vultos da literatura
Thallys Braga, de Andradas (MG) 16 Jul 2026
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O escritor Leonardo Piana passou o primeiro sábado de maio dando atenção aos pais e aos avós. Quando anoiteceu, avisou que precisava sair. Queria aproveitar que estava ali, na pequena Andradas, para circular pela cidade e ver as paisagens de sua infância. Dirigiu tranquilamente por ruas escuras durante dez minutos, e então estacionou num terreno baldio com vista para o Centro, bairro onde morou na adolescência. Deixou as janelas do carro abertas, a fim de ouvir o disco da Lana del Rey que pusera para tocar, e saiu para fumar. Ficou quieto, escutando a americana cantar The greatest.
Lá pela metade do cigarro, encolheu os ombros e disse: “Esfriou. Vou pegar a blusa.” Voltou vestindo uma jaqueta grande, talvez dois números acima do seu tamanho, e jogou longe a guimba. “Vai parecer pedante, mas eu estava pensando que me orgulho de ter conseguido emoldurar a minha juventude”, ele disse. Lá embaixo, um trenzinho iluminado da Carreta Furacão – grupo de dançarinos entusiasmados, que se fantasiam de personagens variados, como Fofão, Chaves e Mário Bros – serpenteava as ruas tranquilas do Centro. É um lugar de casas modestas e praças bem cuidadas. A maioria das residências é térrea. Alguns prédios começam a ser erguidos aqui e ali, e as obras provocam uma sinfonia que tira o sossego da vizinhança. “Mesmo que tivesse sempre uma melancolia entre nós, eu e meus amigos fomos felizes aqui em Andradas.”
Quando disse que emoldurou sua juventude, Piana se referia ao Sismógrafo, livro que publicou em 2022. O romance acompanha o desenvolvimento de Eduardo, um garoto gay no fim do ensino médio. Apaixonado por um amigo e em conflito com a família, o personagem explora Andradas enquanto lida com suas tristezas juvenis. Embora goste da pequena cidade mineira, Eduardo não vê a hora de ir embora. Quer estudar numa universidade conceituada e, principalmente, estar longe da família para beijar meninos sem medo de decepcionar os pais.
Não é um enredo incomum. Muitos romances publicados na última década narram a fuga de garotos gays para a cidade grande. Como um leitor interessado nessas histórias, li muitas delas. Me identifiquei com algumas; com outras nem tanto, mas todas ampliaram a minha compreensão do que é ser um homossexual ou uma travesti. Nenhuma delas, porém, descrevia as descobertas de um jovem homossexual com a precisão que encontrei no livro de Piana. Essa qualidade vem à tona, por exemplo, quando ele descreve os sentimentos confusos de seu protagonista. Eduardo começa a entender seu desejo quando vê as sungas dos colegas penduradas no vestiário do colégio, depois da natação. A palavra “short” aparece 21 vezes no livro. O personagem está sempre tentando evitar a atração pelo volume na roupa dos garotos. Olhar para eles o leva a pensar nos santinhos e na Bíblia dispostos no pequeno altar de casa. Eduardo tem medo de decepcionar Deus, os pais, os vizinhos. As cenas descritas no escuro também dão veracidade à prosa. Os meninos criam coragem para se tocar principalmente à noite, em terrenos baldios, sob a luz amarela dos postes. Estão sempre culpados, monossilábicos. Nesses trechos, a paisagem descrita por Piana se parece com a de qualquer cidade ou bairro pequeno onde garotos se aventuram clandestinamente.
Antes mesmo de ser publicado, em 2022, o Sismógrafo foi reconhecido como o melhor romance do prêmio Cidade de Belo Horizonte. Esteve entre os finalistas do Jabuti em 2023 e, mais tarde, teve os direitos vendidos para a produtora Filmes de Plástico, que pretende adaptá-lo para o cinema. Nos últimos dois anos, porém, quem buscasse o Sismógrafo em livrarias não o encontraria. A Macondo, uma pequena editora sediada em Juiz de Fora (MG), vendeu mil exemplares do romance e não reimprimiu outros. O livro virou item de colecionador e chegou a ser oferecido por mais de mil reais em sites de revenda, até que, em abril passado, voltou às prateleiras, reeditado pela Autêntica Contemporânea.
Embora tenha se baseado em lembranças da juventude para escrever o Sismógrafo, Piana prefere pensar que o romance tem vida própria. Elenca razões para não classificar a obra como autoficção, termo que tem sido aplicado aos livros de autores como Édouard Louis e Annie Ernaux. “Os personagens viveram coisas que eu e meus amigos gays não conseguimos viver em Andradas. De certo modo, o livro realizou desejos que nós não pudemos realizar”, disse Piana. “E tem outra coisa. Quero que dados com potencial autobiográfico nos meus livros permaneçam no campo da dúvida para o leitor. Isso é importante para a literatura que eu ainda quero fazer.”
Andradas tinha menos de 30 mil habitantes em 1992, quando nasceu Leonardo Piana Jordão Ribeiro. Hoje, tem 40 mil, mas o escritor ainda caminha pela cidade convicto de que conhece todas as pessoas – ou, pelo menos, um tio ou uma prima delas. Quando sentamos em uma sorveteria para tomar um café, ele me pediu para olhar por cima de seu ombro. “Está vendo aquela mulher ali atrás? Quando eu era novo, ela contou para a minha vó que eu estava beijando meninos na escola”, disse. Depois chegou uma mulher mais velha, que Piana também conhecia. “Aquela é a mãe do Joaquim”, disse, se referindo a um amigo da adolescência, e se levantou para cumprimentá-la.
Quando o escritor era criança, seus pais administravam uma farmácia. Os dois nasceram e cresceram em Andradas e estudaram até a sétima série. O único livro que tinham em casa era a Bíblia, sempre aberta sobre a mesa da sala (a mesma Bíblia que aparece na casa de Eduardo, o protagonista de Sismógrafo). “Eu e meu irmão nos juntávamos ao pai e à mãe todas as noites para rezar antes de dormir.”
Quando Piana estava com 11 anos, os pais se divorciaram, depois de um longo período de desavenças que afetou toda a família. Ele e o irmão mais velho moraram com a mãe por cerca de dois anos, e então se mudaram para a casa dos avós paternos. A partir daquele momento, se estabeleceu entre o garoto e a mãe uma distância que só aumentaria nos anos seguintes. Nos três livros que Piana já publicou, dois romances e um de poesias, a figura materna é descrita com uma dose de rancor. Em um dos poemas de Escalar cansa (Senac), ele menciona que a mãe certa vez esqueceu de seu aniversário, quando ele era adolescente. Piana lembra de uma cena que se repetiu várias vezes: a mãe, quando precisava assinar um documento para ele, diminuía a voz e perguntava: “Que dia você nasceu?”
A pequena escola particular em que Piana cursou o ensino médio era frequentada por outros meninos que gostavam de meninos. Eles formaram uma pequena rede de apoio mútuo. Nos fins de semana, se encontravam nos loteamentos escuros de Andradas para beber destilados e fumar tabaco e maconha olhando a Lua. No último ano de escola, combinaram de prestar vestibular para estudar em São Paulo e se mudar para lá. Situada no extremo Sul de Minas, Andradas fica mais perto da capital paulista do que de Belo Horizonte. O plano funcionou: aos 18 anos, Piana foi aprovado em Comunicação Social na USP e se mudou com os amigos para São Paulo.
“Foi muito deslumbrante no começo”, disse. Durante a graduação, Piana morou na região de Sumaré, depois em Pinheiros, Perdizes e na Pompeia. Viveu uma fase plena de descobertas românticas e sexuais, até que conheceu um jovem escritor por quem se apaixonou. “Ele lia muito e participava de oficinas literárias. Me mostrou um mundo de escritores vivos que eu desconhecia, de gente que estava experimentando, assumindo riscos literários, e eu fui tragado para aquele mundo.”
O namoro com o jovem escritor acabou, mas Piana herdou dele o gosto pelas oficinas literárias. Em 2018, foi selecionado para o curso gratuito de formação de escritores da Casa das Rosas, um centro cultural instalado na Avenida Paulista, e passou o ano convivendo com outros jovens autores. Lá, escreveu os primeiros rascunhos do que viria a ser o Sismógrafo. “Ele lia os trechos nas aulas e era sempre comovente”, lembra a escritora Mariana Salomão Carrara, sua colega de turma. “Tinha muita verdade, principalmente nas descrições da convivência daquele filho gay com a mãe.” Salomão Carrara percebeu, também, que Piana era engenhoso ao articular a história dos seus personagens com a geografia das cidades.
Depois de um tempo, São Paulo começou a parecer imprópria para a vida mansa que Piana queria levar. “Eu me sentia preso e com saudade do ritmo do interior.” Continuou morando na cidade grande apenas para ficar perto das oportunidades de emprego. Estagiou no setor de comunicação de uma grande farmacêutica, depois foi trainee de jornalismo cultural na Folha de S.Paulo. Nada o deixava animado como a ideia de se dedicar à escrita em tempo integral. Ele decidiu então se inscrever em programas de apoio a jovens artistas. Em 2018, foi selecionado para receber uma bolsa do Itaú Cultural* que o permitiria passar um ano e meio se dedicando apenas à literatura.
Piana não pensou duas vezes: usaria o dinheiro da bolsa para alugar uma casa em Andradas. Achava necessário voltar à cidade para escrever um romance ambientado lá, andando pelos loteamentos em que bebeu na adolescência e imaginando o que seus personagens fariam ali. Pouco tempo antes, tinha engatado um namoro com um geógrafo paulista. Os dois se conheceram pelo Tinder e estavam apaixonados, de modo que foi fácil convencer o namorado a se mudar com ele para Minas Gerais. Os dois chegaram lá em janeiro de 2019, para morar numa casa de dois quartos. O paulista conseguiu emprego como professor de geografia na escola em que Piana cursou o ensino médio. À noite, depois do trabalho, os dois pedalavam pela cidade.
“Foi importante tê-lo por perto”, me disse Piana, com os olhos marejados, referindo-se ao ex-namorado. No Sismógrafo, livro que estava escrevendo, Eduardo tem 15 anos quando se apaixona por Tomás, de 18. Os dois se conhecem na piscina do clube da cidade e vivem um romance quente, mas breve: logo Tomás deixa Andradas para estudar em São Paulo, e Eduardo precisa lidar pela primeira vez com as dores do amor. “Eu não tive um Tomás na minha adolescência, mas estava apaixonado enquanto escrevia a história. Isso me ajudou a descrever o que se passava na cabeça do Eduardo.”
Piana idealizou o Sismógrafo como um projeto literário e visual. Quando não estava escrevendo, saía por Andradas para fotografar com uma câmera analógica. As imagens não foram usadas no livro, mas hoje servem para o escritor como uma lembrança daquela época. Um dia, ele encontrou um portão pichado com as palavras “Casa do gay”. Piana não sabe quem morava lá, nem quem fez a pichação. “Mas você pode imaginar o contexto por trás do picho”, ele disse. No livro, o personagem Eduardo se familiariza cedo com a homofobia dos vizinhos. A violência se intensifica quando os garotos o fotografam fazendo sexo oral em Tomás, no banheiro do clube. O leitor acompanha o sofrimento de Eduardo ao longo de meses. A escola e a vizinhança veem as fotografias do garoto de joelhos. Sozinho, pois Tomás foi para São Paulo, resta a ele ficar em silêncio e torcer para que a cidade esqueça logo aquela história.
Em alguns domingos, Piana assistia à missa matinal na Paróquia São Sebastião. Em todos, almoçava com o namorado na casa dos avós. O avô coleciona passarinhos. No quintal, há um corredor cheio de gaiolas, e ainda se encontram outros pássaros enjaulados no interior da casa. A avó passa o dia na cozinha, preparando as refeições e vestida com o esmero de uma rainha Elizabeth. São um casal acolhedor, e receberam bem o namorado de Piana. Já os pais precisaram de mais tempo para se acostumar com a homossexualidade do filho. Hoje, não demonstram incômodo, e nunca reclamaram de nada que o filho escreveu, pois não leram seus livros. A mãe dele me disse que já tentou algumas vezes, mas não conseguiu avançar porque a leitura a deixa emotiva. “Tem uma vantagem nisso: eu posso escrever sobre eles despreocupado”, disse Piana.
O escritor voltava das missas e das reuniões familiares pensando em detalhes que poderia incluir no livro. Quando finalmente terminou de escrevê-lo, pediu ao namorado que o lesse em voz alta. Daí voltou para o computador e ajustou as frases que achou que soavam mal. Então pediu para o namorado ler de novo, e depois ele mesmo leu o romance em voz alta. Às vezes, ao ouvir o que ele mesmo havia escrito, chorava a ponto de engasgar. “Você tem que aprender a segurar o choro”, lhe dizia o namorado. “Vai ser estranho se você começar a chorar numa livraria enquanto lê o livro.”
Quando publicou o Sismógrafo, em 2022, Piana já tinha voltado a morar em São Paulo. O romance foi rejeitado por duas grandes editoras. O diretor da Macondo, editora mineira que publicou a primeira edição do livro, é gay. “Eu tenho certeza de que isso fez diferença”, disse Piana. O diretor Pedro Gonçalves Ribeiro, que se interessou em filmar o romance pela Filmes de Plástico, também é gay, bem como o editor Schneider Carpeggiani, que topou publicar uma reedição do livro pela Autêntica Contemporânea.
Nos livros de Leonardo Piana, os homens praticam esportes sempre que ficam angustiados. Eduardo sai para correr a fim de esquecer a crise conjugal dos pais. Ao descobrir que catástrofes naturais estão acometendo países vizinhos, o mesmo personagem teme a morte do garoto que ama e o chama para nadar. Em Tarde no planeta (Autêntica Contemporânea), romance que o escritor publicou no ano passado, dois homens escalam a Serra da Mantiqueira enquanto discutem qual deles é o pai de um menino e o que devem fazer com o desejo que sentem um pelo outro.
O escritor se exercita com frequência. Pratica escalada e corrida, e tem porte atlético. Seus braços são musculosos, com veias saltadas. Ele é alto, com 1,83 metro, e tem cabelos cacheados. Quando tinha 22 anos, em 2014, Piana deixou Andradas sem levar o celular e se juntou a um grupo de católicos numa peregrinação até Aparecida, a cidade santa no interior paulista. A mãe saiu de carro à procura dele e só o encontrou quatro dias depois, numa rodoviária a 130 km de casa. “Meus pés estavam cheios de bolhas”, ele lembrou. Perguntei o que motivou a peregrinação. O escritor, que é católico, balançou a cabeça devagar e depois disse, num fiapo de voz: “Não sei.”
Mais ou menos na mesma época, Piana se envolveu com um estudante italiano que conheceu num intercâmbio na Universidade de Murcia, na Espanha. Foi um relacionamento difícil. Piana diz que o sexo era incrível e as brigas, terríveis. Uma vez, chegaram à violência física. Quando o namoro terminou, o mineiro enfrentou uma tristeza que se alongou por anos. A história é o tema do romance em que ele está trabalhando agora. “Esse é o último da lista de livros que eu queria escrever. Não sei o que vou fazer depois.” Os outros dois namoros de Piana terminaram por razões comuns: desgastes na convivência, interesses diferentes, descompasso sexual. Quando fala do passado, ele parece não ter mágoas dos ex-parceiros. Ressalta que foi feliz com eles.
Já os seus personagens nunca alcançam a felicidade. Os garotos sempre sofrem porque não podem ficar junto daqueles que amam. Nesse ponto, a ficção de Piana é tão pessimista quanto outras obras recentes, como A Palavra que Resta (Companhia das Letras), de Stênio Gardel. O sofrimento é o denominador comum de muitos livros e filmes gays produzidos nesta década. Vivemos uma época mais tolerante com a diversidade no Brasil: a homofobia e a transfobia são crimes, o casamento entre pessoas do mesmo sexo é legal, não há uma epidemia como a da Aids em curso. Ainda assim, Piana e seus contemporâneos se ocupam mais da melancolia que da alegria. Tratam mais da rejeição – dos héteros pelos gays, dos gays pelos próprios gays – que do afeto.
Não à toa, ao anunciar a publicação brasileira de Maurice, romance do inglês E.M. Forster, a editora Ercolano o descreveu como “um dos primeiros grandes romances gays com final feliz”. O livro foi escrito há mais de cem anos, num tempo bastante diferente, mas ainda pode ser oferecido ao leitor brasileiro como um romance ousado por imaginar um desfecho diferente para histórias de amor entre homens.
A relação dos personagens com as mães reflete mais claramente a experiência pessoal do escritor. Eduardo, de Sismógrafo, tem uma mãe parecida com a de Piana: livre, namoradeira e incapaz de corresponder àquilo que um filho espera de uma mãe. Já Carlos, protagonista de Tarde no planeta, tem uma mãe diferente: uma intelectual de classe média que vive um casamento não monogâmico, mora confortavelmente na Serra da Mantiqueira e não tem problemas com a homossexualidade do filho. Ainda assim, ele a odeia, e fica ainda com mais raiva quando ela volta a escrever poesia, prática que tinha abandonado por causa da maternidade. Eles se desentendem, mas se apaziguam. Eduardo e Carlos encontram maneiras de amar as mães. Foi assim com Piana, também. “Os livros me ajudaram a conversar com a minha mãe. Eu já disse a ela que, mesmo quando não quero, acabo escrevendo sobre a nossa relação. Ela não reclamou, achou bom. Agora estamos bem.”
Piana está procurando uma escrivaninha maior. Sua atual mal comporta o notebook onde escreve. Ele trabalha de frente para um quadro de cortiça em que estão pregadas fotografias de amigos, notas fiscais do conserto do seu carro e uma receita médica com indicação para Minoxidil, medicamento que estimula o crescimento de pelos do corpo. Hoje ele mora sozinho num apartamento amplo em Pouso Alegre, cidade do Sul mineiro que fica a menos de duas horas de carro de Andradas. Ele se mudou para lá em 2024, depois de ser admitido no concurso da Câmara Municipal da cidade, onde hoje trabalha como analista de comunicação. Apesar do reconhecimento que colheu nos últimos anos, Piana não consegue viver só da escrita. Os livros lhe rendem outros ganhos. Este ano, ele visitou cidades turísticas como Fernando de Noronha, em Pernambuco, e Bonito, em Mato Grosso do Sul, para falar em feiras literárias.
“Eu sou muito desorganizado”, ele me disse, logo que começamos a viagem de Pouso Alegre para Andradas, no início de maio. “Escrevo em cadernos, no Word, no bloco de notas do celular, e às vezes esqueço onde guardei. Não estou conseguindo achar um trecho do novo romance, que escrevi dia desses. É um trecho importante, não posso perder. Estou angustiado por causa disso.”
Como muitos escritores, Piana se queixa de ter pouco tempo para trabalhar em seus livros. Além do serviço público, ele se ocupa de eventos literários – tem trinta compromissos marcados até novembro – e de escrever textos como freelancer. Recentemente, publicou um conto na revista do Sesc São Paulo. “Tenho me sentindo cansado”, ele disse. Decidiu reservar os raros finais de semana livres para escalar na Serra da Mantiqueira e visitar a família em Andradas, pois anda preocupado com a saúde do avô. Em feriados prolongados, costuma viajar com os amigos para cidades litorâneas. Sente saudades de São Paulo, mas gosta de estar longe de lá. “Não preciso sair na rua fazendo carão quando estou no interior.”
Piana colocou para tocar no carro uma playlist que fez especialmente para o Sismógrafo, com músicas que remetem à sua juventude. A certa altura, ouvimos a faixa These Days, da cantora alemã Nico. “Meu ex odiava essa música, porque dizia que eu só escutava quando estava triste”, disse Piana. “E era verdade.” Ele me perguntou se tudo bem colocar para tocar Piloto, de Flora Matos, pois a canção o fazia lembrar do geógrafo. Então ficou quieto, fitando a estrada. Perguntei se estava chorando. Ele se virou sorrindo, com os olhos um pouco vermelhos, e negou com a cabeça.
A avó tinha preparado um banquete para recebê-lo: pizza de atum, bolo de laranja, pães de queijo, gelatina. Piana comeu tudo com um pouco de ansiedade, pois queria sair de carro pela cidade para me mostrar os cenários que inspiraram o Sismógrafo. Perto das sete da noite, me disse, baixinho: “Vou pegar uma blusa e a gente sai.” Voltou segurando o casaco e deu um beijo de despedida na avó. Ao ver o neto se aproximar, o avô disse: “Senta aí um pouquinho, Léo. Assiste ao jornal comigo.” Piana pegou o celular para ver a hora e ameaçou dizer algo ao avô, mas ficou quieto e se sentou no sofá. A avó se acomodou do lado dele. A cachorrinha da casa, uma lulu-da-pomerânia branca, pulou no colo do escritor, se encolheu, e ele a acariciou até ela adormecer.
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* A família do fundador da piauí é acionista integrante do bloco de controle do Itaú Unibanco.