questões ambientais

O TEMA QUE FALTOU NA CAMPANHA ELEITORAL

Leia reportagens da piauí sobre a crise climática e o meio ambiente, assuntos deixados em segundo plano pelos candidatos à Presidência
O que está claro é que Lula e Flávio Bolsonaro têm credenciais muito diferentes para enfrentar esse desafio - Crédito: Orlando K. Júnior_2021
O que está claro é que Lula e Flávio Bolsonaro têm credenciais muito diferentes para enfrentar esse desafio - Crédito: Orlando K. Júnior_2021

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Nesta eleição para presidente falou-se muito do Banco Master, dos ministros do STF e de corrupção, mas não se falou o bastante sobre meio ambiente e sobre a crise climática, que se agrava a cada ano. Quem sai perdendo com isso é o eleitor, que não pôde conhecer as propostas dos candidatos para lidar com esses temas que, apesar de ausentes durante a campanha eleitoral, vão afetar a vida de todos nos próximos quatro anos.

Ao próximo presidente caberá liderar o país no período final daquele que talvez seja o mais severo fenômeno El Niño de que se tem registro. Dentre os impactos esperados do chamado Super El Niño para o território brasileiro, estão mais tempestades e enchentes na região Sul, secas intensas nas regiões Norte e Nordeste e ondas de calor e chuvas irregulares no Sudeste e Centro-Oeste. O El Niño é um fenômeno periódico que ocorre desde antes da crise climática, mas que está mais intenso devido a ela.

Em setembro, a ONU reconheceu que, ainda nesta década – portanto, durante o próximo mandato presidencial –, a temperatura média do planeta alcançará o patamar de 1,5oC acima da era pré-industrial. Esse é considerado pelos cientistas do clima um limite crítico do qual depende o equilíbrio do planeta, tanto que evitá-lo era uma das principais metas do Acordo de Paris, assinado em 2015. A propósito, o ano de 2030 – no final do mandato do próximo presidente – é aquele para o qual foi estipulada a primeira rodada de compromissos dos países signatários do acordo.

Acabar com o desmatamento é a mais importante das metas voluntárias que o Brasil apresentou à ONU, porque a derrubada da floresta representa nossa contribuição mais importante para o aquecimento global. Tanto Lula (PT) quanto Flavio Bolsonaro (PL), que se enfrentam no segundo turno, prometem acabar com o desmatamento em seus programas de governo. Mas os dois candidatos trazem credenciais muito diferentes para enfrentar esse desafio, a julgar pelo desempenho do terceiro governo de Lula e do mandato de Jair Bolsonaro, em quem Flavio promete se espelhar caso chegue à Presidência.

Na semana passada, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) anunciou recordes históricos de queda no desmatamento tanto na Amazônia quanto no Cerrado. Na Amazônia, a redução foi de 42% em relação ao ano passado, e a queda acumulada nos últimos quatro anos foi de 71% em comparação com o mandato de Jair Bolsonaro. Já no Cerrado, o desmatamento caiu 24% em relação a 2025, e 48% em relação ao mandato anterior. Os números se explicam por políticas públicas que retomaram o plano de combate ao desmatamento, ignorado por Bolsonaro, e reforçaram a fiscalização ambiental, afrouxada durante o governo anterior.

A crise climática e as políticas ambientais foram ofuscadas na campanha eleitoral, mas são presença constante nas páginas da piauí. Convidamos os leitores a reler reportagens da revista dedicadas ao tema e publicadas nos últimos oito anos.

Para compreender os desafios e contradições que envolvem a Amazônia, a série Arrabalde, que investiga a história, os padrões de ocupação e a relação que o Brasil estabeleceu com a floresta, é leitura fundamental. O bioma é ainda essencial para a sustentação do agronegócio brasileiro, como conclui o estudo que mostrou que 80% da área coberta por lavouras e pastagens no Brasil depende das chuvas geradas pela floresta mantida de pé nas terras indígenas da Amazônia.

O desmatamento, no entanto, pode levar a floresta a atingir o ponto de não retorno, o patamar a partir do qual o bioma perde a capacidade de se regenerar e se transforma em outro tipo de vegetação. Estudos mostram que alguns trechos da floresta estão emitindo carbono para a atmosfera em vez de absorvê-lo, um sinal de que podemos estar mais próximos do que imaginávamos desse limiar perigoso. Se perdermos a floresta, as consequências podem ser catastróficas para o Brasil e para o mundo.

A política ambiental do governo Jair Bolsonaro foi objeto de uma série de reportagens. O meio ambiente como estorvo mostra como o Ministério do Meio Ambiente liderado por Ricardo Salles relaxou o combate ao crime ambiental; A guerra contra o termômetro relata as investidas de Bolsonaro contra o Inpe, responsável pelo monitoramento do desmatamento com satélites; O fabulador oculto investiga a trajetória e os métodos do ideólogo da política ambiental bolsonarista. Cientistas concluíram que, para a Amazônia, o governo Bolsonaro teve efeito comparável ao de um El Niño.

Quando Lula voltou ao Planalto, em 2023, uma reportagem documentou a sua tentativa de retomar as políticas de combate ao crime ambiental, um processo que ambientalistas caracterizaram como uma descupinização institucional. A piauí se debruçou também sobre as contradições ambientais do governo Lula, que defende o asfaltamento da BR-319, estrada que corta um trecho de floresta protegida na Amazônia, e a exploração de petróleo na Foz do Amazonas, mobilizando a máquina de publicidade da Petrobras para legitimar a atividade junto a comunidades que podem ser afetadas por ela. As contradições de Lula foram abordadas também numa reportagem publicada às vésperas da COP30, realizada em Belém no ano passado, e no áudio-documentário Os caminhos do mapa, realizado após a conferência.


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