anais do dinheiro moderno
Pedro Tavares, de Brasília Abr 2026
28 min de leitura
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Em uma manhã de janeiro de 2020, o designer David Borges entrou às pressas em uma sala no andar térreo do Banco Central, em Brasília. Ele estava pronto para anunciar suas quatro ideias para a logomarca do novíssimo produto digital que estava para ser lançado pela instituição: um sistema de pagamentos instantâneos que funcionaria 24 horas por dia, mesmo depois do fechamento das agências. Borges tinha uma proposta visual para cada uma das quatro opções de batismo que estavam na mesa. “Queríamos que o nome fosse curto e fizesse alguma remissão à tecnologia”, relembra André Costa, chefe-adjunto da Diretoria de Comunicação do BC.
Duas das opções, porém, não vinham do vocabulário high-tech, mas da informalidade das ruas: “Valeu” e “Pra Já”. Segundo as anotações da equipe, elas evocavam “praticidade, eficiência, funcionalidade”. As outras duas foram pensadas para soar como códigos computacionais: Pi (cujo logo teria a forma da 16ª letra do alfabeto grego) e Tix (a letra T deveria remeter à transferência de dinheiro). Apenas estas últimas sobreviveram à reunião com os servidores das áreas técnicas do BC.
Faltava falar com a diretoria da instituição para obter o veredito. E a definição tomou outro rumo.
“O pessoal adorou o desenho do Tix, mas o nome do Pi”, lembra Flávia Dantas Berçot, chefe do Departamento de Comunicação do BC. Eventualmente, na reunião, alguém surgiu com a solução: “E se a gente juntar os dois, Pi mais Tix, e virar Pix?”
O logo de Borges – que “tem um conceito visual baseado em tecnologia, transação, píxel”, segundo um documento oficial – foi mantido.
O novo nome, que soa como um encurtamento de pixel (o pontinho que é o menor elemento de um dispositivo de exibição, como uma tela de celular), emplacou, e foi aprovado depois pelo então presidente do BC, Roberto Campos Neto. São furadas as especulações de que Pix é uma abreviação para (leia com sotaque carioca) “pagamento instantâneo”.
"Tinha que ser fácil de se pronunciar em outros idiomas, principalmente o inglês, porque já tínhamos a visão na época de, no futuro, conectar o Pix a outros sistemas para fazer pagamentos internacionais”, relembra Carlos Eduardo Brandt, que foi chefe da Gerência de Gestão e Operação do Pix e hoje trabalha no Fundo Monetário Internacional (FMI).
No dia 12 de fevereiro, uma quarta-feira, Campos Neto concedeu uma entrevista à GloboNews sobre os desafios da economia brasileira em 2020. Ao citar as inovações do open banking (sistema de compartilhamento de dados e produtos entre bancos), mencionou o modelo de pagamento instantâneo. “Já tem nome?”, perguntou a apresentadora. Campos Neto entregou: “Já. Vai se chamar Pix. Eu nem sei se podia [ter falado isso].” Não podia. A declaração tumultuou a decolagem. Ainda não havia nem registro da marca no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi), o que foi feito no dia seguinte ao spoiler, sob a atenção de toda a imprensa.
Na semana seguinte, o Pix foi apresentado oficialmente na 7ª reunião do Fórum Pagamentos Instantâneos (Fórum PI) no maior auditório do Insper, em São Paulo, com uma sessão inicial aberta a jornalistas. No dia seguinte a esse encontro, em 19 de fevereiro, o BC fez uma apresentação intitulada Lançamento da marca Pix, com transmissão ao vivo pelo YouTube.
Nessa live, foram anunciadas as especificações técnicas do produto: o funcionamento a qualquer hora e dia, com prazo máximo de liquidação de 10 segundos (na prática, são em média 3), inovações como o uso de QR Code (abreviação de Quick Response Code, ou código de resposta rápida) e a possibilidade de que o usuário registrasse múltiplas chaves de identificação, como número de telefone, e-mail e o próprio CPF/CNPJ.

Corta para 5 de dezembro de 2025:
Cinco anos e um mês depois do lançamento, o Banco Central celebrou o maior volume de transações via Pix já registrado em 24 horas: 313,3 milhões, totalizando 180 bilhões de reais.
A essa altura o Pix já era o principal meio de pagamento do país em total de operações (chegando a 79,4 bilhões, ou 52,6% do total) e o vice-líder em volume de dinheiro movimentado (foram 35,4 trilhões de reais ao longo de 2025, ante 3 trilhões de reais dos cartões de crédito, 957 bilhões de reais dos cartões de débito e 9,7 trilhões de reais de boletos). Usada pelas empresas para pagar fornecedores e salários, entre outros motivos por favorecer auditorias e governança, a Ted (Transferência Eletrônica Disponível) lidera em volume financeiro, mas com um baixo número de operações: no ano passado, foram 781 milhões de transações, que totalizaram 45,6 trilhões de reais.
O Doc (Documento de Ordem de Crédito), criado em 1985, deixou de existir. O valor só caía na conta do recebedor no dia útil seguinte ao pagamento, e por isso o sistema ficou obsoleto com a criação do Pix. Já os talões de cheque ainda não são uma espécie extinta – ainda que alguns bancos, como o Bradesco, tenham deixado de emiti-los.
Hoje, cerca de 170 milhões de brasileiros têm pelo menos uma chave Pix em seu nome, o que representa mais de 80% da nossa população total.
Se o leitor tiver deixado de usar carteira no bolso ou na bolsa, não está sozinho. O número de cédulas que circulam no país caiu de 8,4 bilhões para 7,7 bilhões entre janeiro de 2020 e janeiro de 2026. Com isso, as máquinas da Casa da Moeda andam tendo um alívio. Se em 2020 o órgão forneceu 1,9 milhão de notas novinhas para o Banco Central, no ano passado o número foi de 1,6 milhão. De 2018 a 2024, o total da população que tinha o dinheiro em espécie como meio mais frequente de transações caiu de 60,2% para 22%, segundo levantamento do próprio BC.
O Pix está presente das lojas de luxo aos bilhetes deixados no retrovisor por quem pede doações nos faróis. Virou parte da cultura – é tema de meme, figurinha e se transformou até em plataforma de flerte, já que é possível mandar recados de até 140 caracteres junto de uma transferência. Em 2024, o Nubank contratou como garoto-propaganda o ator americano Matt LeBlanc depois de detectar que muitos usuários enviavam a frase “How you doin'?”, xaveco-bordão de seu personagem na série Friends.
E um registro do nosso tempo: nas redes sociais, a cantora Lilica Rocha, de 11 anos, passa das 13 milhões de visualizações entre TikTok e Instagram cantando uma música que começa repetindo: “Eu quero Pix na conta/ Eu quero Pix na conta/ Eu quero Pix.”
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O BC, com seus 3.068 servidores em todos os departamentos, cuida sozinho do sistema que integra 913 instituições financeiras e consome 1210 kwh/dia de energia elétrica por dia. É mais brando que muitos datacenters: o suficiente para alimentar um vilarejo de 400 habitantes. Os computadores ficam em uma sala refrigerada dentro do Centro de Processamento de Dados, que faz parte do Departamento de Tecnologia da Informação (Deinf) no térreo do BC. “Todas as transações Pix dependem do funcionamento dessa sala”, me disse Caio Moreira Fernandes, chefe do Deinf, ao apresentar o espaço à piauí.
São os motores de um produto bancário que atraiu holofotes – mas também faíscas de diferentes lados, conforme apurou a piauí em uma série de entrevistas e conversas com mais de trinta profissionais nos últimos oito meses, que nos ajudam a registrar abaixo a história dos primeiros anos do Pix.

O primeiro país que se aventurou nos pagamentos rápidos (ainda não “instantâneos”) foi o Japão, em 1973, com a implementação do Sistema Zengin, que operava via computadores e linhas de telecomunicações. Era capaz de processar cerca de 170 mil transações por dia em média, e cada uma delas poderia levar de minutos até 24 horas. O Bank of Japan liquidava as transações. Em 1987, a Suíça lançou o seu Sistema de Compensação Interbancária (SIC, na sigla original), com a participação inicial de doze bancos, que também se tornou um caso de estudo mundial.
Esses dois sistemas de vanguarda existem ainda hoje, com as devidas melhorias e evoluções técnicas.
Com o novo século e a popularização da internet, começaram a surgir formatos mais modernos, capazes de operar 24 horas por dia, todos os dias do ano. Quem deu o pontapé inicial foi a Coreia do Sul, em 2001. No Brasil, o Banco Central começou a estudar o assunto um pouco depois.
“Podemos dividir o Sistema de Pagamentos Brasileiros (SPB) antes e depois de 2002”, explica Guilherme Solino, vice-presidente da Associação Nacional dos Auditores do Banco Central do Brasil (ANBCB). Em abril daquele ano, foi instituída uma medida regulatória que trazia novas configurações ao SPB, um organismo gerido pelo Banco Central que garante agilidade e melhorias às operações financeiras. Uma das inovações trazidas pela nova medida foi a criação da Liquidação Bruta em Tempo Real, tecnologia utilizada pelo BC que permitia que operações financeiras fossem liquidadas instantaneamente. Desse mecanismo nasceu a Ted, uma solução segura para empresas pagarem salários e fornecedores, mas de baixa adesão no varejo, por ter custo (entre 5 e 15 reais por transação na época do lançamento, e até 25 reais hoje em dia), além de funcionar apenas em horário comercial.
A linha do tempo da criação do Pix não tem nada de instantânea. Dos primeiros estudos até a estreia, foram cerca de oito anos. O projeto passou por muitas mãos e gestões, e por isso qualquer reivindicação da paternidade do sistema é um engodo – especialmente se vierem de políticos, que não têm qualquer protagonismo na história.
“O Tesouro Nacional desde o começo foi um órgão de governo que teve um contato muito próximo com a gente. Existia um acordo de cooperação técnica. Fizemos questão de colocar essa colaboração entre entre o Banco Central e o Tesouro Nacional”, diz à piauí um servidor que fez parte do time Pix.
Em 2012, em um dos encontros bimestrais de representantes de bancos centrais do mundo todo na sede do Banco de Compensações Internacionais (BIS), na Basileia, na Suíça, profissionais de outros países apresentaram exemplos práticos que inspiraram o BC. As maiores referências foram os modelos do Reino Unido, que havia sido implementado em 2008, e o da Índia, de 2010. O presidente do Banco Central nessa época era Alexandre Tombini (2011-2016).
A Lei 12.865, publicada em 9 de outubro de 2013, estabeleceu um novo marco regulatório para o Sistema de Pagamentos Brasileiro. O BC passou a ter a obrigação de assegurar e regular o funcionamento dos arranjos e das instituições de pagamento, além de adotar medidas para promover a competição, a inclusão financeira e a transparência na prestação de serviços. Ampliava-se, ali, o campo de ação e as possibilidades de protagonismo do Banco Central.
Com amparo nessa lei, o BC publicou um relatório incentivando que a iniciativa privada criasse sistemas de pagamento instantâneo, mas se frustrou. Plataformas privadas como o PicPay e o Mercado Pago trouxeram “soluções fechadas”, isto é, nas quais não é possível fazer transações de uma plataforma para outra. O Banco Central, então, decidiu exercer seus superpoderes e criar um sistema do qual seria dono. Mas buscou diálogo com o mercado para levar a ideia adiante.
Nos anos Ilan Goldfajn (2016-2019), o departamento de política monetária do BC começou a fazer isso na prática. Ivo Mósca, hoje diretor executivo de Inovação, Produtos e Segurança da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), trabalhava na época no Itaú Unibanco* e integrou uma comitiva de diretores e executivos dos principais bancos do país, em 2017, que foi a Londres estudar de perto o assunto.
Uma das propostas que o setor financeiro levou ao BC era a de ampliar os horários das Teds, aprimorando a tecnologia que já existia. “Chegamos a desenhar alguns mecanismos para tentar aproveitar o que já estava funcionando e trazer um aumento do ganho e eficiência para a grade de fim de semana”, diz Mósca. Essa ideia também não foi pra frente.

Em 2018, o BC desenhou o primeiro projeto próprio e estruturado para os pagamentos instantâneos. “O Banco Central seria o dono do regulamento, que a gente chama tecnicamente de ‘instituidor do arranjo de pagamento’. É quem define todas as regras de negócio, frutos operacionais e procedimentos operacionais para prestação de serviços de pagamento para os usuários finais”, explica à piauí João Manoel Pinho de Mello, à época diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução (Diorf), que liderou o processo de governança e discussão regulatória da pré-implementação do Pix até os primeiros anos do produto.
Em um artigo publicado na Harvard Business School em dezembro de 2021 , quando o Pix já estava em pleno funcionamento, o professor americano Lauren Cohen resumiu a estrutura desse sistema de pagamentos da seguinte forma: “O Pix são as estradas, e o Banco Central, a concessionária que administra as estradas; diversos tipos de tráfego poderiam cruzar essas estradas (os bancos e as entidades financeiras), mas todos precisam da aprovação da concessionária para obter acesso e manter as operações. Em contrapartida, o BC garante a segurança e a experiência dos usuários a bordo.”
“Naquele momento, o Banco Central passou a exercer seu mandato regulatório de maneira, digamos assim, bem pouco tímida, né?”, reconhece Pinho de Mello. Era mandatório que todas as instituições financeiras com mais de 500 mil contas ativas fornecessem o serviço para seus clientes desde o primeiro dia de funcionamento do sistema, o que significou mais de 90% de adesão imediata.
O BC gastou cerca de 8,9 milhões de reais entre 2019 e 2020 para construir o Pix, segundo informou à piauí um servidor do banco. Nesse período, muitos bancos passaram a redirecionar seus investimento internos para as tecnologias de implementação obrigatória do sistema. “Só pelas instituições da Febraban, a implementação superou 500 milhões de reais ainda antes do processo de lançamento do Pix. Depois, esse investimento foi crescendo”, relembra Mósca.
Entre 2018 e 2020, grupos permanentes de trabalho chamados de Fórum Pix reuniam associações de bancos grandes (Febraban), associações de fintechs (Zetta, Abipag, Pagos, ABFintechs), representantes do varejo (IDV, Abras, MRC, Sebrae), associações de consumidores (IDEC), Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida (ONGs e igrejas) e entidades governamentais (Tesouro, Receita Federal, Polícia Federal).
O objetivo dos encontros era municiar o BC de informações e visões. Nem sempre havia consenso. Um dos temas que mais gerou turbulências nesses fóruns de pré-lançamento foi a realização de transferências de alto valor em horário noturno, em que a vigilância é menor. Por temer a profusão de fraudes e golpes, o mercado queria impor limites para as operações nessa faixa, enquanto o BC rejeitava a restrição. “O BC achou que estávamos sugerindo esse limite por receio de perder receitas com as Teds”, diz um representante do setor financeiro. Só em outubro de 2021, meses depois do lançamento, foi criado o bloqueio automático para transferências entre pessoas físicas de valores maiores que mil reais entre as oito da noite e às seis da manhã (hoje esse recurso foi aperfeiçoado para ser analisado caso a caso pelo algoritmo, conforme os padrões ou restrições determinadas pelos usuários).
O BC tem encontrado várias vantagens em ser o dono da bola e do campo, mas há queixas contra a concentração de poderes. “Se um cartão de crédito cair por meia hora num dia de semana, com certeza o Banco Central vai acionar os instituidores do arranjo, Visa e Master, e pedir explicações. Mas ele não pede explicações para si mesmo quando o Pix fica fora do ar, né? Muitas vezes a gente sequer tem a transparência”, diz um economista do setor bancário.
O BC responde às críticas afirmando que o Pix nunca parou de funcionar nem ficou completamente fora do ar desde que foi inaugurado, em novembro de 2020. É verdade. Mas houve, sim, problemas pontuais. No dia 7 de fevereiro deste ano, o Pix passou por instabilidades em oito bancos, que duraram cerca de 1 hora. Indagado pela piauí sobre esse episódio específico, o Banco Central disse que foram problemas internos dessas instituições e não atingiram as outras.
“Por que tem que ser o Banco Central a fazer um sistema que tantas empresas podem oferecer? Olha o risco que você corre. E se amanhã houver um problema no sistema?”, questiona o economista Marcos Lisboa. “São bilhões de transações e trilhões de reais por ano. Será que o sistema hoje está adequado para suportar isso tudo da forma correta? Quem é que supervisiona isso? É o próprio regulador, que também é o provedor.”

No primeiro semestre de 2019, Roberto Campos Neto havia acabado de assumir a presidência do Banco Central e mergulhou nos projetos em andamento. Ao folhear o relatório Pagamentos Ininterruptos em Tempo Real, que àquela altura ainda não tinha a nomenclatura Pix, virou para João Manoel Pinho de Mello e disse: “Johnny, a gente vai ficar famoso com isso.”
O lançamento estava previsto para março de 2021, mas Campos Neto colocou pilha na equipe para antecipá-lo. Na memória de um servidor, o então presidente do BC disse: “Não dá para esperar. Esse negócio aqui é muito bom.” Em março de 2020, quando as portas do banco se fecharam com a disseminação da Covid, o trabalho se intensificou no home office, com a equipe extrapolando o expediente. “Nossa escala de trabalho era 7 por 0”, brinca uma servidora. Assim, foi possível estrear em novembro de 2020.
Coube a Pinho de Mello travar as conversas com as big techs. Ele teve uma reunião acalorada nos primeiros meses de 2020 com Will Cathcart, diretor do WhatsApp, da Meta, que planejava lançar o WhatsApp Pay, um serviço próprio de pagamentos instantâneos, contratando Visa e Cielo para operarem a liquidação financeira. O BC queria dissuadi-lo. Com mais de 100 milhões de usuários brasileiros na época, o aplicativo de mensagens teria um serviço muito mais abrangente que os do PayPal e do Mercado Pago, mas o BC o considerava anticompetitivo, pois na prática viraria praticamente um monopólio, prendendo os usuários no aplicativo. “Eu disse pro Cathcart: ‘Vocês podem entender muito de tecnologia, mas quem entende de pagamentos e de Brasil somos nós’.”
A Meta tinha que cadastrar cada instituição financeira para lançar o serviço, mas ainda não tinha convencido Bradesco e Itaú a entrar na jogada (procurados pela piauí, a Meta e os bancos não comentaram a informação). “Eles iam lançar [apenas] com Banco do Brasil, Nubank e Sicredi”, lembra Pinho. Mesmo com o recurso do Pix instalado no aplicativo, o WhatsApp lançou seu WhatsApp Pay em maio de 2021 – dez meses depois do previsto, devido em parte a entraves regulatórios do próprio BC. Àquela altura, o Pix já era um sucesso, e por isso a adesão ao recurso da big tech foi pequena.
Mayara Yano, na época assessora Sênior do Departamento de Competição e de Estrutura do Mercado Financeiro (Decem), conta que foi recebida com estranhamento quando saiu em busca de empresas de softwares que atendiam o comércio em processos de pagamento e logística, como automatizar cálculos de preços e emitir notas fiscais. “Eu falava: ‘Oi, aqui é do Banco Central, a gente tá iniciando um projeto, vai vir uma novidade sobre pagamentos.’ A pessoa na hora achava que era trote e desligava o telefone. Só quando chegava o e-mail com o @bcb.gov.br é que acreditavam.”
Quando o Pix foi lançado, o BC não gastou nenhum centavo com publicidade. A novidade se espalhou naturalmente pela imprensa e pelas campanhas dos bancos. Houve até um trabalho inverso, de contenção, por uso indevido do logotipo e outros mal-entendidos. Em um final de semana de 2021, quando caminhava pelo Conjunto Nacional, shopping tradicional de Brasília, André Costa, o chefe-adjunto da Diretoria de Comunicação, avistou um enorme logo do Pix na frente das lojas C&A, meio troncho – escrito em azul e com a fonte da loja. “Na hora, tirei foto e mandei aqui para o nosso departamento entrar em contato com eles para tirarem isso.”
Problemas assim apareceram desde o lançamento, quando os bancos brigavam pela preferência do cadastro dos usuários. Uma das ações publicitárias de maior repercussão foi a do Santander, que, para divulgar o sistema de pagamentos instantâneos, tirou da hibernação a atriz Ana Paula Arósio – ela andava praticamente sumida da mídia fazia uma década, e ganhou um cachê estimado em 8 milhões de reais. Arósio, que na virada do século dizia “faz um 21” na propaganda da Embratel, dessa vez proclamava “Faz um SX”. Técnicos do BC acharam que o comercial, lançado em 25 de agosto de 2020, dava a entender que o Santander teria um Pix próprio, chamado de SX. O BC não gostou, e agiu rápido.
Yano estava de folga, na festa de aniversário de sua filha, quando recebeu uma ligação de um colega. “Foi um Deus nos acuda. Eu tive que sair da festa, meu telefone começou a tocar. Os outros bancos queriam saber se podiam fazer igual”, lembra a servidora do BC. O Santander ouviu a queixa do Banco Central e logo mudou a campanha.
“Desde o início, tinha-se a preocupação de padronizar a jornada do usuário. O usuário entra no app do banco, tem uma aba de Pix desenhada igual em todos, ele digita a chave da mesma forma e está feito. É um princípio parecido com uniformizar a experiência do usuário com dinheiro. Imagina se o Banco Central emitisse notas de 50 reais, cada uma de diferentes tamanhos”, diz Pinho de Mello.

Em 2021, primeiro ano completo de funcionamento do novo sistema, “como fazer Pix” foi a quinta busca mais frequente do Google na categoria “Como fazer” (em um top 10 dominado por itens culinários, a começar por “como fazer bolo”).
Em 2022, o Pix ocupava a 22ª posição das marcas mais lembradas pelos brasileiros, segundo uma pesquisa da agência de publicidade VMLY&R, que analisou 1.600 marcas. Um estudo da VML Brasil, realizado neste ano, analisou mais de 1.500 marcas que figuram entre as favoritas da geração Z. Foram ouvidos 18 mil jovens. O Pix apareceu em quinto lugar na lista de preferências, atrás de Google, YouTube, WhatsApp e Havaianas*.
O Pix primeiro ficou tech, depois pop e agora também é internacional. Não apenas por ser aceito em estabelecimentos de países com muitos turistas brasileiros (na Argentina, o Banco Patagonia fez uma parceria com o Banco do Brasil para tornar viável o pagamento; em Portugal, as operações se dão pela parceria entre uma instituição de crédito portuguesa e o Braza Bank, um banco autorizado pelo BC a fazer transferências internacionais). Mas também porque o Pix, com sua importância na 11ª economia do mundo, virou notícia em veículos estrangeiros.
Em julho do ano passado, o Financial Times publicou uma reportagem sobre o Pix, em que o descreve como “much-loved payment system” (sistema de pagamento muito amado) dos brasileiros e vai além: “É uma das grandes histórias de sucesso de fintech do mundo, um recurso diário para pedintes e bilionários”.
Em agosto, o programa e podcast francês L'angle éco de François Lenglet, da rádio RTL, dedicou um episódio inteiro para debater a criação e funcionamento do Pix, apresentado como “um meio de pagamento digital revolucionário”. Em outubro, o sistema brasileiro foi assunto no podcast do ator e comediante sul-africano Trevor Noah, que conversou com um ex-secretário de Transportes dos Estados Unidos. Na discussão em torno do tema “governos deveriam agir como empresas?”, Noah disse sobre o Brasil: “Basicamente, o que eles fizeram foi tornar possível que qualquer pessoa tenha uma conta bancária no celular. Esse sistema não é operado por uma empresa, mas pelo governo.”
Assim como o Brasil se inspirou em sistemas de outros países, anos atrás, hoje outros países estudam o modelo do BC para tentar replicá-lo. Em outubro do ano passado, a Colômbia lançou o Bre-B, que ganhou o apelido de “Pix colombiano” por funcionar basicamente nos mesmos moldes do sistema brasileiro. O Bre-B contou com o desenvolvimento de empresas nacionais como o Ebanx, de Curitiba. Segundo um servidor da equipe do Pix no BC, há uma série de países africanos e asiáticos estudando o Pix. “Recebemos uma delegação de Bangladesh em abril deste ano e uma pessoa da Gates Foundation estava junto deles.” A Fundação Bill e Melinda Gates é apoiadora de um software de código aberto (ninguém precisa pagar pelo uso) utilizado em países como Ruanda e Filipinas, e manteve conversas com a equipe do Pix para trocas de experiências.
O efeito colateral da fama mundial foram as declarações de Donald Trump. Em 15 de julho do ano passado, o governo dos Estados Unidos abriu uma investigação comercial contra “serviços de comércio digital e pagamento eletrônico” oferecidos pelo Brasil. Sem citar nominalmente o Pix, o governo Trump alegou que o Brasil reduzia em bilhões as receitas de bandeiras de cartões do país. O Planalto contra-atacou com uma arma de guerra brasileira: o meme. "O Pix é nosso, my friend!", respondeu o governo, com uma postagem em seus perfis oficiais.
“Orgulho e nacionalismo não são boas companhias da regulação. O ideal é que a regulação seja quase que invisível. Ela garante que as coisas funcionem”, critica o economista Marcos Lisboa. “Na hora que o árbitro de futebol começa a aparecer demais, é porque o jogo está torto.”
Em março passado, um documento elaborado pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o mesmo que abriu a investigação comercial contra Pix, citou o sistema nominalmente três vezes: “O Banco Central do Brasil criou, detém, opera e regula o Pix, uma plataforma de pagamentos instantâneos. Partes interessadas dos Estados Unidos expressaram preocupação com o fato de o Banco Central do Brasil conceder tratamento preferencial ao Pix, o que prejudica os fornecedores de serviços de pagamento eletrônico dos EUA. O Banco Central exige o uso do Pix por instituições financeiras com mais de 500 mil contas.”

Mas será que o Tio Sam está querendo atrapalhar a nossa batucada?
Lisboa relativiza e lembra que se trata de um pequeno trecho em um documento de 534 páginas sobre práticas protecionistas em sessenta países. “Não sei porque o Pix fez tanto barulho. No capítulo sobre o Brasil tem coisas muito mais graves e importantes, como as leis de incentivo e proteção a setores da economia e até a Rua 25 de Março, citada por incentivar a pirataria.”
O governo brasileiro, porém, tenta manter o tema dos ataques de Trump em alta. No começo de abril, um microfone captou o recado que o ministro da Secretaria de Comunicação da Presidência, Sidônio Palmeira, soprou ao presidente num evento em Salvador: “Não esqueça de falar do Pix.” “O quê?”, disse Lula. “O Pix. Fala algo: 'Eu acho que o Pix é nosso'”. O presidente então prosseguiu: “Ninguém vai fazer a gente mudar o Pix.”
Enquanto isso, aliados do governo têm declarado que a aproximação da família Bolsonaro com Trump pode colocar em risco a soberania do Brasil com o Pix. O líder do PL na Câmara, o deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), coloca gasolina na fogueira – quer ver o tema no debate eleitoral. “Tomara que apareça, porque quem fez o Pix foi o Bolsonaro”, ele diz, evocando a indevida reivindicação de paternidade.
Lula já teve um aperitivo do peso eleitoral do Pix. Em setembro de 2024, a Receita Federal determinou que transações a partir de 5 mil reais para Pessoa Física e 15 mil para Pessoa Jurídica (incluindo não apenas o sistema, mas também débito e Ted) fossem declaradas – uma ideia revogada depois do boato, difundido nas redes sociais, de que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, pretendia taxar o Pix. Na série de pesquisas do Datafolha, a aprovação do governo caiu de 48% para 45% em um ano, e analistas atribuem isso parcialmente aos rumores.
Ninguém precisa ter muita pena das bandeiras de cartões de crédito. O volume movimentado por essa modalidade no Brasil continuou crescendo na era do Pix, num ritmo maior que o dos anos anteriores (a evolução foi de 70% entre 2015 e 2020 e de 175% entre 2020 e 2025), em meio à digitalização da economia.
Para os bancos, o Pix teve diferentes tipos de impacto. Por um lado, cortou uma onda chamada de float (flutuação). Quando o dinheiro está parado, depois de sair de uma conta e antes de chegar a outra, as instituições podem fazer rápidos investimentos e ampliar seus ganhos. No caso do cartão de crédito, esse intervalo é significativo: as instituições levam de 2 a 3 dias entre a quitação da fatura e o pagamento do estabelecimento comercial.
O float foi bem mais importante, é verdade, antes da estabilização da moeda, em 1994. Os bancos aplicavam o dinheiro parado no overnight, investimentos de um dia que rendiam significativamente na era da superinflação.
Mas os bancos ganharam dinheiro em outras frentes. O Pix fez o brasileiro movimentar muito mais suas contas, abrindo a porta para outros serviços, como crédito imediato atrelado ao fluxo de recebimentos, cobrança automatizada para empresas, antecipação de vendas sem depender de cartão, e até soluções simples como dividir contas, pagar fornecedores ou organizar o caixa em tempo real. O dinheiro gira mais rápido, o cliente usa mais o banco, e é nesse uso constante que surgem as novas fontes de receita.
O estudo O impacto dos pagamentos instantâneos no sistema bancário, publicado em março de 2025 pelos pesquisadores do BC Rodrigo Barbone Gonzalez, Yiming Ma e Yao Zeng, mostrou uma outra mudança. As instituições aumentaram preventivamente suas reservas de dinheiro antes do lançamento do Pix, com uma quantidade maior de ativos de rápida liquidez, para que tivessem dinheiro rápido que garantisse as transações. Com isso, passaram a investir mais em títulos públicos de curto prazo, por exemplo.
Cerca de quarenta servidores e auditores do Banco Central ergueram faixas e cartazes em frente ao Congresso Nacional, em Brasília, na manhã do dia 20 de agosto passado. Era um ato organizado pela Associação Nacional dos Auditores do BC (ANBCB) para pressionar em favor da aprovação da Proposta de Emenda Constitucional 65/2023, do senador amazonense Plínio Valério (PSDB), que concede autonomia financeira e orçamentária para o Banco Central.
A proposta é pensada para dar liberdade à instituição, mas as faixas tomam a parte pelo todo: “O Pix não pode parar! Sim para a PEC do Pix.” (Na manhã desta terça-feira, 28, um novo ato em favor da PEC reuniu cerca de 300 servidores no subsolo do Edifício-Sede do Banco Central).
O que está em jogo é o seguinte: desde a Constituição Federal de 1988, o orçamento do Banco Central é dividido em dois montantes. Um é o “orçamento monetário”, que engloba os encargos e as receitas das operações do BC como Autoridade Monetária, como a administração das reservas em moeda estrangeira e os juros que recebe dos títulos públicos que mantêm em sua carteira. Segundo um servidor do Banco Central ouvido pela piauí, esse valor fica em uma média anual de 40 a 50 bilhões de reais – é basicamente o “lucro” anual do BC. O outro orçamento, bem mais limitado, de aproximadamente 6 bilhões por ano, é o “orçamento administrativo” aprovado pelo governo no âmbito da Lei Orçamentária Anual. É um valor destinado a despesas com servidores, prédio e investimentos necessários para o funcionamento do Banco Central.
“Essa autonomia financeira é mais conceitual do que numérica. Ou seja, mais importante do que saber quanto o BC terá para investir é saber que ele terá liberdade para alocar esses recursos nos nossos investimentos”, defende Guilherme Solino, o vice-presidente da associação dos auditores.
Para ilustrar a anomalia orçamentária, Gabriel Galípolo, presidente do BC desde 2025, já usou como exemplo os caminhões usados pela instituição para transportar dinheiro. O valor gasto com a manutenção da frota sai do orçamento monetário. O valor gasto com a compra de novos veículos sai do orçamento administrativo. Com isso, há caminhões com mais de quarenta anos de rodagem ainda sendo usados, porque o dinheiro para aquisição (enviado pelo governo) é mais apertado.
Com o Pix, esse paralelo fica mais evidente. Toda a operação do sistema, desde servidores até investimentos em tecnologia e equipamentos, é paga hoje pelo orçamento geral da União, o administrativo. Ou seja, um sistema que é, na prática, parte da infraestrutura monetária nacional acaba sendo financiado como uma despesa comum do governo. Pela proposta discutida no Senado, esses custos passariam a ser cobertos pelo orçamento monetário, alinhando a natureza da despesa com a função do Banco Central.
Hoje, o time responsável pelo funcionamento do Pix tem 34 servidores, divididos em três grupos, além do chefe da equipe: dez cuidam da agenda evolutiva (os novos recursos), nove da segurança e os outros do monitoramento diário da operação. “Imagina, as 170 milhões de pessoas que usam Pix estão nas mãos de apenas trinta”, reclama Plínio Valério, autor da PEC. A emenda propõe assegurar que o sistema de pagamentos será sempre do Banco Central e que jamais cobrará taxas de transferência.
Naquela manhã do protesto, a votação da proposta estava agendada na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado, mas acabou sendo adiada. Até hoje não foi votada.
Foi à PEC do Pix que o senador Ciro Nogueira (Progressistas-PI) propôs amarrar uma emenda para aumentar o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de 250 mil reais para 1 milhão de reais, um presentão para o Banco Master, de Daniel Vorcaro. Valério refutou a ideia. Perguntei a ele, em seu gabinete, se o pedido levantou alguma suspeita. “Aqui em Brasília tu suspeita de tudo, até da tua sombra. Se ela não tiver retinha, tu fica: ‘Essa é minha sombra mesmo?’”, disse o senador. “Uma coisa que passa de 250 [mil] para 1 milhão já chama atenção, mas como não tinha nada a ver com a autonomia do banco, eu rejeitei.”
Um argumento pró-autonomia é o desgaste em viver dependendo do governo. Um servidor que faz parte da equipe do Pix diz que o BC consegue mais dinheiro para os projetos internos quando o governo quer ter atendidas demandas específicas, em geral úteis para a comunicação. “Hoje nós sabemos que o Pix é uma moeda de troca do Banco Central com o governo”, diz. Ele cita como exemplo o lançamento do Pix parcelado sem garantias, em setembro de 2025, uma novidade de grande apelo popular.
No ano passado, o total de investimentos do Banco Central em projetos internos, como compra de máquinas, pacotes de tecnologia e viagens, foi de 143 milhões de reais. Em 2024, havia sido na casa dos 33 milhões. “A PEC daria autonomia porque eu não vou precisar mais passar com o pires no governo pedindo dinheiro e ouvindo de volta: ‘Só vou te dar dinheiro se você fizer isso aqui em relação a Pix’", diz esse mesmo servidor
Todos os três servidores da equipe do Pix ouvidos pela piauí em condição de anonimato se queixam de falta de estrutura para trabalhar. “Antes, as vagas na equipe eram disputadas quando abriam as transferências internas. Hoje é o contrário – as pessoas querem sair do Pix”, diz uma servidora. “Existe um sentimento na equipe de que a gente trabalha muito mais do que a média do Banco Central, e que sofremos mais pressão, porque estamos lidando com uma tecnologia muito importante pros brasileiros.”
Um dos projetos na gaveta, segundo um servidor, é o aprimoramento no sistema de fiscalização das instituições participantes para perceber fraudes. “Nós começamos isso em 2024. Agora tentamos retomar, mas já perdemos o timing, porque muitas das informações que os bancos nos passaram há dois anos já não são as mesmas”, diz.
Desde o lançamento do Pix, uma série de melhorias foram feitas, como a possibilidade de sacar dinheiro em espécie por meio do sistema. “Agora, os investimentos serão canalizados menos em desenvolver novas modalidades de Pix e mais em segurança”, me disse Angelo Duarte em seu último dia como chefe de Gabinete da Diretoria de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do Banco Central, em dezembro de 2025.
A sofisticação do crime preocupa. “Hoje os bandidos estão usando o reforço da inteligência artificial para sofisticar a abordagem. A segurança deve evoluir no mesmo ritmo dos métodos de ataque”, diz Patricia Peck, advogada especialista em direito digital. Ela cita casos em que o golpista usa IA para simular a voz de um parente, por exemplo, e conseguir acessos bancários e senhas.
Em 2 de fevereiro deste ano, foi implementado o Mecanismo Especial de Devolução (MED) 2.0, uma evolução do MED, ferramenta criada pelo Banco Central em 2021 para ajudar vítimas de golpes a recuperar valores enviados de forma indevida. Com o MED, o Banco Central conseguiu identificar 7,3 bilhões de reais em fraudes via Pix, e recuperar 9% desse montante. “Com o MED 2.0, a ideia é criar um mecanismo para que a gente consiga, de forma ágil e rápida, percorrer as múltiplas contas [pelas quais passam o dinheiro roubado] e pelo menos em alguma delas conseguir travar esse dinheiro”, explica Peck.

Um mês depois do lançamento do Pix, o economista Gustavo Franco, que faz parte da equipe criadora do Plano Real, publicou um artigo intitulado O futuro do dinheiro, em que analisa a evolução da moeda no Brasil frente às novas tecnologias. Diz que o Pix “foi uma decisão pragmática que talvez se torne paradigmática”.
Cinco anos depois, em junho de 2025, o americano Paul Krugman, vencedor do Nobel de economia, escreveu um artigo sobre o Pix com o seguinte título: “O Brasil inventou o futuro do dinheiro?”, que vem seguido de uma outra pergunta: “e ele chegará em algum momento até os Estados Unidos?”.
No país de Trump, é bastante popular o pagamento instantâneo Zelle, que é administrado por um consórcio de bancos privados e tem mais limitações que o Pix (é pensado para transferências de pessoa para pessoa, tem menor aplicação no comércio e, a depender do banco, funciona em horário restrito). Para Krugman, os Estados Unidos ganhariam muito se adotassem um modelo semelhante ao Pix, mas não farão isso por estarem presos em “jogos de interesse” de instituições financeiras e “fantasias cripto” (ou seja, enxergam nas criptomoedas, em especial as stablecoins, a solução para as novas demandas financeiras). Outro entrave, diz Krugman, é o fato de o país estar “altamente comprometido com a visão de que o governo é sempre o problema, nunca a solução”.
Em algum momento do artigo, o economista alfineta: “A maioria das pessoas provavelmente não pensa no Brasil como um líder em inovação financeira. Mas a política brasileira é claramente muito diferente da nossa — por exemplo, eles de fato levam a julgamento ex-presidentes que tentam reverter eleições.”
* A família do fundador da piauí é acionista integrante do bloco de controle do Itaú Unibanco.
**O fundador da piauí é presidente do conselho das Alpargatas, que fabrica as Havaianas