festival piauí de jornalismo

PERGUNTAR NUNCA FOI TÃO DIFÍCIL

Manisha Pande, diretora editorial do Newslaundry, da Índia, analisa atmosfera jornalística do país sob governo de Narendra Modi
Foto: Durval Litoldo
Foto: Durval Litoldo

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Diretora editorial do site Newslaundry, da Índia, Manisha Pande costuma fazer um exercício com jovens jornalistas do país. Ela os reúne para mostrar o que são entrevistas coletivas. “Digo a eles: ‘olha como era antigamente. Nós fazíamos perguntas. Indagar pessoas que estão no poder é uma tarefa básica e não deve ser algo extraordinário. Mas isso mudou nos últimos doze anos.’” 

A mudança no modo de fazer jornalismo na Índia coincide com a chegada de Narendra Modi ao poder, eleito primeiro-ministro em 2014. Desde então, afirma Pande, o político não concedeu mais nenhuma entrevista coletiva. Suas declarações ocorrem nas redes sociais ou em entrevistas para artistas. “Perguntam a ele ‘como o senhor gosta de comer sua manga?’ ‘O senhor tem um melhor amigo?’. A minha tarefa no Newslaundry é mostrar que isso não é jornalismo’”, disse Pande.

Manisha Pande  foi entrevistada neste sábado (05) pelo repórter da piauí Danilo Marques e pela jornalista da Folha de S.Paulo Patrícia Campos Mello, no Festival piauí de Jornalismo. O evento, que chegou a sua décima edição, acontece na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, com o tema No olho do furacão – diretores de redação em tempos de tormenta. Com programação também neste domingo (6), o festival reúne oito jornalistas de sete países, que falarão sobre a experiência de comandar veículos importantes em momentos conturbados.

Pande afirma que o jornalismo indiano foi esvaziado nos últimos doze anos. Ela diz que a repressão não ocorre de forma “dramática”, mas a partir do controle de narrativas. “Essa é a atmosfera que nós temos que trabalhar. Quando se fala em repressão, as pessoas normalmente imaginam militares e tanques nas ruas. Mas a verdade é que ainda existem muitos jornais na Índia. O problema é que estão todos alinhados ao governo.” A aquisição, no final de 2022, do canal New Delhi Television, pelo magnata Gautam Adani, próximo de Narendra Modi, sinalizou o fim do pluralismo na grande mídia.

Na tevê, segundo Pande, a narrativa acerca do país é quase uníssona e se organiza sob três mantras: que Modi é a melhor coisa que já aconteceu na Índia; que a oposição é controlada pelo Paquistão ou pela Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos; e que os muçulmanos são inimigos do povo. 

Pande afirma que a tarefa do Newslaundry é desmontar essas narrativas. Além das reportagens, ela apresenta um quadro, a TV Newsance (um trocadilho sonoro com nuisance, algo como chato e estorvo em português), exibido no YouTube e direcionado à crítica de mídia do país. Os programas misturam notícia e sátira. “O humor virou ferramenta para trazer leveza e não parecer um sermão”, explica. “Mas o que está acontecendo é tão louco que eu não preciso nem pensar em piadas.”

A Índia ocupa a 157ª posição, de 180, no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa. Em 2015, Pande e o colega Sandeep Pai utilizaram a Right To Information Act (RTI) –  mecanismo semelhante à Lei de Acesso à Informação (LAI) no Brasil – para obter documentos que denunciavam transações corruptas entre políticos que utilizavam empresas estatais para lucrar com negócios privados. A série com cinco reportagens recebeu o prêmio Rammath Goenka no ano seguinte. Pande acha que seria difícil reproduzir essa apuração atualmente. “Essa lei praticamente morreu. Mas a gente precisa continuar, temos que vencer as autoridades nem que seja pelo cansaço.” 


Desde maio deste ano, a Índia viu emergir o Cockroach Janta Party, o CJP (Partido Popular Barata, em português). A sigla, satirizando o partido de Modi, engajou jovens indianos insatisfeitos com a educação e o desemprego no país. Inicialmente impulsionada no Instagram, a mobilização ganhou tração nas ruas e foi reprimida com violência pelas forças de segurança. Apesar de buscarem repercussão, os jovens manifestantes recusaram a cobertura da imprensa hegemônica. “Eles não queriam a mídia tradicional, pois sabiam que as reivindicações seriam desvirtuadas. O Newslaundry foi bem recebido, mas as tevês foram expulsas”,  afirmou Pande. 

Ela acredita que a juventude indiana está cansada do discurso do governo na mídia e quer um jornalismo mais plural. Essa confiança em novos meios de comunicação tem feito com que o site se mantenha apenas por assinaturas, sem anúncios ou dinheiro estatal. “Queríamos fugir dos anunciantes. Nos chamaram de loucos. Há doze anos não existia essa tradição de pagar por notícias. Felizmente, conseguimos construir uma base fiel de assinantes que apoia nossos projetos.”

“As pessoas estão ansiosas para que seu ponto de vista seja contestado. E, para mim, se eu conseguir atravessar o pensamento ideológico e superar a polarização ajudando a ver os fatos mais claros, isso é sucesso”, complementou Pande.

Além dela, participaram do Festival piauí de Jornalismo outros sete jornalistas de diferentes países que contaram suas experiências comandando veículos em momentos incandescentes. Entre eles, Dean Baquet, que chefiou o The New York Times entre 2014 e 2022; Musikilu Mojeed, editor-chefe do jornal nigeriano Premium Times; e Jeffrey Goldberg, diretor de redação da revista The Atlantic. Confira aqui a lista completa.


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