nossa incansável Ana Clara, junto com João Batista Júnior e Breno Pires, disseram os detalhes do que ocorreu na reportagem intitulada Vestígios da Noite, publicada no site da piauí. Como diz o texto, é a primeira vez na história do Supremo Tribunal Federal que um ministro é flagrado recebendo favores sexuais patrocinados por um banqueiro, cujo processo por uma gigantesca fraude bancária tramita na própria Corte. E num sinal eloquente de apatia ética, o tribunal até agora não tomou uma única providência sobre o caso. Quem porventura ainda não tenha lido, eu recomendo, talvez com um remedinho para a náusea por perto. Afora a apatia ética do STF, os últimos dias foram marcados por decisões escandalosas no âmbito da Justiça Eleitoral, mais uma vez a cargo do nosso folião do Itaim Bibi, Kássio Nunes Marques, atual presidente do TSE, sigla vou repetir que significa Tribunal Superior Eleitoral. E não: Tem Suruba Eba! O folião de toga tirou do ar o chamado exército do Lula, canal de WhatsApp criado pelo deputado federal André Janones. A campanha de Flávio acusou o canal de espalhar fake news e Kássio Nunes censurou tudo. O corregedor do TSE reverteu a decisão e depois a área técnica do tribunal informou que não havia identificado no canal os conteúdos apresentados pela campanha de Flávio para justificar a suspensão. Nunes Marques voltou a derrubá-lo, dessa vez por falta de registro, e só liberou o canal 48 horas depois da regularização. Além disso, há o comportamento da Meta, dona do Instagram. A campanha de Lula denunciou bloqueios de anúncios, dificuldades de impulsionamento e falhas no alcance das publicações. A empresa admitiu problemas técnicos, mas negou favorecimentos. A gente vai falar disso tudo neste caliente segundo bloco. Sempre lembrando que o problema não está na putaria em sentido literal, mas na putaria em sentido figurado, que aponta para evidências de corrupção e suborno do ministro pelo pirata das finanças. Por fim, no terceiro bloco, como a vida não se resume a festinhas nem a Kassio Nunes, a gente vai falar de outro personagem da pesada, o advogado Willer Tomaz, de quem você já teve notícias por aqui. Foi no avião dele que Flávio Bolsonaro viajou de Miami para Brasília com a família. Um dos cotistas do jatinho, além de Willer, era adivinha quem? Daniel Vorcaro. Documentos revelados agora pelo UOL mostram que a Polícia Federal encontrou o nome de Flávio, cadastrado como usuário master na conta da Alcázar Holdings, empresa de Willer que também possuía um terço do jatinho. Tudo indica que Flávio e Willer sejam ou tenham sido sócios em tenebrosas transações, o que eles evidentemente negam. E isso vem com a gente. Muito bem, Celso. Vamos conversar com você. E acho que podemos começar pela pesquisa da quest que registra esse empate técnico, conforme eu acabei de falar na abertura. Vamos lá.

Celso Rocha de Barros: É isso mesmo, Fernando. A pesquisa Quaest veio boa para o Lula e a maioria das pesquisas dessa semana vieram boas para o Lula. A gente tem que ter muito cuidado em comparar instituto, né? E essa foi a primeira pesquisa da Quaest no segundo turno, então a gente não tem com o que comparar. Mas se você quiser fazer uma barbeiragem e comparar com o Datafolha da semana passada, o Datafolha estava dando 4, e a Quaest veio dando dois de diferença a favor do Flávio. Eu acho que isso deve ser verdade, porque o 4 da semana passada eu acho que é os apoios dos nanicos de direita ao Flávio. Ele ganhou o primeiro turno por dois. Chegou lá apoio de Caiado, aqueles caras todos, ele foi para quatro e o quadro agora é de empate técnico, com o Flávio na frente, numericamente. Tem coisa mais importante na pesquisa da Quaest, inclusive, do que a simulação do segundo turno. Tem uns números melhores para o Lula até do que isso. Se você pegar a avaliação de governo, a diferença de rejeição entre os dois que está empatado agora. A questão de qual dos dois candidatos tem mais medo que ganhe, entendeu, que melhorou bastante para o Lula ou piorou para o Flávio, que dá na mesma. Veio bem para o Lula essa pesquisa. Uma outra pesquisa que eu chamo a atenção é a da Palver. Essa é a primeira eleição da Palver. Ela ainda não tem uma reputação assim estabelecida, nem para bem nem para mal. Mas eu conheço gente séria que diz que os caras são sérios. Eles foram bastante bem no primeiro turno. Eles vinham dando Flávio na frente quando os outros ainda não estavam dando. E ao contrário dos outros que davam Flávio na frente, eles não dão sempre a direita na frente, entendeu? Porque tem uns institutos aí que não precisa nem olhar o que eles estão publicando, você já sabe que eles vão botar a direita dez pontos na frente. E a Palver veio dessa vez com um ponto de diferença só para o Flávio, entendeu, que é um resultado bastante bom para o Lula, que era o instituto que vinha dando o Lula pior do que os outros e agora tá dando Lula até melhor. E assim, o que explica essa dinâmica pró Lula, né, durante essa semana? Para mim, é claro, a campanha eleitoral começou depois do fim do primeiro turno. Até ali, o que a gente teve não foi campanha, foi noticiário sobre o STF, entendeu? Que claramente era uma pauta que favorecia o Flávio, porque eles batem no STF pelos motivos errados desde sempre. E aí teve uma coisa que eu achei muito louca, é o Flávio fazendo discurso no dia seguinte do primeiro turno, tendo ido para o segundo turno só com dois pontos de dianteira, como se tivesse eleito. No dia seguinte, ele tá falando que vai mudar a Constituição. No dia seguinte, ele já tá anunciando ministro. E assim, cara, você foi para o segundo turno com dois pontos de liderança... É amplamente documentado a possibilidade de se virar, entendeu?

Ana Clara Costa: Eu acho que ele levou também em consideração os outros concorrentes, que são mais do campo da direita. Talvez ele tenha, o que pode ter sido um erro dele, mas eu acho que contou isso.

Celso Rocha de Barros: Eu acho que era muito pouco voto para ele também ficar feliz da vida desse jeito, entendeu?

Fernando de Barros e Silva: É, mas essa ejaculação precoce aí... Veja o risco que a gente correu se ele tivesse ganhado no primeiro.

Fernando de Barros e Silva: Exatamente. Exatamente. Se ele tivesse ganho no primeiro turno e aí anunciado que ia mudar a Constituição.

Fernando de Barros e Silva: O Pablo Marçal, hoje, por exemplo, em vez de ser resgatado.

Celso Rocha de Barros: Iron Man do Paraguai.

Fernando de Barros e Silva: O negócio que ele fez no Paraguai, foi no Paraguai, né Celso?

Celso Rocha de Barros: É o hombre de fierro.

Fernando de Barros e Silva: Ele foi, quase se afogou. É isso? Ele estaria nomeado ministro já?

Celso Rocha de Barros: Exatamente. Se bobear no STF, que é o que ele disse que queria. Pois é, eu acho que depois do primeiro turno ficou mais claro para as pessoas que essa é uma eleição que você vai votar no cara que vai te governar, entendeu? Não é uma eleição que você vai expressar sua opinião sobre o Lula ou uma eleição que você vai se expressar sua opinião sobre o STF. Se você votar no Flávio, você não está só expressando sua opinião sobre essas coisas. É o Flávio que vai te governar, é o Flávio que vai decidir como vai ser sua aposentadoria, como vai ser seu salário, como vai ser a escola dos seus filhos, enfim. E aí eu acho que isso piorou a coisa para o Flávio, porque eu acho que a estratégia da campanha do Flávio tem que ser em todo momento, esconder o Flávio de qualquer maneira, entendeu? Quanto menos eles mostrarem o Flávio, maior a possibilidade de ele.

Fernando de Barros e Silva: É isso mesmo.

Celso Rocha de Barros: Como o Jair em 2018. Uma espécie de tela branca em que a população projeta suas frustrações, né? Umas coisas assim. E não dá para Flávio ser isso direito esse ano, porque o pai dele já foi governo. Então assim não dá para as pessoas projetarem nele qualquer coisa. Quando a questão virou quem vai governar o Brasil, a coisa piorou para o Flávio. A gente não sabe se vai piorar o suficiente para ele perder eleição, mas claramente piorou.

Fernando de Barros e Silva: A gente teve uma mobilização grande no final de semana e no feriado a favor do Lula e da democracia. Uma coisa que de certa maneira foi espontânea, ganhou um volume na Avenida Paulista. Foi muito impressionante. Em outros lugares também. Copacabana no dia seguinte e em outras capitais também.

Celso Rocha de Barros: E muito notavelmente, teve manifestações bastante expressivas em lugares no interior, por exemplo. Menores, obviamente, que as cidades são menores, sim, mas teve lugares aqui. Até no interior do Rio, por exemplo, teve mobilizações bem razoáveis para o tamanho da cidade.

Fernando de Barros e Silva: Tem isso e tem medidas que o governo adotou também. E a votação do seis por um. Acho que tem uma mudança de ânimo e tem gestos objetivos e a votação do Senado. Eu acho que essas duas coisas juntas, esses dois movimentos juntos. E o que isso.

Ana Clara Costa: É no caso de políticas públicas, quando o debate deixa de ser, por exemplo, sobre o STF, vira sobre políticas públicas. O cara que está no governo tem vantagem porque ele pode implementar políticas públicas, entendeu? O cara da oposição não pode. O Bolsonaro quase virou a eleição em 2022 porque ele era governo. Ele podia fazer coisas, podia tomar medidas, implementar políticas. E o Lula que estava na posição não podia. Esse ano é o contrário. Então o Lula vem implementando uma série de políticas que claramente são populares, são bastante focadas nos setores sociais em que ele espera crescer e que estão deixando o Flávio no contrapé, porque ele tem grande dificuldade de se posicionar sobre pauta econômica, como a gente falou no programa passado, sobre pautas sociais etc. Então, a primeira medida importante que o Lula tomou foi o pacote do MEI, que deu anistia às dívidas do MEI com a União, ampliou o direito de contratar funcionários de um para dois, ampliou o limite de faturamento para a pessoa poder ser considerada MEI de 81 mil para 110 mil em 2027 e 140 mil a partir de 2028. E ainda prometeu uma transferência única de 5 mil reais para todos os MEIs que pode ser usado para compra de equipamento, modernização de negócio ou coisa que o valha. Isso, obviamente, é uma reação a todas aquelas análises que diziam que o Lula estava perdendo essa nova classe trabalhadora, que esse empreendedorismo popular, essas coisas todas. Então ele correu para tomar uma medida de governo que fosse direcionada para ele. Mas, sem dúvida nenhuma, a grande novidade em termos de políticas públicas dessa semana foi a proibição da jornada de trabalho 6X1 pelo Congresso Nacional. O governo bancou a aprovação, o governo jogou todo o seu peso político para aprovar. O fato da votação ter acontecido foi uma demonstração de força do Lula, porque o Flávio estava querendo, com aquela coisa de já falar como presidente eleito no dia seguinte, queria transformar o Lula como um pato manco, num presidente que está aí só para terminar o mandato. Ninguém mais acha que ele vai ganhar nem nada. E o Lula provou que não, que ainda tem muita gente no Congresso e na direita que aceita fazer acordo com ele para aprovar propostas, o que quer dizer que acha que o Lula vai ganhar a eleição para poder pagar essas propostas, para poder entregar os cargos, enfim, as políticas que os deputados pediram. E foi uma proposta bastante popular. As pesquisas de opinião, todas davam uma taxa de aprovação altíssimas a esse projeto do governo e que foi bom para o Lula, não só porque isso é popular, mas porque foi um nó no Flávio. O Flávio se embananou completamente na pauta da 6x1. E o Flávio inclusive nos entregou aqui no Foro de Teresina uma ilustração perfeita do que a gente falou no programa passado, que é que ele tem um discurso sobre economia para a população em geral e um discurso de economia que ele faz para os ricos. Então, num dia ele chega para todo mundo e fala "ah, quer saber? De agora em diante eu sou a favor da seis por um". Ele já tinha batido na seis por um de tudo que é jeito, tinha falado que era populismo, que ia causar desemprego em massa, que todo mundo ia morrer, enfim, apocalipse zumbi e tudo. E aí agora ele chega e diz: "não, quer saber? Mudei de ideia. Sou a favor". Mas no mesmo dia todos os jornais já estão dizendo que ele avisou os aliados dele que quando ele ganhar, ele vai reverter esse negócio. Então eu acho que foi uma ilustração muito boa de como o Flávio está mentindo meio compulsivamente nessa campanha. Político mentir em campanha não é nada que choque ninguém, né? Certo? Ninguém aqui vai chorar de surpresa. "Meu Deus! O político mentiu na campanha". Agora, o quanto ele mente é importante para saber qual vai ser a capacidade dele de governar. Eu sempre gosto de lembrar os dois governantes que se elegeram com estelionato eleitoral, 100% estelionato, que foi o Collor em 89, a Dilma em 2014, sofreram impeachment. Então assim, estelionato eleitoral não é bom negócio que o pessoal acha que é não, entendeu? P PMDB, para quem quiser história antiga, que é basicamente quando eu era jovem, deu um estelionato eleitoral na eleição de 86, eles congelaram preços, todo mundo votou no PMDB e depois eles descongelaram logo depois da eleição.

Fernando de Barros e Silva: Sim.

Ana Clara Costa: E daí em diante o PMDB só declinou, cara. O PMDB nunca mais foi alternativa para presidência da República. Por exemplo, o PSDB deu um estelionato eleitoral em 98 dizendo que o PT ia desvalorizar o real e quando ganhou, foi ele que desvalorizou o real. PSDB nunca mais ganha eleição para presidente. Então esse estelionato eleitoral é um negócio que tem o seu preço e o Flávio está armando um estelionato eleitoral gigantesco. Então assim, mais uma vez a pauta da 6x1 mostrou como o Flávio é ruim em pauta de pobre, entendeu? Em coisa que interessa a pobre. Aqueles assessores econômicos deles são basicamente o Pablo Marçal no Iron Man, entendeu? São os picaretas lá que estão de sacanagem. Agora eu queria só lembrar mais uma coisa. No que se refere à jornada 6x1, o plano do Flávio, se ele ganhar, é aprovar uma proposta do Rogério Marinho, que é aquela remuneração por hora trabalhada. Os analistas que mais desse assunto estão dizendo que isso parece muito com o Zero Hour Contract, que foi estabelecido no Reino Unido alguns anos atrás por governos conservadores e que teve um efeito social bastante ruim e que inclusive foi parcialmente revertido pelo governo trabalhista depois. Mas se vocês tiverem curiosidade, vocês podem ir no site do Parlamento britânico. Tem um artigo de Alex Ming e Clare Lally que diz que esse tipo de emprego tende a tirar dos trabalhadores as proteções de contratos permanentes e benefícios como aposentadoria, licença anual, licença saúde e que inclusive muitos desses trabalhadores que vão para esse tipo de coisa ficam presos nesse tipo de contrato, porque a esperança é que eles ficassem um tempo nesse tipo de contrato e depois fossem contratados efetivamente ou conseguissem empregos melhores. A taxa de permanência no emprego ruim é muito alta. Também recomendo para quem quiser os trabalhos feitos pela central sindical britânica, a Trade Union Conference, TUC, que diz que os contratos de Zero Hora dão aos empregadores o controle completo sobre a jornada de trabalho dos funcionários. São os patrões que decidem sua jornada de trabalho. Se você não aceitar, tem outro cara que aceita e que inclusive gera muita instabilidade para os trabalhadores. E inclusive um problema sério que os zero hour contracts, que são semelhantes à proposta do Flávio, geram na Inglaterra e trabalhadores que recebem na última hora cancelamento de dia de trabalho. Então assim o cara te fala "aparece até quinta-feira que eu tenho oito horas para você trabalhar". Aí o cara falou "ô beleza, quinta-feira eu vou ganhar tanto". Aí na última hora o cara chega e fala "Não, não, não preciso mais de você não. Se manda". Pronto, você perdeu o rendimento que você tava contando. Sua renda passa a ser completamente imprevisível. Então, assim, pelo amor de Deus, não tratem com leveza essa proposta do Rogério Marinho não. Mas enfim, resumindo, o início da campanha eleitoral propriamente dita mostrou que o Flávio Bolsonaro está muito mal coberto nas discussões sobre políticas públicas. Ele realmente planejava navegar esse noticiário que era favorável às pautas bolsonaristas. Enganar todo mundo aí, se eleger na base da mutreta e depois governar com os amigos dele. Por essa pequena diferença dele não ganhar no primeiro turno, o Brasil está descobrindo quais são as dificuldades dele para debater problemas de pobre.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Ana, deixa eu te ouvir sobre isso. Você conversou aí com as duas campanhas. Conte as novidades, a temperatura, o ânimo de cada lado.

Ana Clara Costa: Gente! Eu tenho tanto para lhe falar.

Fernando de Barros e Silva: Eu tenho tanto pra te falar...

Celso Rocha de Barros: Mas as palavras...

Ana Clara Costa: Não sei dizer...

Fernando de Barros e Silva: Nosso amor por você é infinito também, Ana Clara.

Celso Rocha de Barros: Isso aí!

Fernando de Barros e Silva: Conte nos tudo.

Ana Clara Costa: Bom, vamos lá, gente, o que a gente está vendo nesses últimos dias desse segundo turno é uma disputa entre duas histórias sobre qual história vai prevalecer. E vejam só o que aconteceu. O Flávio chegou na frente no primeiro turno, com tudo que veio junto com ele e essa bagagem passou a cobrar seu preço. Qual que é essa bagagem? Jair Bolsonaro solto, golpe, toda a pauta machista, misógina, homofóbica, violência. A comissão de frente do Flávio foi o Lucas Pavanato e a Eduarda e foi uma coisa que assustou o Brasil. Daí teve o menininho segurando a arma, né? A foto do grupo de WhatsApp que alude a Mussolini, é a promessa de mudança na Constituição que a gente falou no programa passado. E um Congresso majoritariamente alinhado, né, que foi eleito. Bom, mas o fato é que na Quaest ficou bem evidente que o medo da vitória do Flávio voltou. E é um medo que decorre da história que essa candidatura dele conta. É aquela pergunta: é isso mesmo que vocês querem? Essa é a pergunta do segundo turno, quando você tem toda essa bagagem maluca mais um presidente da República com o poder e a intenção de fazer tudo o que ele quer. Então há um questionamento hoje para o eleitor, tanto o eleitor que votou no Caiado, Augusto Cury, Renan, enfim, tanto o próprio leitor que votou no Flávio, quanto o próprio eleitor que não foi votar. A pergunta foi muito: é isso que vocês querem? Vocês têm certeza disso? E o que essa subida do medo evidencia é que as pessoas pararam para pensar. Isso está nas pesquisas qualitativas das duas campanhas. Esse desempenho que é paradoxal, esse desempenho monumental no primeiro turno. Estou falando não do Flávio em números, mas da direita. Fez a população pensar em democracia de novo, porque não foi esse o norte do voto no primeiro turno. Não foi democracia, mas está sendo a pauta do segundo turno. É claro que a campanha do Lula aproveitou isso e investiu na narrativa do medo, que é uma estratégia óbvia, né? A imagem da criança, dos jovens fascistas que ganharam, tudo isso que o Flávio trouxe é muito concreto. Tem vídeo, foto. Então, para a campanha do Lula foi fácil trabalhar isso. Então, o que que aconteceu? Falando um pouco da história da campanha do Lula, essa campanha de segundo turno, né? Enquanto a primeira foi sobre legado e a gente falou disso no programa passado, essa tem um tom de superação, de bem contra o mal. A volta da discussão da luta de classe, das políticas públicas, a defesa das minorias, a defesa das maiorias. Porque nós, mulheres, somos a maioria da população brasileira.

Fernando de Barros e Silva: Exato.

Ana Clara Costa: Bom, e é também um pouco, de certa forma, a história do impossível, do que nunca aconteceu nunca antes na história desse país. Isso é muito sedutor, você conseguir aquilo que ninguém conseguiu. E o Lula é especialista nisso. Tanto que nunca antes na história desse país é um bordão dele. E o que foi feito, na verdade, com essas duas histórias conforme esses dias foram passando, os primeiros dias para a campanha do Lula foram dramáticos. Mas as coisas parecem ter se organizado e até com certa rapidez. Eu já tinha falado no programa passado da chegada do Camilo Santana e do Rafael Fonteles. Eles de fato chegaram e se localizaram ali junto com o Sidônio e acabaram formando uma trinca que até o momento parece bem alinhada, sem conflitos, as funções bem divididas, ou seja, existe uma coordenação política que não havia e essa turma de certa forma deu uma dura no Lula e, assim, defina dar uma dura. É um senhor de 80 anos, presidente da República. Ninguém vai chegar na cara dele e apontar o dedo e gritar com ele. Não é isso. Mas houve uma conversa mais incisiva em que foi falado que ou ele topava ou enfim, a coisa, a coisa podia ficar complicada. Isso me fez rever Entreatos, porque eu fui, eu queria me lembrar, né? Faz tanto tempo...

Fernando de Barros e Silva: Uau! Entreatos, para quem não sabe, o filme do João Moreira Salles sobre a campanha do Lula em 2002. Filme que foi feito só com cenas de bastidores, justamente era Entreatos. Era todas as cenas que não eram públicas.

Ana Clara Costa: Eu quis rever o documentário porque eu me lembrava que teve essa discussão também. Claro que em outro momento, porque na campanha de 2002 o Lula passou do primeiro turno com uma vantagem enorme sobre o segundo colocado, que era o Serra. Então não tinha essa briga tão declarada. E também essa divisão na sociedade não era tão visível desse jeito. E tem essa cena em que o Duda Mendonça fala para eles quando assume a campanha: "Se vocês estavam fazendo tudo tão perfeito assim, por que vocês não ganharam até hoje?". E é aí que o Lula faz esse movimento para o centro, para o empresariado, a Carta ao povo brasileiro, etc. Numa autocrítica ali do que que eles gostariam de ser dali para frente. Então eu não estou dizendo que a conversa que aconteceu agora foi exatamente nos termos dessa conversa com o Duda Mendonça lá atrás. Mas houve uma conversa e o Lula mudou totalmente. Então, assim, as redes, as selfies, os vídeos engraçadinhos, a ideia de jogar para frente, para o futuro. E também chegaram outras pessoas que fizeram outras campanhas vitoriosas nesse primeiro turno, como a campanha do Jerônimo na Bahia. O Rui Costa também veio para a campanha, mas não está ali com muito protagonismo. Eles entenderam ali que precisava, um, de uma trégua entre as brigas internas, dois, de uma nova configuração com um único foco que é virar. Foi a mudança do Lula. Ele teve a sensibilidade de ver isso, que se ele não mudasse até o próprio espírito, se ele não acreditasse na possibilidade de virar, ele não ia conseguir contagiar a própria campanha, que estava tão frustrada depois do primeiro turno. Então ele percebeu que sem ele acreditar naquilo, a campanha não ia acreditar também. Então, parte dessa retomada que a gente não sabe se vai resultar de fato numa virada parte dessa percepção dele.

Fernando de Barros e Silva: E tem a participação que eu não acho pequena, pelo contrário, da Ana Elisa, deputada eleita deputada federal de Minas. A chegada dela eu acho bem importante o ânimo da Érika Hilton e dos Janones, entre outras figuras, essas pessoas nas redes sociais, pelo menos, estão fazendo um terremoto.

Ana Clara Costa: Sim. Essa questão das redes é um ponto importante, Fernando, porque está sendo uma coisa orgânica, entendeu? O PT não está controlando as redes ou tentando controlar as redes, ou tentando pautar as redes, ou tentando direcionar os Janones. O Janones está fazendo o que ele quer. A Ana Elisa está fazendo o que ela quer. O Guilherme Cortez, que é outro deputado que foi eleito pelo PSOL, em São Paulo, que também está muito forte nas redes. O mundo da internet de uma forma geral. Então a Paula Lavigne está coordenando os artistas ali minimamente. Mas o importante disso é que eles perceberam que eles tinham que deixar as redes fazerem o que elas quiserem para defender a candidatura do Lula ou voto no Lula. Então, não existe uma coordenação geral e a partir disso, a campanha está, na verdade, surfando nas coisas que estão dando certo na internet. Então vou dar um exemplo, uma influenciadora fez um vídeo que viralizou usando uma música do Queen com David Bowie, aquela Under Pressure, em que ela compara Lula e Bolsonaro usando as letras da música e tal. Viralizou. A campanha pegou a música e aplicou num vídeo em que mostrava o Lula correndo e tal. Então assim mudou completamente, porque antes não tinha nada disso. Então houve uma simbiose entre as redes e a campanha. E foi essa característica orgânica dessas mobilizações que fez as pessoas irem pra rua nesses últimos dias. Não foi o PT que convocou, não foi a CUT que convocou. Foi totalmente espontâneo.

Fernando de Barros e Silva: Sim, isso é muito impressionante, né? Existia uma apatia antes, no primeiro turno.

Ana Clara Costa: Exato. E o que aconteceu foi que a campanha não se apropriou disso. A orientação, ao contrário, é não se apropriar disso. Porque qual é o objetivo do Lula nesse momento? Para ele virar, ele precisaria ter os votos de quem não votou nele, seja de quem votou em outros candidatos que estão mais alinhados à direita, seja em quem não foi votar. Então, quanto mais essas mobilizações se distanciarem do que é o PT, tanto que veio esse movimento "esquerda e direita contra Bolsonaro". Contra Flávio. Eles querem pegar um pouco novamente essa ideia de uma frente mais ampla a favor da democracia. Então o PT aparelhar a manifestação não é o ideal. E aí uma fonte estava até me contando que a juventude do PT quis de certa forma, organizar as manifestações, dar diretriz e etc. E eles pararam na hora. Falaram "pára com isso, não faz porque a gente tem que deixar as ruas soltas, fazerem o que elas quiserem".

Fernando de Barros e Silva: Interessante isso.

Ana Clara Costa: Se vocês olharem, foram as redes que viralizaram e produziram conteúdo sobre a bolsonarista na varanda do Copacabana Palace, enquanto os funcionários do hotel faziam L. Foram as redes que fizeram conteúdo sobre a faxineira, limpando o vidro e fazendo L no apartamento de frente para o mar. O gostosão da Paulista, entendeu? Não foi o PT que mandou ele ir para lá, né?

Sonora: Ou malhar. Vai pra academia.

Fernando de Barros e Silva: . O novo herói da esquerda.

Celso Rocha de Barros: O gostosão da Paulista é um assunto realmente. Patrimônio nacional já. É um negócio... Entrou para a história das campanhas. Mas você falou isso, desse movimento geração espontânea. E eu lembrei, eu cobri a campanha do Fernando Henrique Cardoso. Primeira campanha a presidência do Fernando Henrique. Ia sair uma pesquisa, as pessoas perguntaram, os repórteres na porta da casa dele. Nunca me esqueço dessa cena. Qual a expectativa dele para pesquisa? E ele falou: "Não sei qual vai ser o resultado, mas você percebe quando tem faísca no ar". Tem um sentimento dessa faísca que estava muito ausente no primeiro turno. Eu acho essa imagem da faísca, que é um pouco óbvia até, mas é um achado. E o Fernando Henrique usava isso muito como bordão. E ele ganhou de lavada. Claro, o Plano Real é outra circunstância, outro mundo, etc. A gente está num mundo bastante diferente e em vários sentidos substantivos pior.

Ana Clara Costa: Mas é justamente isso que aconteceu, Fernando, porque, como você corretamente disse, estava todo mundo meio apático no primeiro turno ou achando que ia ter segundo turno mesmo. Então "foda-se, não vou votar" ou então "vou votar em qualquer coisa aqui porque tá tudo ruim". E aquele noticiário pesado contra o Supremo e tudo mais. Foi uma votação sem engajamento, né? Ninguém estava votando com vontade, com força. E o que aconteceu agora, sobretudo na juventude, que estava apática, é que ela está abraçando o Lula, não porque é o Lula, mas porque é a proposta que defende minimamente as ideias que essa juventude acredita. E muitas dessas ideias são chamadas de pauta identitária pela própria esquerda. Inclusive porque tem uma parte da esquerda que acha ruim a associação do PT com pautas que eles chamam de identitárias, porque atribuem a isso o distanciamento do trabalhador. E o que a gente está vendo acontecer e que, pelo menos nas redes, é essa pauta que está conectando esses jovens com a defesa da candidatura do Lula hoje.

Fernando de Barros e Silva: E a campanha do Flávio, Ana?

Ana Clara Costa: Então, o efeito prático dessa campanha mais orgânica do Lula foi que a campanha do Flávio passou a responder a campanha do Lula acima de tudo. Então, hoje, se você olhar os vídeos e os movimentos da campanha dele, ele não está pautando a agenda. Ele está respondendo a campanha do Lula. Talvez seja porque quando o primeiro turno acabou, eles acharam que estava dominado e aí perderam o foco da campanha e passaram a ter o foco no governo, conforme eu falei no programa passado. Então eles acabaram perdendo essa retomada e quando eles foram ver, meio que foram pegos de surpresa pelo que aconteceu e passaram a ter uma conduta reativa e até por isso o Flávio teve que ser obrigado a falar sobre não cortar benefícios. Esse cavalo de pau que ele deu na 6x1, né? Eles arregimentam influenciadores para rebater os argumentos de que o bolsonarismo é anti LGBT contra os direitos das mulheres, contra o SUS. Então você vê os influenciadores bolsonaristas com um discurso bem organizado para pontualmente rebater esses pontos. E tem a questão que as principais vitórias do Flávio no primeiro turno, ou seja, essa bancada imensa no Senado, a Eduarda e o Pavanato. O Flávio não pode colocar isso como o capital político dele para o segundo turno, porque ele quer justamente o eleitor que não quer isso. Então ele decidiu ser moderado do dia para noite e contemporizar os discursos que ele estava enaltecendo até ontem, que é o que o Celso fala do estelionato eleitoral. Então, as ideias extremas que foram vitoriosas, ele está colocando debaixo do tapete para tentar kassabiar ali um pouco. Mas ele não pode esquecer que ele não é o Kassab, né?

Fernando de Barros e Silva: Coitado do Kassab.

Ana Clara Costa: Agora, se a gente pode tirar alguma coisa boa desses dias que estão sendo bem tensos, né? No debate, apesar de a gente não ter uma ameaça de golpe tão clara como foi na eleição passada, eu sinto um clima muito tenso. Não sei se vocês estão com essa mesma sensação. Finalmente, a gente está tendo uma eleição em que a gente está discutindo política pública, né? Você tem uma defesa clara do Lula em razão das políticas públicas dele e da manutenção e da expansão dessas políticas públicas. E na campanha do Flávio você tem uma flexibilização das ideias mais liberais, né? Ele passou a esconder a Daniela Marques nesses últimos dias. Ele passou a ter que dar explicações sobre políticas públicas. Então não tá com aquela baixaria das eleições passadas de mamadeira de piroca. Aquela degradação total. Exato. Você passa na rua hoje as pessoas estão debatendo Bolsa Família tem que ter ou não tem, sei lá, Prouni. As pessoas estão debatendo os programas sociais, mesmo as pessoas que são contra eles, entendeu?

Fernando de Barros e Silva: O que eu acho é o seguinte tá muito claro que o que está em jogo é a Constituição de 88. Flávio, o significado histórico dessa eventual presidência dele, é destruir.

Celso Rocha de Barros: O fim da Constituição de 88.

Fernando de Barros e Silva: O Brasil, que foi consagrado pela Constituição de 88. Isso significa o fim da democracia brasileira. Isso está bem claro. E ele ali, logo no ânimo, na euforia do dia seguinte à eleição. Ele deixou escapar isso com aquela frase da Constituição. Mas é. É uma escalada do arbítrio sem precedentes. E num cenário com aval do Trump, com a América completamente alinhada à extrema direita, é um cenário muito destrutivo. Assim, com o potencial de devastação sobre a democracia. gigantesco, muito maior do que no Bolsonaro. Porque ali ele estava aprendendo como fazer as coisas ainda. E vem com ressentimento também dessa vez. Eu acho que vem com uma carga de revanche histórica contra a prisão injusta. Estou fazendo o ato, pai.

Celso Rocha de Barros: Vingança.

Fernando de Barros e Silva: A prisão injusta por um juiz ladrão. Esse é o discurso que eles vendem. "Teve um juiz aí que prendeu meu pai. Ele é ladrão". A votação dele no primeiro turno está muito ligada a essa ideia e as pessoas estão percebendo agora que é um pouco mais complicado do que isso.

Ana Clara Costa: Agora, o que a gente vê de tudo isso que a gente conversou aqui hoje nos números da Quaest? O número chave ali é a expectativa de vitória. Antes do primeiro turno, a expectativa de vitória do Lula era maior do que a do Flávio e isso virou no segundo turno, o que poderia ser visto como um dado bom pro Flávio. Pô, tem mais gente achando que ele vai ganhar do que o contrário. Porém, é justamente o fato de acharem que ele vai ganhar que acaba gerando o medo da vitória dele. E essa ideia de repensar o que fazer no segundo turno. E nesse ponto, o Felipe Nunes, eu conversei com ele e ele me disse que, eu acho que isso não é uma novidade, que eu vou falar aqui, é o senso comum desses dias, que é a questão das abstenções. Hoje, quando você faz essas pesquisas de intenção de voto, elas falam em quem elas querem votar, mas elas não falam se elas querem ir votar. Então, tanto o Flávio quanto o Lula têm de converter a intenção de voto em voto. E esse é o problema que o Felipe Nunes vê, porque você tem a maior parte dos estados que já resolveu a sua eleição estadual e tem muita gente que não vai querer ir votar de novo porque já, enfim, já votou e tal, já não precisa votar para governador. Então, tirar essas pessoas de casa para votar acaba sendo o maior desafio. E no caso do Lula, ele teria que torcer para que os eleitores do Sudeste vão votar e para que os eleitores do Sul não vão votar porque no Sul ele tem um desempenho pior. Então, para ele, no Nordeste, no Sudeste são centros fundamentais. E tem um outro ponto, que é o seguinte, o Lula perdeu o voto e o Flávio teve um desempenho melhor que o Jair em muitos municípios pequenos e médios ligados ao agro. Por quê? Porque primeiro, o agro a gente sabe que por si é contrário a esquerda. Mas a gente não está falando aqui de proprietário rural ou de grandes latifundiários. A gente está falando do povo que de certa forma, se viu beneficiado economicamente pelo dinheiro do agro na sua cidade, na sua região. Então, conversando com o Felipe sobre isso, ele notou Tocantins. O estado do Nordeste entendeu em que o Lula tinha esse voto, mas por alguma razão esse voto foi para o Flávio e, coincidentemente, eram regiões ali em que o agro tinha uma relevância econômica e uma relevância econômica que cresceu. E a gente não pode esquecer que esse agro cresceu também muito com base no Plano Safra, em crédito do BNDS, crédito sobretudo do Banco do Brasil. Então assim, seria interessante o Lula se conectar com essa pauta, pelo menos nesse lado, porque a campanha do PT não vai virar o voto do latifundiário, do grande pecuarista, mas ele pode conseguir o voto do trabalhador ali, né?

Fernando de Barros e Silva: Muito bem, a gente vai encerrando então, o primeiro bloco do programa, fazemos um rápido intervalo. Na volta, nós vamos continuar falando de eleição, vamos falar da Justiça Eleitoral. Kássio com k. Já voltamos.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Estamos de volta. Casca de Bala, vamos começar com você. Há um caminhão de evidências de que a turma do TSE bolsonarista está operando para facilitar a vida do Flávio. Vamos falar em português claro. Cometendo, vou usar a palavra aqui, delinquências, a meu ver. Diga lá.

Celso Rocha de Barros: Então, Fernando, o Kássio Nunes Marques virou já Janones do Flávio. Ele basicamente transformou o TSE no no Exército do Flávio. Não tem o exército do Lula lá do Janones? O Kássio Nunes Marques, você pode até discutir se no começo da campanha ele estava tão parcial assim, mas agora, segundo turno virou bagunça, entendeu? O segundo turno liberou geral. Ele foi para briga mesmo. Ele quer eleger o Flávio. É isso aí. No caso do exército do Lula, lá do Janones, ele suspendeu o grupo por notícias falsas, sem ir lá conferir se tinha notícia falsa.

Fernando de Barros e Silva: Exato.

Celso Rocha de Barros: "O Flávio me disse que tem notícia falsa? Porque que ele ia mentir para mim?". Certo? Então foi lá e suspendeu assim na maior. Depois a perícia não achou as notícias falsas que o Flávio tinha dito que estavam lá. Tem uma série de julgamentos no TSE no momento que já tem maioria contra o Flávio, mais o Kássio Nunes Marques e o André Mendonça estão parando o julgamento, estão pedindo vista, estão fazendo um monte de tática para atrasar o julgamento, para não sair uma decisão favorável à campanha do Lula.

Fernando de Barros e Silva: Um especificamente, que o André Mendonça pediu vista quando já tinha uma maioria contra uma decisão monocrática que ele tinha tomado. Ele determinou a retirada de um vídeo da campanha do Lula falando dos efeitos do chamado "tesouraço" do Flávio. Flávio, você lembra que em vários momentos usou um tesourão e veio aí e tal? E o André Mendonça suspendeu a votação ontem.

Celso Rocha de Barros: E é uma sem vergonhice, porque o Flávio diz que vai cortar gasto para caramba. Apresenta números completamente inconsistentes, como a gente e depois todo mundo mostrou. E você não pode tirar a dedução óbvia aqui, "então ele vai cortar política social"? Cara, e aliás, mesmo se não tivesse essa conta, você não pode fazer campanha dizendo que o cara vai fazer políticas públicas ruins. Que absurdo é esse cara? Então, assim, a situação realmente no Tribunal Superior Eleitoral no momento é de bagunça, é de caos. O Kássio instaurou lá um comitê de campanha pro Flávio. Tá tocando lá. E por que ele tá fazendo isso? Primeiro lugar, eu acho que tem essa questão que a gente já falou aqui no caso do André Mendonça, é a expectativa de se o Flávio ganhar, ele vai indicar muita gente para o Supremo. E a expectativa tanto do Kássio quanto do André Mendonça, que se eles ajudarem o Flávio a ganhar, eles vão ter voz na hora do Flávio escolher os novos nomes para o Supremo e naturalmente, vão aumentar muito seu poder no Supremo. No caso do Kássio Nunes Marques tem o fator adicional que ele quer desviar a atenção das acusações contra ele. O Kássio talvez seja o cara mais enrolado com o Master nesse momento. Se você pegar o contrato lá da galera do KN, como está nas conversas com escritório de advocacia, atuando a favor do Vorcaro para conseguir que a Justiça dissesse que aqueles precatórios que não valiam nada valiam bilhões? Bom, é mais dinheiro do que a grana que o Vorcaro deu para o Xandão e para o Flávio somados. Então assim, o Kassio tá bem enrolado aqui e ele já deu decisão favorável nesse caso, que é a questão que o Xandão pode se livrar ainda se isso for para a justiça. O Kássio já deu a decisão e para quem está nos ouvindo aqui, entendeu que a decisão que Kassio fez no caso dos precatórios do Master, é como se um juiz chegasse para você e dissesse que aquele carro velho encostado que você tem na garagem vale a mesma coisa que uma Ferrari e te desse direito de usar ele como garantia para pegar empréstimo no banco, dando uma garantia de valor de Ferrari. Eu aposto que você gostaria que fizesse isso com você, não é? Então, o Kassio Nunes Marques fez para o Daniel Vorcaro. Então Kassio Nunes Marque está querendo proteção do Flávio para se ele ganhar e começar a onda de impeachment de ministro, vai falar: "Não, não, não, eu sou do de vocês". O que é uma absoluta vergonha, né?

Fernando de Barros e Silva: Isso é porque nem entramos ainda no capítulo dos lençóis sobre o qual a Ana vai falar.

Celso Rocha de Barros: Pois é, as últimas do Kássio, inclusive, são absolutamente obscenas. Quer dizer, tem pedidos da campanha do Flávio para censurar a CUT. Cara, a CUT não pode defender o Lula? Quer dizer, os sindicatos não podem defender o Partido Trabalhista local, entendeu? Que país democrático do mundo isso existe, né? Então, assim, o nível de depravação mesmo dessas decisões aqui é uma vergonha. Realmente, cara. E olha só, eu não tenho ilusão assim de que um juiz seja 100% isento. Cada um leva lá suas concepções políticas. Mas cara, você tem que fazer um esforço para ir além das suas convicções, para cumprir a lei.

Fernando de Barros e Silva: É uma arbitrariedade escancarada, né?

Celso Rocha de Barros: Não, por mais que você dê de barato que algum viés, sempre existe, isso aqui eu nunca vi. O Flávio quer censurar políticos do PT que falam mal dele. Pelo amor de Deus, cara! Como assim? E aí fica o aviso para aquele pessoal todo que embarcou lá atrás. Lembra a história do Elon Musk da liberdade de expressão? E os caras lá fazendo discurso? "Não. Realmente, a esquerda quer acabar com a liberdade de expressão". Ta aí a liberdade de expressão para vocês. Então, assim é um negócio absolutamente cínico, né? Agora, a campanha do Lula obviamente não pode ficar parado até o final do jogo reclamando de falta. Quer dizer, por mais que o juiz esteja beneficiando o outro time, você tem que continuar jogando. Mas nós, como analistas assim, temos que chamar a atenção para o fato que isso aqui é um padrão de decisões obviamente identificável. Bizarramente enviesado. Duvido para você que se você chamar um painel de experts internacionais para analisar essas decisões, eles não vão identificar viés que, no fundo, assim mostra o grau de crise institucional que a gente vive mesmo. As instituições viraram bagunça mesmo. Se o Flávio vencer, as instituições entram num processo de crise muito, muito aguda. Mas mesmo se o Lula ganhar, tem que ter uma repactuação ali entre os poderes, uma coisa qualquer assim, para tentar dar um mínimo de organização na vida nacional.

Fernando de Barros e Silva: Sim, concordo com você. Ana Clara. Precisamos dar um grau de organização na vida nacional. Conta aí.

Ana Clara Costa: Falando em desorganização.

Fernando de Barros e Silva: Falando em desorganização. Tcharan!

Celso Rocha de Barros: Falando em zona.

Ana Clara Costa: Perfeito. Eu já toquei nesse tema aqui no Foro semanas atrás, quando a gente publicou uma reportagem sobre as festas do Daniel Vorcaro, que quando a gente fala da vida sexual de algumas personalidades da nossa República, a gente não está necessariamente falando da vida privada delas, sobretudo quando existe o caso Daniel Vorcaro, porque ele usava como parte do pagamento oferecido à autoridades, favores sexuais. Algumas mensagens já foram divulgadas pela imprensa e, na verdade, elas foram divulgadas desde o dia daquela fatídica sessão do Supremo, em 15 de setembro, que deveria julgar abertura de uma investigação sobre o Alexandre de Moraes. Começaram a pipocar algumas mensagens soltas que sugeriam a participação do ministro Kássio em noitadas do Vorcaro. Quando a gente fez a reportagem sobre essas noitadas na piauí, A Corte de Prazeres de Daniel Vorcaro era o título. A gente apurou a presença dele, de fato, com fontes que estiveram nessas noitadas ao mesmo tempo que ele. Então a gente corroborou isso com outras fontes que não as mensagens. Essa semana, a jornalista Daniela Lima, do UOL, publicou novas mensagens em que o Vorcaro dizia que estava fazendo graça para o ministro em São Paulo e que o mordomo dele teria escrito que emprestou o quarto do lado da casa dele para o ministro com cinco meninas. E aí eu, o João Batista e o Breno Pires, a gente fez um apanhado de todo o arsenal de mensagens do Daniel Vorcaro a que a gente teve acesso. E a gente encontrou um conjunto de 125 mensagens no celular do Vorcaro planejando essa noite com essas meninas.

Fernando de Barros e Silva: 125?

Ana Clara Costa: 125 mensagens trocadas com mordomo, com motorista, com a faxineira, com o chefe, com o diretor do Master. São ao todo, oito pessoas mobilizadas para fazer essa noite acontecer. Então, assim é a primeira vez na história do Supremo que um ministro é flagrado recebendo favores sexuais patrocinados por um banqueiro cujo processo por uma fraude bilionária está ocorrendo na própria corte em que esse ministro atua. E por acaso esse ministro também é presidente do Tribunal Superior Eleitoral numa eleição como essa em que nós estamos vivendo e a gente até comentou antes que parece ser mais tensa do que a passada. E sendo o ministro indicado pelo Jair Bolsonaro e tendo dado sinais muito claros, de preferência nessa eleição, né? E além do mais, a gente não pode esquecer que no decorrer do caso Master, a defesa do Daniel Burkhard pediu em várias ocasiões para que a relatoria desse caso fosse dada ao Kássio Nunes Marques. Então, antes do sorteio para o Tóffoli, eles já haviam pedido e depois pediram de novo.

Fernando de Barros e Silva: Sim, isso tá lá na origem. É muito importante você relembrar isso. A gente já falou isso algumas vezes. A defesa pediu explicitamente para o Kássio Nunes Marques. Exato. É muito chocante tudo isso, essa putaria em sentido figurado agora eu tô falando. Essa promiscuidade, porque o sujeito não tem condição nem de presidir o TSE, nem de ser ministro do Supremo. Nenhuma condição. Essas revelações mostram porque ou evidenciam ainda mais porque ele fugiu da reunião do dia 15 de setembro, aquela reunião que arquivou o pedido de investigação contra o Xandão. Diante desses acontecimentos, esse sujeito precisa sair do Supremo. Isso é claro.

Ana Clara Costa: Como diz a ministra Cármen Lúcia, há excesso de provas. O Daniel Vorcaro, ele comenta sobre essa noite com várias pessoas, não só na organização, como também ele diz para outras pessoas que essa noite estava acontecendo no apartamento dele. O mordomo informa a ele a cada segundo sobre os desdobramentos da noite porque ele não participa do fato em si. Então ele organiza para que quarto vão, quando eles vão para a piscina o mordomo informa para ele que agora eles tinham todos ido para a piscina e tinha gente pelada na piscina.

Fernando de Barros e Silva: Que data é isso, Ana?

Ana Clara Costa: Aconteceu em 28 de fevereiro de 2025, pouco antes do carnaval.

Fernando de Barros e Silva: Ou seja, não tem dois anos. Já se sabia.

Ana Clara Costa: Não. Em fevereiro de 2025, o Daniel Vorcaro estava em altas negociações para conseguir tragar o BRB para o escândalo. A gente relata isso. Essa matéria foi publicada na quinta-feira. Quem quiser, pode ler. Ela está aberta no site. Mas já se sabia muito do que estava acontecendo ali, sobretudo as autoridades que estavam atuantes em Brasília. Porque a gente sabe hoje que o Daniel Vorcaro estava movendo todas as placas tectônicas para salvar o banco naquele momento e nem se o banco não estivesse quebrando uma situação dessas é possível, né?

Fernando de Barros e Silva: Sim, claro. Como disse o Celso, só não tem mensagem sobre operações financeiras no celular do Vorcaro, né?

Celso Rocha de Barros: Pois é, como está a bolsa em Tóquio?

Fernando de Barros e Silva: Essas perguntas que um banqueiro deveria...

Ana Clara Costa: E, assim, existe uma total certeza de que nada sairia porque o mordomo estava lá observando tudo e relatando para o Daniel Vorcaro. Você tinha pessoas servindo, você tinha um chef. A compra que o chef fez para essa noitada, isso está nos arquivos do celular do Daniel Vorcaro, eeu estou falando de comida. Eu não estou falando de bebida, tá? Latas de caviar, trufas, coisas assim. E isso está detalhado nas conversas com o chef. Não é uma compra aleatória. O chef bate com o Daniel Vorcaro o que seria servido e depois compra. O valor dessa compra era superior ao salário líquido de Nunes Marques naquele mês. Só a compra feita para o jantar dessa noite.

Fernando de Barros e Silva: Que não é um salário baixíssimo.

Ana Clara Costa: Não, não é. E para coroar essa situação degradante. Quando a noite acaba, o mordomo fotografa a situação do quarto e envia essas fotos para o Daniel Vorcaro e fotografa preservativo usado. Enfim, faz todo um detalhamento ali do que restou da noite e manda para ele. O ministro Kássio Nunes Marques deu uma decisão favorável, como o Celso bem lembrou, para destilaria Alcídia, que era um processo que estava ocorrendo no Supremo sobre os precatórios de interesse do Daniel Vorcaro. E, além disso, as mensagens também mostram o Daniel Vorcaro falando sobre pagamentos ao filho do Kássio Nunes Marques. Em determinada mensagem, o diretor dele pergunta se mantém os pagamentos de 500 mil mensais para o Kevin Marques. Depois de ter acesso a todas essas mensagens, a gente procurou o ministro pedindo alguns esclarecimentos, perguntando se ele foi a essa festa, se ele pagou alguma mulher. Se essa proximidade, essa intimidade, digamos, com Daniel Vorcaro, não impediria ele de atuar de forma imparcial nos casos envolvendo Banco Master. E ele mandou pra gente uma nota em que ele dizia só que ele nunca votou a favor de Daniel Vorcaro. Inclusive deu voto pela manutenção da prisão, nunca trocou mensagens com ele e nem pediu nada ao banqueiro. O ministro também disse que nunca autorizou ninguém a falar em nome dele e que não pode se responsabilizar por conversas ou ações de terceiros. Mas são 125 mensagens com oito interlocutores, com fotos, descrevendo o que aconteceu numa noite.

Fernando de Barros e Silva: Foto da camisinha do Kássio Nunes subornado pelo banqueiro corrupto. Talvez seja o ponto mais baixo dessa sarjeta em que o Supremo se meteu com esse banqueiro. Muito bem, vamos encerrando o segundo bloco do programa. Na volta, nós vamos falar deste outro personagem, Willer Tomaz e suas relações com Flávio Bolsonaro. Já voltamos.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Estamos de volta. Ana Clara, vamos com você. Mais uma evidência de relações promíscuas, indevidas e virtualmente criminosas de Flávio Bolsonaro com esse senhor Willer Tomaz, o advogado.

Ana Clara Costa: Bom, a gente falou sobre todos os últimos acontecimentos das campanhas no primeiro bloco é uma coisa curiosa é que em nenhum momento a gente fala, porque em nenhum momento isso parece relevante que o envolvimento do Flávio com Vorcaro ou um Caso Master ou enfim, em qualquer tipo de mal feito que não foi isso que causou problema para ele nesses últimos dias, nem no primeiro turno. Então, o que a gente vai falar nesse bloco, que é mais um tijolinho mal explicado da relação do Flávio com o Willer Tomaz, o advogado de Brasília. Tudo isso que a gente vai falar ajuda a compor a biografia do candidato, mas não parece ser sobre isso essa eleição. Assim, todos os indícios até agora nos levam a crer que essas explicações talvez ele não esteja se sentindo compelido a dá-las, porque isso não está importando muito para a decisão do eleitor nesse momento. Bom, mas o fato é que elas existem, né? Foi revelado pelo site UOL, pelos repórteres Natália Portinari e Fábio Serapião que o Flávio Bolsonaro tinha uma conta conjunta com Willer Tomás numa holding com sede na ilha da Madeira. Essa holding chama Alcazar, era administrada pelo advogado e ela era dona de várias propriedades, várias coisas, entre elas ela era sócia da tal aeronave que o Tomaz tinha em sociedade com Daniel Vorcaro que a gente revelou que o Flávio viajou nessa aeronave do Daniel junto com Willer Tomaz. Então, no fim o Flávio Bolsonaro era sócio da conta da empresa sócia do Vorcaro, você vê como as coisas elas vão ficando complexas, mas as relações são as mesmas, né? Então ele usa uma aeronave do Willer, que pertence a uma empresa do Willer, da qual ele é beneficiário da conta. Ele é usuário master da conta. Ele usa o apartamento do Willer em São Paulo, que foi uma coisa que a gente publicou também na piauí. Ele usa a casa do Willer em Angra que é essa do Richarlyson que está nessa disputa judicial e que o Flávio não sai de lá. Ele era usuário frequente desse jatinho e que ficava no hangar da Prime You, que era uma empresa do Vorcaro também. O apartamento de São Paulo, onde ele se reuniu no início da campanha, o Willer comprou do Fabiano Zettel cunhado do Vorcaro. Então, o que fica aparecendo cada vez mais conforme esses tijolinhos vão sendo expostos é que parecia ser um núcleo, né? E o que é curioso é que nas mensagens do Daniel Vorcaro a gente vê um interesse e uma relação bem constante dele com o mundo das bets, com o empresário das bets e tal. Que é o mundo do Willer Tomaz. Willer Tomaz e a Polícia Federal também está investigando isso. Fez muito lobby para as bets, sobretudo para as operações no Rio de Janeiro, governado pelo Cláudio Castro. Cláudio Castro, figura central desse escândalo do Banco Master por ter colocado o dinheiro da Previdência no banco, colocou.

Celso Rocha de Barros: E da companhia d'água.

Ana Clara Costa: Exato. Da Cedae também. Então, o que a gente vai vendo é que vai se formando um núcleo de poder ali em que o Willer está envolvido. Tem algumas sociedades. com Vorcaro. O Flávio, algumas sociedades com o Willer.

Fernando de Barros e Silva: E viajaram juntos várias vezes para o exterior. Safári na África do Sul.

Ana Clara Costa: Várias vezes. Tem uma viagem que eles fazem e que esse documento que o UOL publicou e que depois a Malu publicou também no Globo mostra, é que uma dessas viagens que eles fizeram, quem paga é uma outra empresa do Willer também, que se chama Catedral. Catedral. E quem paga a passagem do Flávio, inclusive da família dele e tal, é a empresa do Willer. Então assim, o Willer é um amigo muito generoso, para dizer o mínimo, com o com Flávio, né? Poucas vezes a gente vê uma amizade em que.

Celso Rocha de Barros: Fica o exemplo aí pros meus amigos. Pô!

Ana Clara Costa: Em que uma pessoa se beneficia tanto do sucesso financeiro da outra, né? Impressionante!

Fernando de Barros e Silva: Casca de Bala nunca me convidou para um safári.

Celso Rocha de Barros: Nunca. Pois é, sirvo pra porra nenhuma, é foda.

Ana Clara Costa: E tem um outro ponto que a gente falou isso na época que aconteceu, mas depois veio o Dark Horse, veio tanta coisa que isso acabou se perdendo. Mas o Metrópoles tinha publicado em julho, ou seja, ontem, que o Flávio Bolsonaro tinha emitido duas notas fiscais de 500 mil para uma intermediadora de negócios do Master. Não sei se vocês se lembram que inclusive essa intermediadora chamada Kopenhagen Assessoria e Consultoria.

Celso Rocha de Barros: Mentira que é Kopenhagen o nome da assessoria, Pô, disfarça aí.

Ana Clara Costa: As duas notas foram para essa KopenhagenConsultoria Assessoria, essas duas notas que ele emitiu para Kopenhagen, elas acabaram sendo canceladas e não prosperaram. Não sei se tem a ver com o nome curioso da empresa intermediadora, mas teve uma terceira nota que eles emitiram de 500 mil para uma outra empresa chamada Contabil Correa Contabilidade e Auditoria. E essa nota sim, foi paga, né? De 500 mil. E aí, procurado, o Flávio disse que prestou serviço de assessoria jurídica a essa empresa e por isso ele recebeu. Ninguém encontrou nenhum processo no qual o escritório dele estava com procuração para atuar em nome dessa empresa.

Celso Rocha de Barros: E um jurista respeitadíssimo. Flávio Bolsonaro. Todos sabemos que.

Fernando de Barros e Silva: Mesmo que fosse verdade essa consultoria, não é verdade. Ele não poderia, como senador já seria. Não sei se legalmente poderia, mas.

Celso Rocha de Barros: Exato.

Ana Clara Costa: Ele poderia. A gente falou disso naquela que.

Celso Rocha de Barros: Legalmente talvez possa.

Fernando de Barros e Silva: Ele não pode atuar como advogado para casos que envolvam a União. Ele pode advogar contra a União ou contra órgãos públicos e entidades.

Fernando de Barros e Silva: Mesmo que fosse verdade, essa desculpa já seria imoral, embora tenha essa brecha legal.

Ana Clara Costa: Imoral, com certeza. Mas então, queria só recapitular esses 500 mil que a gente tinha esquecido, porque Dark Horse acabou tomando todo o noticiário dessa relaçã Flavio Daniel Vorcaro. Essa conta em sociedade com Willer mostra que existe algo que vai além da amizade. E detalhe que esses documentos mostram, que foram revelados pelo UOL, que quando estourou o escândalo do INSS e quando Willer foi tragado por esse escândalo, o Flávio foi tirado da conta. Então, assim, o que esse avanço da investigação mostra é que não se trata de um amigo generoso. Quando você tem uma conta conjunta com alguém, isso significa uma sociedade de fato.

Celso Rocha de Barros: Com quem que os ouvintes têm conta conjunta?

Fernando de Barros e Silva: Exato.

Celso Rocha de Barros: Se algum ouvinte aí tem conta conjunta com o amigo, mande cartas aqui para a redação.

Fernando de Barros e Silva: Isso não existe, a não ser quando você é sócio.

Celso Rocha de Barros: Exato.

Ana Clara Costa: E assim, só concluindo essa conta dessa offshore, essa offshore era sócia do jato, em que o Vorcaro também era sócio.

Celso Rocha de Barros: Que beleza! Está merecendo um novo PowerPoint do Casca.

Ana Clara Costa: Exato, eu acho.

Celso Rocha de Barros: Agora você falou na orelha que eu escuto. Vamos lá.

Ana Clara Costa: Eu acho que a internet podia se encarregar disso.

Celso Rocha de Barros: Vamos lá. Então, a gente mesmo aqui tá tentando recuperar o fio da meada. Mas é basicamente o seguinte o Flávio tinha uma conta conjunta com o Willer Tomaz, que é um cara acusado de lavar dinheiro no esquema de fraude do INSS. Aliás, eu achei meio simpático que o nome do Flávio e nessa conta é usuário master. Master tá em tudo. Pois bem, esse picareta aí acusado de participar da máfia do INSS lá, ele tem um avião que é uma espécie de frente ampla da sacanagem, porque junta o cara do esquema do INSS com o Daniel Vorcaro do Banco Master. Os dois são sócios do avião. Aliás, tem um outro empresário aqui que também é dono do avião, contra o qual, pelo que eu pesquisei, não há nada. E pô, meu amigo, você precisa arrumar umas companhias melhores para cê andar, hein, cara? Eu fiquei, pô, mas 2/3 do avião são dos dois grandes ícones de corrupção que a gente teve aí nesses últimos tempos. Esse mesmo avião é o avião onde tanto Flávio Bolsonaro quanto Alexandre de Moraes já voaram. É o avião que há um contrato que não chegou a ser implementado, mas que as investigações descobriram em que o Daniel Vorcaro transferiria cotas desse avião para a mulher do Alexandre de Moraes. Mas enquanto o Alexandre de Moraes estava indo com a farinha, o Flávio Bolsonaro já voltava com a farofa porque ele já era usuário master da conta da empresa, que era dono do avião. Então é um nó em que estão envolvidos o esquema de roubar dinheiro de aposentado do INSS, o Banco Master, o Flávio Bolsonaro, o Alexandre de Moraes e praticamente quase todo mundo que saiu na capa do jornal esse ano. Bom, isso aí já devia servir de alerta. Se você votou aí no PL porque você quer punir o Alexandre de Moraes, quer punir o STF. Não sei se você votou tão bem porque os caras eram quase que sócio aqui do mesmo avião, mas até hoje nunca apareceu relatos que eles tenham se encontrado num voo. Mas assim era sempre um risco, né? Eu queria também chamar a atenção para a história da Lídia Maria Figueiredo, mas em tese, ela dirigia ao meno 14 empresas do Willer Tomaz, como foi revelado numa matéria do ICL Notícias e da newsletter Noites Húngaras. Esse pessoal foi lá investigar a Lígia Maria, mas ele encontrou ela em um prédio no Riacho Fundo, região administrativa do Distrito Federal, a cerca de 20 km do centro do Plano Piloto de Brasília, onde ela disse que trabalhava como doméstica. Então, a CEO das empresas aqui do Willer Tomaz trabalhava como doméstica. Se você olhar o volume de dinheiro que o William Tomaz movimentava, essa é certamente a CEO mais mal remunerada do capitalismo moderno. Ou ela é laranja, entendeu? Tem essas duas possibilidades. Eu deixo aí para o ouvinte julgar qual que é a mais plausível. Quando a reportagem voltou lá, depois ela disse "Não, não. Nada a ver. Desde 2010 eu trabalho como gerente administrativa nesse escritório de advocacia e tal". Enfim, ela deu uma outra versão. O que a gente é importante a gente mapear isso tudo, visto que, como bem lembrou a Ana, isso não parece ter tirado qualquer voto do Flávio Bolsonaro até hoje, entendeu? Aparentemente ele faz o que ele quiser, entendeu? E não perde voto.

Ana Clara Costa: A gente tem que concordar que é difícil de entender. Não é uma coisa tão preto no branco.

Celso Rocha de Barros: Exatamente como, aliás, são a maioria dos escândalos realmente grandes, né? Muito raro que você acha um escândalo muito grande que é assim, o cara entrou lá na Caixa Econômica Federal tinha um cofre cheio de dinheiro, ele pegou o dinheiro, botou num caminhão e saiu, entendeu? Escândalo grande não é assim. Escândalo grande é desse jeito aqui, cheio de laranja, cheio de companhia, que a sociedade com parceiro fantasma que vai para o exterior, que vai para paraíso fiscal. A Ilha da Madeira não é um paraíso fiscal tecnicamente, mas ela tem um estatuto fiscal meio privilegiado lá em Portugal, que eles fazem para incentivar investimentos na ilha da Madeira. Então, muita gente acha que, para certos propósitos, funciona mais ou menos como um lugar meio, meio esquisito. E eu acho que isso tudo é importante também, mesmo se não tirar nenhum voto do Flávio Bolsonaro. É importante a gente documentar o seguinte um dos principais motivos pelos quais Flávio Bolsonaro é candidato a presidente é para fugir dessas investigações, gente. Se ele for eleito presidente, ele não pode mais ser investigado por crimes cometidos antes...

Fernando de Barros e Silva: Exatamente.

Celso Rocha de Barros: Dele assumir o mandato. Então, basicamente, se o Flávio Bolsonaro for eleito, a gente nunca vai saber por que o Daniel Vorcaro deu 130 milhões para ele. Porque assim, essa coisa "ah, é para fazer o filme". Não. Isso é o que o Flávio Bolsonaro resolveu fazer com a grana. Mas se o Xandão também quisesse pegar os 130 milhões que Vorcaro deu para ele e fizer um filme sobre o pai dele, entendeu? O Careca Horse, também estava valendo, entendeu? O Vorcaro dá o dinheiro sem querer saber o que você vai fazer com dinheiro. Se o Flávio eleito, a gente não vai descobrir por que ele ganhou os 130 milhões, a gente não vai descobrir quem era CEO das empresas do Willer Tomaz, a gente não vai descobrir qual era a história do Flávio Bolsonaro com esse avião. E eu suspeito sinceramente que o entusiasmo do Flávio na campanha se deva, em grande parte, à perspectiva de a gente não descobrir nada disso.

Fernando de Barros e Silva: Perfeito. Assim a gente encerra então o terceiro bloco do programa. Fazemos um rápido intervalo na volta, Kinder Uevo. Já voltamos. Muito bem, estamos de volta. Diretora, vamos ver o momento da maldade. Solta aí, Danny Dee!

Sonora: O feminismo hoje em dia é inútil. O feminismo hoje em dia não serve pra nada, persegue homens simplesmente por serem homens.

Fernando de Barros e Silva: É o Pavanato!

Sonora: E o cristianismo fez muito mais pelas mulheres do que qualquer ideologia feminista. Então ser anti-feminista é o mínimo que se espera sobre uma pessoa, de uma pessoa que estuda, que se aprofunda e que não coaduna com uma ideologia que inclusive, se você olhar as autoras feministas, elas defendem a destruição da família tradicional.

Celso Rocha de Barros: Porra!

Ana Clara Costa: Eu ia falar, mas Fernando foi mais rápido.

Celso Rocha de Barros: Entrei com tudo na seara do Casca de Bala.

Celso Rocha de Barros: Entrou com tudo, cara.

Ana Clara Costa: É que não é nem não é nem intelectualmente desafiador isso aí, né?

Celso Rocha de Barros: É um negócio meio meio...

Ana Clara Costa: Nossa! De Chat GPT.

Fernando de Barros e Silva: Bom, Lucas Pavanato, deputado federal eleito PL de São Paulo, em entrevista ao Portal Metrópoles. Com isso, a gente encerra o Kinder Ovo. Vamos direto e reto para o Correio Elegante, o momento das cartinhas. O melhor momento do programa. Vou começar com o seguinte, a Cristina Pelizon fez o seguinte desabafo: "Meu marido vai votar no Flávio. O que colocou nossa casa em pé de guerra nessas últimas semanas. Proponho então o lançamento do GAFTDA, é uma senha que quer dizer Grupo de Apoio Foro de Teresina aos Democratas Anônimos. Foro tem sido o meu refúgio em momentos de desespero. Vida longa ao Foro".

Ana Clara Costa: Haja amor, hein?

Fernando de Barros e Silva: É. E tem outra mensagem do Victor. Victor com H, no fim. "Escutando vocês falando, me lembro da grandiosa Maria da Conceição Tavares. 'É dor, mas também é raiva e, portanto, energia para lutar'. Celso está certíssimo. Não podemos nos conformar". É isso. Intelectual brilhante, ela falava de Fernando Henrique, grande intelectual, brilhante. Grande Maria Conceição!

Ana Clara Costa: Eu fiz um comentário na semana passada, que me foi falado por uma fonte de Minas deixar bem claro aqui, sobre avós que votam no Nikolas e no Lula. É uma de muitas pessoas que resolveu comentar isso. Foi um rapaz identificado como CaPelo: "A parte da avó mineira me pegou desprevenido demais. Me solidarizo por todos os netos que, assim como eu, não são o sonho de suas avós mineiras ou de outras unidades federativas. Mas seguimos juntos, querendo ser futuramente os avós brasileiros que todos os netos queriam ter". Nossa, que fofo Capelo!

Celso Rocha de Barros: Sensacional!

Ana Clara Costa: Gente, só pra dizer não sou eu que disse não, viu? São os mineiros que me disseram, eu só transmiti para vocês aqui.

Fernando de Barros e Silva: Isso aí! A Mari me passou três recadinhos curtos. O Tarcísio Braga está atento a nós e postou: "Vou ouvir o Foro de Teresina para saber como está a tristeza dos apresentadores". Ô Tarcísio! Do meu ponto de vista, eu já tive mais triste, viu?

Fernando de Barros e Silva: É, exato.

Ana Clara Costa: Já o Wagner Cordeiro comentou: "Pensei que era jornal de notícia, mas é de terror". A diferença às vezes é sutil. Por fim, a macud postou: "Terminei de ouvir o Foro de Teresina limpando a casa e sentei para segurar o choro, porque não quero ter que enxugar o chão de novo". Calma, gente! Calma aí. Muita calma nessa hora.

Fernando de Barros e Silva: É, exato. Bom, o que é bom termina logo que não é tão bom, também acaba. E assim a gente vai encerrando o programa de hoje por aqui. Se você gostou, não deixe de seguir e dar five stars para a gente no Spotify. Você ouve o Foro toda semana no Spotify e nas demais plataformas de áudio. Também no Spotify, o assinante piauí eassinante do Clube da Novelo podem ouvir as reportagens da piauí narradas por seus autores. Foro de Teresina é uma produção do estúdio Novelo para a revista piauí. A coordenação geral é do Paulo Victor Ribeiro. A direção é da Mari Faria, com produção e distribuição da Maria Júlia Vieira. A checagem é da Ethel Rudnitzki. A edição é da Mariana Leão e do Paulo Victor Ribeiro. A identidade visual é da Amanda Lopes. A finalização e mixagem são do João Jabace e do Luís Rodrigues, da Pipoca Sound. Jabace e Rodrigues, que também são os intérpretes da nossa melodia tema. A coordenação digital é da Bia Ribeiro, da Emily Almeida e do Fábio Brisolla. O programa de hoje foi gravado aqui na minha Choupana, em São Paulo, e no Estúdio Rastro, do Danny Dee. Eu me despeço então dos meus amigos. Tchau, Ana.

Ana Clara Costa: Tchau, Fernando. Tchau, pessoal.

Fernando de Barros e Silva: Tchau, Celso.

Celso Rocha de Barros: Tchau, Fernando. Até semana que vem.

Fernando de Barros e Silva: É isso, gente! Uma ótima semana a todos e até semana que vem.


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