rádio piauí
09 Jun 2026
51 min de leitura
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Foram 42,6 mil participantes do lado de dentro, entre negociadores de quase duzentos países, ambientalistas, representantes de governos e empresas, da sociedade civil e dos povos indígenas, a fim de discutir possíveis soluções para combater as causas do aquecimento global e minimizar seus impactos. Ambientada pela primeira vez em uma cidade amazônica, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP) fez com que os olhos do mundo se voltassem a Belém em novembro de 2025, na trigésima edição do evento.
A COP30 foi marcada pelas discussões em torno de um tema que, paradoxalmente, não estava na pauta formal de negociação entre os países: a definição de um roteiro e de um cronograma para o abandono gradual dos combustíveis fósseis que são, de longe, a principal causa da emissão de gases do efeito estufa que estão se acumulando na atmosfera desde a Revolução Industrial e aquecendo a temperatura do planeta.
A elaboração desse “mapa do caminho”, conforme ele ficou conhecido no jargão dos negociadores e ambientalistas, acabou de fora da decisão final, mas dominou o debate e o noticiário sobre a conferência. Já no plano doméstico, a discussão ficou marcada pela contradição entre a postura do presidente Lula que, perante os líderes estrangeiros, defendeu o fim dos combustíveis fósseis, mas, na política energética interna, estimula a abertura de novos poços de petróleo na Foz do Amazonas.
Passados seis meses do fim da conferência, a piauí propõe examinar algumas das grandes perguntas que nortearam as negociações e que continuarão a pautar por muito tempo a agenda em torno da crise climática. As discussões em Belém nos deixaram mais perto de um roteiro para o fim dos combustíveis fósseis? Como deve ser elaborado esse mapa do caminho? Por que esse tema é o maior tabu das conferências climáticas, a ponto de só ter aparecido na decisão de uma COP depois de quase três décadas de negociações? Como é possível um país liderar o mundo rumo à transição energética e, ao mesmo tempo, abrir novas frentes de exploração de petróleo? Essas são algumas das principais questões tratadas por Os caminhos do mapa, o primeiro audiodocumentário da piauí, que marca a estreia da revista nesse novo formato jornalístico, um projeto idealizado pela jornalista Mari Faria e que não terá periodicidade definida.
Roteirizado e apresentado pelo repórter Bernardo Esteves, com apoio do repórter Pedro Tavares, o programa examina os dilemas e contradições do Brasil e dos demais países do mundo na busca pela troca gradual dos combustíveis fósseis por fontes renováveis de energia. O documentário foi elaborado a partir de dezenas de depoimentos colhidos durante a COP30, incluindo integrantes do governo brasileiro, cientistas, ambientalistas e representantes dos povos indígenas, além de uma entrevista exclusiva com o presidente da conferência, o embaixador André Corrêa do Lago, gravada semanas após o fim do evento.
Os caminhos do mapa faz um balanço dos principais resultados da COP30 e aponta os principais desafios que os países terão na próxima conferência do clima, a ser realizada no fim deste ano em Antalya, na Turquia. Disponível a partir de 2 de junho nas principais plataformas de áudio, o resultado é um mergulho em profundidade nas discussões difíceis que temos que encarar se quisermos fazer frente à emergência climática.
Leituras complementares:
Um tesouro ameaçado na vizinhança da COP: Uma expedição inédita à Foz do Amazonas revela a riqueza e a fragilidade do recife amazônico em meio às disputas ambientais que cercam a COP.
Um tesouro amazônico no fundo do mar: Registro audiovisual da expedição que mergulhou no recife da Foz do Amazonas e documentou um dos ecossistemas mais misteriosos do país.
O recife que ninguém viu: A reportagem de 2016 que apresentou ao público a existência do recife amazônico escondido sob as águas da Foz do Amazonas.
Procura-se um líder: As contradições do governo Lula diante da crise climática e os desafios do Brasil para assumir protagonismo ambiental global.
Lula, Marina e um mapa inacabado: Os bastidores políticos e ambientais da construção do caminho brasileiro rumo à COP.
A COP do cocar: A presença indígena ganha centralidade na COP e expõe disputas sobre território, representatividade e futuro climático.
E agora, André?: Uma análise do cenário geopolítico da COP e dos dilemas enfrentados pela presidência brasileira da conferência.
A Terra é redonda (mesmo): Podcast que dedicou sua segunda temporada à crise climática, reunindo debates, entrevistas e análises sobre o futuro do planeta.
TRANSCRIÇÃO DE ÁUDIO:
Fernando de Barros e Silva: Olá, eu sou Fernando de Barros e Silva e esse não é o Foro de Teresina. Você vai ouvir agora o primeiro áudiodocumentário da piauí. E de tempos em tempos, o jornalismo da piauí também vai aparecer por aqui, nesse novo formato. A gente espera muito que vocês gostem. Vem com a gente!
Bernardo Esteves: Oi, eu sou o Bernardo Esteves, repórter de Ciência e Meio Ambiente da piauí. Em novembro, eu fui para Belém cobrir a COP 30, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. Viajei com meu colega Pedro Tavares, que também participou da cobertura. A gente chegou alguns dias antes do começo da conferência e, logo no dia seguinte, eu fui encontrar um biólogo com quem eu converso há dez anos.
Rodrigo Moura: Rodrigo Moura, professor da UFRJ, pesquisador do INCT Biodiversidade da Amazônia Azul.
Bernardo Esteves: O Rodrigo tinha passado os últimos dias navegando com outros colegas pela Margem Equatorial. A área do oceano em que fica a foz do rio Amazonas. Eles atracaram em Belém na quarta-feira à noite e, pouco depois disso, eu encontrei esses cientistas a bordo do Ciências do Mar 2, o navio oceanográfico em que eles estavam. Rodrigo foi um dos cientistas que fizeram a primeira descrição do grande recife que existe na foz do Amazonas dez anos atrás. Naquela época, nem o Rodrigo e nem ninguém tinha visto o recife. A gente só sabia da existência dele por causa das esponjas e corais que os cientistas tinham recolhido do fundo do mar com a ajuda de dragas. Desde então, o Rodrigo e outros colegas fizeram algumas expedições até lá. Mas o Recife continua um enigma para a ciência, tanto que os pesquisadores não sabem nem o tamanho exato dessa formação. Na expedição que rolou antes da COP, o Rodrigo e outros cientistas fizeram observações e colheram amostras que vão ajudar a entender aquele ambiente e os organismos que vivem lá. Já eram mais de nove e meia da noite quando eu cheguei no navio. O Rodrigo e o Eduardo Tavares Paes, o oceanógrafo que foi o coordenador científico da expedição, fizeram um tour do navio comigo e depois mostraram os vídeos do recife que você confere no site da piauí. Quando a gente sentou pra conversar sobre a expedição, ficou bem claro que a ciência ainda sabe muito pouco sobre esse recife.
Rodrigo Moura: Então a gente vai desvendando esse mosaico através, primeiramente, do imageamento e, secundariamente, através de coletas que ainda são muito incipientes. A gente conhece muito pouco, não têm amostras suficientes. Então hoje a gente não consegue assim nem ter uma estimativa grosseira de quantas espécies de esponjas ou de corais, que são dois grupos bem emblemáticos aqui dessa região, né? Esponjas e corais. A gente ainda não consegue fechar um quadro de quantas espécies tem.
Bernardo Esteves: A chegada daquela expedição oceanográfica a cinco dias da COP foi uma coincidência muito significativa. Talvez você se lembre que a foz do Amazonas estava no centro da conversa naquele começo de novembro. Isso porque, três semanas antes, o governo Lula tinha autorizado a exploração de um poço experimental de petróleo naquela área pela Petrobras. Essa medida deixou os ambientalistas de cabelo em pé por vários motivos. O primeiro é que, se houver algum acidente naquelas águas, o vazamento de óleo pode ameaçar esse grande recife que a gente está só começando a entender. E a julgar pelo depoimento do Rodrigo, a gente não tem a menor ideia do que está em perigo.
Rodrigo Moura: A ideia é ir afunilando isso até a gente ter um conhecimento que seja suficiente para balizar políticas públicas, tomadas de decisão, criação de áreas de proteção, estabelecimento de determinadas estratégias de manejo, de manejo da pesca, de manejo dos usos, enfim, e até mesmo orientar políticas no sentido de determinar que áreas têm uma maior ou menor sensibilidade à atividade. Obviamente que aqui estamos em plena o pleno debate da exploração do petróleo, etc. Então, esse tipo de trabalho ele ajuda a reconhecer fragilidades.
Bernardo Esteves: Mas a ameaça ao recife amazônico não é o único motivo de preocupação dos ambientalistas e talvez nem seja o principal. Abrir novos poços de petróleo na foz do Amazonas ou em qualquer outro lugar é um problemão, porque a gente está no meio da emergência climática e a gente sabe que o petróleo e os outros combustíveis fósseis, como o carvão e o gás natural, são a principal causa do problema. Mais de 2/3 dos gases do efeito estufa que estão aquecendo o planeta vêm da queima desses combustíveis. Por isso, o governo Lula foi muito criticado quando o Ibama deu sinal verde para exploração de petróleo na foz do Amazonas.
Suely Araújo: A emissão da licença para o bloco 59 atrapalha a própria COP 30, cuja entrega mais importante precisa ser a implementação da determinação de eliminar gradualmente os combustíveis fósseis. Lula acaba de enterrar sua pretensão de ser líder climático no fundo do oceano, na foz do Amazonas.
Bernardo Esteves: Essa é a Suely Araújo, coordenadora de Políticas públicas do Observatório do Clima, num áudio gravado na época do anúncio. Naquelas semanas da COP, o mundo todo estava de olho em Belém. No debate sobre clima que estava rolando no Brasil, o presidente Lula estava tendo sua legitimidade questionada nas vésperas da Conferência do Clima. Como é que ele podia querer conduzir o mundo no combate ao aquecimento global se dentro de casa ele estava incentivando a exploração de petróleo como se não houvesse amanhã? Só que quando chegou a hora da conferência, o presidente pegou muita gente no contrapé.
Sonora: A COP 30 começou hoje. No primeiro dia da COP 30. A partir de agora. No sábado, a brasileira começou a receber os jovens no pavilhão central. Em Belém, a capital do Pará. 170 países confirmaram presença. O governo decretou hoje a operação...
Bernardo Esteves: No meio de tanta notícia sobre a crise do clima, ficou difícil distinguir o fogo de palha do que era realmente importante. Por isso, a gente decidiu esperar a poeira baixar para fazer um balanço do que rolou em Belém. A COP 30 pode parecer distante no horizonte para você. E é verdade que muita água já passou pela ponte de lá para cá. Mas a crise do clima continua aí conosco e vai continuar para o resto das nossas vidas. E as coisas que foram discutidas em Belém vão ser determinantes para a forma como a humanidade vai enfrentar esse problema. É por isso que eu te convido nessa reportagem em áudio, a olhar com calma, o que foi conversado e decidido na COP. Vamos dar um pulo em Belém?
Bernardo Esteves: As Conferências do Clima das Nações Unidas reúnem gente de horizontes muito diferentes que estão ligadas a essa pauta. A razão de ser das COPs é o encontro de diplomatas de quase 200 países que se reúnem todo ano para negociar detalhes das ações que eles estão tomando para combater as causas e os efeitos do aquecimento global. Mas junto com eles vêm representantes dos governos, das empresas, da sociedade civil, dos povos indígenas... Em Belém, foram mais de 42 mil participantes. Foi a quarta maior conferência do clima da história. Mas além do espaço das negociações, as COPs têm dezenas de pavilhões em que acontecem uma série de atividades paralelas. Tem palestra, debate, mesa redonda, lançamento de livro, entrevista coletiva, happy hour. Tem sempre muita coisa acontecendo e é difícil escolher onde ir. Para um jornalista que cobre a área, a COP é tipo um capítulo final de novela. Está todo mundo junto, no mesmo lugar as fontes com quem a gente passa o ano inteiro conversando. Foi pensando nisso que eu resolvi levar um gravador e um microfone para registrar depoimentos dessas fontes. E, logo no primeiro dia de conferência, eu topei com um nome importante do governo voltando do almoço.
Rodrigo Agostinho: Eu sou o Rodrigo Agostinho. Eu sou biólogo, advogado, atual presidente do Ibama.
Bernardo Esteves: O Ibama estava no olho do Furacão no começo da COP e eu não podia deixar de tocar nesse assunto com o Rodrigo. Agora, você chega também algumas semanas depois da liberação da exploração desse poço experimental de petróleo, algumas centenas de quilômetros daqui. E isso tira um pouco da legitimidade do Brasil para poder liderar o mundo rumo à descarbonização das economias?
Rodrigo Agostinho: De forma nenhuma. A gente vive um mundo de uma contradição permanente enquanto tiver essa transição. Então, assim, as pessoas ainda estão queimando gasolina na rua. A Petrobras é uma empresa brasileira, é uma empresa que o próprio Ibama fez exigências que nunca tinha feito antes. É um processo de licenciamento antigo, de 11 anos, que a gente foi, foi subindo a régua e a Petrobras foi atendendo tudo que a gente exigiu e, por enquanto, é um poço de pesquisa. Após a pesquisa, esse poço vai ser lacrado com concreto. E se a Petrobras resolver produzir petróleo nessa região, o Ibama vai exigir um novo licenciamento, novas exigências. Então, assim, o Ibama está nessa missão de garantir que o risco seja o menor possível. Risco sempre existe. É uma região super sensível, então a gente trabalhou para diminuir ao máximo o risco. Mas não é o Ibama que vai decidir aonde vai explorar petróleo.
Bernardo Esteves: Na quarta-feira passada, ancorou aqui em Belém um navio oceanográfico que acessou esse recife e os pesquisadores que estavam lá disseram que eles não sabem nem extensão ao certo, a composição, né? Essa informação foi levada em conta na licença? Em que medida que esse esse patrimônio que a gente sequer conhece direito pode estar ameaçado na eventualidade de um vazamento?
Rodrigo Agostinho: Sim, por toda essa região da Margem Equatorial, é uma região gigantesca que vai do Rio Grande do Norte até o Amapá. Se, de fato, essa região se transformar numa região de produção, que o governo faça as avaliações ambientais estratégicas, que são avaliações em grande extensão e não estudos concentrados em poucas áreas. Provavelmente a maior parte dos ambientes recifais estão mais próximos à costa. Esse poço está sendo perfurado numa área a 170 km da costa, uma área que não chega a luz. Então, assim, o risco de você ter a sobreposição do petróleo dos recifes nessa região é quase zero. Mas aquela região de fato é uma região muito sensível. A gente sabe disso, né? A gente sabe não só dos corais, mas a gente sabe também de toda a rede de manguezais que a gente tem na região. É a maior formação contínua de manguezais do mundo.
Bernardo Esteves: E, no dia seguinte, eu já encontrei outro nome importante do governo.
João Paulo Ribeiro Capobianco: João Paulo Ribeiro Capobianco, biólogo, atualmente Secretário Executivo do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do clima.
Bernardo Esteves: O "Capô", como os ambientalistas costumam chamar o João Paulo, é o braço direito da Marina Silva, ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Eu quis continuar com ele a conversa sobre essa contradição entre explorar petróleo e combater a crise climática. Na visão dele e do governo, a gente tem que fazer a transição energética sim, mas não é o Brasil que tem que começar.
João Paulo Ribeiro Capobianco: É absolutamente inviável que o mundo desligue o petróleo hoje. Haverá que ter uma transição. E a discussão que nós temos que enfrentar é como essa transição será feita. Primeiro, para garantir que haja justiça climática, porque essa transição tem que ser justa, justa em relação aos países que hoje dependem do petróleo. Países pobres em desenvolvimento que não teriam a menor condição de substituir de imediato o uso de combustíveis fósseis. Aqueles países desenvolvidos que estão numa posição de liderar esse processo tem que sair na frente. Os países que ainda possuem reservas, eles devem considerar a redução do uso delas. Mas isso tem que ser um processo coletivo. Não se trata aqui de voluntarismo. Um país cancela a sua atividade, simplesmente, e o resto continua atuando. É contraditório você defender o uso do fim de combustíveis fósseis e continuar utilizando? É. Mas é uma contradição do processo econômico histórico que nós vivemos, mas que isso não tira o mérito do Brasil de estar liderando firmemente um esforço de transição.
Bernardo Esteves: Ele reforçou também que ainda não é agora que vai rolar a exploração comercial de petróleo na foz do Amazonas.
João Paulo Ribeiro Capobianco: Então, o que foi autorizado pelo Ibama e que foi solicitado pela Petrobras? Não foi a produção de petróleo nesse momento, foi a prospecção, a pesquisa para identificar se tem petróleo, qual é a quantidade potencial, qual é a qualidade desse petróleo. A decisão sobre o uso econômico, a extração do petróleo comercial se dará daqui a alguns anos ainda. Então, nós temos aí uma janela de oportunidade para discutir, para verificar se o mundo entrou na rota do afastamento do uso de combustíveis fósseis como nós queremos, e o presidente está cobrando. O presidente Lula cobra isso para que a gente possa avaliar isso no processo.
Bernardo Esteves: Mas quem estava esperando que essa contradição fosse dar o tom da COP se surpreendeu.
Presidente Lula: A humanidade está ciente do impacto da mudança do clima há mais de 35 anos, mas foram necessárias 28 conferências para que se reconhecesse, pela primeira vez, em Dubai, a necessidade de se afastar dos combustíveis fósseis e de parar, de reverter o desmatamento. Estou convencido de que, apesar das nossas dificuldades e contradições, precisamos de Mapa do Caminho para planejar... De forma planejada e justa, reverter o desmatamento, superar a dependência dos combustíveis fósseis e mobilizar os recursos necessários para esses objetivos.
Bernardo Esteves: Essa fala do Lula foi na cúpula dos líderes, uma reunião de chefes de Estado e de governo que aconteceu em Belém dias antes da COP. E, quando a conferência começou para valer, quatro dias depois, ele dobrou a aposta.
Presidente Lula: Conclamo os líderes mundiais a acelerar a ação climática. Precisamos do Mapa do Caminho para que a humanidade, de forma justa e planejada, supere a dependência dos combustíveis fósseis e reverta o desmatamento e mobilize os recursos para estes fins.
Bernardo Esteves: Pelo visto, o presidente queria vestir a carapuça de líder ambiental global na Conferência do Clima. Essa é uma skin que ele gosta bastante de usar nos compromissos internacionais. Claro que isso não apagava da noite para o dia as contradições ambientais do governo Lula. Mas para quem estava criticando ele até a véspera, essa mudança de posição foi bem-vinda. Os ambientalistas queriam que a COP 30 trouxesse algum avanço em relação ao abandono dos combustíveis fósseis. O melhor cenário era que a COP terminasse com alguma definição sobre como é que vai ser feita a transição para a gente deixar esses combustíveis para trás. É o que ficou conhecido no jargão como o Mapa do Caminho, uma decisão sobre qual vai ser o calendário para a transição, em que ritmo ela vai ser feita e quem vai liderar esse esforço. Nos seus discursos, Lula cobrou que os países entregassem na COP não só esse mapa do caminho, mas também um roteiro para o fim do desmatamento, que é outra fonte importante de gases do efeito estufa. No caso do Brasil, é a fonte mais importante, aliás. Naquele momento, o Brasil estava sozinho defendendo essa ideia em Belém. O problema é que o tema não fazia parte da pauta de negociação que tinha sido combinada pelos países participantes da COP. E isso por um bom motivo, é que tudo o que envolve a questão dos combustíveis fósseis vira um grande tabu nas Conferências do Clima. Para você ter uma ideia, só na COP 28, que aconteceu em 2023, em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, é que a expressão "combustíveis fósseis" apareceu pela primeira vez na decisão de uma Conferência do Clima. COP 28, tem noção? É muito tempo para os países concordarem dar nome aos bois. E mesmo assim foi em linguagem diplomática. Em Dubai, eles decidiram, por consenso, que era preciso fazer uma transição para longe dos combustíveis fósseis. Em bom português, era preciso deixar para trás o petróleo, o carvão e o gás natural, mas não tinha nenhum detalhe sobre como isso ia acontecer.
Natalie Unterstell: Quando nós tivemos o Balanço Global lá em Dubai, entraram alguns compromissos. Você vai lembrar que foram três de energia, pelo menos. Um deles, só para exemplificar aqui, foi aquele da gente triplicar a capacidade de geração de energias renováveis em 2030, né? E, inclusive, isso está sendo monitorado, está sendo implementado. Estamos perto de ver isso acontecer. Então, ali a gente tem um compromisso com data. A gente tem agências cuidando do assunto, tá? A coisa tá andando porque você tem clareza.
Bernardo Esteves: Se você já ouviu o podcast de Ciência e Meio Ambiente da piauí, deve ter reconhecido a voz dessa ambientalista.
Natalie Unterstell: Eu sou a Natalie Unterstell, eu sou presidente do Instituto Talanoa, que trabalha com políticas climáticas. E, numa vida passada, já comentei no maravilhoso e preferido podcast "A Terra é Redonda (mesmo)", com você.
Bernardo Esteves: Esse balanço global que a Natalie citou, foi um esforço dos países para avaliar como é que estava andando o cumprimento das metas do Acordo de Paris. Esse acordo foi assinado em 2015 e estipulou que os países se esforçariam para manter o aquecimento médio do planeta abaixo do limite de um grau e meio em relação ao período pré-industrial. Foi justamente nesse balanço global que entrou o compromisso de fazer a transição para longe dos combustíveis fósseis.
Natalie Unterstell: Para a transição para longe dos fósseis, a gente não tem isso. A gente falou que vai fazer, mas não disse quando começa, quando termina, quem faz o quê... Quem monitora, né? É meio um falso compromisso. É tipo como alguém que fala: "vou fazer uma dieta aqui. Ah, eu vou fazer, vou emagrecer", mas não fala, não faz, né? Enfim. Então, por que que é o momento da gente dar um passo nessa direção de esclarecer, detalhar, construir instrumentos para a transição? Porque senão ela vai ficar aí pendente no ar, como se ela tivesse acontecendo. E ela não está. As emissões continuam crescendo, as explorações de reservas fósseis também. Então, a gente precisa criar de fato uma estrutura de compromisso para fazer isso acontecer.
Bernardo Esteves: E não é difícil entender por que é que essa pauta desperta tanta resistência em muitos países. É que essa discussão de abandonar os combustíveis fósseis mexe com os interesses de uma indústria muito poderosa, que movimenta trilhões de dólares por ano, um dinheiro que é até difícil de conceber. E essa indústria está de olho no que acontece nas COPs, tanto que manda sempre um exército de lobistas para defender seus interesses. E é claro que eles também estavam lá em Belém. Mais de 1600 lobistas dos combustíveis fósseis foram a COP 30, segundo um levantamento de um consórcio que reúne centenas de ONGs do mundo inteiro. Se esse lobby fosse uma delegação nacional, só perderia em tamanho para o Brasil, que era o país sede. Não espanta que não tivesse o menor clima para os combustíveis fósseis entrarem na agenda formal de negociação.
André Corrêa do Lago: Então você tinha os assuntos que tinha um acordo e que havia consenso que a gente ia tratar. E aí entra essa questão dos fósseis, que nunca teria tido acordo para entrar na agenda, porque não teria consenso para entrar na agenda. Então ele acabou entrando como um ser estranho que acabou dominando, sobretudo, as expectativas das pessoas mais envolvidas com a questão de clima.
Bernardo Esteves: Esse é o embaixador André Corrêa do Lago, que foi nomeado pelo governo brasileiro como presidente da COP 30. Ao contrário das outras entrevistas que se ouve aqui, que foram todas gravadas em Belém, essa conversa com o André aconteceu no Estúdio Rastro, no Rio de Janeiro, três semanas depois da conferência.
André Corrêa do Lago: Inclusive muitas pessoas, até vocês, mencionaram o quanto esse tema entrou de maneira meio surpreendente, porque o debate no Brasil estava sendo sobre a questão da Margem Equatorial. Então, do ponto de vista político, já foi... O fato desse assunto ter entrado da maneira como entrou já foi incrível. Agora, como lidar com esse assunto no final da COP? É que foi bastante complexo...
Bernardo Esteves: Eu quero evocar uma entrevista que eu fiz com o senhor algumas semanas antes da COP. Lhe perguntei, nessa ocasião, que coelho da cartola os embaixadores brasileiros tirariam. O senhor diz que odeia coelho da cartola, e quem tirou coelho da cartola foi o presidente Lula com essa decisão. Como é que o senhor lidou com isso?
André Corrêa do Lago: Não, mas ele tem autoridade para tirar coelho da cartola, porque a gente tem que lidar com as circunstâncias que apareciam, mantendo sempre aquela...
Bernardo Esteves: A gente já volta ao André Corrêa do Lago, e ao jeito que ele tentou descascar esse abacaxi. Mas antes disso, eu quero voltar a um lado intrigante do debate sobre o abandono dos combustíveis fósseis. Isso não devia ser motivo de impasse, porque faz muito tempo que a gente sabe que são eles a grande causa do aquecimento global. A física do efeito estufa é conhecida desde o século XIX, graças ao trabalho de vários cientistas. Entre eles estava Eunice Foote, uma pesquisadora dos Estados Unidos que por muito tempo foi silenciada nessa história simplesmente por ser mulher. Graças a ela e outros colegas, já faz 150 anos que a gente sabe que se continuar lançando gás carbônico, metano e outros gases na atmosfera, a temperatura do planeta vai aumentar. E uma vez que as causas são bem conhecidas, faz tempo que os cientistas sabem com clareza o que é que precisa ser feito.
Carlos Nobre: 75% das emissões de hoje é queima de combustíveis fósseis. Petróleo, carvão e gás natural. Têm que reduzir muito rapidamente. Tem que proteger todas as florestas tropicais que aí, por muitas e muitas décadas, é onde o desmatamento está ocorrendo e proteger todas as populações indígenas, quilombolas, ribeirinhos, todas as populações de todas as florestas, principalmente florestas tropicais.
Bernardo Esteves: Dizendo assim, parece até fácil, né? Esse é o meteorologista Carlos Nobre, cientista brasileiro que é referência mundial nos estudos do aquecimento global. Em Belém, ele foi um dos presidentes do Pavilhão de Ciências Planetárias, que foi uma novidade nessa COP. A ideia do pavilhão era apresentar as pesquisas mais recentes sobre a crise climática, na esperança de que a mensagem chegasse aos negociadores e que eles tomassem as decisões pensando na ciência. Mas vamos combinar que as notícias que circulavam no pavilhão da ciência planetária não eram as mais animadoras. Vamos pegar o caso do Johan Rockström, o cientista sueco que foi presidente do pavilhão junto com Carlos Nobre. Ao lado de outros colegas, ele desenvolveu a teoria dos limites planetários. São nove limiares que a Terra não deveria ultrapassar caso a humanidade queira continuar vivendo em segurança. E o clima é só um deles. No caso, o limite é o patamar de um grau e meio de aquecimento. Mas quando a gente fala de meio ambiente, está tudo interligado e esses limites se influenciam uns aos outros. O Rockström foi a Belém fazer um diagnóstico do ponto em que a gente está em relação a esses limites. E as notícias, você deve imaginar, não são boas. O último levantamento que o homem e seus colegas fizeram mostrou que nós já passamos do limiar seguro de nada menos que sete dos nove limites planetários.
Johan Rockström: We are in danger. We have not a climate crisis, but a planetary crisis on our watch.
Bernardo Esteves: A gente está em perigo, ele disse. E essa não é só uma crise climática, mas uma crise planetária de amplas proporções. A gente está mal de biodiversidade, de ocupação da terra, de água fresca, nitrogênio. E o homem lembrou que os outros limites planetários são essenciais se a gente quiser manter o clima estável com o aquecimento abaixo de um grau e meio em relação ao período pré-industrial. A mensagem dele é clara para a gente fazer a terra segura de novo, vai ser preciso olhar para esses limites todos.
Johan Rockström: Boundaries, so that is why we need the planet in the climate discussion.
Bernardo Esteves: Ou seja, abandonar os combustíveis fósseis vai ser só o começo. Como se já não fosse um problema grande o bastante, né? Com tanta notícia alarmante, eu quis saber se os cientista sueco não sofria de algum tipo de ansiedade climática.
Johan Rockström: For me, it's not anxiety, for me it's more adrenaline. I get more angry.
Bernardo Esteves: Eu achei a resposta do Rockström muito interessante. Ele disse que não é ansiedade o que ele sente, que fica mais puto do que deprimido com tudo o que está acontecendo com o planeta.
Johan Rockström: In my professional life, I've never had reason to be as concerned as today. I've never seen such dark data as today. At the same time, I know it is solvable. It's not too late. The window is still open, even though it is rapidly closing.
Bernardo Esteves: Ele disse que nunca teve tanto motivo para estar tão preocupado quanto hoje, mas ao mesmo tempo, ele sabe que ainda não é tarde demais para resolver a crise planetária. A janela de oportunidade está quase se fechando, mas ainda dá tempo de agir. Um limiar em que estava todo mundo de olho em Belém é o aquecimento de um grau e meio. Se a gente passar desse limite, as consequências podem ser imprevisíveis. E os cientistas não se iludem, é uma questão de tempo até a gente chegar lá. Papo de alguns anos.
Karina Bruno Lima : Mas, infelizmente, como cientista, eu sinto que que falta muita ambição ainda, porque a gente tinha que estar muito além do que nós estamos agora. Tanto é que 1,5, a meta de 1,5 já tá morta, né?
Bernardo Esteves: Essa é uma cientista que alguns ouvintes talvez conheçam das redes sociais.
Karina Bruno Lima : Eu sou a Karina Bruno Lima. Sou doutora na área de climatologia, pesquiso eventos extremos e desastres, especialmente eventos extremos de precipitação. E também sou divulgadora científica comunicando sobre a crise climática já há alguns bons anos.
Bernardo Esteves: Como outros cientistas, a Karina aposta que a gente pode terminar o século abaixo de um grau e meio. Mesmo que a gente ultrapasse esse limite nos próximos anos. Para isso, a gente precisaria tirar carbono da atmosfera, em vez de emitir. Esse cenário em que a gente ultrapassa um grau e meio e depois volta atrás, é o que os cientistas chamam de overshoot.
Karina Bruno Lima : A gente agora espera pelo overshoot, mas não era para ter sido assim. É uma pena, porque mesmo que a gente consiga retornar no futuro e é uma esperança, que eu sou uma otimista nesse sentido, só o fato de a gente fazer o overshoot, se a gente ultrapassar e depois retornar, não é a mesma coisa do que nunca ter ultrapassado. Muitas espécies serão extintas, muitas pessoas vão sofrer as consequências disso. Então, agora é esperar que o pico não seja tão alto e que não dure tanto tempo.
Bernardo Esteves: Tem bastante gente tentando desenvolver soluções para tirar carbono da atmosfera, mas a verdade é que a gente está bem longe de chegar a uma tecnologia capaz de fazer isso na escala que a gente precisa para resfriar a temperatura do planeta. Quem sabe a gente devesse focar nas coisas que a gente sabe que vão funcionar, tipo abandonar os combustíveis fósseis.
Marina Silva: Uma pergunta ainda se faz necessária: como podemos caminhar juntos para sairmos da dependência dos combustíveis fósseis? A construção de um Mapa do Caminho se faz necessário. Esse mapa do caminho só será possível a partir da colaboração entre países e atores-chaves. E o primeiro passo para essa construção é o diálogo.
Bernardo Esteves: Essa fala da Marina Silva foi num evento promovido pelo governo brasileiro, no terceiro dia da COP, com representantes de alto nível de vários países. O objetivo era justamente avançar na conversa em torno dos compromissos que os países tinham assumido em Dubai. Esse evento foi importante para conseguir novas adesões a essa ideia. Naquela tarde, houve manifestações de apoio de países europeus do G7, como França, Alemanha e Reino Unido, que são todos eles grandes emissores de carbono. Dentre os nossos vizinhos, a Colômbia já tinha sinalizado um apoio bem enfático a essa causa e articulou uma declaração de vários países sobre a eliminação gradual dos combustíveis fósseis. E vamos lembrar que a ideia não estava na agenda de negociações, mas foi ganhando espaço pelas beiradas e isso acabou trazendo para o centro da conversa o grande tabu das COPs, que estava ausente desde Dubai.
Stela Herschmann: A gente nunca esteve tão perto de conseguir se afastar dos combustíveis fósseis, de conseguir um processo que nos leve a isso.
Bernardo Esteves: Essa é a Stela Herschmann.
Stela Herschmann: Eu sou especialista em política climática do Observatório do Clima e mãe da Cecilia, de dois anos e meio. Acho que a questão mais polarizadora e que divide os países é como a gente vai se afastar dos combustíveis fósseis. A gente tem uma decisão muito importante em 2023, no Balanço Global, que pela primeira vez, depois de três décadas de negociação, os países todos concordaram, lembrando que é uma decisão que foi adotada por consenso, que a gente ia se afastar dos combustíveis fósseis de maneira justa, equitativa e equilibrada e com ação nesta década crítica, ou seja, até 2030. E de lá para cá, o que a gente viu foi... Na verdade, esse assunto sumiu. Era um não-assunto desde 2023.
Bernardo Esteves: Se o Brasil estava sozinho nessa briga no começo da COP, dia após dia, a ideia foi ganhando adesões. No final da conferência, eram mais de 80 países cobrando um mapa do caminho para a humanidade abandonar os combustíveis fósseis. Só que esse movimento também gerou uma ação de igual intensidade em sentido contrário, que nem ação e reação nas leis de Newton.
Stela Herschmann: Então a gente tem o presidente do país sede chamando esses Mapas do Caminho. A gente tem aí cerca de metade dos países que são partes dessa conferência apoiando. Mas a gente ainda tem cerca de metade dos países no momento que a gente está gravando, né Bernardo? Dizendo que isso é uma linha vermelha, que eles não aceitam falar sobre isso. Estamos tão perto, mas ainda estamos longe.
Bernardo Esteves: A ideia do Mapa do Caminho chegou a aparecer no primeiro rascunho da decisão da conferência proposto pela presidência brasileira. Só que nas Conferências do Clima da ONU as decisões são tomadas por consenso. Ou seja, se um único país bater pé, a ideia tem que ser deixada de lado. E foi isso que acabou acontecendo. Prevaleceu a posição de países como a Rússia, a Arábia Saudita e outros grandes produtores de petróleo que não admitiam discutir o Mapa do Caminho. Para eles, esse era um assunto que não tinha nada que estar sendo discutido na COP. E não deu outra. Tanto que quando circulou uma segunda versão do rascunho da decisão, o Mapa do Caminho já tinha desaparecido. Mesmo de fora do texto final, o Mapa do Caminho foi, talvez, o assunto mais discutido nos corredores da COP, o que não é nada mau para um tema que não estava na agenda.
Bernardo Esteves: A impressão que me dá é que mesmo que não saia em Belém, essa menção ao Mapa do Caminho, é que as placas tectônicas começaram a se mexer.
Stela Herschmann: Isso é verdade porque, como eu disse, ele era um não assunto e ele virou o assunto dessa conferência. A gente vê que tem uma participação cada vez maior. Por exemplo, no início da semana passada, os países falavam em apoiar um Mapa do Caminho em eventos. E aí, a gente fez um chamado: atravessem o corredor, saiam da sala de eventos e falem isso nas salas de negociação. E hoje foi a primeira vez que eles falaram isso, com todas as letras. É uma linha vermelha para a gente, a gente sair daqui sem esse Mapa do Caminho. Então, são passos que a gente vai conquistando nessas duas semanas que a gente espera que consiga nos levar até a decisão final que a gente quer, mas que se não conseguir, a gente no ano que vem, retoma com esses passos dados. A gente não volta à estaca zero.
Bernardo Esteves: Uma manifestação muito clara desse apoio veio na Marcha pelo Clima, que os movimentos sociais promoveram na COP. Fizeram até um funeral simbólico para os combustíveis fósseis, com caixões gigantes, caveiras e tudo mais.
Bernardo Esteves: As COPs costumam se estender por duas semanas e, tradicionalmente, no fim de semana que tem no meio da conferência, acontece uma grande passeata que reúne movimentos sociais, povos indígenas e ativistas. Só que fazia tempo que essa manifestação não acontecia porque as últimas três COPs foram realizadas em países que não são propriamente democracias com liberdade de manifestação. São eles: o Egito, os Emirados Árabes Unidos e o Azerbaijão. Para muita gente, a manifestação que rolou em Belém foi a possibilidade de soltar um grito que estava preso na garganta por quatro anos.
Sonora: Tá calor pra caralho, a culpa é do milionário.
Bernardo Esteves: A última Marcha pelo Clima tinha acontecido em Glasgow, na Escócia, em 2021, em plena pandemia. Eu estava lá pela piauí e acompanhei a passeata do lado da Txai Suruí, a jovem ativista indígena. O mundo ficou conhecendo ela naquele ano, depois que ela fez um discurso na abertura da COP 26. E, agora em Belém, eu encontrei a Txai de novo na Marcha pelo Clima e assim como em Glasgow, ela estava manifestando para cobrar que os povos indígenas tenham mais voz nas conferências do clima.
Txai Suruí: Então, os povos indígenas dão inúmeros exemplos de que dá sim para se ter um mundo diferente, um modo de vida diferente. E é possível pensar em um sistema diferente, porque esse aqui está falido.
Bernardo Esteves: Os territórios indígenas têm um papel fundamental na luta contra a crise climática. Essas são as áreas em que a floresta está mais protegida no Brasil, mais até do que nas unidades de conservação. Ninguém está fazendo tanto pelo clima quanto os povos indígenas, e é por isso que eles têm que estar no centro dos espaços de decisão.
Txai Suruí: Essas reuniões globais não podem mais acontecer sem que a nossa realidade também seja levada à mesa, porque não vai haver justiça climática sem justiça social, sem demarcação dos territórios indígenas e sem a proteção dos nossos defensores. Eu já participei, acho que de umas quatro ou cinco COPs e eu nunca vi a presença da sociedade, dos movimentos indígenas e dos movimentos sociais em peso, como acontece nessa COP. É claro que a gente ainda está muito longe de estar lá dentro com credenciais, porque é isso: não deveria haver um lugar, se é feito na nossa casa, a gente não deveria ser proibido de entrar nesse lugar que está decidindo sobre as nossas vidas, né? Porque se nós tivéssemos nossa presença garantida lá, você acha que projetos como esses de exploração do petróleo ainda estariam acontecendo?
Bernardo Esteves: É certo que não. E aos poucos, os indígenas estão conquistando mais espaço nas Conferências do Clima. Na Zona Azul, que a área de acesso restrito da Conferência, onde só dava para entrar com credencial da ONU, eles tiveram uma presença importante. Quem me falou disso foi um líder indígena que estava em Belém.
Kleber Karipuna: Kleber Karipuna , coordenador executivo da APLB Articulação dos Povos Indígenas do Brasil. É histórico. Nós trabalhamos para isso. Nós fizemos um pleito há um ano atrás, um ano e meio atrás, de mil credenciais para Zona Azul de povos indígenas do mundo inteiro. E a gente quase bateu essa meta. Nós temos mais de 900 indígenas do mundo inteiro credenciados para estar aqui na Zona Azul. Só do Brasil, nós conquistamos quase 400 credenciais. Uma presença, uma participação histórica e não só em número, mas também em qualidade. A gente se preparou nesse último ano, principalmente, formando lideranças, trazendo informação, o que é a COP, quais os debates da COP, que que nós iríamos fazer na COP, que demanda nós iríamos trazer para a COP. E também nos preparamos ao longo dessa caminhada, levando essas demandas para um diálogo direto com o governo brasileiro, principalmente, no nosso caso, dos povos indígenas do Brasil.
Bernardo Esteves: E os indígenas colocaram suas demandas de maneira bem enfática durante a COP. No fim da primeira semana da Conferência, um grupo de Mundurukus bloqueou a entrada principal da COP por algumas horas. Eles queriam se reunir com o presidente Lula para reclamar do projeto do governo de fazer a concessão de hidrovias em alguns rios brasileiros. A dragagem do rio Tapajós podia afetar radicalmente o território em que eles vivem e o protesto surtiu efeito. Naquele dia, houve filas gigantes para entrar na COP e o governo se mexeu. O presidente não estava em Belém, mas uma comissão de autoridades foi conversar com as lideranças indígenas. Foram as ministras Marina Silva e Sônia Guajajara, do Ministério dos Povos Indígenas, além do André Corrêa do Lago e da Ana Tony, a diretora executiva da COP 30. Correu o mundo uma imagem do presidente da COP carregando um bebê Munduruku. Para muita gente, foi a foto da COP, feita pelo Felipe Werneck. O governo prometeu avaliar as reivindicações dos indígenas e, depois disso, a entrada foi liberada e, meses depois, os indígenas acabaram conseguindo uma vitória importante em relação a essa pauta. No fim de fevereiro, o governo acabou revogando o decreto do ano passado, que concedia a hidrovia do Tapajós e de outros rios. Isso aconteceu depois que os Munduruku e outros povos ocuparam durante semanas o porto da Cargill, em Santarém, por onde escoa a produção local de soja e milho. Outro fruto da mobilização indígena durante a COP, foi o anúncio feito pelo governo da homologação de quatro terras indígenas. A homologação é uma das últimas etapas do processo de demarcação. O Governo anunciou também o início do processo de demarcação de outros dez territórios.
Kleber Karipuna: A gente vinha fazendo uma articulação, APIB mesmo, antes de vir para a COP, preparou uma lista de 107 terras indígenas que estão aptas, sem nenhum empecilho administrativo e judicial, para serem homologadas pelo presidente Lula ou declaradas pelo ministro Lewandowski. E a partir dessa apresentação de 107 terras indígenas, nós começamos a fazer uma intensificação no diálogo com os atores internos no governo para que fosse possível anunciar alguma terra aqui. As mobilizações ajudaram a dar essa pressão, a dar essa força, e tivemos aí o êxito do anúncio dessas quatro homologações e dez declaratórias. Nós temos que comemorar porque é uma conquista, porque ela não é fácil. Mas também temos que continuar cobrando, porque a demanda ainda é muito histórica e é gigantesca ainda, de terras a serem demarcadas.
Bernardo Esteves: E não são só os indígenas que têm papel importante na luta contra a crise do clima. Os ribeirinhos, quilombolas e outras populações tradicionais também têm uma relação com o território, que é um contraponto ao modo de vida que está provocando o aquecimento do planeta. E o mais absurdo é que estão entre os grupos que mais estão sendo afetados pela crise climática. Esse é um dos lados mais perversos do aquecimento global e é um sintoma agudo do racismo ambiental da nossa sociedade. Você já parou para pensar que nem todo mundo tem o mesmo acesso ao território, a energia água limpa e a outros recursos? É disso que a gente está falando quando pensa em racismo ambiental.
Mariana Belmonte: Ele é basicamente um desenrolar do racismo estrutural que mostra como as políticas climáticas, as políticas ambientais e as não políticas são desenvolvidas e criadas sem pensar em raça e gênero e território. O conceito, ele foi se aprimorando ao longo dos anos, mas o racismo ambiental ele é a violação de direitos. A gente tem tentado trazer, que as políticas tragam a questão racial.
Bernardo Esteves: Essa é a Mariana Belmonte.
Mariana Belmonte: Eu sou jornalista, pesquisadora e trabalho como assessora de Clima e Racismo Ambiental em Geledés Instituto da Mulher Negra. As discussões sobre racismo ambiental nos textos de negociação elas não estão colocadas e hoje a gente não tem espaço para colocar um debate sobre racismo ambiental. Um avanço foi uma declaração na cúpula dos líderes, onde se define ali e se apresenta o que é a definição de racismo ambiental global em nível global. E acho que é um caminho importante para a gente discutir em outros espaços da ONU esse conceito de racismo ambiental. E acho que ter a menção afrodescendentes em alguns dos textos principais, isso também vai nos ajudar a trazer o tema na centralidade das discussões aqui internacionais.
Bernardo Esteves: E foi isso mesmo que aconteceu. Um texto central da COP 30, a chamada "Decisão de Mutirão" trouxe uma menção inédita ao papel dos afrodescendentes no combate à crise climática. Nunca antes um documento da Convenção do Clima tinha feito esse reconhecimento. É importante a gente pensar na dimensão racial da crise ambiental e de como ela afeta diferentes grupos da população. Essa é uma boa notícia para quem quer justiça climática, mas tem muito trabalho pela frente ainda. Uma coisa que a gente pode dizer é que a Conferência do Clima de Belém foi uma COP cheia de coisa inédita, a começar pelo incêndio.
Sonora: A gente só viu a correria, todo mundo correndo, correndo e alguém gritou "É fogo, é fogo, é fogo! E aí o pessoal já veio já escoltando".
Bernardo Esteves: Um pavilhão da COP simplesmente pegou fogo no começo da tarde de quinta, o penúltimo dia do evento. Isso é um fato inédito numa Conferência do Clima. Circularam algumas hipóteses para explicar como surgiu o incêndio. No dia do fogo, cogitaram que um curto-circuito num forno de microondas pudesse ser a origem, mas até hoje a causa não foi identificada. O incêndio começou no estande da comunidade da África Oriental. Tem um vídeo impressionante que mostra o fogo surgindo enquanto estava rolando uma mesa redonda. Esse e muitos outros vídeos se espalharam quase tão rápido como o fogo. A Zona Azul foi toda evacuada. Algumas pessoas que inalam a fumaça procuraram ajuda médica, mas felizmente não houve vítimas do incêndio. O material anti-chamas usado na construção do teto foi fundamental para o fogo não se espalhar. Depois que a poeira assentou, apareceram umas histórias ótimas do que as pessoas estavam fazendo na hora que o fogo começou.
Cintya Feitosa: Eu estava na Zona Azul na hora do incêndio. E aí é curioso, né? Porque numa quinta-feira, antes de terminar a COP, você vê pessoas correndo pelo corredor o tempo inteiro. Tinha acabado de sair da uma conferência de imprensa e eu vi as pessoas correndo, alguns jornalistas... Eu falei "Bom, deve ter acontecido alguma coisa, um anúncio de texto ou alguém muito importante está passando".
Bernardo Esteves: E essa é a Cintya Feitosa, especialista em estratégia institucional do Instituto Clima e Sociedade. Teve também o caso da ecologia Erika Berenguer.
Erika Berenguer: Meu nome é Erika Berenguer. Eu sou pesquisadora das universidades de Oxford e Lancaster e uma das coordenadoras da Rede Amazonas Sustentável.
Bernardo Esteves: E a Erika estuda, veja só, o fogo na Amazônia. E ela foi para Belém junto com outros colegas que pesquisam o mesmo tema.
Erika Berenguer: É, a ironia não escapou de nenhum dos pesquisadores que trabalham com fogo aqui dentro. Até porque a gente passou os últimos dois anos, desde 2023, que foi um ano de grande grande seca na Amazônia, porque era um ano de El Niño, e depois de 2024, também foi um ano de uma seca muito forte. Então, grandes incêndios florestais. E, ao longo desses dois anos, a gente falando: temos que discutir fogo na COP, temos que discutir fogo na COP. A gente nunca imaginou que ia discutir tanto fogo na COP.
Bernardo Esteves: E vocês tem justamente um grupo de WhatsApp com esse nome, não é isso?
Erika Berenguer: A a gente tem um grupo de WhatsApp chamado "Fogo na COP". A gente não sabia que ia ser tão premonitório.
Bernardo Esteves: Imagina as mensagens que eles trocaram no dia do incêndio... O fogo que a Érica foi discutir em Belém é papo sério. E o aumento dos incêndios florestais na Amazônia tem tudo a ver com a crise climática.
Erika Berenguer: O ecossistema floresta amazônica não evoluiu com o fogo, então elas não têm proteção ao fogo. Agora, o fato da floresta estar queimando é consequência das mudanças climáticas, porque antes você tinha as fontes de ignições antrópicas, mas a floresta era muito úmida, o fogo não conseguia entrar floresta adentro.
Bernardo Esteves: E o crescimento dos incêndios não é um fenômeno restrito às florestas tropicais.
Erika Berenguer: Então, em áreas que evoluíram, sim, com fogo, em ecossistemas que queimam de tempos em tempos, o próprio regime do fogo mudou. E daí eu estou falando, por exemplo, cerrado, florestas da Califórnia, savanas no mundo inteiro. O que está acontecendo é que a frequência do fogo aumentou, ou seja, o intervalo de tempo entre um incêndio e outro diminuiu. Em vez de acontecer a cada dez anos, está acontecendo a cada oito, a cada cinco. E a intensidade do fogo também mudou. E isso gera mudanças profundas para o meio ambiente, obviamente para as emissões de gases de efeito estufa, mas também na sociedade. A gente no início desse ano teve os focos imensos de incêndio em Los Angeles, que geraram perdas de milhões e milhões de dólares, casas que foram evacuadas, mas casas que foram completamente consumidas pelas chamas.
Bernardo Esteves: Felizmente, o fogo na COP 30 foi contido com mais rapidez do que os incêndios florestais que a Erika estuda, mas as negociações tiveram que ser interrompidas naquela tarde e o Centro de Convenções só reabriu no dia seguinte, que era o último da conferência. Isso, em teoria. Na reta final, é comum que as discussões entrem madrugada adentro.
Ana Toni: Oi, pessoal! São dez e meia da noite. A gente ainda tá aqui na Zona Azul, terminando e terminando o dia, porque hoje a noite, novamente, vai ser muito longa.
Bernardo Esteves: Essa é a Ana Toni, diretora-executiva da COP 30 que tocou o barco ao lado do André Corrêa do Lago. Essa fala vem de um dos vídeos que ela postou nas redes sociais durante a conferência.
Ana Toni: Tá todo mundo trabalhando. A gente estendeu as horas aqui de trabalho para todos os negociadores. As negociações vão continuar em todos os grupos até a meia noite. E a gente vai produzir os textos de consenso durante a noite para eles saírem de manhãzinha.
Bernardo Esteves: Por conta desse ritmo frenético, é comum os negociadores chegarem na reta final da COP exaustos. Na plenária final, é fácil achar gente virada com cara de zumbi. Isso vale para os jornalistas também, claro. E Belém não foi exceção. O sprint final das negociações começou na tarde de sexta.
André Corrêa do Lago: A gente começou às três da tarde e foram dezessete horas de negociação. E aí emendou com a plenária. Mas acabou que, como em muita COP, eu acho que até quase todas. Você fica numa situação que alguns diplomatas chamam "Nada está resolvido enquanto tudo não estiver resolvido". Então estava tudo pendente, tudo paralisado, dependendo de a gente conseguir ou não um acordo nessa decisão do Mutirão.
Bernardo Esteves: A tal decisão do mutirão que o André citou, era o fruto de um esforço que a presidência brasileira tinha proposto para os países do mundo. A ideia era trazer para a COP essa tecnologia social bem brasileira, o mutirão. O caso era convocar os quase 200 países a arregaçar as mangas para fazer juntos coisas que nenhum deles daria conta de fazer sozinho. A tal decisão do mutirão reunia muitos pontos que estavam gerando controvérsia entre os países. E o pano de fundo dessa briga quase sempre é dinheiro, que os países em desenvolvimento cobram dos países ricos, que têm maior responsabilidade histórica pela crise do clima. Foi num rascunho dessa decisão que o Mapa do Caminho para o fim dos combustíveis fósseis tinha sido incluído. Mas a gente viu que esse item foi vetado, logo na segunda versão do documento. E não tinha a menor chance de ele voltar ao texto naquela rodada final de negociação. O roteiro para abandonar os combustíveis fósseis ficou de fora da decisão. Mas o André Corrêa do Lago deu um jeito de deixar a ideia viva entre uma COP e outra. Ele anunciou que ia preparar, por iniciativa própria, uma proposta de Mapa do Caminho para a gente zerar o desmatamento e para nos afastarmos dos combustíveis fósseis. Em Belém, ele assumiu um mandato de um ano como presidente da COP e é durante esse mandato que ele pretende elaborar os dois mapas. A ideia dele é apresentar o resultado antes da COP 31, que vai ser em Antália, na Turquia, país que vai dividir a presidência da COP com a Austrália. Não tem nenhuma garantia que os países vão acatar as sugestões do André, nem que eles vão se esforçar para colocar isso em prática. Mas para um regime que se negava até outro dia a nomear o problema, é um avanço importante. O André Corrêa do Lago ficou bem satisfeito.
André Corrêa do Lago: Mas olhando para trás, acabou sendo um resultado muito próximo do ideal. Quer dizer, a parte burocrática da COP foi cumprida, que era uma parte importante. Por mais que tenha a palavra burocrática, mas era assegurar que o mundo ainda pudesse acreditar que ainda dá para ter consenso sobre temas complexos. Mas também a parte muito importante de você poder botar o elefante na sala. Agora estou cheio dos animais aí. E você já falou do coelho também. Mas o poder tratar do tema de fósseis, da maneira como ele foi tratado, foi um ganho enorme para a COP.
Bernardo Esteves: Outro alívio para a presidência brasileira é que as negociações não implodiram. Antes da COP, estava todo mundo muito pessimista com o contexto geopolítico. Tinha a guerra na Ucrânia e o massacre de Israel em Gaza. E vamos lembrar que a COP aconteceu antes dos Estados Unidos invadirem a Venezuela para depor o presidente Nicolás Maduro e antes de eles atacarem o Irã junto com Israel. A guerra no Irã, que ainda está em curso, está afetando profundamente o mercado global de petróleo. Ela está trazendo muita insegurança energética para o mundo todo, deixando ainda mais distante a conversa sobre o fim dos combustíveis fósseis. Mas ela está deixando bem claro também que passou da hora da gente se livrar da dependência desses combustíveis. Mas mesmo antes disso, a gente já tinha um cenário bem complicado. Os Estados Unidos de Donald Trump abandonaram pela segunda vez o Acordo de Paris e não mandaram uma delegação oficial a Belém. Por tudo isso, tinha gente temendo que a COP fosse ser um tremendo fracasso.
André Corrêa do Lago: Mostrou-se que, apesar da geopolítica complexíssima que a gente está vivendo, deu para ter 195 países concordando com 56 decisões. Então, foi uma coisa bastante impressionante. Eu acho que os resultados foram no sentido de fortalecer o multilateralismo, fortalecer os dez anos do Acordo de Paris. Acho que isso foi muito legal. Na dimensão política, eu acho que a questão dos fósseis ganhou um espaço muito maior do que a gente poderia esperar. E isso graças ao empenho pessoal do presidente, que falou quatro vezes do assunto em 15 dias. Então, foi... Eu acho que isso teve um impacto muito grande. Vai ter um impacto enorme nos próximos anos. Agora, é incontornável que na próxima COP você vai falar disso daí, né? Provavelmente os turcos e os australianos não vão lembrar com carinho que o Brasil levantou esse assunto e deixou o assunto passar para as COPs seguintes.
Bernardo Esteves: O maior legado dessa COP talvez seja colocar o fim dos combustíveis fósseis no centro da conversa. E essa pasta de dente não vai voltar para o tubo. Quem pensa assim é o Cláudio Ângelo, coordenador de política internacional do Observatório do Clima.
Cláudio Ângelo: No dia 6 de novembro, um país queria Mapa do Caminho para combustíveis fósseis. Agora são 82. Então essa onda que se gerou no entorno da negociação foi super positiva. Eu acho que ela vai tornando uma discussão sobre combustíveis fósseis inadiável. Então talvez a gente esteja vendo aquela coisa, aquele clichê: "nada é tão poderoso quanto uma ideia cujo tempo chegou". Talvez seja o tempo dessa ideia. Agora.
Bernardo Esteves: E um sinal de que o tempo dessa ideia chegou mesmo, foi a realização da primeira conferência internacional dedicada à transição para longe dos combustíveis fósseis. A iniciativa veio da Colômbia, que foi um dos maiores defensores dessa bandeira em Belém, em parceria com a Holanda. O evento aconteceu no fim de abril, na cidade de Santa Marta, no Caribe colombiano. A conferência reuniu 57 países. Ela não tinha a intenção de substituir o processo de negociação das COPs, mas deu mais força política a ideia de que a gente precisa abandonar o petróleo, o carvão e o gás natural.
Cláudio Ângelo: Vocês não vão me ouvir dizendo isso todos os dias, mas foi um evento histórico. A Conferência consolidou uma coalizão de países dispostos a se mexer para fazer a tal da transição energética prometida lá em 2023 e jamais implementada. Então, foram quase 60 países, 57 países presentes, que vieram aqui e se comprometeram, sim, a trabalhar para fazer isso. Não é mais uma questão de se a gente vai fazer a transição, mas de que jeito essa transição vai ser feita e com que velocidade essa transição vai ser feita.
Bernardo Esteves: Essa fala do Claudio Ângelo veio de um vídeo postado nas redes sociais durante a Conferência. E tem também os Mapas do Caminho nacionais que alguns países estão preparando, detalhando como eles pretendem fazer a transição dos combustíveis fósseis para as energias renováveis, a começar pelo Brasil. Pouco depois do fim da COP, o Lula encomendou um Mapa do Caminho aos ministérios do Meio Ambiente de Minas e Energia e à Casa Civil. E depois disso, muitos outros países anunciaram que também iam fazer seus próprios Mapas do Caminho. Já eram quase 50, segundo um levantamento feito em março. Durante a Conferência de Santa Marta, a Colômbia e a França anunciaram seus Mapas do Caminho. Já o do Brasil, era para ter sido entregue há mais de três meses, mas está atrasado. Quando ele for apresentado, quem sabe vai ficar mais claro como é possível um mesmo país explorar petróleo na foz do Amazonas e abandonar os combustíveis fósseis. Em mais de uma conversa com o André Corrêa do Lago, eu tentei pedir que ele comentasse a contradição entre abrir novos poços e querer liderar o mundo na transição energética. Só que ele é diplomata e macaco velho e sempre me enrolava quando eu fazia essas provocações. Mas ele acabava dando um jeito de falar como ele enxerga o desafio da transição energética para o Brasil.
André Corrêa do Lago: Eu acho que uma coisa que a gente tem que pensar muito como brasileiro é que um dos grandes problemas, mas também uma das grandes vantagens de ser Brasil, é que nós somos um país cheio de opções. O negócio é a gente fazer as escolhas certas. Muitos países não tem opção. Tem muito país que só tem uma fonte de energia ou que não tem como financiar alternativa. Quer dizer, tem milhões de obstáculos. Nós temos várias fontes já estruturadas e a gente tem como mexer dando mais atenção a uma coisa ou a outra com uma certa facilidade.
Bernardo Esteves: Para mim, o paradoxo do Brasil que explora petróleo na foz do Amazonas e ao mesmo tempo chama o resto do mundo para abandonar os combustíveis fósseis, continua sendo o aspecto mais inexplicável dessa história toda. E uma conversa que eu tive no último dia da COP me ajudou a organizar as ideias.
Marcio Astrini: Eu sou o Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, que trabalho nessa agenda há quase 20 anos já.
Bernardo Esteves: O Márcio contou que conversou com o Lula em Dubai, naquela COP em que os países decidiram que era preciso fazer a transição para longe dos combustíveis fósseis.
Marcio Astrini: Eu lembro muito bem. Estava lá na sala de reunião com ele, em Dubai. Naquela conferência, ele tinha feito uma citação um dia antes da conversa com a sociedade civil, aonde ele dizia o seguinte: que faltava liderança na agenda de clima, faltava quem colocasse ambição na mesa. E, durante a minha fala para ele, eu disse que isso faltava mesmo, mas que a gente tinha algumas esperanças. E uma das esperanças estava dentro daquela sala, que era ele, né? E a reação dele, naquele momento, foi inclusive de dizer: "eu entendo o problema, mas isso é muito difícil de fazer, porque o mundo não topa, né? E é muito difícil você fazer isso". E ele falou muito das complicações e tal. Aqui ele não falou das complicações. Ele subiu em cima de um palco. Ele estava sozinho. Ele não tinha conversado aquela proposta com ninguém. E ele fez a proposta. E depois nós tivemos uma conversa com ele aqui, porque nós pedimos para ele: "não desista disso. Essa proposta é ótima, é o que a gente precisa". Ele disse: "Eu não vou desistir porque a proposta é minha e eu estou convencido dela e vou defender ela aqui até o fim. No G7, no G20, onde for preciso". Então, a gente tem uma mudança de comportamento de uma pessoa que é importantíssima, que é o presidente brasileiro.
Bernardo Esteves: Quando conversa com líderes estrangeiros, o Lula adora defender o meio ambiente. Só que nos assuntos de política interna, ele quer ficar bem com aliados como o Davi Alcolumbre, presidente do Senado. O Alcolumbre do Amapá, estado que vai ser beneficiado pelos royalties do petróleo. E eu quis saber do Márcio Astrini quem é que ia prevalecer depois que a COP acabasse e a imprensa estrangeira fosse embora, se era o Lula que discursou na abertura do evento ou se era o Lula que pressionou o Ibama para liberar o petróleo na foz do Amazonas.
Marcio Astrini: Eu acho que vão ser as duas coisas. E essa contradição vai continuar existindo. É uma contradição. Não existe a menor dúvida. É uma contradição você explorar petróleo. A Agência Internacional de Energia diz o seguinte: "se você quiser manter a temperatura do planeta em equilíbrio, com grau e meio ou em algum alguma faixa de equilíbrio, nenhum poço novo de petróleo tem que ser explorado". Então, quando você quer isso e você também quer petróleo, você tem uma contradição, porque você está querendo duas coisas que não cabem no mesmo planeta. O que o presidente Lula está dizendo para nós é que ele viverá essa contradição. Ele quer que o mundo se mexa para fazer a transição dos combustíveis fósseis, mas ele não vai fazer sozinho. Deixou muito claro: "Não esperem de mim que eu faço sozinho. Esperem de mim que eu cobre, que eu dê o primeiro passo na proposta e que eu siga com essa proposta até o fim. Agora não espere de mim que eu vou parar o licenciamento de petróleo, que eu vou parar o petróleo antes que o mundo entre num acordo". Ele vai continuar liberando licenças, infelizmente, para o meio ambiente e para o clima no mundo. E vai continuar com essa proposta que ele lançou aqui. Pelo menos é isso que ele está dizendo. Felizmente para as negociações.
Bernardo Esteves: No dia 4 de janeiro, houve um acidente na operação da Petrobras na Foz do Amazonas, com vazamento de mais de 18 mil litros de fluido de perfuração na abertura do poço experimental de petróleo. Isso foi um mês e meio depois da COP e menos de três meses depois da concessão da licença pelo Ibama. Na época, a Petrobras alegou que aquilo não representava risco para o meio ambiente ou para a saúde humana, mas um laudo feito pelo Ibama mostrou que o fluido era tóxico o bastante para impactar animais e o meio ambiente, conforme noticiou a Deutsche Welle. O Ibama multou a Petrobras em dois milhões e meio de reais por causa do acidente. Um outro laudo, esse feito pela ANP, a Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis apontou que as fortes correntes costeiras do Amapá contribuíram para o vazamento. Um mês e meio depois do acidente, a Petrobras foi autorizada a retomar a perfuração do poço na foz do Amazonas, desde que respeitasse uma série de condicionantes. Numa inspeção feita na sonda usada pela Petrobras logo depois, a ANP aplicou na empresa outra multa que pode chegar a 2 milhões de reais. Quem diria que podia dar ruim explorar petróleo naquela região, hein?
Bernardo Esteves: Antes de passar para os créditos, eu queria fazer algumas atualizações. É que no começo de abril, depois das gravações, houve mudanças no governo. A Marina Silva, que era ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, deixou o cargo para concorrer às eleições em outubro. Ela foi substituída pelo João Paulo Capobianco, que você ouviu aqui no programa. A Sônia Guajajara, que era ministra dos Povos Indígenas, também deixou o cargo e o Rodrigo Agostinho saiu da presidência do Ibama.
Bernardo Esteves: Esse foi Os Caminhos do Mapa, um áudiodocumentário da revista piauí sobre a COP 30. Eu sou o Bernardo Esteves e fiz a reportagem, as entrevistas e o roteiro com a ajuda do Pedro Tavares. A trilha sonora, a edição de som, montagem e mixagem são do Pedro Vituri. A checagem foi feita pelo Gilberto Porcidônio. As locuções foram gravadas no Estúdio Rastro com Danny Dee. A idealização desse projeto é da Mari Faria, que também assina a direção e a produção. O editor-executivo é o Daniel Bergamasco e o diretor de redação, o André Petry.
Bernardo Esteves: Esse episódio usou áudios de SBT, TV Globo, Band, Record, Radio França, Internacional, do canal argentino Todo Notícias, do site de notícias indiano First Post, do jornal italiano Il Sole 24 Ore, das redes sociais da Ana Toni e dos canais do presidente Lula, do Ministério do Meio Ambiente e do Observatório do Clima. Para você que ficou até aqui e está interessado pela COP e pela crise climática, eu vou deixar algumas recomendações. No site da piauí tem uma página que reúne toda a cobertura da Conferência que eu fiz com o Pedro Tavares e com a Juliana Fadul. Lá, você encontra o relato completo da minha ida ao navio oceanográfico que visitou a foz do Amazonas. Tem também textos que entram mais a fundo nas contradições da política ambiental do Lula, na costura do Mapa do Caminho e na presença indígena na COP, entre outros temas. Quem quiser saber mais sobre a foz do Amazonas, pode ler também a reportagem que eu fiz em 2016, contando como Rodrigo Moura e outros cientistas fizeram a descrição do grande recife que tem naquela região. O link para esse material e a ficha completa do documentário você encontra no site da piauí, na aba Podcasts. E se você quer mais conteúdo em áudio sobre a crise climática, eu recomendo voltar à segunda temporada do podcast "A Terra é redonda (mesmo), que é toda dedicada a esse tema. Um abraço e até a próxima.
Ficha Técnica:
Apresentação, reportagem e roteiro - Bernardo Esteves
Assistência de roteiro e reportagem - Pedro Tavares
Trilha sonora, edição de som, montagem e mixagem - Pedro Vituri.
Checagem - Gilberto Porcidonio.
Arte - Daniel Kondo e Paula Cardoso
Direção e produção - Mari Faria
Distribuição - Maria Júlia Vieira
Coordenação digital - Fernanda Catunda, Emily Almeida e Fábio Brisolla
Arte: Daniel Kondo
Editor executivo - Daniel Bergamasco
Diretor de redação - André Petry
Locuções gravadas no Estúdio Rastro (Rio de Janeiro) e no Estudio Red (Buenos Aires).