autos da denúncia

JUSTIÇA PROÍBE MAESTRO DE SE APROXIMAR DE EX-CORALISTAS DO MENINAS CANTORAS DE PETRÓPOLIS

Investigado pelas acusações de abusos no coral, Marco Aurélio Xavier também foi proibido de se manifestar publicamente sobre o caso
Crédito: Vito Quintans
Crédito: Vito Quintans

6 min de leitura

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

O maestro Marco Aurélio Xavier, fundador do coral Meninas Cantoras de Petrópolis, está proibido de se manifestar publicamente sobre as denúncias contra ele e de se aproximar ou tentar contato com algumas das vítimas, familiares delas e testemunhas. A decisão foi tomada nesta terça-feira (25) pelo juiz Rubens Soares Sá Viana Junior, da Comarca de Petrópolis, que atendeu a um pedido da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro. O requerimento é baseado em duas reportagens da piauí, publicadas em 2 de junho e 10 de agosto, em que dezenas de mulheres relatam ter sofrido abusos psicológicos, morais e sexuais de Xavier quando faziam parte do coral. Todas eram menores de idade na época dos acontecimentos.

O coral, que existiu entre 1976 e 2016, era composto por meninas com idades entre 5 e 15 anos. Foi fundado por Xavier em uma escola católica de Petrópolis, e em pouco tempo alcançou fama nacional. As meninas, sempre acompanhadas do maestro, viajavam o país fazendo apresentações em programas de tevê, cantando em shows e gravando discos em estúdio, junto de artistas como Simone, Xuxa, Raul Gil e George Martin, o famoso produtor dos Beatles.

Mas, por trás da fama e do prestígio, a rotina era de abusos sistemáticos, conforme ex-integrantes do coral relataram à piauí. Segundo elas, o maestro as violentava cotidianamente, durante viagens de ônibus, pernoites em hoteis e mesmo nas duas escolas que abrigaram o grupo, antes de ele se mudar para uma sede própria, em 2000. Os relatos incluem casos de assédio sexual e estupro de vulnerável.

Procurado pela piauí em diferentes momentos, o maestro não quis dar entrevista. Depois que a primeira reportagem foi publicada, em junho, ele gravou um vídeo afirmando ser “imensamente pior” do que relatavam as vítimas. “Tem uma revistinha aí, uma repórter, sabe, que juntou umas testemunhas e falaram tudo de mau contra mim. Perderam tempo, porque, se tivessem me entrevistado, eu sou imensamente pior do que escreveram. Eu teria maiores barbaridades para falar sobre mim. Afinal, meus grandes mestres foram nazi... nazistas. Fica a dica.”

O vídeo, publicado por Xavier no dia 24 de junho, foi apagado horas depois, mas já tinha sido reproduzido por sites de notícias e perfis de Instagram. Com base na gravação, a Polícia Civil abriu um inquérito para apurar as acusações contra o maestro. A investigação, segundo o Ministério Público, “abrange as denúncias veiculadas na reportagem e também o vídeo com as declarações do investigado”.

Para a Defensoria Pública, Xavier praticou, por meio do vídeo, violência psicológica e intimidação moral, com apologia expressa ao nazismo, “atos contemporâneos e atuais que produzem sofrimento renovado e risco iminente às vítimas”. No documento apresentado à Comarca de Petrópolis, as defensoras argumentam que essas e outras mensagens virtuais são ao mesmo tempo confissões públicas e afrontas à dignidade das ex-integrantes do coral. O documento foi elaborado em conjunto pelo Núcleo de Defesa dos Direitos da Mulher e de Vítimas de Violência de Gênero (Nudem), pela Coordenadoria de Defesa dos Direitos da Mulher (Comulher) e pela Coordenadoria de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (Cdedica).

O juiz Sá Viana Junior concordou com o pedido, proibindo Xavier de se manifestar publicamente sobre o caso enquanto a investigação estiver em andamento. Ele está impedido de comentar as denúncias por qualquer meio de difusão, inclusive a imprensa, sob pena de ser multado em 50 mil reais e preso preventivamente. Também não pode fazer contato com as quatro vítimas citadas na petição, assim como seus familiares e testemunhas, e deve manter uma distância mínima de 500 metros de todas essas pessoas. A pena em caso de descumprimento é de 5 mil reais. A decisão, além disso, obriga Xavier a excluir do Facebook fotos dessas quatro vítimas que apareçam na página dedicada ao coral. O juiz, porém, determinou que a Meta preserve os dados da página, para não apagar eventuais provas.

Em nota enviada à piauí, a Defensoria Pública do Rio de Janeiro afirmou que a decisão foi “uma relevante vitória judicial em favor das ex-integrantes do coral”. Para a defensora Thaís dos Santos Lima, coordenadora do Nudem, trata-se de “um passo importante na luta dessas mulheres”. Lima ressalta que as proibições são fundamentais para a garantia da integridade física e psíquica das vítimas. Diz também que a defensoria segue acompanhando o caso, para garantir o direito das vítimas de serem informadas sobre o inquérito. Além disso, abriu um procedimento para apurar se os órgãos públicos de Petrópolis têm políticas eficazes para prevenir a violência contra crianças e adolescentes.

Marco Aurélio Xavier, no vídeo publicado e depois apagado -- Crédito: Reprodução

Depois que a primeira reportagem da piauí foi publicada, em junho, outras dezenas de mulheres procuraram a revista pedindo para serem ouvidas. Até agora, conversei com 42 delas. Algumas disseram sobre o maestro: “Ele é ainda pior do que está no texto.” Parte delas, entrevistadas ou não pela reportagem, publicaram relatos em suas redes sociais. 

Quinze ex-alunas do coral, todas fontes da primeira reportagem da piauí sobre o caso, se organizaram para formar o Coletivo das Meninas Cantoras de Petrópolis. O objetivo do grupo é buscar reparação jurídica, acompanhar os desdobramentos legais, responder a demandas da imprensa e acolher outras cantoras e eventuais testemunhas que queiram contribuir com informações, pelo e-mail coletivomcp@gmail.com. Não é uma lista anônima – cada denunciante registra seus dados no formulário –, mas é possível pedir sigilo. 

A advogada que acompanha o grupo, Thais Justen, diz que o grande obstáculo para a punição de Xavier por abuso sexual é a prescrição dos crimes, pelo longo tempo transcorrido – no caso de estupro de vulnerável, por exemplo, a vítima tem vinte anos para denunciar o que sofreu. Mas, se o acusado passa dos 70 anos de idade, caso do maestro, esse prazo cai pela metade, dez anos (essa regra mudou em 2025, vedando a redução da prescrição, mas esse novo entendimento não pode ser aplicado de forma retroativa e, portanto, não impacta o caso). A partir de 2012, com a aprovação da Lei Joanna Maranhão, o cálculo passou a ser feito a partir do momento em que a vítima completa 18 anos. 

Neste momento, Justen busca escutar outras vítimas e identificar casos em que a violência ainda não tenha sido alcançada pela prescrição, para superar o que chama de “lacuna” na lei. “Isso não significa que os relatos das mulheres cujos casos estejam prescritos sejam juridicamente irrelevantes. Ao contrário, eles podem desempenhar papel fundamental para demonstrar a existência de um padrão reiterado de violência, a habitualidade das condutas e a identificação de outras vítimas cujos casos ainda permitam responsabilização criminal.”

A advogada analisa ainda a possibilidade de enquadramento de parte das condutas de Xavier no crime de tortura; a responsabilização do maestro na esfera cível, por meio de ações de reparação por danos morais; e a responsabilização também na esfera trabalhista, pela exploração do trabalho das meninas, que nunca foram remuneradas pelas apresentações nem pelos discos gravados. Segundo Justen, a reparação é possível se houver “elementos que demonstrem que terceiros obtiveram proveito econômico da atividade desempenhada pelas integrantes do coral sem a correspondente remuneração”.


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.


Jornalista e escritora, é especializada na cobertura de violência contra meninas e mulheres. É roteirista e narradora da audiossérie Silenciadas, produzida pela Audible em parceria com a piauí. Publicou João de Deus: o abuso da fé (Globo Livros).