AS MUTRETAS DE FLÁVIO E O BRASIL NA HORA DA VERDADE

Imagem As mutretas de Flávio e o Brasil na hora da verdade

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Semanalmente, os apresentadores mencionam as principais leituras que fundamentaram suas análises. Confira:

Conteúdos citados neste episódio:

"Uma tarde no lago", reportagem de Ana Clara Costa, Breno Pires e João Batista Jr para a piauí.

"A bet de Flávio Bolsonaro", reportagem de Allan de Abreu, Breno Pires, Felícia Cabrita e Mário Gouveia para a piauí.

"Mais de 70% das interações de Vorcaro com políticos eram com membros do governo Bolsonaro", reportagem de Breno Pires, Camile Lichotti e Pedro Tavares para a piauí.

"Campanha de Lula corre contra o tempo após dormir no ponto e aposta em erro de Flávio na última hora", análise de Vera Rosa para o Estadão.

TRANSCRIÇÃO DE ÁUDIO


Sonora: rádio piauí.

Fernando de Barros e Silva: Olá, sejam muito bem-vindos ao Foro de Teresina, o podcast de política da revista piauí.

Sonora: É importante nesse segundo turno você comparecer para votar porque você tem família, porque você tem filho, porque você tem neto, porque você tem o Brasil para você tomar conta.

Fernando de Barros e Silva: Eu, Fernando de Barros e Silva, da minha casa em São Paulo, tenho alegria de conversar com os meus amigos Ana Clara Costa e Celso Rocha de Barros, no Estúdio Rastro, no Rio de Janeiro. Olá Ana, bem-vinda!

Ana Clara Costa: Oi, Fernando! Oi, pessoal!

Sonora: É levantado pela própria imprensa uma série de suspeitas em relação ao Willer Tomaz e ao Flávio Bolsonaro. Eu penso que ninguém pode ir pra urna tendo um candidato a presidente da República sob suspeita.

Fernando de Barros e Silva: Diga lá, Celso Casca de Bala.

Celso Rocha de Barros: Fala aí, Fernando! Estamos aí mais uma sexta-feira.

Sonora: Nós fizemos a nossa pedida. E ontem a campanha do presidente topou então, absolutamente tudo aquilo que foi pedido na petição do presidente Lula, a campanha de Flávio vai oferecer.

Fernando de Barros e Silva: Mais uma sexta-Feira, uma sexta feira especial. E hoje a gente tem a participação do João Batista Júnior no estúdio Confraria de Sons e Charutos, em São Paulo. Olá João, bem-vindo!

João Batista Jr: Oi Fernando, Ana, Celso. Mais uma vez aqui.

Fernando de Barros e Silva: É do Breno Pires, em Brasília, no Estúdio Três Lados, que também vai participar com a gente do programa. Bem vindo, Breno!

Breno Pires: Salve pessoal do Foro de Teresina. Prazer estar aqui. Obrigado pelo convite.

Fernando de Barros e Silva: Breno, João Batista e Ana Clara são os responsáveis por reportagens importantíssimas que a piauí vem publicando ao longo das últimas semanas. E nessa semana, reportagem importantíssima, a gente vai desdobrar, analisar e falar sobre elas no segundo e no terceiro bloco.

Fernando de Barros e Silva: Antes dos assuntos da semana, eu quero lembrar a vocês, nossos ouvintes, que a gente vai estar ao vivo neste domingo, a partir das cinco da tarde, quando começa a apuração. Diretamente do Estúdio Rastro, a transmissão do Foro com imagens será no YouTube da piauí. E assim como no primeiro turno, a gente recebe nossos convidados mais do que especiais para comentar os resultados. Nem preciso dizer o quanto está em jogo, vocês sabem.

Fernando de Barros e Silva: Agora sim, aos assuntos da semana. Pesquisa Datafolha publicada na noite desta quinta-feira, registrou empate numérico entre Lula e Flávio Bolsonaro. Cada um tem 50% dos votos válidos. O resultado reflete o momento favorável do petista na disputa, coisa que já havia sido captada pela pesquisa da Quaest divulgada na quarta-feira. Diferentemente do Datafolha, a Quaest não divulgou os votos válidos, quando são desconsiderados os brancos e nulos e registrou 45% a 44% a favor de Flávio. Empate técnico, portanto. A poucos dias do segundo turno, houve crescimento dos indecisos. Na pesquisa espontânea da Quaest, quando o eleitor responde em quem pretende votar sem ser apresentado a nenhum nome, os indecisos dobraram de 7 para 14%. A rejeição a Lula caiu de 53 para 47%, enquanto a de Flávio oscilou para baixo, 54 para 52. Ou seja, estamos diante de uma disputa rigorosamente aberta, sugerindo que a vitória, seja de que lado for, se dará por uma margem bem apertada. Nessa sexta-feira acontece o debate da Globo a partir de nove e vinte da noite e a gente vai trazendo informações sobre a preparação de cada campanha para o confronto. O debate do último domingo na Band foi traumático, marcado pela combinação de agressividade e mentiras de Flávio Bolsonaro e levantou a discussão urgente sobre a utilidade pública deste formato, sem a utilização de ferramentas de checagem em tempo real. Discussão, diga-se, que já havia se instalado após as entrevistas na Globo. Corremos o risco de estarmos todos participando de uma espécie de teatro democrático, no pior sentido, enquanto o obscurantismo toma conta do palco e domina a cena política. E eu uso essa imagem pedindo perdão a Apolo e Dionísio. No segundo bloco, a gente se dedica aos últimos capítulos da ficha corrida de Flávio Bolsonaro. E vamos começar pela grande reportagem da Ana Clara, do João Batista Júnior e do Breno Pires, que tem o sugestivo título de "Uma Tarde no Lago". Os três revelam um passeio de lancha com Flávio Bolsonaro, lobistas da Covaxin, e garotas de programa no Lago Paranoá, em Brasília, em julho de 2020, auge da pandemia. A festa sobre as águas no momento em que morriam por dia mais de 1000 pessoas é um flagrante de Flávio sendo corrompido pelos donos da Precisa Medicamentos que queria vender vacinas indianas superfaturadas ao governo brasileiro. O então senador ganhou um Rolex ao final do rolê das mãos de um dos empresários. Já no terceiro bloco, a gente segue falando de Flávio, mas seu envolvimento em outro esquema, desta vez em parceria com o advogado Willer Tomaz, personagem do submundo de Brasília, que parece ter o dom da ubiquidade quando se trata de mutreta. A piauí publicou nesta semana uma reportagem com documentos indicando que o presidenciável do PL foi sócio indireto da Best Bet, empresa de apostas que pertence a Tomaz. Ele é o grande amigo de Flávio, aquele que patrocina viagens ao exterior, empresta um apartamento de luxo em São Paulo e tem até conta bancária conjunta com o senador. A gente vai entender em detalhes o funcionamento deste cipoal. Tudo somado, temos que a Presidência da República está a um passo de ser ocupada por um desqualificado completo, um tipo especialmente corrupto que tem como projeto político o desmanche da Constituição de 88 e a permanência de seu grupo, ou de seu clã no poder, por vias legais ou ilegais. A indistinção entre a legalidade e a ilegalidade está inclusive no horizonte próximo do país se Flávio ganhar a eleição. Ele próprio anuncia, sem muitos disfarces, que vai mexer na duração de seu mandato, o que fere cláusulas pétreas da Constituição. Anuncia também, sem muitos disfarces, que vai eliminar entraves ambientais sem aparar a aceleração da destruição na Amazônia rumo ao colapso irreversível da floresta. Anuncia ainda que seu projeto para a saúde põe o SUS sob ameaça e que está disposto a entregar as riquezas brasileiras de bandeja aos Estados Unidos, dando livre curso a um tipo de sujeição inimaginável até pouco tempo atrás. Por todas as razões, essa não é uma disputa entre dois candidatos com propostas diversas. Não é uma eleição corriqueira, um evento a mais do calendário político de um país que vive dias normais. A depender do desfecho de domingo, os historiadores vão olhar para esse tempo e perguntar quem levou Flávio Bolsonaro ao poder. É isso. Vem com a gente.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Celso, vamos começar com você falando aí dos dados das pesquisas, né?

Celso Rocha de Barros: Fernando, essa semana teve uma nova onda de pesquisas e eu acho que elas mais ou menos convergiram na tendência, que é uma diminuição da margem entre o Flávio e o Lula. Todas as que eu vi pelo menos caracterizaram um quadro de empate técnico para a situação atual, variando entre 1 e 2, e acho que tem uma que deu 3 de diferença. Mas há empate técnico. Embora as oscilações nas pesquisas da semana passada para cá tenham sido quase todas na margem de erro, o quadro é bem claro. O Flávio saiu do primeiro turno com uma vantagem de 1,8 sobre o Lula nos votos. Essa vantagem subiu para mais ou menos quatro pontos quando ele recebeu o apoio do Augusto Cury, do Caiado, do Zema, aquele pessoal todo, e depois essa diferença foi caindo e agora a gente está nessa situação de empate técnico e tá com uma cara de empate mesmo, porque não é aquele empate técnico ali no limite da margem. Bom, o instituto com maior reputação, que lançou a pesquisa até o momento da gravação é a Quaest. E na Quaest a diferença caiu da semana passada para cá, de dois para um ponto. Se você quiser, você pode ver isso como uma confirmação da tendência de diminuição da diferença. Mas é o que eu digo, gente, é um ponto, assim, é a oscilação dentro da margem. Por exemplo, a Poder Data essa semana soltou uma pesquisa em que o Flávio subiu um ponto e depois soltou outra pesquisa ainda essa semana em que ele caiu um ponto assim, provavelmente não aconteceu nada, entendeu? Provavelmente é...

Ana Clara Costa: Oscilação.

Celso Rocha de Barros: Então assim, o importante é o quadro é de empate técnico, como já era mais ou menos na semana passada. O que é interessante mesmo na pesquisa da Quaest são coisas que se moveram fora da margem de erro ou provavelmente fora da margem de erro. O que eu quero dizer com isso? Ali naquele limite da margem de erro, que assim tecnicamente há margem de erro, mas é bem improvável que seja empate ou que não seja significativo.

Fernando de Barros e Silva: Improvável que não tenha acontecido nada.

Celso Rocha de Barros: É, que não tenha acontecido nada. Por exemplo, a rejeição do Lula, que era 53 pontos, caiu seis pontos percentuais para 47. Isso é uma queda bem grande para uma semana. E em todos os modelos estatísticos que os especialistas usam para prever a eleição presidencial, aprovação e rejeição do atual presidente é uma variável importante. Então, isso é talvez o principal achado aqui da Quaest.

Fernando de Barros e Silva: Em segundo turno, rejeição é ....

Celso Rocha de Barros: É importantíssimo, porque o segundo turno é aquele voto assim, "cara, eu não quero saber o que você quer da vida. Eu preciso que você escolha entre esses dois sujeitos aqui".

Fernando de Barros e Silva: Sim.

Celso Rocha de Barros: Então a rejeição é muito importante. Outra coisa que na pesquisa anterior tinha um empate na questão que governo foi o melhor? O Lula três ou o Bolsonaro? E agora o Lula botou cinco pontos de vantagem. Isso também é importante para um período de tempo curto. Claramente parece ter uma recuperação da imagem do governo. Esses cinco pontos de vantagem é a mesma diferença que havia em agosto antes da crise do STF, o que mais ou menos confirma a minha impressão de que o segundo turno está sendo mais campanha do que o primeiro, porque o primeiro foi um pouco bagunçado pelas denúncias contra o STF, que realmente teve um desempenho bastante lamentável. Outra diferença importante foi no recorte por escolaridade. Se você pegar o público, o ensino superior, na última pesquisa, 34% achavam o mandato do Lula melhor e 54% achava pior. Agora, empate técnico 43 e 44. Isso é uma diferença bem grande. E como esse setor deve ser menos influenciado pelos planos do Flávio cortar benefícios sociais, é possível que as denúncias de corrupção contra o Flávio tenham surtido algum efeito. O outro fato que é muito importante na pesquisa da Quaest é o que aconteceu entre os beneficiários do Bolsa Família. Aqui você vê que a campanha do Lula sobre o risco de perda de direitos no governo Flávio, que, como a gente já disse aqui, é verdade. Existe mesmo. Aqui parece que a propaganda da campanha do Lula fez efeito. Entre os beneficiários do Bolsa Família, o Lula oscilou positivamente de 60 para 62, enquanto o Flávio oscilou negativamente de 31 para 27. Então a diferença entre os dois aumentou consideravelmente. Também houve um aumento de indecisos entre os beneficiários do Bolsa Família. Aqui o índice de indecisos mais do que dobrou era sete e foi para 19%. E aí você fica se perguntando o que que é isso, né? Quem são esses beneficiários do Bolsa Família que tinham candidato e agora ficaram indecisos? E a esperança da campanha do Lula, naturalmente, seja antigos eleitores do Flávio Bolsonaro que ficaram assustados com as denúncias contra o programa econômico dele, mas que podem ainda não ter migrado para o Lula. E, naturalmente, é aqui que a campanha do Lula vai tentar converter voto de qualquer jeito, né? Entendeu que seria esse pessoal que pensava em votar no Flávio, descobriu que há risco do Flávio cortar os benefícios dele. E aí vai se abster ou vai enfim... Mas é um eleitor que o Lula tem chance de ganhar nesses poucos dias. Agora, falando em indecisos, de longe, o troço mais esquisito nessa pesquisa é o número de indecisos que está subindo.

Fernando de Barros e Silva: Sim.

Ana Clara Costa: É inédito, né?

Celso Rocha de Barros: Inédito. Isso nunca tinha acontecido. Em geral, o número de indecisos começa alto, as pessoas vão vendo as opções e vão ou escolhendo ou se conformando com as opções que têm. E o que está acontecendo parece ser o contrário. No voto espontâneo, o Flávio e o Lula têm o mesma intenção de voto, 40%. O que cresceu foi a indecisão que dobrou, saltou de 7% para 14%. Isso é totalmente inusitado, entendeu? Isso é um negócio que vai ter cientista político fuçando esses dados aqui por muito tempo para tentar descobrir exatamente o que aconteceu. Uma interpretação que alguns comentaristas deram foi o debate, aquele primeiro bloco do debate deu vontade de não votar em ninguém mesmo.

Fernando de Barros e Silva: O debate da Band.

Celso Rocha de Barros: O debate da Bandeirantes. Foi um caos. Aquilo ali foi um negócio horroroso, um espetáculo deprimente que, cá entre nós, só continuei vendo porque sou pago para isso. Porque se eu pudesse desligar a televisão antes, tinha desligado. Mas eu tenho uma certa dúvida com relação a isso, porque a audiência da Bandeirantes não é tão grande. A gente não sabe o efeito dos cortes aí dos candidatos, que hoje em dia é até mais importante do que a audiência do debate. Eu tomaria cuidado com essa atribuição ao debate. Pode ser também gente que está em trânsito entre candidatos, entendeu? Que tava meio naquele pedaço meio polarizado lá, que não mudava, não muda imediatamente porque tem alguma resistência ao outro lado, mas pode estar em fase de ir para um lado ou por outro. Isso aqui vai dar um bônus aí para alguma das candidaturas no final, de modo que assim, se você quiser fazer uma previsão para domingo, eu aconselho você a não fazer, entendeu? A não ser que você seja um consultor pago para fazer alguma coisa dessas, porque as mudanças são muito próximas da margem de erro. A eleição na opinião pública está empatada e aí é que entra o assunto que a gente já abordou aqui várias vezes Qual vai ser o reflexo do diferencial de abstenção? Historicamente, o Lula é mais prejudicado pela abstenção por ter eleitores mais pobres. Se no dia da urna tiver empatado, a vantagem do Flávio. O movimento geral, por outro lado, é claramente favorável ao Lula. De modo que, se você realmente for pago para fazer uma previsão, você vai ter que dar um chute espetacular sobre qual vai ser a velocidade dessa curva do Lula aí nos últimos dias. Eu dou graças a Deus que eu não tenho que fazer esse exercício.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Haja coração. Ana Clara, eu quero te ouvir.

Ana Clara Costa: Bom Fernando, recuperando um pouco o momento do debate da Band no domingo, que assim como o Celso, eu também fui obrigada a assistir por ser paga para isso. Eu queria relembrar uma história que a Vera Rosa publicou no Estadão, que eu acho que ela captura um pouco o movimento daquele debate. Ela se lembrou de um episódio quando o Cristovam Buarque, então no PT, concorria contra o Joaquim Roriz no, à época PMDB, no governo do Distrito Federal. Eles foram para o segundo turno e o Cristovam Buarque foi com vantagem sobre o Roriz e era dado como eleito. No último debate da TV Globo antes do segundo turno, o Cristovam Buarque ora agiu com desdém, ora humilhou o Joaquim Roriz, que também revidou e tal. Mas o sentimento geral daquele debate foi de humilhação do Roriz e depois disso, o Joaquim Roriz acabou ganhando a eleição. Tudo isso para dizer que a campanha do Flávio começou a semana verificando nos trackings que aquela conduta do Flávio à la Pablo Marçal no debate não havia agradado o eleitorado. Porque, embora o bolsonarista padrão goste dessa abordagem mais agressiva, dessas piadinhas, desse tom sarcástico e tal. Eles querem, na verdade, atingir um outro eleitorado que não é um bolsonarista padrão. Então não foi isso que eles conseguiram. Pelo contrário, houve uma resposta negativa nos grupos focais sobre esse debate.

Fernando de Barros e Silva: Uma aversão.

Ana Clara Costa: Exato. Daí, inclusive, o afastamento do Pablo Marçal, do núcleo de apoio ao Flávio nesse momento, porque a campanha viu que essa abordagem não funcionou.

Fernando de Barros e Silva: Pablo Marçal é um delinquente de coaching de outro...

Celso Rocha de Barros: Porra!

Fernando de Barros e Silva: É inacreditável.

Celso Rocha de Barros: O cara falsificou atestado de overdose do adversário.

Fernando de Barros e Silva: Exatamente. É humilhante. Não estou sendo usando metáfora. Nada. É de fato. Trata-se de um meliante.

Ana Clara Costa: É que o tempo em que estamos é esse em que uma parcela da população gosta dele.

Celso Rocha de Barros: É foda.

Ana Clara Costa: Independente do resultado dessa eleição, isso não muda o fato de que uma parcela relevante da população brasileira se vê representada por figuras como Pablo Marçal, como Nikolas Ferreira, como o Lucas Pavanato, como Flávio Bolsonaro. É uma coisa que vai muito além. Ah, ele é corrupto ou não é? Não é tão racional assim. Eu acho que vem também de um lugar em que uma parte da população se vê representada naquilo ou se vê representada no sentido de se identificar esteticamente em costumes, deixando bem claro em costumes, no sentido da narrativa que eles têm, do que são os costumes e não dos costumes que eles exercem. Exato. Então você vê o Pablo Marçal ali para uma parcela da população e é um máximo, entendeu? Enfim, é o que temos no Brasil hoje.

Fernando de Barros e Silva: A expressão política de um movimento na sociedade de direita, sem peias, de extrema direita, de ausência de limites, da truculência.

Ana Clara Costa: Mas é porque se não é se enxergar no outro, é almejar ser o que o outro é. Também tem essa premissa. Então, o que para a gente pode parecer repulsivo e que são, assim, muitos de nós que estamos aqui, muitos ouvintes, aquilo pode parecer repulsivo. Existe muita gente que almeja ser aqueles homens. Sobretudo homens, né? Bom, encerrando esse capítulo do debate e das suas consequências, vale dizer que na campanha do Lula eles também acompanharam o debate pelos grupos focais e verificaram que, embora não tenha sido tão prejudicial para o Lula quanto foi para o Flávio, também não foi benéfico para o Lula. Saiu meio que no 0 a 0, sabe? Mas é claramente com a percepção de que o eleitor não gostou daquela cena, entendeu? De uma forma geral. Então eles não acharam que também foi algo que beneficiou o Lula, como talvez tenha beneficiado Roriz ali naquele episódio de 98. Bom, dito isso, falando dos números da semana, a percepção na campanha do Flávio é de alerta total, porque os trackings mostram esse empate, já vem mostrando desde o início da semana e hoje está totalmente consolidado. Alerta total porque a tendência do Flávio tem sido de queda, enquanto a do Lula tem sido ou de subida ou de manutenção. Agora, o que sobretudo assusta a campanha do Flávio e é o ponto que mais anima a campanha do Lula, é a diferença entre as rejeições. A rejeição ao Flávio se tornou maior do que a rejeição ao Lula. Mas vale dizer que, embora a campanha do Lula também esteja monitorando os trackings e vendo esse empate com uma diferença de décimos, não há um sentimento ali de estarmos iludidos de que deu certo assim. Há um sentimento de que precisamos batalhar voto por voto até o domingo, desesperadamente. E aí, dentro desse sentimento, no caso do Lula, eles estão contando muito com dois números com a rejeição ao Flávio, o medo da volta da família Bolsonaro por poder e com esse aumento inédito do número de indecisos que o Felipe Nunes trouxe na Quaest. Então, falando da campanha que vai ao ar até a sexta-feira a noite, vai ser uma campanha direcionada para esses indecisos. Ou seja, no caso do Lula, vai ser uma campanha que reforça quem é Flávio Bolsonaro e o que ele tem prometido. Não publicamente, mas no seu discurso anterior à campanha e no seu histórico como senador vai ser 90% focado nisso e o que sobrar vai ter como direcionamento o futuro, que foi um pouco essa tônica da campanha de segundo turno. Eles conseguiram convencer o Lula de que falar de futuro era melhor do que falar do passado. Nesse ponto eu quero destacar dois bastidores. O primeiro é sobre o Carlinhos Maia, o influenciador do Nordeste com mais de 30 milhões de seguidores, e um dos bastidores dessa campanha que todo núcleo da campanha deseja que o Lula converse com Carlinhos Maia justamente para conectar o Lula com o público que segue ele, sobretudo no Nordeste. E a Janja não quer de jeito nenhum que esse match aconteça, porque o Carlinhos Maia tem esse histórico com bets. Ele fez propaganda de bet e a Janja acha que isso poderia ser ruim para o Lula. E aí tem essa disputa em torno do Carlinhos Maia. Carlinhos Maia tá querendo muito fazer e tal, ajudar e então tá tendo esses probleminhas aí. Mas enfim, não sei se eles vão conseguir desvirar isso até o domingo. Um outro bastidor é o Janones. No início da campanha do segundo turno, quando eu estava conversando sobre esse papel dos Janones, o que eu ouvia do entorno do Lula ali era que "beleza, ele está sendo bom para manter o engajamento e tal, mas assim a gente não acha que ele vai trazer esse voto que a gente quer. A gente acha que ele vai manter o engajamento do nosso eleitor, mas ele pode ter um impacto, mas que não vai extrapolar o nosso eleitorado". O que eu ouvi essa semana já é totalmente diferente disso. Eles estão convictos que os Janones é fundamental. Eles não esperavam que o Janones conseguisse reunir e mobilizar as redes da forma que ele está reunindo e mobilizando. O Lula está encantado. A campanha está encantada. A abrangência que o trabalho dele está tendo, a dedicação do trabalho dele está surpreendendo todo mundo ali. Há um certo ciuminho do PT, que perdeu um pouco a hegemonia dessa conexão com a população nesse caso, porque quem conseguiu, para usar o termo bélico e militar, arregimentar o exército do Lula foi o Janones. Então tem uma certa resistência do PT em relação a ele, sobretudo que ele não é do PT, mas sim o núcleo duro da campanha do Lula tá assim, vamos colocar até os Janones no filme final ali.

Fernando de Barros e Silva: Isso tem tudo a ver com o que o Marcos Nobre fala do Partido Digital.

Ana Clara Costa: Tudo a ver.

Fernando de Barros e Silva: O Lula só conseguiu essa visibilidade, esse salto, porque saiu da mão do núcleo duro do PT.

Celso Rocha de Barros: O Marcos Nobre deu uma entrevista ao Globo essa semana e disse: "O Partido digital da esquerda não vai nascer com a benção do PT".

Fernando de Barros e Silva: É isso.

Ana Clara Costa: É. Sobretudo, esse engajamento que Janones conseguiu com esse exército animou muito o Lula. E é essa animação do Lula que está sendo o combustível da campanha, entendeu? Eles só estão confiantes porque o Lula está muito confiante e o Lula só está muito confiante porque esse engajamento que os Janones trouxe, esse novo mundo virtual que se abriu para o Lula, a ponto de ele gravar um vídeo ganhando um celular do Rafael Fonteles. Eu não sei se vocês viram isso. Veio em razão dessa conexão que os Janones fez do Lula com esse mundo da internet. E vai fazer live. Então, se a eleição terminar vitoriosa para o Lula, os Janones vai sair com um papel gigante.

Fernando de Barros e Silva: Sim.

Ana Clara Costa: Dentro do campo progressista. Eu acho que isso está claro. Eu não estou descobrindo a roda. É óbvio que um deputado que consegue coordenar um grupo que ele almeja que tenha 10 milhões de pessoas até o momento em que a gente vai estar exibindo o Foro de Teresina, na sexta-feira, 10 milhões de pessoas no Brasil, seguindo orientações dele na internet. Isso é um poder...

Celso Rocha de Barros: É brutal.

Fernando de Barros e Silva: É 10% das pessoas que votam. De fato, é praticamente 10%. Um pouquinho menos. Mas é isso.

Ana Clara Costa: E é um grupo que não tem equivalente na direita. A direita é muito mais descentralizada nesse aspecto.

Fernando de Barros e Silva: Será que não tem o Nikolas?

Ana Clara Costa: Não tem.

Fernando de Barros e Silva: É mais descentralizado.

Ana Clara Costa: É, o Nikolas ele pode vir a criar, né? Ele tem um público para isso, mas hoje os grupos de apoio ao Flávio não são nesse modelo. É uma coisa mais orgânica, né? Esse próprio partido digital que o Marcos Nobre sempre fala, ele fala dessa característica orgânica de como eles entendem os códigos, né? De que é uma coisa meio anárquica, em certa medida.

Fernando de Barros e Silva: Horizontalizada, etc.

Ana Clara Costa: Exato. E no caso do Janones, é realmente tanto que ele faz várias analogias militares. Agora ele se diz o general e o Lula seria o marechal e o exército e soldado e não sei o quê. Então assim é um outro jogo ali.

Fernando de Barros e Silva: Ana, vamos falar um pouquinho da campanha do Flávio. Eu sei que você tem uma apuração importante sobre o tal do áudio do Vorcaro que foi divulgado pela revista Veja.

Ana Clara Costa: Bom, Fernando, a campanha do Flávio contava com duas balas de prata. Uma é a Roberta, que embora tenha topado falar com a CNN e tal, continua com a mesma equipe de defesa comandada pelo Roberto Podval, que é um advogado muito ligado ao PT. Tem o Zé Dirceu como sócio e tal e ela inclusive, continua ela não rompeu laços com pessoas do entorno do Lula. Mas assim eles entendem ali no PT que ela fez isso pela sobrevivência dela, porque ela tá sem dinheiro, conta bloqueada, tá no game ali para ver se consegue se livrar dessas investigações no futuro. E outra bala de prata que eles contavam é uma bala de prata que ainda não se concretizou na sua plenitude, que é o Daniel Vorcaro. E aí eu tenho que deixar muito claro que essas estratégias são do Daniel Vorcaro e do seu entorno e não da equipe do Flávio, tá? O Daniel Vorcaro ele está numa situação dramática ali para ele, perto do que.

Fernando de Barros e Silva: Dramática estamos nós. Situação dramática estamos nós. Daniel Vorcaro está fodido. Graças a ele.

Celso Rocha de Barros: Antes dele do que eu.

Ana Clara Costa: Não, perto da realidade de Courchevel, a Papudinha digamos que pode ser considerado um drama. Bom, o fato é que ele está desesperado para ver a situação dele resolvida, e parte dessa estratégia dele se resume a divulgar áudios que possam beneficiar o grupo mais propenso a ser gentil com ele depois da eleição.

Fernando de Barros e Silva: É o grupo do irmãozão. É isso.

Ana Clara Costa: Os dados da reportagem do Breno, da Camila e do Pedro mostram que 71% das interações dele com políticos eram com políticos do governo Bolsonaro. Então, assim, não seria uma invenção dizer que os amigos dele estão nesse campo político. Então não seria errado a gente presumir que ele espera que, assumindo um governo, esse campo político, sobretudo de uma pessoa com quem ele tinha contato e deu o dinheiro, como é o caso do Flávio, seja melhor para ele. Então, a estratégia passa pelo vazamento de áudios que prejudiquem o outro lado. E essa estratégia foi executada em parte, com áudios que vazaram do Daniel Vorcaro falando sobre o governo Lula. E há essa estratégia também em relação ao Fabiano Zettel, que é o cunhado dele e que também faz parte desse arranjo. E qual seria o arranjo pleiteado pelo Daniel Vorcaro? Não estou dizendo que ele seria aceito ou que isso seria feito, mas o sonho do Daniel Vorcaro com essa estratégia seria que o pai dele fosse solto logo após a eleição e que ele fosse solto numa domiciliar logo depois do ano-novo. Ali, naquela, naquela ressaca de ano-novo, posse, não sei o quê, depois que a poeira baixasse, ele fosse para domiciliar. O Fabiano Zettel daria um depoimento essa semana e aí tô falando aqui, não sei, poderia ser que os áudios desse depoimento fossem vazados.

Celso Rocha de Barros: Não seria surpreendente.

Ana Clara Costa: Mas aí o PT entrou com uma representação questionando esse depoimento e no fim o depoimento foi cancelado porque a internet falhou.

Fernando de Barros e Silva: Que bela metáfora.

Ana Clara Costa: Então é isso, não aconteceu mas da mesma forma que eu sei desses arranjos, é de se supor que a equipe da campanha do Flávio Bolsonaro também soubesse desses arranjos e tivesse na expectativa que esses arranjos se arranjassem ou se arranjassem para eles de alguma forma que ainda não aconteceu. Mas sobretudo a Roberta era a grande aposta deles, que os Janones atuou ali, junto com a estratégia digital dele para tentar não amplificar. Embora tenha sido de amplo conhecimento aquele depoimento que ela deu, em que a principal informação que ela deu é que ela estava sendo atacada porque o Lula a chamou de pilantra, mas ela não apresentou nenhuma prova de mal feito.

Celso Rocha de Barros: Eu achei meio meio nada a entrevista dela. Achei um pouco... Outra coisa que eu só vi porque me pagam.

Fernando de Barros e Silva: Você ouve ela falando, tem todas as características do depoimento comprado. Se não for, ficarei muito surpreso. Então a gente vai encerrando o primeiro bloco por aqui. No segundo bloco, a gente traz para a conversa Breno Pires e João Batista Junior. Vamos falar de passeio de lancha, patifaria no Paranoá, bets e outras coisas nada republicanas. Já voltamos.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem. Estamos de volta. Ana Clara, vou começar esse segundo bloco com você. A reportagem que vocês publicaram sobre a festa do Flávio, passeio de barco no Lago Paranoá, em julho de 2020, explica muita coisa a respeito da relutância e da não compra das vacinas pelo governo Bolsonaro. Tenho certeza de que a reportagem esclarece o que estava por trás dessa política do Bolsonaro para as vacinas. Passo a palavra para você para que você refaça o caminho da reportagem, para que a gente discuta com os meninos. Eu chamo eles de meninos. João Batista e Breno.

Ana Clara Costa: Bom, Fernando, antes de passar para essa reportagem, eu queria antes dizer que a gente fez na piauí, eu e meus colegas, enfim, outros colegas da piauí, como o Allan de Abreu, a Camille Lichotti, Pedro Tavares, também uma série de reportagens que, de certa forma, tratam do assunto eleitoral. Primeiro, o Breno, a Camille e o Pedro publicaram um levantamento muito detalhado, com base em todo o material coletado no celular do Daniel Vorcaro, no principal celular dele. Sobre os contatos que ele fez, as ligações que ele fez, as mensagens que ele mandou, o que ele apagou, o que ele não apagou e as mídias que ele tinha ali. Enfim, foi um trabalho de gênio ali e que chegou à conclusão de que mais de 70% das interações do Daniel Vorcaro com políticos eram com políticos do governo Bolsonaro, eram com políticos da direita e da direita participante do governo Bolsonaro. E eu só queria começar por isso aqui, em homenagem ao Celso Rocha de Barros.

Celso Rocha de Barros: Ninguém me aguentava mais falando. Eu encho o saco de motorista de táxi falando isso.

Ana Clara Costa: Eles não aguentavam mais ouvir o Celso e resolveram encerrar esse assunto de uma vez por todas.

Celso Rocha de Barros: Porra!

Ana Clara Costa: E o que é legal é que o Breno deixou essa tabela disponível num link que tá no Instagram dele, inclusive, então as pessoas podem interagir com ela, entendeu? Fica aí essa informação para quem estiver interessado. Então, acho que essa foi uma primeira matéria importante publicada essa semana. Aí teve a reportagem do Allan, do Breno, da Felícia Cabrita e do Mário Gouveia sobre a ligação do Flávio com as bets. Ele é apontado como sócio indireto da Best Bet, que depois o Breno vai falar melhor como é que foi essa apuração. E tudo isso passa pelo contato dele mais íntimo, que é o advogado Willer Tomaz, que também, segundo a reportagem publicada pelos meninos, é enfim, um grande empresário do mundo das bets. Além do maior apostador do Brasil, também tem essa, né? E por último, a gente publicou essa reportagem contando a história do Lago, que é uma história que a gente vem apurando desde antes do primeiro turno, né?

Fernando de Barros e Silva: Eu acho que é muito legal contar esse bastidor, porque essas coisas são demoradas, dão muito trabalho e exigem muito esforço e determinação editorial, né?

Ana Clara Costa: Pois é. Porque é uma história que requer um nível de checagem de informação, de confronto de informação muito grande. E não é fácil você contar essa história porque envolve uma ação do candidato à Presidência da República que vem a ser um senador e que vem a ser filho de um ex-presidente da República. E num momento como esse, né?

Fernando de Barros e Silva: Uma reportagem que envolve até trabalhadores honestos, o piloto do barco e as prostitutas.

Ana Clara Costa: Exato.

Celso Rocha de Barros: Pois é.

Ana Clara Costa: E enfim, eu cobri muito o escândalo da Covaxin em 2020, pela piauí. E uma das coisas que eu não entendia naquela época era por que o governo Bolsonaro recorreu a esse laboratório indiano. Não fazia sentido e me parecia muito inexplicável tudo o que eles fizeram. Ter optado por um laboratório que não era um dos maiores do mundo por um preço mais caro, num processo que envolvia uma empresa muito rudimentar, porque a Precisa Medicamentos, na verdade, ela não produzia medicamentos. Ela era uma intermediadora de negócios. Ela comprava preservativo feminino de um país e importava para eles. Na verdade, ela era uma importadora, né? Então, assim, delegar a esse tipo de empresa comandada por esse tipo de gente, que eram já pessoas conhecidas em Brasília por serem do rolo. Por que você vai entregar não só a vida dos brasileiros, mas também o teu patrimônio político? Porque, em última instância, a forma como você conduziria aquilo também significaria como você seria avaliado. E o Jair Bolsonaro simplesmente escolheu o pior caminho em todos os termos, né? Mas nesse caso específico da vacina, assim, sempre ficou muito incompreensível para mim, por que as coisas tinham caminhado daquele jeito e já se sabia que o Flávio fez lobby por eles, porque até durante a CPI ele foi questionado em vários momentos pelo senador Renan Calheiros, pelo senador Randolfe, enfim, tinha toda uma turma ali no Senado de fato disposta a investigar. E tanto havia suspeitas sobre ele que o relatório final da CPI sugeriu o seu indiciamento, que acabou não acontecendo, claro, mas não se sabia exatamente qual havia sido a troca. Nunca houve uma conexão real entre ele e esses empresários. Se sabia que ele tinha defendido a Precisa na CPI, se sabia que ele tinha defendido os interesses desses empresários no BNDES. Mas o que ele teria recebido em troca ainda era um mistério. E essa história que a gente apurou ao longo das últimas semanas ajuda a expor ao menos uma parte dessa contrapartida que foi esse passeio de barco. Então eu acho que coloca em termos cristalinos o nível de sordidez que as coisas tomaram naquele momento da pandemia e 2020, julho de 2020, era um momento em que estava todo mundo em pânico e não tinha perspectiva de vacina. O Bolsonaro estava estimulando o uso da cloroquina. Estava todo mundo em lockdown. Enfim, uma crise institucional tremenda. E você ter cabeça para pensar em ganhar dinheiro, em sair de barco, em enfim, obter algum tipo de de retorno ali, diante daquela situação. Foi bem chocante para gente assim.

Fernando de Barros e Silva: No mesmo dia em que ele fez esse passeio, morreram 1299 pessoas. Era esse o ambiente vivido no país. De pânico, de dor, de trauma coletivo, enfim. E o filho do Presidente da República, senador da República, estava lá, fazendo negócios desse jeito.

Ana Clara Costa: Eu acho que vale dizer que até aqui no Foro a gente já falou do Flávio junto com essa turma. Eles são trambiqueiros, conhecidos em Brasília e estão em vários trambiques. Tanto que o Danilo chegou a ser investigado na CPI do INSS. São pessoas que estão no meio de negócios sempre alvo de suspeitas. E na CPI do Crime Organizado que aconteceu esse ano, o senador Humberto Costa chegou a pedir a quebra de sigilo deles, do Danilo, do Maximiano, no âmbito das investigações sobre o Beto Louco, que é aquele empresário do setor de combustíveis que está foragido e que é investigado por ser uma espécie de elo da Faria Lima com o PCC e que teria uma relação muito forte, com sobretudo o Maximiano, que é um desses empresários.

Fernando de Barros e Silva: Você falou disso várias vezes ao longo dos últimos meses.

Ana Clara Costa: Que eles seriam o mesmo grupo empresarial, o Beto Louco, o Beto Louco, obviamente muito mais acima na hierarquia, e o Maximiano como um dos braços dele. E é o mesmo empresário que estava oferecendo favores ao Flávio Bolsonaro.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem. João, deixa eu te pôr na conversa. Bem-vindo mais uma vez. Eu queria que você falasse um pouco a respeito da sua parte nessa apuração e o que te chama a atenção que você gostaria de destacar nesse Foro.

João Batista Jr: Bom, vamos lá. Em primeiro lugar, é uma honra ter feito essa série de matérias com a Ana e com o Breno. A gente está exausto, porém bastante felizes. Essa notícia chegou pra gente já tem várias semanas. Como a Ana falou, antes do primeiro turno. Muito se falava a respeito da potencial participação do Flávio em Festas e putarias em geral. Só que não havia nada que colocasse ele até aquele momento junto com o Vorcaro. Então quando o celular do Daniel Vorcaro foi apreendido, as conversas configuradas entre o Flávio e ele, elas tinham uma duração muito específica, então a gente não conseguiu ver trocas de mensagens em 2023, 2024, então muita coisa ficou sem a prova. A comprovação.

Ana Clara Costa: Foram 90 dias de mensagens só, né?

João Batista Jr: Exatamente.

Ana Clara Costa: Apenas entre os dois que a gente conseguiu rastrear.

João Batista Jr: Existia esse foco de tentar apurar a presença do Flávio em festas do Daniel Vorcaro. No entanto, quando a gente soube, era uma festa assim, com putaria e corrupção, sem a ligação do Daniel Vorcaro. Quando a gente recebeu essa informação, eu e o Breno e a Ana fizemos uma videochamada às pressas. Era mais ou menos nove horas da noite falando temos uma história. Mas aí vem todo o desafio de colocar essa história de pé, né? A gente sabia da festa, do lugar da festa e quem eram os patrocinadores da festa. Mas ainda faltava provas dos dias do pagamento à empresa que foi feito o transporte das meninas. Pensamos que conseguiríamos fazer um tempo não tão longo, mas pautas boas dão muito trabalho. O que essa matéria prova? Essa matéria como a Ana Clara estava falando, ela exemplifica a corrupção ligada à vacinação. Então, quando o país enterrava milhares de pessoas por dia, enquanto as pessoas estavam perdendo emprego, enquanto as pessoas estavam amedrontadas. Houve uma oportunidade para ser feita a corrupção ali. Dois homens que eles eram importadores da vacina indiana viram uma chance de estreitar laços com o governo federal, com o qual eles já tinham dinheiro envolvido. Eles forneciam para o Ministério da Saúde camisinhas femininas e também teste rápido do próprio convite. Então aquele evento ele foi desenhado para agradar o Flávio, que por sua vez, era senador da República e filho do Presidente da República. Então as pessoas foram para lá exclusivamente com essa finalidade. As mulheres estavam no barco. O concierge do Francisco Maximiliano e do Danilo Trento, chamado Rafael Barão, a Barão Turismo, localizado em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, foi escalado para cuidar de todo o rolê.

Fernando de Barros e Silva: Sei...

João Batista Jr: O aluguel da lancha. Eles foram num restaurante flutuante lá em Brasília para comprar bebidas e petiscos para serem servidos. Era um dia de muito sol. O Flávio e o amigo dele, Alexandre Santini, com quem ele teve sociedade na loja da Kopenhagen, lá no Rio de Janeiro, que, segundo o Ministério Público do Rio de Janeiro, foi usada para lavar dinheiro oriundo da raspadinha. Então o Flávio e o Alexandre chegaram, ficaram sem camisa e aí a coisa aconteceu. O Santini bebeu um pouco mais além da conta e o Flávio usufruiu daquilo que foi proposto para ele. O barco ficou em movimento o tempo todo, não ficou parado. Ao fim do passeio, o Flávio recebeu como presente um Rolex. O Danilo Trento tirou do pulso dele o relógio e colocou no pulso do Flávio. Tem uma coisa que é interessante de ser falada, que é o seguinte, o Daniel Vorcaro ele profissionalizou, ramificou e institucionalizou esses eventos com prostituição como forma de corromper e de fazer lobby. Mas isso não foi inventado por ele. Esse evento do Flávio ocorreu em 2020, em Brasília. Aqui eu vou parafrasear o Lula, dá um Google aí, em Brasília tem a Marcha dos Prefeitos e nessa Marcha dos prefeitos ocorre uma grande putaria profissionalizada.

Ana Clara Costa: As casas noturnas de Brasília é quando elas mais ganham dinheiro.

Celso Rocha de Barros: Não, teve matéria dizendo que estava faltando garotas de programa em Goiânia durante o evento dos prefeitos, porque Brasília precisava importar a mão de obra.

João Batista Jr: O Vorcaro importava mulheres da Rússia, Bielorrússia e Ucrânia. E em Brasília importam de Goiânia.

Ana Clara Costa: Vocês me permitem fazer um aparte ao que o João falou. Por que a gente estava procurando a participação do Flávio nas festas do Vorcaro? Porque todo o grupo político do Flávio estava participando das festas do Vorcaro, o Ciro Nogueira, o Fábio Faria. Essas pessoas eram o grupo político do Flávio.

João Batista Jr: Antônio Rueda.

Fernando de Barros e Silva: Kássio Nunes Marques.

Ana Clara Costa: Exato. Eram as pessoas com quem o Flávio se relacionava em Brasília. Tanto que nessa reportagem do Lago, a gente menciona que em muitas viagens que eles faziam para o exterior na época do leilão do 5G, que o Fábio Faria era Ministro das Comunicações, ele promovia várias viagens técnicas de trabalho para ver como que eram as feiras de tecnologia em Londres, em Madri, em Nova Iorque e tal. E o Flávio ia junto nessas viagens. Então, assim, era natural que a gente quisesse saber onde ele estava nesse mapa de eventos do Daniel Vorcaro. Então foi assim que a gente chegou a esse evento específico. O grupo político dele estava envolvido, então nada mais natural que a gente imaginar que ele poderia estar participando dessas festas também. Como pode ter participado. E a gente não conseguiu ainda levantar essa informação.

João Batista Jr: Exato. E tem uma coisa curiosa que no Brasil da corrupção parece que é todo um grupo só. O avião que transportou as prostitutas, além dos dois empresários que patrocinaram, de São Paulo para Brasília, pertence a Prime You. Prime You que vocês já falaram aqui no Foro também, que em algum momento teve o Daniel Vorcaro entre os sócios.

Ana Clara Costa: Ao longo das apurações, o que eu descobri foi que nesse meio dessas negociatas de Brasília, você ter uma cota de uma aeronave na Prime You era como fazer parte de um clube. Tanto que eles têm uma designação entre os cotistas de da aeronave lá, que é o clube VIP, você ter um jatinho, já te dá algum status, mas você tem uma cota na Prime You, te dava um status ainda maior, porque era não só ter um jatinho, era você fazer parte daquele network. E o Daniel Vorcaro descobriu isso bem e não quis só ter um jatinho porque ele começou tendo um jatinho lá em 2017, segundo a minha apuração, e depois ele quis se tornar dono da empresa. Como ele é megalomaníaco, não bastava ele ter o jatinho, ele precisava ser dono. E é a empresa em que o Willer Tomaz, que é o advogado melhor amigo do Flávio, que paga as despesas do Flávio, tinha também a sua cota de aeronave em alguns momentos em sociedade com o próprio Vorcaro. E era uma aeronave que era amplamente usada pelo Flávio para os deslocamentos dele. Tanto que os funcionários da Prime You verificavam o uso contínuo do Flávio dessas aeronaves. A gente detectou alguns, mas os funcionários da empresa diziam que era comum vê-lo por lá.

João Batista Jr: Era o Uber do Flávio.

Fernando de Barros e Silva: Breno, deixa eu te ouvir sobre isso. Você tem uma informação adicional sobre o Danilo Trento e também sobre o avião.

Breno Pires: Pois é, Fernando, essas conexões que a Ana estava escrevendo tão bem dos empresários e políticos envolvidos nesses escândalos se encontra também em um episódio na CPI do INSS que foi obtido a informação de um terminal aeroportuário com a câmera de vigilância mostrando o Danilo Trento viajando ao lado do Virgílio, que era o procurador do INSS que foi preso na operação Sem Desconto. Essa foto era com um volume que poderia muito bem ser uma mala de dinheiro, foi levada, né? Tentou-se ouvir o Danilo Trento na CPI do INSS, mas houve um corpo a corpo muito forte ali da oposição, que tinha a presidência e a relatoria da CPI do INSS. Ele não chegou a ser ouvido. De fato, entre esses contextos todos, a gente também teve outro grupo de empresários investigados do Beto Louco, que tinha também aviões associados ao Antonio de Rueda. E um dado curioso é que o Antonio Rueda estava tentando comprar um hangar, ser dono de um hangar aqui no aeroporto de Brasília e não conseguiu, né? Diante dos problemas da operação do BRB com o Banco Master, isso terminou não prosperando. Então, de fato, uma das coisas que chama muita atenção é a presença de personagens e diferentes escândalos. E de fato, todos eles, de uma forma ou de outra, estão dando suporte à eleição de Flávio Bolsonaro. E a grande expectativa de poder abafar tudo caso o presidente seja o filho do Jair.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem, Celso, deixa eu te pôr na conversa desse segundo bloco. À luz desses relatos que a gente está ouvindo, você vai fazer a grande síntese da porra toda.

Celso Rocha de Barros: Então, Fernando, que a gente vai vendo é o seguinte se o Flávio Bolsonaro for eleito, ele vai ser o primeiro presidente que quando chegar para negociar com o Congresso, vai encontrar gente mais honesta do que ele está acostumado. Estava aqui ouvindo o relato de vocês e estava ficando claro que o Flávio deve ser um dos grandes operadores de Brasília, mas não operador no sentido que a gente gostaria que os políticos fossem, não um cara que agiliza políticas públicas, mas um cara da sacanagem. Assim, ele parece uma espécie de centrão da mutreta brasileira, porque ele está aliado a todo mundo. É muito impressionante. Se você for pegar no Rio de Janeiro, ele tem aliados ligados ao Comando Vermelho, como TH Joias e Rodrigo Bacelar, e tem uma multidão de aliados ligados às milícias. Inclusive, um dos aliados dele é o Márcio Canella, prefeito de Belford Roxo, que foi preso semana passada, que é outro sujeito ecumênico que, segundo a Polícia Federal, também lavava dinheiro tanto para o Comando Vermelho quanto para as milícias. O Márcio Canella, por sua vez, ajudou a eleger esse ano para deputado federal o Rueda, o Antônio Rueda, presidente do União Brasil, que praticamente só teve votos em Belford Roxo e basicamente se elegeu com votos que o Canella arrumou para ele e segundo uma matéria da Malu Gaspar, o Rueda é o cara que armou dentro do governo Claudio Castro tanto o esquema na Previdência quanto o esquema na companhia d'água para mandar dinheiro pro Vorcaro. A ligação com o Vorcaro todo mundo sabe qual é, negócio de gangue. Eles são irmãos da vida toda, são que nem o Bruno e o Macarrão lá, aquele celular do goleiro Bruno. Amizade que o tempo não vai acabar. Como é que é aquela tatuagem do Macarrão lá? E aí você pensa: "Bom, acabou. Então ele já juntou o Comando Vermelho, as milícias, o Banco Master"... Calma aí, amigão, porque se você pegar o avião que tinha como sócio o Vorcaro, a Prime You tinha lá uma parte do avião. Uma outra parte era da empresa do Willer Tomaz, em que o Flávio era usuário master da conta, ou seja, era sócio diretor. A gente já disse aqui, você só pode ser conta conjunta com quem é seu parente ou quem é sócio. Não há registro que eles fossem parentes, então eles eram sócios. E o Willer Tomaz, por sua vez, é o cara acusado agora de lavar dinheiro dos caras que roubam o dinheiro do INSS. Ou seja, é como o Breno disse, o Flávio está em todas. Você sorteia um escândalo de corrupção dos últimos anos no Brasil, o Flávio Bolsonaro está nele. E justiça seja feita a Willer Tomaz, ele parece ter tido algum escrúpulo de consciência de entrar no esquema de superfaturar a vacina durante a pandemia. Pelo menos acho que até agora não pegaram ele, certo? Então, pelo menos até agora, o Willer Tomaz parece ter um limite que o Flávio não tem.

Fernando de Barros e Silva: Não sei qual é o prazo de validade dessa sua observação.

Celso Rocha de Barros: Eu também não.

Fernando de Barros e Silva: Mas tudo bem.

Celso Rocha de Barros: Mas pelo menos até agora, só o Flávio teve coragem de, pela estimativa dos especialistas da GV da USP, um mínimo de 145 mil pessoas morriam por falta de vacina. Nos primeiros meses da pandemia, a grande maioria das mulheres grávidas que morreu de Covid-19 no mundo era brasileira e enquanto isso o Flávio estava lá fazendo suruba, ganhando o Rolex dos caras que estavam tentando vender vacina superfaturada. A gente vive falando de política brasileira. A gente também não vai ficar chocado de saber que tem político ladrão, certo? Assim ninguém "vai falar meu Deus, como é possível um político ladrão?". Agora tem graus, né? Isso aqui é realmente muito impressionante.

Fernando de Barros e Silva: Sim, tem graus de perversidade, desumanidade, de indiferença. Tem graus.

Celso Rocha de Barros: Pois é.

Breno Pires: Só para falar também um pouco desse aspecto da Covid, eu me lembro bem onde eu estava no dia 17 de julho de 2020. Eu estava de cama de Covid-19. Não cheguei a ser internado, mas estava lá no apartamento na Asa Norte e o próprio Jair Bolsonaro, eu me lembro que ele também pegou Covid naquele mês. Quer dizer, ele estava na farra depois que o pai tinha pegado a Covid. A percepção de que faltou uma liderança no Brasil naquele momento para saber lidar com a pandemia foi uma das coisas que levou o eleitor a rechaçar o Bolsonaro em 2022.

Celso Rocha de Barros: Sem dúvida.

Breno Pires: Essa informação agora, eu acho que ela tem de fato um poder realmente de chegar nas pessoas e talvez até alertar, né? Porque o que a gente está falando é muito mais amplo do que corrupção, envolve ligações com o crime organizado em diversos aspectos, envolve negacionismo na pandemia. O Flávio Bolsonaro também foi indiciado na CPI por estar divulgando informações que dificultavam ali a visão correta das pessoas. Então a gente está falando de perigos que, de fato, a nossa democracia não está preparada para correr. A gente não sabe como vai ser se o Supremo Tribunal Federal vai poder reagir caso aconteça uma nova calamidade, como aconteceu na pandemia, ou outras tentativas de ruptura do Estado democrático, como houve no 8 de janeiro.

João Batista Jr: E, acima de tudo, Breno, envolve caráter, não apenas corrupção. Esse episódio mostra muito sobre quem ele é. O país estava agonizando, com medo, sem direcionamento, e ele estava numa lancha patrocinado por pessoas que queriam vender vacinas superfaturadas para o governo federal.

Fernando de Barros e Silva: Perfeito. A gente vai então encerrar esse segundo bloco do programa por aqui. Na volta, nós vamos continuar falando das falcatruas, as roubalheiras, das artes de Flávio Bolsonaro com Willer Tomaz, o maior apostador das bets na história do Brasil. Já voltamos.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem, estamos de volta. Nem só de Lago Paranoá vive Flávio Bolsonaro, né Breno? Vamos falar de outro assunto igualmente importante. Já tocamos nisso no bloco anterior, da reportagem "A Bet de Flávio Bolsonaro", na qual vocês apuraram que o candidato a presidente da República foi sócio indireto de uma casa de apostas, a Best Bet, e a ligação dele com o Willer Tomaz. Conta pra gente um pouco dessa matéria.

Breno Pires: Pois é, Fernando, o Flávio Bolsonaro até disse já nesse período eleitoral que o Lula era o pai do tigrinho. Ora, ele tá recusando a paternidade, atribuindo a um terceiro. A informação que a gente trouxe e que na verdade é, digamos, talvez o pai seja o Tomaz e o Flávio o padrasto.

Celso Rocha de Barros: Coitado do tigrinho, hein, cara?

Fernando de Barros e Silva: Tigrinho não merecia isso.

Celso Rocha de Barros: Vida difícil do tigrinho.

Breno Pires: Bom, o que acontece é que no final do governo Bolsonaro e no início do mandato do Lula, houve essa introdução da Loterj no Rio de Janeiro fazendo essa regulamentação das bets. Para resumir aqui, o fato é que o Willer Tomaz como advogado, ele era o dono da rede Loto, que é o CNPJ desta Best Bet. São a mesma empresa. Ele foi o primeiro habilitado, ele foi o pioneiro do mercado das bets no Brasil. Então quando fala que o Willer é o pai do Tigrinho no Brasil é uma alusão que é verdadeira. Não é apenas uma brincadeira com o que foi declarado pelo candidato, né? E nesse caso, fazendo aí uma expansão com essa ideia de que tigrinho é uma palavra que resume todos os jogos, porque formalmente umas empresas têm o direito de usar o tigrinho licenciado, outras não. Mas a ideia é essa, as casas de apostas online. E o Willer Tomaz o que que ele fez? Enquanto se movimentavam para criar essa Bet, ele fundou essa empresa chamada Cathedral na Ilha da Madeira, em Portugal, que é uma região que tem uma zona franca com facilidades tributárias. Logo no início de 2023, abriu também uma empresa em São Paulo que foi a Rede Loto, essa Best Bet e a licença saiu logo em maio de 2023. Quem assinou essa licença na Loterj para o Willer ser dono de bet foi o Hazenclever Cançado, que foi indicado por Flávio Bolsonaro a esse cargo, que é um cargo do governo do Rio de Janeiro. O filho dele, Hazenclever Cançado, foi assessor no STF como advogado assessor do ministro Marco Aurélio Mello por alguns anos e era até pouco tempo do ministro Kássio Nunes Marques. Ou seja, o presidente da Loterj que autorizou o Willer a ter uma bet, tinha um filho no gabinete do ministro do STF, Kassio Nunes Marques.

Fernando de Barros e Silva: O Celso, você faz o seu PowerPoint. É impressionante, como disse um leitor da piauí a respeito da matéria de vocês da outra matéria do Lago Paranoá, ele foi para o PowerPoint está virando uma tela do Jackson Pollock. E isso que o Breno está falando reforça. A gente realmente...

Celso Rocha de Barros: É um negócio impressionante. E vai voltando para os mesmos personagens, né?

Breno Pires: Então, enquanto ele criou essa empresa Cathedral, no mesmo endereço, o Willier Tomaz criou em Portugal a empresa Alcazar. A empresa Alcazar tinha uma conta bancária no Banco Santander e essa conta. Ela tinha uma habilitação da conta do Flávio Bolsonaro para utilizar e movimentar recursos, né?

Ana Clara Costa: Ou seja, para que você vai ser sócio de uma empresa se você pode ser sócio da conta bancária da empresa?

Celso Rocha de Barros: Perfeito!

Breno Pires: É, ainda vai ser esclarecido caso o Flávio não seja eleito, é porque uma investigação seria suspensa caso ele assuma como presidente da República. Mas essa questão da conta bancária está associada a uma outra conta da empresa do Willer, traz uma série de dúvidas, né? Uma delas é que, por exemplo, mesmo sem mover um dedo nem uma autorização, sem fazer nada, o Flávio podia estar recebendo repasses diretos dessa outra empresa. Isso ainda precisa ser investigado, mas o fato é que havia relações entre essas duas empresas. Havia sinais de que elas tinham dinheiro para receber uma da outra. Então têm o mesmo dono, o mesmo local. Tudo isso levou também a gente a questionar autoridades em Portugal a respeito desse assunto. E a gente chegou a essa conclusão, essa constatação de que havia uma linha praticamente direta ali entre a Best Bet e o próprio Flávio Bolsonaro, diante dessa possibilidade de usar a conta e movimentar dinheiro do Willer Tomaz, é interessante que as viagens internacionais do Flávio Bolsonaro com Willer Tomaz incluíram Portugal como destino nesse dia que a funcionária solicitou a exclusão do Flávio Bolsonaro dessa condição de usuário master. Eles dois estavam em Portugal, fizeram um voo de Cascais para Nice, na França, e um jato contratado por esta mesma empresa. Quer dizer, seja movimentando dinheiro da conta bancária ou não, o Flávio tinha vantagens econômicas ali que vinham do Willer Tomaz, em sua atividade, que está sendo investigada agora pela Polícia Federal, tem outros detalhes da nossa apuração. A gente também publicou no mesmo dia uma reportagem que foi conduzida principalmente pelo João Batista, mostrando também a participação do Vorcaro nas bets. Agora é bem interessante de notar como havia como se fosse uma divisão de capitanias hereditárias das bets no Brasil e eu vou passar a bola aqui para ele explicar como é que isso funciona.

João Batista Jr: É exatamente isso. No Piauí, por exemplo, o nobre Fernandinho OIG, ele ficou com essa incumbência ao lado do Ciro Nogueira. Daí o Enildo Júnior, dono da Pix Bet, tem todo a Paraíba, Pernambuco, Rueda e parte da rede de apoio dele, assim como o Hugo Motta, assim como o pai do Hugo Motta, assim como muitos e muitos políticos do Nordeste, sobretudo Paraíba e Pernambuco. E o Rio de Janeiro ficou com o Willer Tomaz. Então essa analogia da capitania faz todo sentido. Eu queria voltar um pouco no tempo para explicar por que o Rio de Janeiro ficou com o Tomaz e por que o Flávio Bolsonaro é o Willer Tomaz. No fim do governo de Michel Temer, o Temer assinou a autorização de bets para que elas fossem regulamentadas em dois anos, prorrogáveis por mais dois, ou seja, em dezembro do último ano de Jair Bolsonaro, com a desculpa de que ele estava em depressão só que na verdade ele estava tramando um golpe de Estado, ele não assinou. E em Brasília há pessoas que atuam no setor de apostas do Ministério da Fazenda. Agora, do governo Lula. Quando eles começaram a trabalhar em cima da regulamentação, eles escutaram de muitos empresários do mercado que o governo Bolsonaro, o Jair Bolsonaro não assinou. A pedido de Flávio Bolsonaro. E aí tem uma razão muito grande o filho tirou da mesa do pai para facilitar o Willer Tomaz. Enquanto as bets não eram regulamentadas, a gente sabe que elas operavam a partir do exterior, sobretudo paraísos fiscais. Só que no Brasil, curiosamente, a Loterj do Rio de Janeiro, operada pelo Willer, estava regulamentando e a outorga para as bets operarem a partir do Rio era de 5 milhões de reais, infinitamente menor do que a regulamentação federal foi que era no valor de 30 milhões.

Fernando de Barros e Silva: 5 milhões?

João Batista Jr: 5 milhões de reais.

Ana Clara Costa: Significa que uma BET poderia funcionar a partir do Rio de Janeiro pagando essa outorga, funcionar regulamentada. Era isso?

João Batista Jr: Exatamente. Então, qual era o atrativo do Willer? Ele batia na porta dos donos de bets, dizendo: "vem para o Rio porque aqui está regulamentado". E aí havia um atrativo extra, a não regulamentação no Brasil permitiu com que as bets que operavam a partir da Loterj, dentre elas a Pix Bet do Enildo Júnior, que é muito amigo do Willer. Eles todos se misturam. Elas permitiam que apostadores de outros estados para além do Rio de Janeiro pudessem apostar. Então, quando houve a regulamentação do governo federal, o governo teve de entrar na Justiça para impedir que a Loterj permitisse apostas de pessoas que estivessem em São Paulo, no Piauí, em Santa Catarina. Eles diziam, olha o argumento, que não era possível identificar de onde vinham os apostadores por conta de ser um aplicativo. Então o governo explicou que existe geolocalização.

Ana Clara Costa: João, agora vale a gente dizer porque que isso era lucrativo para o Willer. Não só porque ele tinha uma bet, mas também porque ele era dono da RioPag, que era o sistema de pagamentos das bets. Então todas as operações com bet passavam pela RioPag e ele faturava em cima disso.

João Batista Jr: Exatamente.

Ana Clara Costa: Tanto que um belo dia ele brigou com o pessoal das bets e impediu o RioPag de funcionar por uma semana e isso fez com que as empresas de bet perdessem bilhões em uma semana, porque ele simplesmente brigou e deu uma pausa no sistema. Então ele ganhava dinheiro em todos os pontos desse caso.

Fernando de Barros e Silva: Isso é o que o Richard Wagner chamaria de obra de arte total. É realmente impressionante tudo isso. E a gente não sabe se ele fica animado ou corta os pulsos.

João Batista Jr: Para acrescentar uma outra camada a essa obra de arte total, então, para além de ele ser o meio de pagamento, para além de ele ser dono de bet, ele configura como o maior apostador do Brasil.

Ana Clara Costa: Ele, embora continue sendo empresário do setor, a Best Bet foi fechada em 2025, mas ele não saiu do setor.

João Batista Jr: Segundo uma reportagem, ele movimentou 6,6 bilhões de reais apenas na Blaze. E aí a Blaze é um capítulo a parte. A Blaze tem como nome no CNPJ Fogo Entertainment aqui no Brasil ninguém sabia quem era de fato o operador da Fogo Entertainment. Quem é o dono da Blaze? Isso foi uma coisa que muita apuração foi feita e pouco foi descoberto. Agora a gente sabe da ligação com o Willer Tomaz, com a Blaze. Esse sujeito que tem conexões bilionárias com a Blaze, participou dessa operação que foi a principal pagadora para influenciadores, pedindo que as pessoas apostassem. A Blaze, vamos recordar, tinha as campanhas publicitárias falando em complemento de renda. A Blaze institucionalizou isso. Eram vídeos pré gravados que esses artistas influenciadores vendiam a falácia de que aquilo poderia complementar a renda, enquanto as pessoas na verdade, iriam se viciar. Quem fez patrocínio para Blaze? Aí é um strike de pessoas. Neymar, Virgínia Fonseca, Carlinhos Maia, Maya Massafera e grande elenco. A Blaze pagava muito dinheiro, muito, muito dinheiro. A Virginia rompeu o contrato com a Blaze agora recentemente, em função de ela estar sendo investigada pelo Ministério Público do Distrito Federal. Mas aqui, para finalizar e voltar para o Flávio, a campanha agora política está toda voltada para que as bets voltem a operar. O Flávio é bet. Todo o mercado de bets conta e pede apoio a ele. Os influenciadores que são patrocinados por bets estão fazendo campanha descarada para o Flávio Bolsonaro. São muitos e aqui tem perfis de fofoca, tem perfis de pseudo jornalistas. São pessoas que estavam montado no cofre das bets e que agora estão apoiando o Flávio Bolsonaro. Então para além da meta fazer toda essa mutreta algorítmica, existem as pessoas e perfis patrocinados por bets que estão de cabeça na campanha. O Flávio é bet. Quem vota nele vota para a volta das bets. Ele diz uma coisa que é engraçada, ele fala em insegurança jurídica. Enquanto na verdade ele quer a beth, por quê? O amigão é sócio dele em conta bancária, é dono de bet e porque todos os empresários da bet estão apoiando ele. A conta é mais complexa.

Fernando de Barros e Silva: Isso que o João está falando me lembra o almoço mais do que impróprio que houve no dia da entrevista para Globo, horas antes, entre o Flávio Bolsonaro e o coordenador de sua campanha, senador Rogério Marinho, com João Roberto Marinho, presidente da Globo, e Paulo Tonet, vice presidente de Relações Institucionais da Globo. É improvável que o assunto bet não estivesse na pauta porque a Globo, afinal, tem Beth, né, João?

João Batista Jr: A Globo é dona de bet e a Globo tem dentre seus principais anunciantes uma série de bets.

Ana Clara Costa: Bom, ainda falando sobre Willer e as bets, quando João fala que ele movimentou mais de 6 bilhões só na Blaze, vale gente dizer aqui que não é que ele colocou 6 bilhões em apostas na Blaze. Significa que é a somatória das movimentações dele. Então se ele, sei lá, fez mil jogos de X milhões, a somatória desses 1000 jogos dá 6 bilhões. Então, só para dizer que não, não é que ele...

Celso Rocha de Barros: Pegou 6 bilhões e botou lá.

Ana Clara Costa: É exato. Dito isso, a gente pode concluir que é muito estranho que ele seja esse viciado a ponto de apostar todo o patrimônio dele.

Celso Rocha de Barros: Em geral, traficante não cheira. O cara era viciado e dono da empresa de bet...

Ana Clara Costa: E por que aconteceu? A Blaze deu um calote nele de mais de 100 milhões. E aí ele entrou com um processo contra Blaze, requerendo esse valor que ele julgava que a Blaze devia para ele. E aí, nesse processo, ele há um laudo médico de que ele é um viciado. Eles colocam que ele está dilapidando o patrimônio todo por causa disso...

João Batista Jr: É de cortar o coração.

Ana Clara Costa: A gente fica bem impressionado, mas tem uma parte do processo que é curiosa, que na petição inicial dele ele diz que a Blaze em dado momento se comprometia a fazer pagamentos fracionados em valores iguais para ele de um determinado valor que a Blaze devia e fazer esse pagamentos por fora também, ele diz. Achei tudo muito estranho e dado o envolvimento dele com esse setor né, ele é o setor de bets, Willer Tomaz né? Eu acho que é justo a gente suspeitar que essa movimentação financeira não era necessariamente aposta.

Celso Rocha de Barros: A gente certamente deve ter ouvintes que já apostaram. Alguém chegou perto de apostar esse volume ou negociou com a Blaze por fora para receber dinheiro informalmente ou coisa que o valha?

João Batista Jr: Tem uma coisa, Ana, que pode ser legal de a gente comentar, que é o seguinte quando teve a CPI das Bets, a senadora Soraya com o Senador Dr. Iran, foram chamados no escritório do Willer Tomaz em Brasília. Quando os dois chegaram lá, quem estava? Cláudio Castro, ao vivo. E quem estava por videochamada? Hazenclever. Basicamente, eles queriam, aspas, explicar o que era mercado de bets e que a Loterj, que era o feudo deles, não fosse afetado.

Breno Pires: Ô João, isso me leva até o micro parênteses da relação do Willer com o Castro, né? A final da Copa Libertadores da América do ano passado, disputada em Lima, Flamengo e Palmeiras, teve um voo, adivinha de qual avião? O PPNLR, o mesmo do Xandão e o mesmo do Flávio, em que Willer Tomaz levou o Cláudio Castro e o senador Weverton Rocha para assistirem essa partida de futebol. Enfim, os mesmos personagens aí envolvidos em um outro contexto e o mesmo avião.

Ana Clara Costa: Agora só para concluir esse ponto das bets, uma fonte me contou essa história que o Willer bloqueou os serviços da RioPag e acabou fazendo com que as bets que operavam na Loterj via RioPag perdessem muito dinheiro enquanto essas operações estavam bloqueadas. Ou seja, esses empresários queriam matar o Willer Tomaz por essa iniciativa dele. E aí a fonte me disse: "Olha, fala com esses empresários, porque eles vão ter coisa para te contar sobre a operação do Willer e tal". E aí ligo para um deles e ele me fala: "Oh, nem tô sabendo disso que você tá me falando. Vou ver aqui o que que aconteceu". Mentira. Depois eu fui apurar melhor e descobri que o que aconteceu foi isso que o João Batista disse para a gente. Existe um acerto dos empresários de bet com o Flávio para pós eleição toda essa proibição ir para debaixo do tapete e as coisas voltarem a ser como elas eram antes, porque é uma coisa que é o núcleo financeiro do Flávio. Então os empresários que deveriam ter ficado chateados, no mínimo, com o Willer pela perda financeira, na verdade estão mancomunados ali em torno do projeto que vai ser o projeto que vai reaver as bets ao que era até a proibição acontecer.

Breno Pires: E tem um aspecto muito importante também revelado nestes últimos dias, que é o rendimento estratosférico do escritório de advocacia do Flávio Bolsonaro, que teve 13,7 milhões de reais nos últimos anos. O principal pagador do escritório de Flávio é um escritório do Nilo Almeida, advogado que já foi presidente da Comissão de Ética da Presidência da República. O Nilo Almeida tem uma atuação ali muito no óleo e gás e tinha sido personagem de uma reportagem da piauí porque ele assinou um contrato com a agência que o Bolsonaro criou para substituir o Mais Médicos. Bom, a atuação dele como advogado é muito escassa, né? A gente sabe que ele advogou para um policial militar do Rio de Janeiro que matou uma criança de cinco anos, a Ana Clara. E aqui acho que vale a pena destacar um pagamento específico de um outro advogado, que é o Otto Medeiros. Otto Medeiros, ele era sócio da Karine Nunes Marques, irmã do Kassio Nunes Marques. Otto Medeiros é também quase um funcionário da empresa do Walter Faria. Walter Faria, que é o dono da Cervejaria Petrópolis, foi alvo da Lava Jato, foi preso, foi denunciado. Basicamente, ele cumpria um papel ali de entregar dinheiro para o Departamento das Operações Estruturadas da Odebrecht. A gente tem por uma via transversa que um escritório que remunera o do Flávio Bolsonaro tem entre as suas receitas alguém investigado no Petrolão. Então, é algo que o nosso realismo fantástico, esse roteirista impressionante do Brasil, está revelando nesse momento.

Celso Rocha de Barros: Ele fechou o bingo, né cara? Dos escândalos. Não teve um.

Breno Pires: Não tem como afirmar que existe uma relação direta com volta. A gente não sabe qual é o cliente que foi representado ali nessa atuação conjunta do Otto Medeiros com o Flávio Bolsonaro. No entanto, é interessante destacar que o Otto Medeiros, nessa relação com a Karine Nunes Marques, ele foi citado em uma das conversas apreendidas pela Polícia Federal da Roberta Luchsinger, a Roberta Luchsinger, que agora virou cabo eleitoral da direita do Flávio Bolsonaro e deu entrevista metendo o pau no Lula. Pois é, numa conversa dela, acho que o Celso vai ficar admirado. Ela disse: "ah, esse Otto, -que era o advogado Otto Medeiros,- é sócio do Kássio", então acho que podiam chamar de novo a Roberta para falar, porque se ele é sócio do Kássio e ele paga dinheiro para o Flávio, então assim o Flávio é sócio do Kássio. Então assim o nível de hipóteses investigativas, né?

Celso Rocha de Barros: PowerPoint realmente...

Breno Pires: E além das relações, isso 14 milhões de reais para uma pessoa que desde o início da vida profissional era servidor público, inclusive no início da relação profissional, da atividade profissional, servidor fantasma porque ele estudava no Rio de Janeiro o curso de Direito e já era empregado em Brasília.

Ana Clara Costa: Acho que a gente tem que olhar que esse serviço prestado pelo escritório de advocacia do Flávio não foi um serviço advocatício. Ou seja, ele não estava com procuração na Justiça, atuando em processos, né? Não há processos em que o senador Flávio tenha atuado. Ele estava atuando como consultor, em consultoria e, curiosamente, no governo Bolsonaro foram sancionadas mudanças no Estatuto da Advocacia. E uma dessas mudanças previa que, "as atividades de consultoria e assessoria jurídicas podem ser exercidas de modo verbal e independem de outorga de mandato ou de formalização por contrato de honorários". Ou seja, essa mudança no Estatuto da Advocacia permitiu o pagamento de propina de favores contrapartes, sem que se tenha que provar o serviço prestado. E isso foi sancionado no governo do Jair Bolsonaro, justamente na época em que o Flávio havia comprado uma mansão de 6 milhões de reais. Que vale dizer que no mercado imobiliário os corretores avaliavam ela por um valor maior. Na escritura consta só 6 milhões. Mas ele foi questionado por que ele tinha 6 milhões para comprar uma mansão no Lago Sul, se ele era um servidor público, um deputado e depois tinha acabado de ser eleito senador, ainda não tinha dado tempo de juntar tudo isso. E aí uma dos argumentos dele para justificar essa renda tinha sido a consultoria como advogado. Então, na verdade, o que o pai dele fez ao sancionar as mudanças no Estatuto da Advocacia permitiu que ele fizesse essas consultorias sem comprovação do serviço prestado.

Fernando de Barros e Silva: Dá uma aparência de legalidade à mutreta do filho. Celso, deixa eu te ouvir a respeito disso tuda.

Celso Rocha de Barros: A gente viu aqui, nesses dois blocos, que o número de acusações de corrupção contra Flávio Bolsonaro é assustador. Assim, a gente não bastaria aqui fazer um podcast sobre isso. A gente teria que fazer aquele CD a Cid Moreira lê a Bíblia para a gente listar todas as acusações aqui.

Ana Clara Costa: Tem ouvinte que nem vai saber o que é CD.

Celso Rocha de Barros: Exato.

Breno Pires: Nem Cid Moreira.

Celso Rocha de Barros: Exatamente. Pois é, é um negócio realmente impressionante. E aí fica a pergunta que efeito isso vai ter na eleição, né? Porque é bom lembrar, por exemplo, a atual onda de antipetismo que alimentou o bolsonarismo começou com um grande escândalo de corrupção, em que o PT estava no centro, o PT não estava sozinho. Tinha também lá o PP, PMDB, aquelas coisas. Mas era no governo Lula, era a Petrobras no governo Lula. Foi um grande surto de investimento na Petrobras, do governo Lula, que deu margem aquele negócio todo. Então o PT estava no meio do negócio e foi punido eleitoralmente, de maneira bem pesada. Eleição para prefeito em 2016, o PT foi dizimado e é isso que a gente espera que aconteça. Assim, se tem um escâdalo de corrupção muito grande, que afeta um dos lados da política, ele vai ser punido eleitoralmente. Padrão. Instituições funcionando. Esse ano o quadro parece bastante diferente. Primeiro a gente teve Banco Master, que foi um caso gigantesco de corrupção que não parece ter tido qualquer efeito no resultado eleitoral. No primeiro turno, quase todo mundo que era ligado ao Banco Master se reelegeu. Um dos que perdeu foi o ACM Neto, mas aí não dava, porque o adversário dele era o cara do PT, do único estado em que o PT está envolvido. Então também não dava para todos os caras de Banco Master da Bahia ganhar a eleição. E o outro foi o Ciro Nogueira, que perdeu lá no Piauí. E pelo que o pessoal do Piauí me conta, não foi por causa de Banco Master, foi porque, enfim, o PT lá teve um resultado excelente e o Ciro Nogueira era oposição ao PT. Então por que nenhum desses casos de corrupção colou na direita brasileira esse ano? Nas eleições para governador, no Congresso, eles tiveram um desempenho muito bom. Não sofreram qualquer punição eleitoral pelos esquemas de corrupção. E o Flávio, pessoalmente, tem mais escândalos ainda do que o conjunto da direita brasileira. O que é um feito. Não é qualquer um consegue fazer um negócio desses e a gente está vendo movimentações pequenas na pesquisa por causa disso. Se você pegar as discussões sobre corrupção que a gente teve desde o Mensalão, tinha toda uma indústria de analistas que eu sempre achei muito ruins, que diziam que "não, a explicação é simples. Os mais pobres dão menos peso à corrupção do que ao seu interesse econômico. E à medida que você vai subindo de renda, você tem mais margem para se preocupar com essas outras coisas não sei o quê". Na época eu sempre disse: "Gente, isso está acontecendo porque essas pesquisas estão sendo feitas enquanto tem escândalos de corrupção do PT e a renda dos mais pobres está crescendo a ritmo chinês. Se a renda dos mais ricos estivesse crescendo como a renda dos mais pobres, o Leblon inteiro tinha tatuado a cara do Delúbio na bunda".

Ana Clara Costa: Mas estava crescendo.

Celso Rocha de Barros: Mas não no ritmo dos mais pobres. Estava três vezes menor.

Ana Clara Costa: Era a explosão do agro.

Celso Rocha de Barros: É só se olhar por faixa de renda. Os mais pobres cresciam a 12% ao ano. Era um negócio bizarro. Então, assim, durante muito tempo, essa visão colou cara de um monte de gente que falava isso não sei o que lá. E aí, como é que fica para esse ano? Para esse ano, se você quiser aplicar aquele raciocínio de antes, você vai dizer que o Sul, o Sudeste, a classe média, a classe mais alta, não se importa com corrupção, desde que seu interesse econômico esteja sendo atendido. Isso é uma questão que certamente os analistas vão discutir depois da eleição de 2026. Seja lá qual for o resultado. Agora, de qualquer maneira, o Flávio deveria ter alguma preocupação com isso, porque se você pegar num eleitorado completamente polarizado como a gente teve esse ano, em que, como diz o Felipe Nunes, o eleitorado em disputa mesmo deve ser uns 10% mais ou menos que o resto já está decidido em quem vai votar, aconteça o que acontecer. O progresso do Flávio nesses 10% variou muito com o tamanho do STF no noticiário, conforme os caras do STF iam fazendo besteira, aumentava a participação deles no noticiário e o Flávio subia. Em tese, esses eleitores foram para o Flávio por se preocupar com corrupção. Dos 47% do Flávio, 40 e tantos deve ser dele mesmo. Não interessa o que aconteça. Mas deve ter alguns pontos nesse porcentual que parece ter votado no primeiro turno preocupado com corrupção do STF. Será que algum deles vai trocar de voto no segundo turno? Porque se algo como 5% das pessoas que votaram no Flávio no primeiro turno resolverem se abster, por exemplo, resolverem não votar em ninguém e falar não votem em ninguém que seja acusado de corrupção. Não voto, não gosto do Lula e vou vou me abster nesse negócio. As chances de ganhar a eleição aumentam exponencialmente e se isso não acontecer, a gente vai ter uma conversa aqui entre nós brasileiros, porque que escândalo de corrupção, do tamanho que a gente falou aqui nesse programa não afetaram o resultado.

Fernando de Barros e Silva: É inevitável que a gente volte a falar da imprensa. A gente já falou em algumas ocasiões. Eu não acho nem que a gente possa dizer que houve um fracasso retumbante da imprensa. Não acho que seja fracasso. É fracasso do ponto de vista de esclarecimento da opinião pública, mas é um projeto que caducou. Esse de você cobrir uma campanha com essas características e diante do que está em jogo, como se você tivesse diante de duas alternativas equivalentes uma democracia estável, estabelecida e que fosse uma eleição normal. Não é uma eleição normal.

Celso Rocha de Barros: Mas mesmo se fosse, não devia ter feito um escândalo de corrupção desse tamanho?

Fernando de Barros e Silva: O governo Lula tem muitos problemas e a gente falou deles.

Celso Rocha de Barros: Sim, claro.

Fernando de Barros e Silva: E vai continuar falando. Não é disso que se trata. Então eu acho que tem aí uma discussão realmente de fundo. Eu estou lendo um livro que chama "Os irresponsáveis. Quem levou Hitler ao poder?" De um historiador que se chama Johann Chapoutot . Paralelo com a atualidade, é chocante. Assim, você vê as negociações entre a direita alemã e a extrema direita e vê o que está acontecendo agora. É muito chocante. Fala muito a imaginação.

Fernando de Barros e Silva: Bom, a gente encerra então assim, o terceiro bloco do programa. Fazemos um rápido intervalo, viramos a chavinha. Kinder Ovo na volta. Já voltamos.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem, estamos de volta. Mari Faria, vamos ver o que você nos reservou. Temos hoje a concorrência pesada. Breno Pires, João Batista. Eles estão querendo ganhar, Ana Clara. Atenta aí, vamos lá.

Ana Clara Costa: Ah, eu desisti já.

Sonora: Eu estou perplexo com alguns colegas que ainda estão relutando e nos ajudar a vencer o fascismo. Não é possível. O mundo está se posicionando.

Fernando de Barros e Silva: É o Zé de Abreu.

Sonora: Vocês vão ficar parados olhando pra ele? Me desculpem muito, mas eu acho que vocês estão por fora, viu?

João Batista Jr: Você reconheceu pela palavra fascismo, né, que virou slogan dele em toda a rede social.

Fernando de Barros e Silva: Oh gente, eu não queria ter ganhado, mas queria que um de vocês tivesse ganhado. Eu ganhei, sabe por que? Faixa etária. Tá mais perto da minha faixa etária.

João Batista Jr: Na capitania hereditária da idade, é sua.

Ana Clara Costa: Não, foi boa. Foi boa essa Mari. Essa foi boa.

Fernando de Barros e Silva: Improvável, hein? Coisas improváveis estão acontecendo, então animem-se! Fé. Isso pode ser um sinal, Fernando Barros ganhando o Kinder Ovo. Isso aí é coisa improvável, rapaz. Quem fala é o ator José de Abreu na sua rede social, cobrando os colegas a se posicionarem nas eleições. Então a gente encerra assim este Kinder Ovo da terceira idade. Vamos então agora para o melhor momento do programa. Momento mais feliz. Correio Elegante, momento de vocês, momento das cartinhas. E eu vou começar então com a mensagem do Lucas Noia, escreveu o seguinte: "Em tempos de Organizações Tabajara do saudoso Casseta e Planeta, KN, seria facilmente a sigla de Kamisinha Nunes para uma noite de delírios e delícias supremas. Brincadeiras à parte, minha solidariedade à Ana, única mulher do trio de apoiadores das mensagens arianas, que teve que se debruçar sobre toda essa lambança. Força!".

Ana Clara Costa: Foi uma viagem insólita. Eu reconheço.

Fernando de Barros e Silva: No coração das trevas.

Ana Clara Costa: Que eu espero que não se repita. É que com tanto tempo cobrindo política, a gente está acostumado com coisas insólitas, embora algumas, nesse caso do mercado, tenham superado em muito a média. O @Guerreirogus, postou: "Treinei minha IA para me responder com aprofundamento materialista, histórico, dialético, ideias de esquerda e pesquisando sempre em fontes confiáveis. Pedi ainda um humor ácido, um aprofundamento dialógico e senso crítico. Bem, agora eu leio as respostas com a voz do Celso".

Celso Rocha de Barros: Pô! Valeu, cara.

Ana Clara Costa: Oh, que elogio cabeçudo, hein? Caraca, eu nem sei o que que é dialógico, nem histórico dialético. Bom, enfim. Bom.

Celso Rocha de Barros: Ninguém sabe.

Fernando de Barros e Silva: Ninguém sabe.

Ana Clara Costa: Arrasou, Gus. Guerreiro Gus.

Celso Rocha de Barros: Sobre o Kinder da semana passada, o Daniel Corrêa comentou: "Estava limpando o jardim com minha esposa e ouvindo o Foro quando no Kinder Ovo, gritei 'Pavanato' antes do Fernando. Minha esposa olhou e disse: 'Meu amor, o que que você anda ouvindo para reconhecer a voz desse retrocesso político?'. Respondi: 'Isso é influência do Celso'". Deixo aqui minhas desculpas para o Daniel e para a esposa dele. Realmente foi uma má influência aqui para o rapaz. E a "Helena. _Olívia comentou: "Ana Clara Costa meteu um foda0se no último foda de Teresina kkk Não tem ninguém normal mais".

Ana Clara Costa: Desculpa, gente, perdão.

Celso Rocha de Barros: A essa altura do campeonato.

Fernando de Barros e Silva: Foi um foda-se dialógico, inspirado em Bakhtin. O dialógico.

Ana Clara Costa: Passou que eu nem vi.

Fernando de Barros e Silva: Muito bem. O que é bom dura pouco, o que não é tão bom também acaba. O de hoje foi bom. A gente vai encerrando o programa de hoje por aqui. Se você gostou, não deixe de seguir e dar five stars pra gente no Spotify. Você ouve o Foro toda a semana no Spotify e nas demais plataformas de áudio também no Spotify. Assinante da piauí e assinante do Clube da Novelo podem ouvir as reportagens da piauí narrada pelos seus autores. O Foro de Teresina é uma produção do estúdio Novelo para a revista piauí. A coordenação geral é do Paulo Victor Ribeiro. A direção é da Mari Faria, com produção e distribuição da Maria Júlia Vieira. A checagem é da Ethel Rudnitski. A edição é da Mariana Leão e do Paulo Victor Ribeiro. A identidade visual é da Amanda Lopes. A finalização e mixagem são do João Jabace e do Luís Rodrigues, da Pipoca Sound. Jabace e Rodrigues, que também são os intérpretes da nossa melodia tema. A coordenação digital é da Bia Ribeiro, da Emily Almeida e do Fábio Brisolla. O programa de hoje foi gravado aqui na minha Choupana, em São Paulo, no Estúdio Rastro do Grande Danny Dee, no estúdio Confraria de Sons e Charutos, em São Paulo, com a Clara Cavalcanti e no estúdio Três Lados, com o Gabriel Lontra, em Brasília. Quero agradecer demais a presença dos nossos amigos colegas queridos da Piauí. Breno. Breno, muito obrigado. Grande abraço. Até breve.

Breno Pires: Obrigado mais uma vez. Foi um prazer. E até as próximas.

Fernando de Barros e Silva: João Batista, querido, obrigado, querido.

João Batista Jr: Muito obrigado pelo convite. Que dias melhores estejam no nosso horizonte.

Fernando de Barros e Silva: É isso. Eu me despeço então dos meus amigos. Tchau, Celso.

Celso Rocha de Barros: Tchau, Fernando. Até domingo.

Fernando de Barros e Silva: Tchau, Ana.

Ana Clara Costa: Tchau, Fernando. Tchau, pessoal. Até domingo.

Fernando de Barros e Silva: É isso, gente! Domingo nós estaremos ao vivo a partir das cinco da tarde no YouTube da piauí. Até domingo. Bom voto a todos. Uma ótima semana e até semana que vem.


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