questões cinematográficas
Jul 2010 11h58
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Em dois sábados recentes, à noite, as sessões de “A jovem rainha Vitória” e “Brilho de uma paixão” estavam lotadas em cinemas da zona sul do Rio. Parece haver algum público, no Brasil, para produções como essas – filmes de época, situados na primeira metade do século XIX, com boas atrizes e bons atores, belas locações, além de fotografia, direção de arte e figurinos de qualidade.
O fato de o mercado brasileiro ser fim de linha para filmes de pouco sucesso no exterior não parece afetar em nada o espectador de elite, no Brasil, que paga 12 reais, em média, pelo lazer de fim de semana. Mesmo sem se traduzir em grande bilheteria, forma um público capaz de assegurar carreira mais digna do que a média que os filmes brasileiros tem conseguido obter.
Talvez não seja justo tratar “A jovem rainha Vitória” e “Brilho de uma paixão” como equivalentes, somente por serem de época, e a ação de ambos se passar no mesmo país em períodos próximos. Afinal, os dois filmes se diferenciam pelo custo de produção, mais de 35 milhões de dólares, no caso de “A jovem rainha Vitória”, e 8,5 milhões de dólares no de “Brilho de uma paixão”. Tendo rendido apenas 27,3 milhões de dólares, o fracasso do primeiro é muito maior que o do segundo, que rendeu 12,2 milhões de dólares.
Ao rasparem o fundo do tacho no Brasil, e em outros mercados secundários, não chegam a alterar de maneira significativa o resultado já obtido. De qualquer modo, o custo de produção de ambos é muito superior ao dos filmes brasileiros. Mas, com os mesmos 12 reais, o espectador pode comprar ingresso para ver o que custou 35 milhões, 8,5 milhões ou 4 milhões de dólares (um orçamento alto no Brasil) – opção inexistente em qualquer outro setor comercial. E que, mesmo sendo fator inconsciente, talvez explique em parte a preferência do público pelo produto importado.
“A jovem rainha Vitória”, depois de duas semanas em cartaz, parece ter mais potencial. Segundo dados do Boletim Filme B, foi visto por mais de 35 mil espectadores, em 38 salas, tendo queda de frequência de apenas 5% da primeira para a segunda semana, o que além de ser excepcional indica a possibilidade de uma carreira mais longa.
Nos 3 primeiros dias de exibição, “Brilho de uma paixão” foi visto por quase 15 mil espectadores em 29 salas. A média de mais de 500 espectadores por sala é superior à de “A jovem rainha Vitória”, mas será preciso esperar que complete as mesmas duas semanas em cartaz para que a comparação dos resultados faça sentido.
Mesmo estando longe de serem sucessos comerciais no mercado brasileiro, chama atenção o fato das duas produções terem algum público no Brasil. A realeza britânica parece preservar fascínio para setores do público, mesmo em filme inexpressivo.
Jane Campion, diretora de “Brilho de uma paixão”, por sua vez, fica a meio caminho de alguma coisa que poderia ter interesse. Mas só consegue comprovar quão inadequado o cinema pode ser para lidar com a poesia. Ainda mais para platéias que não entendam inglês, nem estejam habituadas a ouvir versos recitados.