questões socioludopédicas
Evandro Cruz Silva 22 Jul 2026
18 min de leitura
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Antes de cobrar o pênalti, Neymar já discutia com o goleiro norueguês. Eu estava na terceira cerveja e assistia ao jogo num bar berlinense com uma quantidade espantosa de noruegueses escandinavamente felizes: loiros, altos e apaixonados por Erling Haaland, eles festejavam sem hostilidade, o que só aumentava o constrangimento do circo na tela.
Ørjan Nyland respondia às provocações com um sorriso que não se desfez nem depois de a bola cruzar a linha de seu gol. O camisa 10 brasileiro havia acabado de receber cartão amarelo por uma entrada dura em Ødegaard, o Brasil perdia por dois a zero e faltava pouco para o apito final decretar mais uma eliminação precoce e medíocre em Copa do Mundo.
Desde a tragédia do 7 a 1, o time brasileiro parece ter trocado o risco pelo rebaixamento de expectativas, jogando pouco e perdendo sem estardalhaço para seleções que o cidadão comum só lembra que existem a cada quatro anos. Foi assim para a Bélgica em 2018, para a Croácia em 2022, e a banalidade da derrota estava a caminho em 2026. Estava, porque, de maneira quase inacreditável, o conjunto de problemas do escrete comandado por Ancelotti — a falta de vontade de ter a bola, a incapacidade de decidir jogos, a defesa frágil, o elenco fraco — tudo isso fora rapidamente ofuscado naquele fim de tarde de domingo por um nome: Neymar Júnior.
Convertido o pênalti, o ex-craque não recolheu a bola para acelerar o reinício e tentar, nos instantes finais, um milagre em forma de empate. Preferiu correr até Nyland, apontar o dedo na cara dele e dizer “comigo, não, otário”. Eu assistia atônito: em julho de 2026, minha única chance de felicidade numa noite seria, de novo, torcer pelo último craque brasileiro. Pedi a quarta cerveja, ignorei o circo e fixei os olhos na tela, à espera de um empate espetacular.
O empate não veio, paguei a conta e fui embora pegar o metrô. No caminho, dois jovens bêbados gritavam “Neymar! Neymar!” enquanto riam de alguma coisa que passava na tela do celular de um deles.
Na manhã seguinte, durante o programa Posse de Bola, no Canal Uol, Juca Kfouri — decano do jornalismo esportivo brasileiro — perdeu a compostura: “Criamos um monstro, e ele representa o que há de pior na sociedade brasileira. A gente tem que dizer isso com todas as letras, chega! [...] Este menino é um pequeno cafajeste!”
Kfouri não é um influenciador brigando por atenção nos microssegundos das redes. Em sua fala, fez referência ao alerta do técnico Renê Simões, dado ainda em 2010, depois de um atrito entre o garoto Neymar e o então treinador do Santos, Dorival Júnior. “Estamos criando um monstro”, disse Simões. Dezesseis anos depois, Kfouri quer mostrar que ele estava certo e escolhemos não escutá-lo.
A proposição de que Neymar “representa o que há de pior” no Brasil é também uma tese sobre o nosso tempo, e sobre o tempo que vem antes dele. Mas Kfouri conta só metade da história. A pergunta que me interessa não é se ele está certo — está —, mas o que fazer com a outra metade. O mesmo Neymar que nos envergonhou na Copa tinha sido abraçado um ano antes por Mano Brown, ídolo de uma periferia inteira, ao som de “nóis te ama”, no gramado da Vila Belmiro. Sendo a “sociedade brasileira” o conjunto de todos que têm ligação de nascimento, de sangue ou de fraternidade com o país, devemos tentar entender o que Neymar revela sobre esse todo — esse “nóis” que o ama e o reprova ao mesmo tempo, sem conseguir escolher entre as duas coisas.
Essa dupla natureza tem uma cronologia, que espelha a cronologia do país. Neymar, afinal, traduz as últimas duas décadas do Brasil: uma ascensão otimista entre 2002 e 2013, o estilhaçamento desse otimismo entre 2013 e 2021 e, agora, a tentativa esquisita de voltar a um tempo que já não existe — enquanto aprendemos, sem alarde, a esperar cada vez menos.
Estou longe de casa. Nasci em maio de 1992 num bairro pobre de São Vicente, no litoral paulista. Não fugi à regra e passei parte da minha infância alimentando a esperança de um dia ser jogador de futebol. Foi uma esperança curta: atuei como goleiro de uma escolinha de futsal do bairro e fui reserva na mesma posição no time da minha escola, a Escola Estadual Armando Victório Bei.
O auge da minha carreira no ludopédio aconteceu quando fui campeão do torneio de futebol de salão do bairro. A competição reunia escolinhas como a minha. O cenário é bem conhecido: o suor carregado dos corpos miúdos e hiperativos dos miniatletas, os pais orgulhosos, ansiosos e amedrontados pela capacidade física de sua prole, os coletes de poliéster insuficientes, trocados de rodada em rodada entre nós.
Não sei que milagre aconteceu para alcançarmos aquela vitória, mas eu fui um goleiro bom por algumas horas e o troféu era grande, dourado, bonito. Ao final da comemoração coletiva, combinamos que a taça ficaria na casa de cada um por uma semana, começando comigo. Para sair do Ginásio Poliesportivo Dondinho — Dondinho, pai de Pelé, também foi uma lenda do futebol de Três Corações (MG) nos anos 1930 — e chegar à Avenida Galeão Coutinho, onde morávamos, o mapa oficial da cidade sugere percorrer as vias principais do bairro. Mas se você conhece a região, sabe que o mais fácil é subir a rua do Dondinho, pegar o primeiro beco logo após o Canto do Rio FC, costear a rua do canal, tomar cuidado com os cavalos — sim, os cavalos — e, depois dessa travessia de pequenas favelas, chegar ao meu bairro. Foi o que fiz, depois de implorar à minha mãe que me deixasse ir a pé, com a taça na mão, a medalha no pescoço e o sorriso rasgado. A curiosidade, os aplausos e as piadas dos moradores eram provocados por aquela estranha cena de uma criança orelhuda e um troféu competindo para saber quem era mais alto. Poucas vezes fui tão feliz.
Antes de concluir que, se fosse para jogar com as mãos, o melhor mesmo era jogar basquete, disputei a edição de 2004 da Copa TV Tribuna, um prestigioso campeonato de futsal escolar da região. Competições desse tipo não são conhecidas por seus grandes públicos ou infraestrutura, mas dessa vez recebemos atenção. Naquele quarto ano do século XXI já era ostensiva a cobertura midiática sobre um garoto magricela da Baixada Santista, de olhos grandes, que disputaria o seu primeiro torneio escolar vestindo a camisa do Liceu São Paulo, tradicional colégio particular de Santos.
Os vídeos de um Neymar minúsculo, com 12 anos, driblando times adversários inteiros, estão disponíveis na internet e às vezes se confundem com a minha lembrança desse tempo. O fato de termos a mesma idade, fisionomia parecida e estarmos na mesma quadra não alterava a minha sensação de que éramos de espécies diferentes, que eu e os outros garotos jogávamos bola enquanto ele fazia algo de outra natureza, superior.
Mas não é exatamente isso que salta à memória. Neymar sempre foi um talento excepcional, mas não é exagero dizer que a Baixada Santista produz, a cada ano, várias crianças com habilidades fora do comum, derivadas da intimidade precoce com a bola. Foi o seu sucesso meteórico, e a capacidade de fazer gravitar ao seu redor a atenção de milhões de pessoas, que o distinguiu dos demais. Do meu canto, vi aquele garoto falar com repórteres. Quando cheguei em casa, era a sua imagem que ocupava o horário nobre do telejornal da região.
Com o passar dos anos, a cena se repetia e aumentava em escala. Neymar se tornou onipresente na Baixada Santista. Em 2009, quando estreou aos 17 anos no time profissional do Santos, o “Menino da Vila” era uma novidade para boa parte do país, mas não para nós. Ele já havia se tornado um astro e, como é comum às estrelas, polarizava opiniões pelo dom de manter todos olhando para ele, alçado ao palco pela bola e pelo campo.
Mesmo longe de seu auge, Neymar é uma das coisas brasileiras que mais me alcançam aqui, nesta estadia distante do cotidiano do país. É a sua camisa do Santos que vejo passear no corpo de crianças berlinenses e isso me presenteia com uma dupla saudade, a saudade do Brasil como lugar de futebol bonito e a saudade de casa. Quando a ocasião convém, conto a algum menino que sou de Santos e que, aos 12 anos, disputei o mesmo campeonato que Neymar e o vi jogar de perto, o que sempre gera encantamento e sorrisos — e ajuda bastante nesta terra em que a gentileza não é propriamente uma marca registrada.
“Nóis te ama, nóis te ama.” Era uma típica sexta-feira chuvosa no verão da Baixada Santista, em janeiro de 2025, quando Neymar e Mano Brown, líder dos Racionais MC's e notório torcedor do Santos, se abraçaram na Vila Belmiro. Brown parecia incrédulo enquanto repetia o seu amor pelo ídolo, usando o léxico do homem do povo, que prefere declarar seus sentimentos na primeira pessoa do plural – um plural específico, que coletiviza o sujeito e singulariza o verbo: “Nóis te ama, nóis te ama.”
Eu morava no Boqueirão, bairro vizinho à Vila Belmiro, e assistia pela tevê ao show que meu grupo musical predileto fazia no gramado do estádio. Os Racionais cantaram Umbabarauma, de Jorge Ben, e alguns hits de sua trajetória: Capítulo 4, Versículo 3, Jesus Chorou, A Vida É Desafio e, com carga emocional elevadíssima, Negro Drama.
O rap e o futebol carregam possibilidades quase idênticas de transcendência para homens comuns. Ambos são capazes de fazer com que a gente mais sofrida, inteiramente preocupada com a sobrevivência, possa refletir e delirar sobre assuntos como beleza, esperança, drama e amor. A imagem dos Racionais cantando aquela música em homenagem a Neymar juntava essas duas transcendências: elas formavam um “nóis”, um “nóis” que ama Neymar, que ama os Racionais MC's e que ama, provavelmente, esses dois exemplos tão díspares de dramas negros de ascensão social.
Certamente não era essa figura transcendental que Juca Kfouri mirava quando disse que Neymar representa o que há de pior na sociedade brasileira. Kfouri e Mano Brown, apesar de suas muitas diferenças, têm posicionamentos políticos semelhantes, ambos à esquerda, como se pôde ver na entrevista que o primeiro concedeu ao segundo no programa Mano a Mano, publicada em agosto de 2025.
Mas, afinal, quem é esse “nóis” que se divide entre amar o último Menino da Vila e considerá-lo representação do “que há de pior na sociedade brasileira”?
O Neymar que Mano Brown ama, que “nóis” ama e que me fascina é o mesmo homem que, em 2022, às vésperas de uma eleição decidida por poucos pontos percentuais, dançou o jingle de campanha de Jair Bolsonaro num vídeo compartilhado com milhões de seguidores, emprestando a um projeto de extrema direita o capital simbólico acumulado por uma vida inteira de dribles. É o homem investigado, ao lado da família, por sonegação fiscal relacionada à sua transferência para o Barcelona, e multado inicialmente em mais de 188 milhões de reais pela Receita Federal brasileira. É o homem que, em pleno isolamento da pandemia, organizou uma festa de cinco dias em Mangaratiba com centenas de convidados, enquanto o resto do país enterrava seus mortos. É o homem acusado de apoiar de forma velada uma Proposta de Emenda à Constituição — de relatoria do senador e pré-candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL-RJ) — que abre caminho para a privatização das praias brasileiras.
Tudo isso enquanto é insistentemente chamado de “menino” e seguido por uma horda incapaz de perceber a óbvia manipulação promovida por ele, um atleta que, mesmo sem decidir uma partida relevante há quatro anos, sem jamais ter sido eleito o melhor do mundo, sem nunca ter chegado a uma final de Copa, continua sendo reverenciado, patrocinado e badalado como se nada daquilo tivesse consequência — porque descobriu que o próprio escândalo, bem administrado, também rende.
Seus defeitos são tão reconhecíveis na atual corrente da extrema direita brasileira que quase dispensam elaborações: a toxicidade masculina, a tentativa de transformar o bem público em propriedade privada, a personalidade mimada e as escolhas políticas dos últimos anos tornam a associação entre Neymar e o bolsonarismo uma tarefa fácil. Eu também faço parte do grupo de pessoas que acham que ela representa “o pior” da sociedade brasileira. Ainda assim, é impossível dissociar seus problemas daquilo que ocupa minha cabeça quando ouço seu nome.
Tenho uma gaveta de memórias com o nome de Neymar escrito nela. A admiração por um goleiro artilheiro me fez são-paulino apesar da criação praiana, o que tornou Neymar um adversário constante nos clássicos entre São Paulo e Santos de 2009 a 2013, antes de ele voar para a Europa. Lembro do dia 29 de abril de 2012, semifinal do Campeonato Paulista, o Santos trajando um estranho uniforme azul no Morumbi.
Eu tinha 21 anos, cursava ciências sociais em São Carlos e assisti ao jogo num boteco de garagem perto da rodoviária. Neymar fez três gols — um de pênalti, um na cara do gol, um de fora da área — e ainda me reservou outra humilhação: logo depois do segundo gol, levou a bola ao canto esquerdo do campo e encarou o lateral Piris, que dissera à imprensa ser capaz de pará-lo. Cinco dribles depois, eu já tinha derrubado meu litrão de cerveja barata. Nino, o dono do bar, não me deixou pagar. A raiva era sincera, mas dúbia: é impossível não se encantar pela capacidade de um jogador tourear um adversário usando apenas a leveza do corpo e a habilidade de mostrar e esconder a bola, levando o toureado e seus apoiadores a uma fúria que só aumenta a própria humilhação — como a minha, passando rodo e pano no chão do bar, assistido por um pequeno grupo de santistas que agora tinha dois espetáculos para acompanhar.
Além de me livrar da conta, Nino me presenteou com uma reflexão. Ao ver o jogador santista rolando no gramado, disse: “Esse neguinho é um folgado, tem que apanhar mesmo.” Começou ali uma pequena discussão em torno do uso do termo. Eu não era o único negro do salão, e era evidente a surpresa dos frequentadores mais antigos com a minha objeção a uma expressão tão comum no léxico do interior paulista, em que “nego” e “neguinho” são ouvidos nas mais diversas histórias.
Eram os primeiros anos da implementação das cotas raciais na Universidade Federal de São Carlos, e eu fazia parte de uma geração de negros e pobres que acessava um lugar novo, a universidade pública. Lembro da confiança daqueles tempos, da sensação de que o futuro estava aberto para nós e nossos projetos de ascensão, o que se traduzia numa segurança inédita para muitos de nós. Não era a primeira vez que escutava uma expressão discriminatória, e tenho a nítida impressão de que só reagi porque me senti menos sozinho: pude projetar nos meus colegas e, de maneira insólita, no próprio Neymar um “nóis” que não aceitaria ser chamado de “neguinho”.
Entre 2002 e 2013, esse otimismo teve nome e trilha sonora — e não era só para os pobres e negros das cotas universitárias que o começo da década de 2010 no Brasil era palco de uma euforia efêmera. Em outra versão da fusão entre futebol e música, Neymar estrelou dois videoclipes de gêneros que refletiam o otimismo da época: os primeiros raps de Emicida e o funk ostentação. O rapper paulistano usou por muito tempo a expressão “a rua é nóis” como um slogan de sua carreira.
O craque santista aparece nos videoclipes de Zica, Vai Lá!, algo como um rap-autoajuda presente no álbum Doozicabraba e a Revolução Silenciosa, de 2011, e de País do Futebol, composição em parceria com o funkeiro MC Guimê, lançada na esteira da Copa de 2014. Ambas as músicas narram a ascensão social sem abrir brechas para maiores reflexões: são versos que contam o sucesso como consequência natural do esforço, da esperteza e da leveza de um povo que passou os primeiros anos da década de 2010 entre as sete maiores economias do mundo e atraiu as atenções do planeta sediando uma série de megaeventos internacionais.
A forma como Neymar aparece nesses videoclipes diz muito: em Zica, Vai Lá!, o craque interpreta um mestre de artes marciais que treina Emicida e o orienta a vencer a luta contra um vilão impassível que acabara de derrotar seu irmão, Evandro Fióti. A letra guarda uma referência direta ao atleta e a suas capacidades excepcionais: “Ousar, Neymar, vou pra reinar / Contar glória sem par.” Em País do Futebol, enquanto MC Guimê rima sobre a vida de quem “venceu a desnutrição e hoje vai dominar o mundo”, meninos pobres de periferias brasileiras aparecem jogando futebol com o Menino da Vila numa mansão. Todos sorriem e, a certa altura, Neymar dá seu depoimento, falando sobre a importância de acreditar em si mesmo e superar as críticas rumo ao sucesso.
Em 2014, a série de protestos herdeira das Jornadas de Junho do ano anterior disputava espaço com a empolgação que se espalhava pelo “país do futebol” prestes a sediar a Copa. O “Não vai ter Copa” e os questionamentos sobre o real benefício em sediar algo tão megalomaníaco num Brasil com tantas deficiências mediam forças, palmo a palmo, com a esperança depositada numa seleção que acabara de ser campeã da Copa das Confederações com um acachapante 3 a 0 contra a Espanha, a então campeã do mundo. Tudo isso coroado pela primeira Copa de Neymar, que já brilhava em nível internacional com a camisa do Barcelona.
Numa turma meio intelectual, meio de esquerda, como eram muitos colegas no meu curso de ciências sociais, o assunto criou divisões fortes. Um lado acusava os manifestantes de não entender a importância do futebol entre jovens negros e periféricos; o outro dizia que não compreendíamos as manipulações geopolíticas historicamente perpetradas pela Fifa. Eu gostaria de poder me colocar no segundo grupo, que tinha toda a razão de ir às ruas protestar contra os descalabros cometidos em nome daquele torneio, mas a sinceridade é um compromisso inegociável: eu gosto muito de futebol e nunca tive coragem de jogar fora a camisa 10 do Brasil daquele ano.
Que todo esse otimismo de 2002 a 2013 tenha culminado numa derrota por 7 a 1 para a Alemanha, e que os oito anos seguintes — de 2013 a 2021 — tenham sido de crises sociais e econômicas e de ascensão e amadurecimento de uma extrema direita hoje amplamente popular só mostra a fragilidade dos nossos ciclos. Não só os dos indivíduos: o país como um todo parece sempre andar “entre o sucesso e a lama”, para voltar a citar os Racionais.
A imagem que se refletia na tela do bar evidenciava as marcas do tempo em Neymar, em mim e no Brasil do século XXI. A linha do cabelo apontando uma calvície, a cara um pouco inchada, os movimentos pesados e mancos mal lembravam a agilidade quase sobrenatural que o consagrou. O estranhamento era recíproco: ali, semibêbado, cercado de noruegueses e já antecipando a angústia que é atravessar uma ressaca num país de língua estrangeira, me parecia impossível acreditar que “nóis” um dia tivéssemos sido crianças despreocupadas das periferias da Baixada Santista.
O clima de fim de festa se instala num meio do caminho esquisito: certamente o pior já passou, não vamos perder por 7 a 1, e há algo de promissor num futuro que parece pertencer a alguém mais estável, organizado e capaz de lidar com a idolatria, como Vinícius Júnior. Em contrapartida, por obra do destino, foi o atacante santista o autor dos dois gols da Seleção Brasileira em suas mais recentes eliminações em Copas do Mundo: ele converteu o pênalti que Guimarães desperdiçara contra a Noruega e, em 2022, contra a Croácia, foi dos pés dele que saiu nossa última chance de chegar a uma semifinal, num golaço em meio a uma prorrogação que parecia ganha. Há um tempo que passa e não passa, e que se configura na dúvida sobre o que aconteceu com as promessas de ascensão social para pobres e negros brasileiros — evidentes nos anos 2010, desmanteladas na virada dos anos 2020 e agora habitando um não lugar.
A incapacidade de superar Neymar é tanto a nossa tentativa de voltar a um tempo que já não existe quanto a prova de que rebaixamos, sem perceber, as nossas próprias expectativas — sobre ele e sobre nós mesmos. Trata-se de uma encarnação perfeita desse “nóis” que é, ao mesmo tempo, expressão da beleza e dos monstros que criamos neste primeiro quarto de século da vida nacional.
Os 6 minutos e 52 segundos de Negro Drama, composição de Edi Rock e Mano Brown, constituem uma grande reflexão em forma de rap sobre o que significa a ascensão social de negros pobres. A um só tempo melancólica e violenta, a letra tenta responder às múltiplas faces do “trauma que carrego pra não ser mais um preto fodido” — o mesmo trauma, talvez, que me deixou sem resposta diante do comentário de Nino, no bar.
Quinta música do terceiro álbum de estúdio dos Racionais, Negro Drama se estrutura em contraposições existenciais dos que vivem na corda bamba da ascensão social negra. Sob esse aspecto, estar “entre o sucesso e a lama” é também um comentário sobre o sucesso do próprio grupo, que, em sua trajetória ascendente, não escapou de acusações e polêmicas. Quem ouve a letra de Estilo Cachorro hoje, ou esteve na Praça da Sé durante a Virada Cultural de 2007, ou relembra a prisão por “incitação ao crime” em 1994 no Vale do Anhangabaú , consegue ter uma boa ideia da capacidade do quarteto de criar situações problemáticas, envolver-se nelas e ser vítima delas.
O que os diferencia, evidentemente, é que, além do talento excepcional, o grupo de Mano Brown foi capaz de conquistar outra vitória quase milagrosa: proteger a própria imagem e tornar-se uma referência moral. Aqui, a diferença em relação a Neymar é gritante. Essa proteção de si contra armadilhas do mundo transparece nas letras. Concebido na virada do século, Nada Como Um Dia Após o Outro Dia — lançado, não por acaso, em 2002, ano em que essa cronologia começa — é um disco otimista, mas desconfiado, cheio de ressalvas feitas por um grupo que via diante de si um tempo mais promissor, sem esquecer a fragilidade das promessas que o país faz pra quem vem de onde eles vieram.
É uma desconfiança ausente no otimismo de Neymar, do Brasil, nos primeiros anos da música de ostentação da década de 2010. Olhar para esse tempo depois de mais uma eliminação realça a sabedoria das letras dos Racionais e a inocência do nosso otimismo. Fui parte dessa onda, não posso negar.
Os dois rapazes entraram no mesmo vagão que eu no caminho de volta para casa. Ainda gritavam “Neymar! Neymar!”, continuavam vidrados na tela. Não perguntei o que era. Não precisava: já sabia que seria o dedo em riste na cara do goleiro, editado em loop, talvez com uma legenda em inglês zombando do “menino mimado” que, mesmo assim, tinha acabado de marcar o único gol do Brasil. É difícil conceber uma imagem mais exata do que o “monstro” citado por Kfouri — e mais difícil ainda negar que é o mesmo corpo cujo retorno ao Santos Mano Brown comparou à “volta de Jesus”.
Talvez seja isso que “nóis” sempre quis dizer: não uma torcida, nem um consenso, mas a disposição de carregar as duas imagens ao mesmo tempo, sem escolher qual delas é a verdadeira. Kfouri está certo. Mano Brown também está. E o otimismo da ostentação (do rap, do funk, do futebol do país) era só uma inocência nascida de uma histórica privação de quase tudo.
Não sei se um dia vou parar de contar a mesma história de bar sobre Neymar. Não sei se o Brasil vai parar de esperar que ele resolva, sozinho, o que duas décadas de promessas não resolveram. O que sei é que, naquela noite berlinense, entre a cerveja e os loiros, minha reação ao gol foi involuntária, imediata, quase infantil: por um segundo, antes de lembrar de tudo o mais, torci. Fui parte dessa onda. Talvez ainda seja.