02 Jun 2026
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Em 1997, as Meninas Cantoras de Petrópolis participaram de uma edição especial do programa de tevê Planeta Xuxa, que celebrou ao mesmo tempo o Natal e a gravidez da apresentadora. No palco, o coral abriu espaço para a passagem do pai do momento, o ator Luciano Szafir. O coral era formado por garotas na faixa de 9 a 15 anos, vestidas como bonecas vivas: sapatinhos pretos de verniz, meias brancas até os joelhos, vestidos de veludo azul-marinho, camisa clara de mangas longas e gola abotoada no pescoço, às vezes com um lacinho, outras com um enorme crucifixo.
No auge da fama, as meninas cantoras frequentavam programas de tevê, de A Praça é Nossa ao Fantástico, gravaram com músicos como Ivan Lins e Simone, faziam apresentações por todo o país. O produtor George Martin, que trabalhou com os Beatles, disse que as meninas se apresentavam “como se fossem anjos”.
“Era um mundo mágico”, lembra Aline Barino, integrante do coral. As meninas usufruíam de uma liberdade que não tinham em casa. Recebiam autorização – dos pais e da escola – para faltar às aulas e encantar as multidões pelo país.
As vagas para integrar o grupo (entre 30 e 40, a depender da temporada) se tornaram cobiçadas e invejadas em Petrópolis, cidade na Região Serrana do estado do Rio. A escolha das integrantes estava concentrada nas mãos do maestro e professor Marco Aurélio Xavier, que fundou o grupo em 1976, quando tinha 24 anos, num colégio católico da cidade – hoje, ele tem 74. Era um coral só para meninas, segundo o maestro, “porque em 2 mil anos as mulheres foram proibidas de cantar”.
Em meio à disciplina rígida dos ensaios, havia situações dolorosas, conta Cristina Fibe, na edição deste mês da piauí. As meninas eram alvos de cobranças semelhantes à de treinadores esportivos e professores de balé perfeccionistas que colocam pressão excessiva sobre seus discípulos, mesmo quando eles ainda não têm idade para lidar bem com elas. Mas há casos mais graves, que incluem assédio moral e abuso sexual.
A piauí ouviu dezessete mulheres, hoje entre 24 e 60 anos, que participaram do coral. Todas contaram suas histórias pela primeira vez, sempre em entrevistas gravadas, feitas de forma presencial ou por vídeo.
No decálogo disciplinar do maestro, as meninas estavam proibidas de se aproximar das celebridades que encontravam nos camarins de teatros e emissoras de tevê. Certa vez, elas estavam fazendo um ensaio longo antes de gravar um CD e Xavier as proibiu de se sentarem por cerca de quatro horas. Exausta, uma delas fingiu que estava coçando a perna ou amarrando o tênis apenas para poder dobrar um pouco os joelhos. O mestre se irritou. “Ele me pegou pelo ombro e me jogou no chão”, conta a integrante. As meninas tinham medo até de pedir para ir ao banheiro. Algumas delas chegavam a molhar a própria roupa. “Era melhor passar vergonha em público do que enfrentar o maestro e dizer que precisava fazer xixi”, recorda Barino.
Outra integrante que participou do grupo entre meados dos anos 1990 e o início dos 2000 revela que o maestro, ao levá-la para casa, parava antes o carro em alguma rua escura e abusava dela sexualmente, quando a garota ainda não havia completado 14 anos. “Pegação, mesmo, assim, sério”, descreve.
A troca de carinhos do maestro com as meninas era uma constante, e a disputa pela atenção do mestre, conhecido pelas oscilações de humor e pelos gritos, virava uma forma de garantir o lugar especial e um modo de ser mais bem tratada. Nas viagens de ônibus, algumas que não conseguiam o privilégio de se sentar ao lado de Xavier ou em seu colo ficavam à sua volta, fazendo cafuné na cabeça do maestro.
Foi em um desses passeios que Carla Magno, hoje escritora e jornalista, começou a desconfiar de que havia alguma coisa fora da ordem naquele coral. “A primeira vez que tomei consciência de que algo estranho tinha acontecido comigo foi quando, numa dessas viagens, fui escolhida para me sentar ao lado dele”, disse ela. Carla tinha entre 12 e 13 anos. “Durante a noite, ele pegou a minha mão e botou em cima do pênis dele. Eu nunca tinha encostado num pênis, evidentemente. Eu era uma criança.”
Hoje aposentado, Xavier segue vivendo em Petrópolis. A piauí o procurou por telefone no dia 28 de abril. Ele atendeu de forma solícita. Em uma mensagem posterior, que detalhou que a reportagem trataria de acusações feitas por ex-coralistas, ele respondeu que daria entrevista no dia seguinte. Em vez disso, bloqueou o contato no Instagram e no WhatsApp.
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