questões cinematográficas

TROPA DE ELIPE 2 – FICÇÃO E REALIDADE

Nos últimos dias, a ocupação de comunidades no Rio põe em dúvida a premissa de “Tropa de Elite 2”. O enfrentamento com o tráfico seria um desmentido à tese de que “o inimigo agora é outro”?
Imagem Tropa de Elipe 2 – ficção e realidade

8 min de leitura

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

Ficção e realidade podem estar mais próximas do que as legendas iniciais de “Tropa de Elite 2” tentam insinuar. Essa é a frase que conclui o post de 5 de novembro.



Nos últimos dias, a ocupação de comunidades no Rio põe em dúvida a premissa de “Tropa de Elite 2”. O enfrentamento com o tráfico seria um desmentido à tese de que “o inimigo agora é outro”? Ou o filme anteciparia o que está por vir, dando aos acontecimentos da semana passada o sentido de serem a conclusão de uma etapa, e não o combate final de uma guerra – como vem sendo apresentados, de maneira geral, pela mídia?



Em outros termos: a ficção antecipou a realidade que está por se concretizar ou a realidade está desmentindo a ficção? 



Diante das ações criminosas iniciadas há uma semana que teriam sido ordenadas por traficantes presos, e do vulto da mobilização policial e militar para ocupar áreas dominadas pela criminalidade, a primeira impressão é ser difícil considerar que o tráfico “já era”. Ainda mais levando em conta o consenso de que os recursos humanos e a força policial do estado são insuficientes para ocupar todas as comunidades da cidade.



Até sexta-feira, porém, jornais e emissoras de televisão dominaram o noticiário tentando transformar a reação policial em um espetáculo que tivesse um vitorioso a curto prazo, omitindo referências às milícias – o novo inimigo indicado por “Tropa de Elite 2”.



Corroborando a tese do filme, na entrevista à “Carta Capital” citada no post de 5 de novembro, o deputado estadual Marcelo Freixo advertira, ainda em outubro, que “você tem que enfrentar  as milícias, por exemplo. Os líderes foram presos depois da CPI das Milícias, mas elas continuam crescendo territorialmente porque os seus  braços econômicos não foram cortados […]”.



Ainda assim, no início da semana, a imprensa ignorou não só essas declarações reais de Marcelo Freixo, mas também as advertências ficcionais do capitão Nascimento, devolvendo o papel de protagonista aos traficantes. Sem opositor bem definido, o jornalismo que procura se valer de recursos narrativos e situações dramáticas não consegue transformar policiais em heróis. 



A primeira voz dissonante de que tive notícia foi a de Luiz Eduardo Soares em seu blog, na quinta-feira à noite (25/11). Por razões que explica no post, ele tem recusado entrevistas mas foi claro ao ratificar a tese de “Tropa de Elite 2”: “o tráfico, no modelo que se firmou no Rio, é uma realidade em franco declínio e tende a se eclipsar, derrotado por sua irracionalidade econômica e sua incompatibilidade com as dinâmicas políticas e sociais predominantes, em nosso horizonte histórico. Incapaz, inclusive, de competir com as milícias, cuja competência está na disposição de não se prender, exclusivamente, a um único nicho de mercado, comercializando apenas drogas – mas as incluindo em sua carteira de negócios, quando conveniente. O modelo do tráfico armado, sustentado em domínio territorial, é atrasado, pesado, anti-econômico: custa muito caro manter um exército, recrutar neófitos, armá-los (nada disso é necessário às milícias, posto que seus membros são policiais), mantê-los unidos e disciplinados, enfrentando revezes de todo tipo e ataques por todos os lados, vendo-se forçados a dividir ganhos com a banda podre da polícia (que atua nas milícias) e, eventualmente, com os líderes e aliados da facção. É excessivamente custoso impor-se sobre um território e uma população, sobretudo na medida que os jovens mais vulneráveis ao recrutamento comecem a vislumbrar e encontrar alternativas. Não só o velho modelo é caro, como pode ser substituído com vantagens por outro muito mais rentável e menos arriscado, adotado nos países democráticos mais avançados: a venda por  ou em dinâmica varejista nômade, clandestina, discreta, desarmada e pacífica. Em outras palavras, é melhor, mais fácil e lucrativo praticar o negócio das drogas ilícitas como se fosse contrabando ou pirataria do que fazer a guerra. Convenhamos, também é muito menos danoso para a sociedade, por óbvio.”



Sem ter pedido licença, reproduzo ainda o que Luiz Eduardo Soares escreveu sobre a mídia:



“Discutindo a crise, a mídia reproduz o mito da polaridade polícia versus tráfico, perdendo o foco, ignorando o decisivo: como, quem, em que termos e por que meios se fará a reforma radical das polícias, no Rio, para que estas deixem de ser incubadoras de milícias, máfias, tráfico de armas e drogas, crime violento, brutalidade, corrupção? Como se refundarão as instituições policiais para que os bons profissionais sejam, afinal, valorizados e qualificados? Como serão transformadas as polícias, para que deixem de ser reativas, ingovernáveis, ineficientes na prevenção e na investigação?”



Lidando com a realidade, Luiz Eduardo Soares não adere à tese do capitão Nascimento de que é preciso acabar com a Polícia Militar. Aceitável na ficção, a postura apocalíptica do personagem parece não resistir ao confronto com os fatos da vida real, por mais que ideias de Luiz Eduardo Soares estejam na própria origem dos dois “Tropa de Elite”.



Sexta-feira, o professor e sociólogo Claudio Beato,  escreveu na “Folha de S.Paulo” que “estamos assistindo os estertores” do período marcado pela “intensa competição entre grupos, com uso maciço de armas de fogo e a introdução crescente de mecanismos de corrupção” e “amplo domínio territorial desses grupos”. Sintonizado com Luiz Eduardo Soares, Claudio Beato parece concordar que o inimigo agora é outro –  tese do capitão Nascimento: “os protagonistas centrais” passaram a ser “as milícias, para quem o espetáculo exuberante da etapa anterior não é mais funcional para os negócios.”



Em entrevista ao “Estado de S.Paulo”, no domingo, Claudio Beato acrescenta: “As milícias são praticamente invisíveis. Não ganham os jornais com espetáculos de violência, como os do tráfico. […] há uma penetração institucional acentuada e uma conivência muito grande por parte das polícias e do próprio poder público, que acham que a milícia pode ser uma solução, quando são parte do problema.”



Sempre atenta, Miriam Leitão cita o blog de Luiz Eduardo Soares, no “Globo” de sábado, e completa:



“Essa guerra é complexa. Não tem só dois lados: mocinhos e bandidos. […] O apoio ao poder público e à presença do Exército neste momento não pode ser ingênuo nem simplificar o que é complexo. Esquecer pontos como o das milícias. Do contrário, os fatos de hoje serão apenas um traço na história como a operação do Exército há 16 anos”, referindo-se à ocupação de favelas por 600 soldados do Exército em 1994.



Arnaldo Bloch, por sua vez, também no “Globo” de sábado, considera que diante dos últimos acontecimentos a frase do capitão Nascimento – “O tráfico já era” – teria se tornado “tragicômica”. E lembra que Luiz Eduardo Soares a repetiu em entrevista publicada no início de outubro. A realidade, nessa perspectiva, estaria desmentindo a ficção – o inimigo continuaria a ser o mesmo.



Para Arnaldo Bloch, “mesmo quando a polícia controlar esta onda que ora nos afronta, mesmo que as facções se recolham, ou percam armas e homens, o problema não muda: os traficantes têm o ouro, e ouro muda de mão. Um negócio tão lucrativo com reserva de mercado não vai parar de funcionar. […] As milícias podem ser o bicho. Mas dizer que o tráfico “já era”, no cinema ou em entrevista, é cutucar o inferno e ouvir a resposta: ‘Já era, não. Já é.’”



‘Tropa de Elite 2” teria, assim, ignorado questão  central controversa e, talvez, de menor apelo comercial. Nas palavras de Arnaldo Bloch, “enquanto a produção, venda e consumo [ de drogas ] forem proibidos, não só a violência, como a presença do crime organizado em todas as esferas irá perdurar. […] Das duas uma: ou se passa o resto da existência numa guerra sem fim, destinada a fracassar; ou se parte (se é que já não se está partindo) para a regulamentação da produção e do uso das substâncias.” Visão compartilhada por Luiz Eduardo Soares, comenta Arnaldo Bloch – o único a manifestá-la, até onde sei. 



Transitar entre ficção e realidade sem cair em armadilhas exige perícia. Resta por definir se “Tropa de Elite 2” está sendo desmentido pelos fatos, ou se é mesmo um filme antecipatório. 



Nada menos cinematográfico do que as transmissões ao vivo que ocuparam as televisões durante o fim de semana. Há um abismo entre a encenação ficcional de “Tropa de Elite 2” e o que o jornalismo televisivo é capaz de mostrar. Mas as duas versões têm ambição de serem um espetáculo. O filme dirigido por José Padilha já demonstrou sua competência nesse aspecto. As imagens transmitidas pela tevê, porém, nada tendo de espetacular, servem para comprovar a distância entre realidade e  encenação, com a qual jornalistas parecem não se conformar. Os cinegrafistas estão sempre longe da ação. Mal se ouvem tiroteios ao longe. Os policiais do Bope caminham tranquilamente no território ocupado. Tudo acontece fora de campo, longe do olhar do espectador. É um verdadeiro anti-espetáculo – para compensar, autoridades e especialistas são entrevistados; integrantes do Bope dão declarações depois de efetuarem prisões; apresentadores e repórteres falam sem parar; repetem-se à exaustão, caindo sistematicamente nos mais surrados lugares comuns; exaltados, beiram muitas vezes à histeria.



No “Estado de S.Paulo” de ontem (28/11), José Padilha publica artigo em que define três filmes que dirigiu – “Ônibus 174, “Tropa de Elite” e “Tropa de Elite 2” – como “uma tentativa de enunciar o problema da segurança pública do Rio de Janeiro a partir da premissa de que a violência carioca resulta, em grande parte, da atuação direta de instituições públicas que convertem miséria em violência.” Entre os fatores responsáveis pela violência urbana, ele diz acreditar que “o mais importante […] seja o efeito perverso que certas organizações administradas pelo Estado têm sobre parte da população.”



“Tropa de Elite 2” foi feito, segundo José Padilha, “para tentar dizer por que o Estado funciona assim” – projeto ambicioso de recuperar a força da ficção. Caso raro de filme brasileiro que procura dialogar com a realidade imediata do seu tempo. O preço a pagar, em nome do sucesso comercial, talvez tenha sido simplificar a questão em pauta.


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.